Não há vermelho na sua paleta

Capítulo 3: Frip, frip, rasp

Frip, frip, rasp.

É madrugada quando ele ouve aquele som pela primeira vez. Sasuke não conseguiu dormir ou comer depois de tudo, mas quando acorda sobressaltado supõe que havia cochilado por alguns minutos, pelo menos. E duvida, honestamente, de que poderá voltar a dormir com esse som estranho que domina seus sentidos: frip, frip, rasp.

Vêm da sua esquerda.

O Uchiha congela, um sentimento obscuro se instala e antecipa um pânico crescente com a sensação familiar de que já havia ouvido aquilo antes.

Outra vez: frip, frip, rasp.

Seus olhos se arregalaram precipitadamente ao reconhecê-lo.

O som de casca de maçã sendo cortada.

Era exatamente como Sakura fazia. Três cortes seguidos antes de uma pequena pausa, o último sempre mais rápido e abrupto. Frip, frip, rasp.

Vêm exatamente de onde ela estava naquela manhã. Tão claro e audível que não pode ser sua imaginação.

Mas não há nada nem ninguém naquele quarto além de Naruto, e mesmo ele é apenas um calombo mergulhado nos cobertores. Sasuke nem tem certeza se o Uzumaki está dormindo assim.

Frip, frip, rasp.

O Uchiha leva as mãos aos ouvidos, abafando o som com tanta força que doía.

Por um momento, duvidou da sua sanidade.

As últimas horas haviam sido uma batalha cruel contra as imagens que tentavam preencher seus pensamentos. Sasuke contou as rachaduras na alvenaria do quarto, numa busca desesperada para ocupar sua mente com algo lógico, racional e não emocional.

Há 186 delas espalhadas entre o teto, paredes e chão.

E isso foi o máximo que ele conseguiu para impedir que as memórias misturadas com a devastação do tsukuyomi de Itachi, vendo a morte de seu clã repetidas vezes, e o que havia feito com Sakura, voltassem a ele forçadamente.

Mesmo à noite, as luzes do hospital não são completamente apagadas e tudo ainda é muito iluminado. Ele analisa os ferimentos em seu braço, no pulso e no antebraço, arranhado em linhas verticais profundas. Sasuke não se lembra exatamente do momento que os machucados surgiram, mas sabe que foi pela pressa, desespero e enganação de limpar um sangue que não estava mais ali há muito tempo.

Mesmo agora, Sasuke podia quase sentir sua viscosidade, temperatura e o que ele significava.

Frip, frip, rasp.

Ele olha novamente para o local de onde o som parece vir. Novamente, não há nada. Pelo menos nada visível. Ele sente um impulso de verificar com o sharingan, só por precaução, mas as pulseiras suprimem qualquer catalisação de energia. Sasuke se deita de volta na cama, jogando o travesseiro sobre a cabeça, abafando o mundo ao seu redor.

Pela primeira vez, ele pensa intencionalmente em Sakura.

E o barulho desaparece.

Durante todo o dia, Sasuke apenas afastou sua imagem, sua voz e qualquer mínima lembrança com um esforço doloroso.

Quando enfim ele se permite pensar nela, uma parte dele o lembra que é tão egoísta prendê-la em seus pensamentos. Ele não tem esse direito, de todas as pessoas. Mas esse é o único lugar onde Sakura ainda está viva e Sasuke se afugenta para essas memórias, pois ele não quer lembrar daquela outra Sakura ou da sensação das suas digitais sendo desgarradas de sua palma tão abruptamente pelos jonins.

Sasuke sente o mundo encolher e ele mesmo se encolhe, pressionando o travesseiro contra si mesmo com mais força. Em anos, é a primeira vez que ele não pensa em sua vingança, em ficar mais forte ou qualquer coisa assim, aquele sentimento que sempre o consumia como um parasita corroendo sua carne. Ele deixa a vingança em um plano diferente e é estranho, pois seus últimos seis anos de vida foram dedicados exclusivamente a ela.

E olhe o que você conseguiu com isso.

Sasuke não consegue sentir ódio por ninguém além de si mesmo. Ele não pensa em Itachi por tê-lo transformado nisso. Não culpa Naruto por ceder às suas provocações.

É apenas… é como se ele estivesse perdendo desde o dia que nasceu. Perdendo todo mundo, um a um.

O sorriso de Sakura lhe vem à mente, apesar de tudo, como se mesmo após sua morte sua presença tentasse confortá-lo.

Ela sempre sorria assim: fechando os olhos, o rosto levemente vermelho. Despreocupada, gentil, doce e amável. Não havia ninguém com suas qualidades no time sete. Sakura era um mundo diferente, intocado pela dor. Era admirável observá-la e ver como as coisas tinham encanto em seus olhos. Como sua perspectiva sobre o mundo era tão mais branda e inocente.

E pensar que Sasuke achava isso tão irritante e até absurdo no começo. Como ela poderia não saber como o mundo era sujo e amaldiçoado?

Então, ele pensa em como a levou ao inferno nos últimos meses. Preocupando-a doentiamente sobre a marca da maldição, exigindo um profundo segredo que a consumia, afastando-se a cada vez que percebia como seus companheiros de equipe eram preciosos, tão centrado em seus demônios internos.

Por que ele não foi capaz de dar momentos de paz a ela?

