Não há vermelho na sua paleta

Capítulo 9: A falta que a falta faz

Sasuke se parece com um menino de treze anos como nunca antes. Ele sempre foi o mais maduro e centrado da equipe sete, era fácil esquecer que ele era uma criança. Kakashi quase o vê se encolher em si mesmo e pergunta-se o que seu aluno poderia querer lhe dizer.

Sasuke não é conhecido por iniciar diálogos.

E é quase sempre péssimo em mantê-los sem acabar ofendendo alguém.

Meio metro os separa na cama do quarto que seria dele pelo próximo ano. Não é muito melhor do que o resto mal conservado da casa.

— E então? — Kakashi decidiu falar primeiro. Seu aluno parece travado em um debate interno.

Ele vê os ombros tensos de Sasuke e as mãos se torcerem uma ou outra vez, o garoto esfrega a pele do braço direito numa mania que ele provavelmente ainda não notara, como se tentasse afastar uma sensação.

Os braceletes de supressão haviam sido removidos no escritório da hokage, com a proibição de não usarem qualquer ninjutsu sem autorização expressa. O Hatake não pretendia colocá-los em nenhuma situação que exigisse seu uso tão cedo, tampouco.

O Uchiha manteve os olhos fixos e seguros no chão. As palavras da mãe de Sakura voltam à sua cabeça: Nós sabemos o que você fez no passado. É isso que você tem ensinado para eles? Assassinar menininhas? Na ocasião, nem ele ou Naruto realmente prestaram atenção nisso, mas isso significava que Kakashi sabia, pelo menos em algum grau, a profundidade do abismo ao qual foram jogados.

— Você já passou por isso. — Sasuke afirma como se já fosse um conhecimento adquirido há muito tempo. Ele não quer ser cruel, mas sua voz sai mais seca do que pretendia.

Kakashi não está exatamente surpreso, mas vê seus pensamentos voltando ao passado, àquela noite.

— Já.

O garoto espera que o sensei diga algo mais, mas Kakashi limita-se àquela única palavra. Uma inesperada ansiedade sonda o coração de Sasuke.

Como você se sentiu?, ele gostaria de perguntar. Em vez disso, Sasuke diz:

— Eu não sinto nada além de raiva. — Dói confessá-lo. Desabafar sempre foi algo tão difícil, abrir mão da autopiedade e sobrecarregar outra pessoa não é seu caminho favorito. — Deveria ter algo mais.

Mas talvez isso é tudo que ele nasceu para ser. Alguém para passar a vida odiando, como Itachi havia dito.

— Mas há. — A voz de Kakashi abaixa um tom. — Sempre há mais.

Kakashi lembrou-se como o luto veio em diferentes ondas para cada pessoa que fez parte de sua vida. A morte de seu pai lhe trouxe pura tristeza e impotência. A de Obito foi uma mistura de raiva e dor. Rin não foi nada menos que medo. Perder Minato… foi um buraco de ecos sem sentido.

Em algum momento, com o tempo, mesmo isso ficou dormente, formigando em fogo baixo, mas nunca deixando-o completamente. Talvez ele seria assim com Sakura também, um dia. Amontoada no meio de todos seus entes queridos, forçadamente lembrada nas manhãs antes de todas as missões — se um dia ele considerasse retomá-las.

— Você apenas está reprimindo todo o resto e agarrando o sentimento mais administrável, Sasuke. Sentir raiva te impede de enfrentar os monstros maiores que estão dentro de você.

O quê? Sasuke procura dentro dele essas coisas maiores, mas as únicas respostas que retornam são o mesmo ódio pegajoso que ele sempre sentiu, as palavras de Itachi, as promessas de Orochimaru na floresta da morte, a voz de Sakura e o som das cascas de maçãs no fundo do quarto.

Tudo isso suplanta qualquer outra coisa que estivesse tentando sobreviver em seu coração. Estava tudo morto. Arenoso. E inalcançável.

— Eu não sei.

— Mas eu sei, eu sei exatamente. Se não for isso, o que sobra? — Kakashi retruca. — Você está com raiva porque não há ninguém para se vingar. Não há como se livrar desse peso e jogar em outra pessoa como o que aconteceu com seu clã. E não há perspectiva de que um dia isso vai acabar como você acha que vai com Itachi. Você nutre e consome essa raiva porque pelo menos você a conhece.

Sasuke apertou as mãos em punhos, nervosamente. O vazio em seu peito mudou de forma para um buraco maior e sua respiração desregulou-se sutilmente. Em outra época Kakashi teria afagado o topo de sua cabeça em um consolo não solicitado. Isso parecia impossível agora.

— Eu sei que você gostava dela ou, pelo menos, estava começando a sentir algo mais. E isso vai te atingir mais do que a nós. Quando vier.

Os ombros de Sasuke afundam, a transição para falar dela no passado o assusta.

— Todos nós… gostávamos da Sakura.

— Se você quiser colocar assim, coloque — Kakashi dispensa sua mentira, mas não insiste.

Sasuke sente que está com mais perguntas que respostas. Ele puxa o porta-retrato do time sete de dentro na mochila. O único sorriso da foto ganha sua atenção. Ela parece destacada em primeiro plano. Sakura ainda tinha seu lindo cabelo comprido nela, mas seus olhos verdes estavam ocultos pelas pálpebras fechadas.

