Não há vermelho na sua paleta

Capítulo 11: Medo

As palavras de Kabuto ainda zunem em fragmentos junto a um som agudo no fundo de seus ouvidos, Sasuke mal consegue ouvir as cascas de maçãs agora, embora elas sempre estivessem ali, à espreita, em uma música de apenas duas notas que nunca desaparecia.

Três horas se passam e nem mesmo totalmente sozinho Sasuke sente o impulso impensado e absoluto de abrir o pergaminho. Algo dentro dele grita por não fazê-lo sempre que seus dedos flertam com a possibilidade de remover o anel prateado e espionar seu conteúdo. Um desconforto, como um organismo vivo, assume controle acima da coragem.

Ele imediatamente descobre os grilhões feitos de medo que o seguram. É o lembrete daquilo que ele sentiu naquela noite, que o inunda com estranha parcimônia, como se fosse sua casa e já conhecesse os cômodos, cutucando-o lenta e exatamente onde doía mais. Suas mãos suadas mancham o papel fino do pergaminho.

Sasuke sempre evitou sentir medo. O ódio é normalmente generoso e paciente com ele, como carvão e brasas mantendo o fogo possível de acontecer a qualquer momento, dando exatamente o que ele precisa. O medo é uma onda incapacitante e violenta, humilhante a maior parte do tempo, tornando todas suas decisões meras névoas de pensamentos.

O medo é uma coisa paralizante.

E vem, não satisfeito com sua solidão não imposta, acompanhado da inadequação.

Talvez ele não seja a pessoa certa para isso.

Se havia um ser humano que não merecia ver Sakura novamente era ele.

Naruto faria melhor, certamente.

E Kakashi ainda mais.

Sasuke nunca se sentiu tão podre e desprezível.

Ainda assim, as promessas tentadoras que lhe foram oferecidas naquela noite não se estenderam aos outros. Elas são dele, para fazer o que quiser com elas. E talvez ter Sakura de volta, enfrentar o conteúdo do pergaminho e ver a raiva, revolta e tristeza que viriam dela eram algo que Sasuke precisava lidar. O Uchiha não conseguia supor um cenário diferente.

E se ela o odiasse seria justo, como poucas coisas que ele conhece são.

Sasuke escorrega do colchão ao chão do quarto, segurando o pergaminho agora com as duas mãos e um pouco de desespero. O oxigênio parece chumbo corroendo seus pulmões. Ele desliza a serpente para fora, chiando pelo papel com um silvo baixinho.

Seus dedos, mais uma vez, protelam a tarefa de desenrolá-lo mesmo que não haja nenhum empecilho.

Há muito tempo – e agora isso parecia longe como há uma década inteira – Sakura havia decifrado o enigma na parede e aberto o pergaminho do céu no exame chunin. Não sem medo ou sem hesitação. Ele ainda se lembra como gritou para que ela e Naruto soltassem os rolos quando percebeu ser uma invocação.

Sasuke imaginou se foi assim que ela se sentiu segundos antes.

Se foi difícil a esse ponto: de quase desistir.

Ele se sente tão nervoso que seus olhos queimam com o chakra do sharingan que gira em seus olhos. Não há nada de errado que ele possa ver com o pergaminho e, ainda assim, parece venenoso.

Sasuke tem quase certeza de que vai vomitar o pouco do que comeu no almoço a qualquer momento.

Ele sente uma coceira conhecida na mão direita como se ela estivesse coberta por algo viscoso e quente.

E as cascas de maçãs parecem estar a menos de trinta centímetros de distância dele.

Sensações demais para serem administradas corretamente.

Seu pequeno corpo parece se desintegrar em partículas, como se fosse feito de massa solar e de estrelas. Turbulento e vagante. Remontando-se logo depois.

"…Um receptáculo está sendo projetado. Quando quiser que seja feito… venha nos procurar. Em breve você terá uma abertura."

Seu polegar faz uma pequena abertura na folha do pergaminho quando Sasuke escuta a voz de Kabuto em suas últimas palavras, dobrando-a para o lado.

Ele vê um vislumbre da tinta preta de alguma inscrição complexa.

Sasuke imagina olhos verdes encarnados. Tão cheios de fúria e ódio, tanto desprezo e nenhuma gota de calor. Nada sequer perto do que já foi um dia. Ele nunca achou que olhos verdes pudessem ser tão violentos. E quase pode ouvir a voz dela: O que você fez comigo?

Sasuke leva a mão ao rosto, cobrindo a boca quando sente o gosto da bile subindo pela garganta.

Não — ele diz, mas Sasuke mal tem certeza se há algo realmente sendo dito ou pensado, porque sua voz soa tão fraca e trêmula que não parece ser dele.

Foda-se.

Merda.

Foda-se. Tem que ser feito.

Sasuke se levanta com dificuldade do chão, levando o pergaminho consigo. Era meio da madrugada e há muito Kakashi havia ido embora. Talvez Naruto estivesse dormindo, embora ele duvidasse. O Uchiha sobe sobre a cama e suas mãos tremem quando ele apoia o pergaminho no colchão. Seu coração dói como se precisasse lembrá-lo de sua existência e a respiração… se o ar parecia feito de chumbo antes, agora ele era o próprio magma do fundo das montanhas.

