Não há vermelho na sua paleta
Capítulo 8: Vazio, mas sólido
— Está feito?
Kabuto franziu as sobrancelhas ao ouvir a nova voz de seu mestre. Era mais suave e menos rouca, mas, ainda assim, uma mistura perfeita de dois tons diferentes. Muito em breve restaria apenas o tom frio de Orochimaru. Na aparência, o pobre prisioneiro que cedeu seu corpo para a transmutação do sannin das cobras mal era ele mesmo agora.
Enrolado em faixas, a única parte visível de Orochimaru era um de seus olhos amarelos e reptilianos encarando-o com um sentimento indecifrável.
— Sim, Orochimaru-sama. — Foi sua resposta servil.
O jovem se aproximou, depositando no colchão ao lado de Orochimaru um pergaminho luxuoso selado por uma cobra prateada que consumia a própria cauda.
O sannin olhou para o rolo de papel com ódio, sua pupila dilatando enquanto sua respiração mal continha-se. Kabuto apenas poderia supor o que ele estava pensando.
Talvez porque tudo que aquele pergaminho continha representava a falha descomunal de seus planos.
— Eu vejo. Kimimaro fez um bom trabalho, embora ele tenha eliminado meu precioso quarteto e isso tenha sido um pouco demais.
Kabuto estremeceu quando lembrou-se dos corpos encontrados logo à frente do esconderijo. O quarteto chegou há dois dias com notícias de Sasuke, a morte de Sakura e a constante vigilância sobre o último Uchiha e como isso iria comprometer a busca por Sasuke dali duas semanas, a data marcada para a possessão de Orochimaru sobre o corpo do garoto.
Com essas notícias todo o cronograma precisou ser consideravelmente adiantado e readaptado.
— Como antigo líder do grupo, ele considerou uma desonra pessoal seus subordinados terem falhado em se encontrarem com Uchiha Sasuke. Era uma parte essencial que ele viesse até você por vontade própria, Orochimaru-sama.
Orochimaru tocou o pergaminho com seus dedos doloridos, esforçando-se em movimentá-los sobre o papel.
— Isso será suficiente. Kimimaro concordou com o fuuinjutsu pacificamente?
— Como nenhum outro súdito teria — Kabuto disse, sugestivamente. — Embora seu estado morimbundo possa ter relação com sua escolha. Segundo o próprio, era a única maneira de compensar pela sua inutilidade e incapacidade de se tornar o seu novo portador.
O sannin das cobras pareceu soltar um riso de sua cama, seus ombros balançando brevemente.
— Os que não nascem com um propósito morrem por outro ainda maior — Orochimaru atestou, sua imaginação indo em outras direções. — Esse pergaminho apenas precisa chegar a Sasuke-kun. E ele virá até mim em breve buscando por mais.
O sentimento era de vazio. Como um vácuo. Mas, apesar disso, havia um constante peso, arranhando a superfície.
Vazio, mas sólido.
Esmagador.
Sasuke se perguntou se era por esse constante estado de nada o motivo por não ter conseguido chorar uma maldita vez. Que tipo de monstro ele é?
Era a reação normal. A reação esperada.
Naruto, Kakashi, talvez todos que uma vez conheceram Sakura haviam derramado suas lágrimas por ela. O Uchiha ainda acordava de madrugada com os soluços abafados do Uzumaki. Por que ele não conseguia?
Elas não tinham como ter se esgotado seis anos atrás. Não era possível que Itachi tivesse lhe tirado até mesmo isso.
E ele não tinha a impressão de que sentia menos do que todos os outros.
Sakura era preciosa. Era importante. Ela era… algo mais.
Então, por que tudo estava tão vazio em sua cabeça? Vazio e sólido.
A vontade até chegou a vir, em algum momento, rasgando sua garganta como se houvesse engolido algo áspero e isso ficasse preso, como um afogamento. Seu coração queria sentir, implorando para demonstrar algum sentimento, mas sua mente estava lutando contra qualquer semelhança com aquilo que ele sentira seis anos antes. Um mecanismo cruel que, sem fazê-lo sentir coisa alguma, o destroçava por dentro.
O remédio de Tsunade menos ainda parecia estar ajudando. Talvez funcionasse para Naruto, ele parecia mais calmo e menos reativo, mas em Sasuke aqueles comprimidos apenas arrancavam tudo e todo o resto, como se removesse o choque, o ódio por Itachi, o pesar por Sakura, o inevitável asco por si mesmo.
O Uchiha decidiu parar de tomá-lo na terceira dose, apenas fingindo engolir os pequenos discos brancos.
Ainda assim, apenas um sentimento retornou do poço de suas emoções: raiva. Raiva visceral. E crescente, como uma maldição inescapável aflorando-se em seu interior.
— Sasuke? — Kakashi chamou-o, girando uma chave na fechadura após a difícil caminhada de volta do escritório da hokage. O genin parecia suar frio, o olhar vago e distante.
O Uchiha piscou, e espiou Naruto, seus ombros caídos e olhar para o chão entregavam sua postura derrotada. E não olhou para o sensei. Ele sabia como o Hatake ficava desconfortável com isso agora.
— Eu quero falar com você — Sasuke disse. Ele foi incapaz de dizer algo na reunião com Tsunade e sua voz agora soava pesada. — Se puder.