Por que eles nunca tiraram uma outra foto? Parecia tão estúpido agora, porque ele daria qualquer coisa por mais do que apenas um fragmento 10x15 registrado.

E pensar que, enquanto fazia suas malas, vigiado por um Anbu, Sasuke considerou em deixar a foto para trás. Por algum motivo, no último segundo, ele não conseguiu. Sentiu-se aliviado por trazê-la consigo.

Olhando para a Sakura na imagem, é fácil imaginá-la segura em casa agora. Fingir que nada aconteceu.

Mas a realidade é um soco.

— Eu não culpo ou procuro ninguém para culpar. Eu tenho raiva porque eu matei a Sakura — Sasuke admite, suas palavras soam afiadas para seu próprio se primeira vez que elas soam, mesmo em seus pensamentos. — Eu comecei a briga. Fui eu quem perfurou o coração dela. Eu acreditei em Itachi. Eu. E o Naruto… ele nem consegue me odiar mesmo que ele saiba de tudo isso.

Ao contrário, o Uzumaki parecia querer arrastá-lo para uma busca de trazer Sakura de volta de alguma maneira, como se eles fossem um time. Como se a dívida fosse dos dois, e não apenas sua.

— Não sei se é uma tentativa de poupar Naruto ou não, mas você está apenas perdendo energia, Sasuke. Você precisa colocar a cabeça no lugar ou será consumido por si mesmo. Você tem uma marca da maldição, um mangekyou sharingan e uma vingança mal resolvida para lidar, a qual eu desencorajo.

Sasuke não deixa os olhos da fotografia. Suas sobrancelhas se juntam à menção do poder ocular, no entanto. Por isso eles o vendaram no telhado?

— Mangekyou?

— Você conhece os mecanismos que podem dispará-lo. — Kakashi diz. — Você sente, garoto. Você só não está pronto para sentir. E, quando acontecer, você vai desejar estar como está agora.

Frip, frip, rasp. O som ainda estava ali, baixinho, sem intenção de ir embora.

Quando Sasuke não disse nada por um bom tempo, Kakashi se levanta da cama e imagina que ele precisa ficar com seus pensamentos. Ao ouvir a porta fechando o Uchiha mal se mexe. O porta-retrato em suas mãos parece pesar uma tonelada e a Sakura na fotografia é um ser inalcançável.

Ele quis imaginar uma realidade onde ela ainda estava bem. Uma realidade em que ele e Naruto nunca discutiram. E ele aceitou suas maçãs. Ela teria sido irritante com seu rosto vermelho e promessas de voltar no dia seguinte para visitá-lo, mas com o passar dos meses Sasuke podia visualizá-la se esforçando para se tornar uma kunoichi formidável. Sakura tinha uma inteligência comparável ao preguiçoso Nara a quem chamavam de gênio, então para ele era apenas natural que ela tivesse sucesso em breve.

Talvez, conforme o time sete crescia, Sasuke poderia aceitar seus companheiros de equipe como partes permanentes de sua vida. E, se estivessem fortes o suficiente, ele até pudesse pedir sua ajuda para dar um fim em Itachi.

E quando tudo acabasse eles estariam de volta em Konoha e os pesos de sua vida teriam acabado.

Conforme envelheciam, Naruto entraria em sua corrida para ser hokage. Sakura teria uma carreira promissora no que quer que ela escolhesse. Ele provavelmente se juntaria a anbu.

Eles passariam tanto tempo juntos que pareceriam uma família, realmente.

Mas esse ideal não aconteceria nesse mundo.

Sasuke se pergunta se ele a ofenderia ao imaginar coisas assim. Que direito ele tinha de pensar dessa maneira?

Sasuke supôs que Sakura estava com raiva dele, na verdade, onde quer que ela estivesse. Ele havia roubado sua oportunidade de viver, se tornar uma grande kunoichi. De crescer.

Se Sakura estivesse observando seus passos, e Sasuke nem queria pensar nisso agora, ela deveria estar amaldiçoando-os.

Ele esperava que sim.

Então, um clique e puro instinto o fazem olhar para cima. Tem alguém aqui.

Seu coração gela quando o sussurro chega aos seus ouvidos antes mesmo que Sasuke consiga visualizar o homem:

— A segurança de Konoha é lamentável. Não me surpreende terem matado seu hokage dentro de sua própria vila.

Absolutamente surpreso, o Uchiha dispara o olhar para a figura familiar à sua frente. Kabuto sorri para ele. O reflexo em seus óculos escondem seus olhos e intenções.

Sasuke olha para a porta de onde Kakashi havia acabado de sair.

Como ele havia encontrado esse lugar, como entrou ali despercebido e porque ele estava ali são as perguntas que lhe atingem em segundos. Kabuto, por outro lado, leva os dedos aos lábios, parecendo ofendido, pedindo silêncio. Sua assinatura de chakra é inexistente no quarto.

— Não vamos chamar a atenção desnecessária do seu sensei, eu não posso me envolver em uma batalha agora. Apenas vim deixar um valioso presente de Orochimaru-sama para você, Sasuke-san.