Não há vermelho na sua paleta
Capítulo 10: Pálido, pálido bordô
Com um movimento fluído e rápido de uma das mãos, Kabuto lança uma etiqueta shinobi que gruda-se na porta do quarto sem emitir sequer um farfalhar. Sasuke reconhece os símbolos na superfície, normalmente usados para reuniões secretas para criar ou isolar uma área e prevenir tentativas de espionagem.
— Ouvimos sobre o que aconteceu com sua companheira de equipe — Kabuto diz em seu volume habitual, abandonando os sussurros em uma desagradável condolência. — Uma tragédia.
Sasuke, no entanto, mal processa suas novas palavras, ainda preso em sua frase anterior. Presente foi o mesmo termo usado por Orochimaru para nomear a marca da maldição no passado. A ideia deturpada encoberta naquilo deixou-o imediatamente doente.
— Seja o que for que te trouxe aqui, não estou interessado.
Sasuke tenta colocar o máximo de frieza em sua voz. Certa vez, ele foi muito bom nisso. Ele observa as microexpressões em Kabuto. A sua leveza e sarcasmo evidente é irritante o bastante para que seu sangue ferva.
Por um momento de involuntária consciência, o Uchiha pensa em alertar Kakashi. É o mais sensato a se fazer. Ele desvia os olhos novamente para a porta e, pela primeira vez, sente que não há necessidade de tentar resolver tudo sozinho. Mas Kabuto preenche sua visão, interpondo-se entre a saída e ele.
— A-á. Se você ainda quiser alertar ao seu sensei depois do que eu tenho a dizer, não irei impedi-lo. Mas apenas depois. — Kabuto se antecipa, friamente. — No seu lugar eu teria alguma consideração pelo que tenho para você. Sabe, vim de muito longe, Sasuke-san.
A marca da maldição reage a sua raiva e queima como se estivesse lembrando-o da força do Orochimaru que ele estava teimando em desprezar. Algo dentro de Sasuke se mexe e seu coração pulsa em um latejar surdo.
Ele não sabe dizer se são as palavras de Kabuto, a sua atitude dissimulada ou a intrigante percepção de que não há uma aura ameaçadora ou poderosa naquele garoto. O que tornava tudo mais estranho, sobretudo se ele era o braço direito do maior inimigo de Konoha.
Kabuto, percebendo Sasuke hesitar, continua:
— Orochimaru-sama tem muito mais a oferecer a você do que essa vila jamais terá. Você vai me ouvir, não é?
Então, antes que Sasuke pudesse ao menos considerar, Kabuto prometeu poder.
Imensurável e temível.
Poder suficiente para matar Uchiha Itachi.
Poder equiparável ao de um sannin que assassinou o terceiro hokage e era o possuidor de um nome que fazia os shinobis mais confiantes em suas habilidades simplesmente recuarem à sua menção.
Orochimaru era tudo que Sasuke não era como um shinobi. Itachi havia deixado isso claro como o dia. Ele ainda era o mesmo garotinho correndo por corredores vazios de anos atrás.
E essa proposta teria sido tentadora – teria sido quase suficiente – se ele tivesse oferecido isso dias atrás. Mas Sasuke viu o que o pouco poder que conquistou foi capaz de fazer. A destruição que causou. Não arranhou sequer a superfície da sua resolução.
— Poder… — Sasuke desdenhou. — O que eu quero com isso?
Sasuke não diria que se esqueceu de Itachi. Ele nunca poderia e sabia que, em algum momento, a sua vingança iria preencher seus pensamentos novamente, da mesma maneira visceral e autodestrutiva que sempre preencheu. Eventualmente, mesmo que ele nunca pudesse superar Sakura e carregasse a culpa até o fim, chegaria o dia em que Itachi estar vivo enquanto todo seu clã permanecia morto seria uma realidade insuportável.
No entanto, o sannin das cobras provavelmente estava ciente disso. Se ele se arriscou a esse ponto haveria algo ainda mais hediondo do que qualquer proposta que Sasuke pudesse imaginar.
O lembrete do selo amaldiçoado, como se fosse uma parte independente de seu corpo, voltou a queimar em sua pele, mais intensamente que antes.
O subordinado de Orochimaru estreitou os olhos e arrumou a armação com um sorriso.
— A marca está instável, não é? Você não tem a resolução e a força de vontade para controlá-la.
— Eu já a controlei antes.
Não sem ajuda, ele se lembra com amargor. Não sem Sakura.
— Como eu vejo, pouco a pouco, você será consumido por ela. E, no fim, perderá seu senso de realidade. Uma vez que isso aconteça, no que você vai se transformar, Uchiha Sasuke, eu me pergunto.
Quando Kabuto olhou para a porta – a única coisa que os separava de Kakashi e Naruto – Sasuke compreendeu a ameaça implícita e a sugestão maldosa. Ele apenas conhecia o poder inebriante, infernal e bruto contido naquele selo. Sasuke não tinha ideia do que aconteceria se a marca o vencesse.
Talvez ele ficasse louco.
Talvez ele machucasse Naruto e Kakashi.
Ou pior.
O Uchiha sentiu-se enojado.
— Você pode considerar a melhoria de suas habilidades como um efeito colateral de algo que pode ser do seu maior interesse, inclusive.
Algo no tom de Kabuto o irritou além do normal.
— Vocês não têm a mínima ideia de qual é meu interesse. — Sua voz era plana, sem tropeços. Ele gostou de como soou.