Me perdoe, Sasuke pensa silenciosamente. Eu fiz tudo errado.

Agora que Sakura não estava mais ali, o que ele ia fazer com essa coisa inominada que estava engarrafada dentro do seu coração?

Repentinamente, apertando o travesseiro sobre a cabeça, Sasuke quer chorar. Ele não chorava há muito, muito tempo. Ele prende os lábios e segura o bolo na garganta. Sasuke não sabe se é o arrependimento, a consciência, a culpa ou o coração despedaçado que o empurra para a beirada, mas ele contém sua tristeza e não deixa sair.

Ele passa alguns minutos assim, sua cabeça agora dói em ondas firmes. Ele retira o travesseiro do rosto e encara o teto do hospital. Frip, frip, rasp. O som volta quase imediatamente.

Naruto começa a resmungar na cama ao seu lado. Não é possível entender imediatamente o que ele diz. Sasuke tem certeza que não se dirige a ele e fica em silêncio enquanto sua voz fica mais audível, mais clara e suas palavras ganham sentido:

— Cala a boca, cala a boca — ele implora, baixinho. E então o volume de sua voz sobe devagar: — Cala a merda da boca! CALA A PORRA DESSA BOCA!

O Uchiha se sobressalta com o grito. Seu instinto o coloca num pulo ao lado da cama do Uzumaki. Ele sente o suor descendo por sua têmpora ao se aproximar. Depois de tudo, eles ainda não haviam se falado, trocando nada além de olhares significativos que supostamente substituam as palavras.

Quando Sasuke puxa os cobertores para verificar o Uzumaki, Naruto está tremendo, suado e com o rosto tomado por uma careta de dor. Seus olhos estão tão inchados que há bolsas sob eles.

Sasuke hesita por duas vezes antes de tocá-lo no ombro.

Frip, frip, rasp.

— Naruto. — O Uzumaki o ignora, socando a própria cabeça desesperadamente. Sasuke não tem ideia do que fazer. Segura-o nos pulsos, lutando contra sua força que parecia sobre humana e o vira para si. Sua única maneira de trazê-lo de volta à realidade é estapeando seu rosto em um único golpe quando ele não se controla. — Naruto!

Como se uma alavanca fosse puxada, Naruto aos poucos volta a si, devagar e sôfrego. O Uchiha nota o medo em cada mínimo movimento. Medo de si mesmo, Sasuke percebe.

Seus lábios tremem e Sasuke desvia os olhos das lágrimas se formando em suas íris azuis. Ver Naruto assim é... algo que ele não pode encarar ainda.

— Ela não queria calar a boca — o Uzumaki diz brandamente, após muitos minutos de silêncio. Sua voz sem o fundo estridente alegre era estranho de se ouvir.

— Ela quem? — Sasuke pergunta, as sobrancelhas franzidas.

Ela.

Naruto observa as pulseiras de supressão antes de olhar para Sasuke. Em silêncio, ele exibe o selo da raposa ativo apesar das pulseiras, uma tinta negra que Sasuke nunca viu antes num símbolo desconhecido de algum fuuinjutsu avançado.

— Não é surpresa você não saber — o Uzumaki dá de ombros, minimamente. — Eles também não me contaram por um bom tempo.

— O que está selado aí?

— As pessoas chamam de Kyuubi. Aquela raposa, o monstro que atacou Konoha. — Naruto faz uma careta, perdido em suas memórias. — E ela não para de rir desde aquela hora.

Frip, frip, rasp.


O plano de abordagem do Quarteto do Som havia dado terrivelmente errado naquele dia. Eles decidem esperar até o fim da madrugada na esperança de uma brecha para se aproximarem de Sasuke, mas ela simplesmente nunca aconteceu.

— Acho que Orochimaru-sama não contava com isso — Tayuya diz, escondida junto aos seus outros três companheiros em árvores próximas do hospital. Quatro, ela corrige-se, se considerassem Sakon e Ukon como uma entidade separada. — Os jonins da vila estão em alerta. E somos cartas marcadas desde o ataque ao Terceiro. Não dá para ficar mais tempo.

— Que caralho — Kidoumaru, o sensor do grupo, cuspiu irritado. — Foi difícil chegarmos aqui despercebidos.

— Nos aproximarmos do alvo agora é arriscado. É melhor abortar e entregarmos a mensagem em outro momento — Ukon, um dos gêmeos, relutantemente assume. Esse não era o momento ideal para espancar Uchiha Sasuke e fazer promessas de poder. Não quando todo o corpo jonin tinha olhos sobre ele.

— Orochimaru-sama não ficará feliz — Kidoumaru diz novamente.

— Ele será paciente — o outro gêmeo oculto contrapõe, sombriamente.

O grupo se prepara para sair, perceptivelmente frustrado pela falha na missão.

Longe dos portões de Konoha, finalmente, a voz de Tayuya soa na escuridão da madrugada:

— Vocês estão seguros de que ele vai cair nessa conversa de buscar mais poder para vingar-se do irmão? O garoto acabou de matar um companheiro de equipe. Konoha não é como o Som. Eles são moles com essas coisas.

Ukon parece pensar. E um sorriso cruel desponta de seus lábios azuis:

— Bom, poder não é a única coisa que Orochimaru-sama pode oferecer, você sabe.