Não há vermelho na sua paleta
Capítulo 7: Comprimidos brancos
Após a saída de Kakashi o quarto retorna ao silêncio em que esteve nas últimas horas: frio, constante e serene. Apesar de tudo, era um silêncio que se estabelecia apenas nas fronteiras de um mundo palpável entre as paredes do quarto, pois os pensamentos de Naruto, especialmente, estavam dominados pela voz de Kurama, com seu timbre ensurdecedor, estremecendo o selo em sua jaula e balançando suas emoções como se o infectasse com seu ódio.
Nem seu sensei te suporta, você realmente não tem sorte, jinchuuriki.
Era melhor quando você tinha desaparecido.
Aquela porcaria te deram apenas está perdendo o efeito. Não é minha culpa.
Eu vou tomar outro logo.
Ora, justo quando estávamos nos dando tão bem. Agora que somos tão parecidos.
Não somos.
Claro que sim. Eu já matei muita gente. E você está indo pelo mesmo caminho.
Foi um acidente. Eu nunca machucaria a Sakura-chan. Nunca.
Você pode dizer o que bem quiser sobre si mesmo. Mas e o outro? Ele nunca faria? Afinal, ele começou a briga…
O Sasuke…
Ele a tratou tão mal antes, não foi? Qual o problema dele?
Não! Ele... ele tentou nos proteger do Gaara. E tentou me procurar quando a Akatsuki foi atrás de mim. Sasuke não é uma pessoa ruim.
É claro que ele é. Todos os Uchihas são.
Pare de tentar me envenenar...
Eu não faria isso, mas você deveria aproveitar que abriu a caçada aos seus companheiros de equipe e acabar com todos. Eu te ajudo. Apenas remova o selo.
Não-!
A raposa riu. Seu riso era um estrondo.
— Garotos — Uma enfermeira entra no quarto, trazendo água e pequenos comprimidos brancos em suas mãos. — Hora do seu medicamento.
Ela se aproxima com um rosto sério e impassível, evitando contato visual com os dois meninos. A enfermeira lhes repassa os copos e pequenos discos em uma calma profissional. Naruto engole o seu quase desesperadamente, afoito pelos poderes silenciadores que aquela coisa tão pequena tinha.
Kurama ri ao perceber a movimentação.
Eu volto amanhã, jinchuuriki.
Vai para o inferno.
Durante aquela mesma manhã um médico apareceu com uma receita assinada pela godaime.
Os meninos, a princípio, ficaram desconfiados.
Para os nervos, foi tudo que o médico lhes explicou, brevemente.
No entanto, de alguma forma, aqueles comprimidos brancos foram capazes de entorpecer a avalanche que os cobriu desde que tudo aconteceu. Para Naruto, silenciava Kurama. Para Sasuke, não havia os sons das maçãs de Sakura.
O mundo parecia um ruído branco.
Dez minutos depois da entrada abrupta da enfermeira, já sozinhos, a voz de Kurama não é muito mais do que um zumbido incompreensível e administrável.
Naruto se permite respirar, mesmo que o ar doa ao entrar, confortando-se ao afundar na sensação cósmica de entorpecimento dos seus sentidos. Quando nem mesmo seus pensamentos podem ser ouvidos por ele mesmo, o menino levanta-se para ir ao banheiro. Seus passos se arrasta água fria que joga no rosto mal é sentida.
Ele luta contra as ervas daninhas deixadas pelas palavras de Kurama.
Ele não pode dar ouvidos àquela maldita raposa.
Quando Naruto retorna ao quarto ele nota Sasuke lutando para comer o resto da sopa fria do almoço.
Era a primeira refeição que se forçavam a engolir depois de tudo. Seus apetites estavam arruinados.
O Uchiha, contudo, mal havia tocado a sopa no momento em que ela chegou, mas talvez a fome finalmente o tenha vencido.
O Uzumaki o observa cautelosamente de seu canto.
Eu te odeio, Sasuke?
Uma parte lógica lhe diz que, ao menos, ele deveria tentar.
Mas odiar a Sasuke significava se isentar de sua própria responsabilidade. Era como culpá-lo exclusivamente pelo que aconteceu. Eu não queria brigar a princípio, mas... Ele havia se deixado levar, de qualquer modo. Ele sempre se deixava levar.
Naruto se aproxima da cama de Sasuke, olhando para os próprios pés. Seu corpo fica tenso, como se repelisse ao Uchiha naturalmente. Fique longe, olhe o que aconteceu da última vez em que vocês se aproximaram. Nunca mais fale com ele.
Mas como ele poderia quando via a si mesmo naquele pedaço de merda que chamava de rival?
Rival? A palavra parecia desconexa, como uma roupa que havia deixado de servir.
O que eles eram? Nada?
Se não eram amigos, rivais ou companheiros.
No que a morte de Sakura os havia transformado? E por que isso importava em alguma coisa?
Naruto se empurra para frente em busca de respostas.
— Quando… quando Kakashi-sensei disse que ia voltar? — o Uzumaki pergunta, avançando mais um passo, devagar como se o chão estivesse coberto por cacos de vidro.