Kabuto, contudo, sorriu amplamente, seus dentes brilharam na luz amarelada e fraca do quarto. Sasuke acompanhou cautelosamente o ninja do som retirar de sua bolsa um pergaminho enrolado e passo após passo se aproximar de Sasuke.
— Orochimaru-sama não é apenas um shinobi de renome, mas um estudioso muito dedicado, Sasuke — diz, muito menos cortês do que ele jamais ouviu, sem qualquer sombra do sorriso de antes.
Sasuke olha para o rolo estendido, mas não faz nenhuma menção para pegá-lo. O Uchiha não tem nada além de desconfiança. Parece ser uma armadilha.
— O que tem nesse pergaminho?
Uma das sobrancelhas de Kabuto se ergue. Ele deposita o rolo ao lado de Sasuke com delicadeza, o genin acompanha o pergaminho rolar pelo colchão e pousar paralelo a sua coxa esquerda, encostando-se no shorts branco.
Sua voz volta a soar cortês, como se nunca tivesse sido diferente disso durante toda a conversa. Kabuto é, na melhor das comparações, um doppelgänger. Uma pessoa diferente para diferentes pessoas. Sasuke pode dizer mesmo que não esteja olhando para seu rosto e vendo suas expressões mutáveis.
Mesmo assim, aquele homem soa absolutamente sincero quando diz:
— Aquilo que você perdeu recentemente.
Sakura. É o único pensamento que dispara junto a lembrança de seu rosto.
Sasuke odeia como sua voz racha, vacila e ele não consegue pronunciar o nome dela. Seus dedos apertam o porta-retrato que segurava até então. Um pouco mais de força e ele o quebraria.
Pela primeira vez em dias o menino se sente lúcido e tão atento que está conscientemente perturbado, diferente de uma massa amorfa de sentidos dormentes.
O Uchiha olha para a seda envolvendo o pergaminho, em um pálido, pálido bordô.
A cor lembra cabelos rosados tingindo-se para vermelho.
— Foi necessário sacrificar um de nossos shinobis mais formidáveis para conseguir esse presente para você, então não o despreze.
— O que vocês fizeram? — A força vem da dúvida.
— O que desfizemos.
Kabuto deve ter percebido algo cintilar nos olhos de Sasuke. E, se não fosse isso, o seu chakra perturbado provavelmente deu ao iryou-nin certeza absoluta de que, sim, ele tinha algo do seu interesse em posse.
— Nós não a trouxemos de volta à vida, se você está pensando isso. Mas… podemos. — A pausa não foi perdida por Sasuke. — Se você estiver disposto, é claro.
Eles podiam? O coração de Sasuke congelou e ele pensou ter sentido gosto de sangue na boca. Talvez tenha mordido a bochecha. Quando Naruto falou sobre isso, ele não levou a sério. Parecia algo impossível. Parecia… um sonho que não levava a nada além de decadência.
Mesmo assim, ele se vê perguntando, com sabor de ferro na língua:
— Disposto… a quê?
Kabuto leva as mãos aos bolsos.
— Há um princípio de que para ganhar uma coisa, você deve sacrificar outra em troca, Sasuke.
É claro. Era do interesse de Orochimaru mantê-lo adequadamente motivado.
— Eu não tenho nada a oferecer.
Sasuke pensa que a única coisa que ele verdadeiramente possui e tem valor são seus olhos. Orochimaru saberia do mangekyou? Ele poderia exigi-los, talvez. A ideia de entregá-los em troca da vida de Sakura é, finalmente, algo a ser considerado. Ele não hesitaria. Se tivesse todas as certezas ele mesmo os arrancaria e colocaria na palma de Kabuto agora mesmo.
Ele ouviu uma risada nasalada e ergueu o rosto, desviando-se do pergaminho por um segundo.
— Você tem sua lealdade para dar. Num mundo como esse, não há nada mais precioso.
Sasuke imaginou se Orochimaru possuía a de Kabuto.
Em vez de respondê-lo, no entanto, o Uchiha pela primeira vez toca o pergaminho. É leve o suficiente para ser estranho ao toque, como se lhe faltasse estrutura. Feito com um papel luxuoso e extravagante muito parecido com aqueles usados em comunicados de nobres proprietários de terras e mensagens do soberano do País. O Uchiha já vira alguns desses na mesa do hokage, sempre priorizados e recebendo lugares de honra em um cesto galvanizado e reluzente.
Este, no entanto, possui a clara assinatura de Orochimaru até nos mínimos detalhes. Seja no entalhe de redemoinhos em alto relevo no papel de seda bordô que o envolve, no brilho do adorno prateado numa cópia fiel de uma serpente que o prende ou no cheiro de papel novo que se eleva de sua superfície.
Sasuke leva as mãos ao anel de prata e desliza-o por um centímetro com o polegar, numa breve e não pensada intenção de desatá-lo.
Seu coração misericordiosamente balança e ele hesita, aquilo que Orochimaru decidiu nomear como um presente não poderia ser menos do que um testamento de dívida.
Uma que ele nunca poderia pagar.
— Um pouco do seu chakra será suficiente para romper o selo — Kabuto o interrompe bruscamente. — Você pode dá-lo ao seu sensei e à sua vila para que eles o analisem ou o destruam.. — Ele suspira, como se realmente sentisse alguma emoção. — O que seria uma pena. Pois tenho certeza que você e Sakura tem muito o que conversar.