Seus olhos vermelhos brilham na escuridão, inconscientes.

Seus ouvidos são tomados pelos sons dos mil pássaros que estiveram aprisionados na palma de sua mão, por fragmentos de ilusões onde um irmão lhe saudava por finalmente ter olhos iguais aos seus. E a sua frente há apenas o preto e cinza do Tsukuyomi.

A realidade é um fio a ponto de se desmantelar.

E, mesmo assim, Sasuke abre o pergaminho em um empurrão firme. Ele é longo o suficiente para ocupar toda a largura da cama. É tão complexo que o Uchiha não reconhece aquele fuuinjutsu. Mas qualquer coisa que ele pudesse conceber simplesmente se perde quando seus olhos rapidamente captam uma cor.

Rosa.

Rosa pastel.

O rosa que pertencia a Sakura.

Ele vem de um único fio curto de cabelo que segue pelo redemoinho no centro, desenhado em tinta preta, alinhado perfeitamente como parte do arranjo de símbolos.

É suficiente para destroçá-lo e lembrá-lo que o que ele estava prestar a fazer era sério, irremediável. Sasuke se curva em sua direção e mesmo agora seus dedos vão incertos, pairando sobre o desenho num medo muito mais profundo e abismal do que sentir a própria morte chegando.

Ele nunca achou que o tocaria novamente. E dói vê-lo. Sasuke se lembra do cabelo que caiu em seu rosto no País das Ondas, o que ele procurava nas ruas de Konoha no meio da multidão quando ninguém estava vendo. O cabelo que ele tingiu de vermelho.

Não há um pensamento concreto quando Sasuke se força a estender o punho sobre o papel a abrir os dedos aos poucos, tocando a superfície com as suas digitais. Ele permite seu chakra fluir de sua pele para as inscrições pretas abundantemente.

Por um minuto inteiro nada acontece.

Nada. Nada. Nada.

Até que, sem nenhum único som, toda a escrita se recolhe no centro, absorvendo sua energia. De repente, os símbolos se vão, o redemoinho também. O pergaminho está em branco e a única coisa que resta é o cabelo de Sakura, agora solto e disforme sobre o papel.

Sasuke olha nas direções opostas do quarto. Não há nada além dos sons das maçãs.

O Uchiha espera. Por uma hora inteira. Por duas horas.

Ele tenta aplicar mais chakra no pergaminho, mas não há nenhuma reação. O dia amanhece e o tempo continua avançando impiedosamente. Sasuke escuta Kakashi entrar no apartamento e falar com Naruto, indo embora logo em seguida.

E Sasuke se sente enganado. Frustrado. Ele procura com os olhos por uma sombra mal vista, um farfalhar. Qualquer coisa. Mas ele está sozinho como nunca esteve antes.

Perto das oito da manhã, barulhos de pés descalços soam ao lado de fora do quarto. O Uchiha conhece os passos suficientemente bem para reconhecê-los como de Naruto e pode ver pela sombra na fresta da porta que ele está de pé em frente a sua porta.

— Sasuke — a voz do garoto soa baixinha do outro lado. Sasuke usa do resto de suas forças para se levantar e esconder o pergaminho e seu anel de serpente na mochila em vez de respondê-lo. Ele guarda o fio de cabelo no bolso da bermuda. — Você está dormindo?

O Uchiha permanece em silêncio, esperando que Naruto desista e pense que sim.

Mas aquele garoto nunca foi o tipo que estava em paz com o silêncio. Naruto quase imediatamente depois abre a porta e entra. Seus olhos caem sobre Sasuke. Sentado na cama, ele parece estranhamente pálido. Seu cabelo preto apenas acentua a cor doentia de sua pele. Ele pensou nas vezes que viu o Uchiha comer não mais do que algumas pequenas porções e pensou se era isso.

Alguém brigou com o travesseiro a noite toda. E perdeu.

Naruto perguntou-se quão parecido com Sasuke ele próprio estava.

Você está pior, jinchuuriki. Seus olhos estão cinzas. Eles não eram azuis? Sim… azuis como de certo homem. Você acha que quando mastigamos olhos eles estouram ou vazam? Eu nunca os comi separados...

Agora não, kyuubi.

A raposa riu, recolhendo-se em seu próprio mistério.

— Já são oito da manhã — Naruto disse, parado na porta. — Nosso remédio...

Como ele esperava, falar com Sasuke adequadamente ainda era um esforço.

Eles não eram parecidos.

Eles têm muito em comum, mais do que alguma vez admitiram e podiam comparar, mas não eram iguais. Na verdade, Naruto não tem a menor ideia de como classificá-los nesse momento. Houve uma vez que pensou serem rivais. E em outros momentos verdadeiros amigos. E em janelas impossíveis, onde ele enxergou o coração de Sasuke, ele sentiu que em outra vida poderia chamá-lo de irmão.

