Não há vermelho na sua paleta
Capítulo 6: Vaso de porcelana
Diz-se que a palavra adeus é o som mais triste que um ser humano pode produzir.
Uma palavra pesada, grossa na língua e áspera na garganta.
Cinco pessoas em Konoha não estão prontas para dizê-la ainda, mas aqueles que são considerados as grandes mentes da Folha já haviam começado seus movimentos para forçá-la em seus corações, de um jeito ou de outro.
À noite, dois novos anbus mascarados batem na porta do casal Haruno.
Os pais de Sakura estão reunidos em silêncio na sala, olhando para lugar nenhum após uma pequena discussão acalorada que os levou a nada.
Mebuki havia dito, em fúria, que nunca quis que Sakura fosse uma kunoichi, que sempre achou que deveriam ter seguido seus negócios em um vilarejo civil e não numa vila oculta. E que se Kizashi, talvez, a tivesse escutado na época nada disso teria acontecido. O patriarca apenas gritou de volta, alegando que ela só estava querendo arrumar culpados e mais culpados pelo que aconteceu, magoado e sem forças.
Depois disso, tentaram pedir desculpas, mas as palavras não saíram, ocupando-se em lágrimas e pesar em vez disso. Jogaram-se no sofá e ficaram assim por horas, deixando o peso de seus sentimentos e memórias de uma risada alegre inundá-los por completo.
Agora, abrindo a porta da sala, se deparam com os dois oficiais dentro de suas capas pretas e máscaras de animais. Um deles transporta com cuidado um pequeno vaso de porcelana elaborado e perguntam se podem entrar, prometendo serem breves.
Sentados à mesa da cozinha, a família Haruno e os dois shinobis se encaram antes de voltar a atenção para o vaso no centro dela. Os arabescos azuis são bonitos contra o brilho alvo de fundo.
— O que é isso? — Mebuki pergunta, por fim, um sentimento estranho acumulando-se em seu âmago.
O anbu da direita, com sua máscara de coelho, se inclina ligeiramente antes de responder.
— As cinzas de Haruno Sakura.
Kizashi arregala os olhos e sente-se fraco.
— As cinzas? — ele oscila, tonto — Não, isso não está certo. Não pedimos isso.
Mebuki inclina-se para trás em pleno choque, encarando o vaso de porcelana sem nenhuma expressão, apenas sua palidez e suas mãos trêmulas transparecem. A ponta de seus dedos tocam o vaso com incerteza. Eles não fizeram isso…
— Sakura vai ser enterrada amanhã — Kizashi diz. — Vamos ter um funeral. E-eles nos disseram para escolher uma roupa. O que está acontecend- ?
— Você está dizendo que minha filha está aqui? — Mebuki atropela, horrorizada.
O anbu da esquerda finalmente se move, puxando de dentro de seu manto um envelope pequeno, deslizando-o sobre a mesa até o casal.
— Essa tarde foi decidido que o caso de Haruno Sakura ficará sob sigilo. Vocês serão compensados pelo aborrecimento.
— Aborrecimento?
O anbu friamente assente, achando ser uma pergunta séria.
Ele não compreende a extensão dos sentimentos daquela mulher ou as nuances de humor, o treinamento da Anbu Ne compromete sua capacidade de discernimento. Ele lembra-se de seus estudos sobre uma emoção chamada luto, mas a mulher não parece se encaixar em nenhuma das etapas descritas no livro. Não há negação, raiva, barganha, depressão ou aceitação.
Há apenas incredulidade.
— Konoha fará um depósito nesse valor em seus nomes — ele continua, esperando que eles toquem no papel. — Assim poderão deixar a vila e recomeçar sua vida. Não há negócios para vocês aqui.
— Não é possível — Kizashi sussurra, e olha para sua esposa, procurando um apoio, mas Mebuki mal reage e apenas tenta respirar com dificuldade. — Mebuki?
— Tire eles daqui — ela consegue dizer, apertando os olhos e puxando o pequeno vaso para seus braços. — E diga à sua hokage que minha filha será será muito mais que um aborrecimento para esse lugar.
Adeus não é a palavra mais triste do mundo.
Eles tem certeza que essa palavra era o nome Sakura.
Kakashi aparece no hospital no dia seguinte, pela tarde. Seus alunos não deixam de reparar a falta do colete jonin, mas o metal da bandana parece novo e bem polido como nunca. Ele puxa uma cadeira e se senta entre as camas, sem olhá-los ou dizer uma palavra por pelo menos dez minutos.
Com um suspiro, Kakashi deixa os cotovelos caírem sobre os joelhos, pondo-se para frente, esforçando-se como se sua carne doesse.