Sasuke ergue a cabeça da sopa e olha na direção de Naruto, surpreso por ele começar uma conversa e especialmente por Naruto parecer ir em sua direção.
Depois de tudo, eles não haviam tido nenhum tipo de diálogo razoável. Foi difícil se concentrarem em qualquer outra coisa que não fosse em seus próprios pensamentos em uma luta pela sanidade.
— Às seis. — O Uchiha responde, muito tempo depois.
Naruto assente, balançando a cabeça repetidamente.
Mais um passo. E passam-se cinco minutos inteiros.
— Eu... nunca te disse como consegui o kage bunshin, não é?
Sasuke não responde, o Uchiha se sente atordoado demais para reagir. Ele honestamente pensou que o assunto seria diferente. Que Naruto falaria sobre Sakura e se aprofundaria em suas memórias com ela. Ou teria um tom mais acalorado sobre seus erros, apontando-o cada um deles de maneira acusatória e merecida.
Mas o Uzumaki apenas assume seu silêncio como um consentimento para falar de um jutsu.
Sasuke o vê dar outro passo. Naruto hesita antes de encostar a base da coluna no metal da cama, de costas para ele.
— É uma história longa. Se quiser ouvir...
— É mesmo sobre isso que você quer falar? — Sasuke pergunta.
— Eu não sei sobre o que eu quero falar. Eu acho que não quero falar nada, mas... — O perfil de Naruto franze a teste e flexiona a boca. Ele parece perdido. — Quando eu penso na Sakura-chan... Você quer ouvir minha história ou não?
Sasuke sente que Naruto está ocultando seus sentimentos. Ele supõe algumas coisas, mas o Uzumaki sempre foi um membro imprevisível da equipe que ninguém conseguia ler exatamente.
De todo modo, Sasuke joga um suspiro enquanto acena para que ele apenas continue.
Mas quando o Uzumaki termina sua história Sasuke pensa que o mais absurdo de tudo era um pergaminho de kinjutsus tão mal armazenado na casa do Terceiro que até mesmo um genin reprovado podia roubá-lo facilmente.
— O que estou dizendo é que esse pergaminho tinha mais um monte de jutsus. — Quando Naruto volta a falar, sua voz tem uma clara insinuação no fundo.
— Onde você quer chegar?
— Foi apenas algo que eu pensei ontem a noite. Talvez… talvez haja algum jutsu lá. Talvez exista algum jutsu que possa… Sabe?
Sasuke deixa a sopa de lado completamente, seu estômago começando a embrulhar.
Ele sabe exatamente o que Naruto deseja insinuar. Não é como se ele não tivesse pensado nisso muito anos antes quando perdeu toda sua família. Ou gastado todo o seu tempo livre pesquisando na biblioteca de Konoha qualquer jutsu ou ferramenta que pudesse trazer seu clã de volta, checando todo tipo de pergaminho antigo e qualquer menção, ilusória ou não, que lhe daria alguma mínima esperança.
— Talvez. — É tudo que Sasuke diz, introspectivo.
— Eu não quero perguntar ao Kakashi-sensei. Nem a ninguém. Mas nós deveríamos procurar. Quer dizer, nós deveríamos tentar de tudo, tudo mesmo para trazer ela de volta. Deve ter como reverter isso.
Mas mesmo antes que Naruto termine Sasuke abaixa os ombros ligereiramente. Nada do que sua pesquisa retornou foi produtivo ou aplicável.
Para desfazer o horror da morte de alguém eles teriam que fazer horrores ainda piores.
— Esses jutsus que você fala são proibidos por uma razão.
Naruto chega mais perto, encarando-o com um olhar magoado.
— A gente deve isso para ela.
— Eu sei.
— Se você sabe, então...
Sasuke balança a cabeça.
— Há um preço muito alto. Tudo tem a porra de um preço.
Os olhos azuis de Naruto disparam para os de Sasuke e seu queixo treme, olhando para o Uchiha e através dele ao mesmo tempo.
Ele dá um passo para frente, distanciando-se.
Naquele momento, Naruto percebe que não conseguiria odiar a Sasuke, realmente não. Mas havia um sentimento negativo de qualquer forma. Talvez Kurama houvesse sido uma influência, no fim das contas. Talvez fosse apenas algo que sempre esteve ali. Algo que nunca foi nomeado, mas que o Uzumaki podia decifrar agora. Eu sinto rancor.
Ele desvia os olhos ao reconhecê-lo, ele quase teme que o Uchiha perceba sua própria realização, absorvendo e engolfando a dor de entender a si mesmo.
— Se há um preço, Sasuke, nós pagamos. Porque fomos nós, de todas as pessoas. Nós.
Sasuke se lembra de um dos livros descrevendo técnicas proibidas. Um dos jutsus apenas trazia o corpo de volta à vida, sem consciência e a essência que muitos chamariam de alma. Uma casca oca que respirava.
Ele não estava menos disposto a correr os riscos, mas de que que servia uma Sakura assim?
— Mesmo que formos por esse caminho, — Sasuke diz e suas mãos apertam os lençóis da cama, os nós de seus dedos ficam tão tensos e duros que doem — eles a cremaram. Não há corpo ou DNA. Não tem nada.