— Vou mostrar a vocês o lugar, primeiro. — O Hatake abriu a porta, e guiou os meninos para dentro. — Como a godaime disse, ficarão em prisão domiciliar pelo próximo ano. Não poderão deixar a casa a não ser acompanhados por mim ou um jonin certificado. As despesas serão descontadas de seus futuros salários quando voltarem a fazer missões. Entendido?
Os meninos assentiram como esperado.
Ainda assim, era uma punição branda, branda demais. E tanto eles quanto a própria Tsunade sabiam disso. Os pais de Sakura provavelmente ficariam decepcionados com a decisão, para dizer o mínimo. Eles não tinham ideia dos desdobramentos que a Senju precisou fazer para passar por cima das ordens primordiais do conselho e um ano foi o máximo de tempo conquistado.
Sasuke e Naruto, ainda assim, pensaram silenciosamente que isso não era nada. Mesmo trinta anos seria pouco.
Isso não podia ser chamado de justiça.
Para muitos, não passaria de um ano sabático dado de presente aos assassinos de Haruno Sakura.
O apartamento era pequeno, compacto. Tinha dois quartos, uma pequena sala, cozinha conjugada e um banheiro.
A hokage os justificou dizendo que mandá-los para a prisão era mandá-los para a morte ou apenas facilitar o trabalho da Akatsuki em coletar a Kyuubi. Um guarda corrupto ficaria feliz em capturar o mangekyou sharingan de Sasuke e vender no mercado negro. E qualquer prisioneiro se deleitaria com a ideia de ser recompensado pela Akatsuki ao colaborar para entregar Naruto.
O apartamento, por outro lado, era vigiado, e constantemente camuflado com um genjutsu de camadas que escondia seu verdadeiro propósito sob o disfarce de uma pequena loja de consertos abandonada.
Kakashi sentou-se no sofá e pediu para que os garotos fizessem o mesmo no móvel paralelo.
A convivência ainda era difícil, engessada. Como se um grosso véu estivesse entre ele e seus alunos. Seu olhar sempre se desviava do rosto deles instintivamente e era óbvio que os meninos percebiam sua retração. O Hatake, de qualquer modo, não se esforçou para esconder.
Kakashi dirigiu-se a Naruto.
— Jiraya-sama fez uma solicitação formal para treiná-lo fora da aldeia, então haverá uma exceção para você. Tsunade-sama concedeu para evitar ataques à vila caso a Akatsuki queira invadir. Daqui três meses você vai partir e, para todos os efeitos, estará fazendo serviço comunitário longe da aldeia.
— O quê? — Os olhos azuis de Naruto brilharam. Não de felicidade. Ele conteve as pequenas lágrimas. Vergonha, pura vergonha. Ele não ia conseguir encarar Jiraya. — Eu não quero. Eu… não mereço.
Kakashi respirou fundo. O garoto tremia como um galho seco.
— Vamos parar aí. Vocês precisam entender que o que aconteceu é imperdoável e se quiserem autopunição não vou dizer para não fazê-lo. Eu não vou lhes dizer palavras reconfortantes muito menos, esse é o peso que vocês precisam carregar. E é o meu, também.
— Eu sei, eu só… eu… nada faz mais sentido — Naruto se encolheu no sofá, puxando as pernas em direção ao peito e escondendo o rosto nos joelhos.
— Não vai fazer, por um tempo. — A voz de Kakashi se suavizou por um momento. E voltou a endurecer gradualmente: — A decisão de colocá-los juntos aqui foi um pedido meu. Talvez depois daquilo vocês aprendam a única maldita coisa que eu venho ensinando há meses.
Kakashi jogou o corpo para trás, caindo pesadamente no encosto do sofá enquanto encarava o teto. O apartamento precisava de reparos. Os fios da lâmpada estavam expostos e as rachaduras indicavam uma infiltração vinda de outro andar. Era um lugar barato e estranho.
— Eu nunca quis ensinar alunos brilhantes. Eu nunca liguei pra suas técnicas, clãs, inteligência. Isso era irrelevante se não podiam trabalhar em equipe. Então vocês provaram que podiam e depois que não. Vocês dois são invejosos, estúpidos e mesquinhos e isso custou a vida de uma colega. Essa é a sua realidade.
Os meninos afundaram no sofá. O queixo de Naruto tremia. Sasuke sentiu seus olhos queimarem em um calor característico do sharingan querendo vir à tona. Ele perguntou-se porquê. Nada do que Kakashi dizia era mentira. De alguma forma, era reconfortante sentir a raiva em suas palavras, Sasuke quase esperava por isso.
O sensei por fim finalizou, com um suspiro pesado:
— Honrem a memória da Sakura se tornando os melhores homens e shinobis que puderem ser. É tudo que pode ser feito agora.
— Isso não é o bastante — Naruto murmurou. As lágrimas caíam pesadas em sua calça laranja, aprofundando o tom em uma poça molhada. — Isso não é nada.
O Hatake manteve-se em silêncio por minutos. Ele entendia Naruto até certo ponto. A sensação de que nada do que ele fizesse preencheria o vazio que a morte de seus entes queridos deixou ainda o acompanhava. Mas era uma parte do processo que Naruto apenas aceitasse essas novas emoções por si mesmo.
Seu olhar calmamente caiu sobre Sasuke, suas sobrancelhas escuras franzidas, pensativo. O garoto parecia pálido e oco.
— Vamos, Sasuke. Eu terei uma palavra com você depois, Naruto.