— Eu acabei de voltar do escritório da Hokage agora — Kakashi informa, concentrado no encontro dos rejuntes do piso. — O conselho quis tornar o que aconteceu algo privado. Eles os consideram muito preciosos para serem desperdiçados em um tipo de prisão.
Sasuke e Naruto não respondem, mal conseguindo encarar seu sensei agora. Ele está tão decepcionado que é possível sentir sua emoção no ar. Seu chakra trêmula enquanto ele permanece no quarto. É claro que Kakashi está ali por pura persistência.
— Eles estão se movendo rapidamente, mais rápido que Tsunade consegue impedir — Kakashi continua. — Ontem a tarde fizeram uma reunião e emitiram a ordem de cremar o corpo de Sakura secretamente. À noite, entregaram as cinzas dela aos pais em um pote barato. Tsunade ainda está investigando sobre isso.
Kakashi sente os meninos tensos, a raiva borbulha ao seu lado.
— Mebuki-san está passando por um momento difícil — Kakashi acrescenta. A mulher não teve sequer a oportunidade de velar sua filha e se despedir pela última vez. Em vez de uma mãe de luto era apenas uma mãe sedenta por justiça, que não conseguia encerrar nenhum ciclo. — Os pais de Sakura são comerciantes conhecidos no bairro. E ela está usando de todas as suas conexões para mostrar aos aldeões o que aconteceu.
A corrupção, os interesses políticos e o sangue de uma inocente derramado.
— Eu… espero que ela consiga — Naruto diz, sua voz áspera e baixinha. — Nós temos que pagar.
Sasuke, apesar de não se mover, silenciosamente concorda.
O Hatake ignora o comentário e continua:
— Houve uma confusão hoje de manhã nas escadarias da Hokage. Mebuki-san tem distribuído panfletos que descrevem os últimos acontecimentos. Membros de uma ramificação da anbu foram enviados para impedi-la, mas eu pude afastá-los.
Mebuki havia protestado a sua chegada, negando precisar de sua ajuda. Mas Kakashi apenas continuou ali, mandando os anbus para longe, ele mesmo coletando um punhado dos panfletos e entregando aos transeuntes apesar do olhar desconfiado e magoado da Haruno.
Kakashi prossegue:
— É tarde demais para que o conselho consiga abafar qualquer coisa. As pessoas saberão.
— Eu espero que ela consiga — Naruto diz, amargo. — Pelo que nós fizemos com a Sakura-chan… ela precisa conseguir.
Pela primeira vez, Kakashi ergue o olhar e encara seu aluno. É doloroso demais para durar e ele desvia rapidamente. Eu não posso, ainda. Não sem sentir raiva e seu estômago revirar. Não sem ver a si mesmo e o que havia causado a Rin, a história se repetindo mais uma vez.
— É muito cedo para dizer. O interesse de Orochimaru em Sasuke e da Akatsuki em você complica as coisas. Não há uma grande comoção, mas as pessoas não estão felizes. Os novatos se juntaram a Mebuki e estão distribuindo panfletos pela aldeia inteira. Há um sentimento de revolta em alguns setores. A reputação de Tsunade está em cheque no momento.
Alguns dos genins, como Lee e Ino, queriam entrar no quarto em que Sasuke e Naruto estavam a todo custo, sendo impedidos na recepção sempre que tentavam.
Mesmo com sua cirurgia próxima, Lee mal conseguiu digerir apropriadamente a notícia de que a menina pelo qual ele era declaradamente apaixonado havia sido fatalmente ferida. Por ninguém menos do que seus colegas de time. Aqueles que supostamente deveriam protegê-la com suas vidas.
Ino, por outro lado, deixou-se descontrolar. Ela e Sakura não estavam na melhor fase de sua amizade, ainda havia certa dureza e afastamento, mas a pequena chama da infância estava começando a se reacender aos poucos. Não deveria ter sido apagada assim. Não quando ela não conseguiu dizer tudo que queria. A Yamanaka sentiu uma montanha de emoções indecifráveis.
E o peso esmagador de que era tarde demais agora.
— Eu estou aqui porque — Kakashi continuou — vocês terão uma reunião com a Quinta Hokage em algumas horas. Ela decidirá seu futuro em Konoha antes que isso fuja do controle. Apenas ouçam o que ela tem a dizer e não debatam sobre sua decisão.
Os meninos assentiram, cabisbaixos.
— Eu também estou aqui — o Hakate engoliu em seco. Sua saliva parecia areia. — porque embora eu não possa perdoá-los ...também não posso perdê-los.