— Você viu alguma coisa? Na casa? — Sasuke perguntou, no lugar, sua voz soprando sobre seus pensamentos. Ele se levanta da cama e passa por Naruto, checando os outros cômodos.

O Uchiha finalmente enlouqueceu.

— Vi o quê? — Naruto parece confuso. Ele mal conseguia suportar a voz de Kurama mesmo agora. Se pudesse, engoliria o vidro inteiro de comprimidos se isso significasse calar a raposa para sempre. — Sasuke?

— Não funcionou. — Sasuke parece falar consigo mesmo, procurando, sempre procurando.

— Você deve ter sonhado alguma coisa — Naruto arrisca. — Kakashi-sensei deixou algumas compras quando você estava dormindo — o menino indica com a cabeça para algum lugar na bancada da cozinha. — Você… você sabe cozinhar? Sasuke?

Eu não deixaria as facas da cozinha perto dele.

Cale a boca.

Cozinhar?

— É... eu, hmn, não sei preparar o que o Kakashi-sensei trouxe. Por favor.

Por favor? Por que você não lambe o chão dele também?

Eu só quero que ele faça alguma coisa em vez de surtar. Eu não sei lidar com isso!

Você não quer. Seja honesto comigo. Não vou contar a ninguém, mesmo.

A raposa ri sozinha em seu senso de humor imundo.

Naruto descobriu que, afinal, Sasuke tinha algum conhecimento culinário. Não deveria ser uma surpresa. O Uchiha provavelmente não era o tipo que comia rámen ou qualquer coisa conservada todos os dias.

O Uzumaki observa como ele se movimenta devagar pela cozinha, em um modo mecânico e instintivo, e sempre levanta o olhar de volta para o quarto ou outras áreas em aflição. Naruto não se atreve a perguntar muito ou a oferecer sua ajuda, Sasuke parecia menos esquisito se estava ocupado com a atividade, de qualquer maneira.

Ele o vê cozinhar o arroz e separar algumas porções de peixe seco.

Cerca de cinquenta minutos depois, há dois onigiris para cada enrolados em nori.

Naruto os morde quase imediatamente. O comprimido já preparado ao lado do prato. Quando termina o primeiro bolinho, ele o engole sem água. Sasuke apenas belisca o seu, sua mente presa no quarto, no pergaminho luxuoso e as ações que ele deveria ter tomado.

— Você não vai tomar? — Naruto diz de repente, olhando para o potinho com o remédio.

Sasuke franze a sobrancelha. Não havia necessidade de fingir aqui.

— Não.

De alguma maneira sombria, Naruto sente uma mórbida preocupação. Não tinha como lidar com isso sozinho. É você que não pode fugir de mim se não for dessa forma. A voz da raposa já parece cada vez mais distante.

— Tem sido bom para mim. — É tudo que Naruto diz, secamente, mordendo o segundo bolinho, expondo o recheio. — Eu não sei como será com o velho tarado… mas sobre o que conversamos, eu não vou desistir, mesmo que eu não esteja aqui, para onde ele me levar, eu vou continuar procurando uma forma de mudar isso.

Aquilo, no entanto, visivelmente perturbou a Sasuke, ele mal conseguiu esconder o pesar em suas feições. Sasuke pensou o que Naruto diria se soubesse que ele vendeu a alma para Orochimaru. E que não havia resultado em absolutamente nada.

— Eu preciso me deitar — Sasuke disse, enfim, sem mal tocar nos onigiris. — Pode comer o meu.

Ele viu um sinal de dor e rejeição passar pelo rosto de Naruto. Mas sua própria decepção estava corroendo-o a ponto de deixá-lo incapacitado. O Uzumaki não protestou, no entanto, encolhendo-se na cadeira da pequena mesinha para duas pessoas.

Sasuke caminhou para o quarto, fechando a porta atrás de si. Ele deixou-se cair na cama e sua cabeça afundou no travesseiro. Vem até ele a plena desistência e aceitação de que aquele era só um esquema de Orochimaru para tentar quebrar seu espírito ou rir da sua deficiência.

Até que algo tênue pulsa no quarto.

É fraco, mas Sasuke sente. Uma leve noção de uma presença. Então, alguma coisa toca seu rosto. É uma sensação dormente e é leve o bastante para passar despercebida, mas é um toque, ele não pode estar errado sobre isso. Está ali. E é tão familiar que ele pode chorar.

Sakura? — Sasuke pergunta para o nada. A sensação de toque se afasta abruptamente. — Sakura.

E uma mão – ou a sensação de uma – envolve a sua logo depois.

Sasuke imaginou se Orochimaru possuía a de Kabuto.

Em vez de respondê-lo, no entanto, o Uchiha pela primeira vez toca o pergaminho. É leve o suficiente para ser estranho ao toque, como se lhe faltasse estrutura. Feito com um papel luxuoso e extravagante muito parecido com aqueles usados em comunicados de nobres proprietários de terras e mensagens do soberano do País. O Uchiha já vira alguns desses na mesa do hokage, sempre priorizados e recebendo lugares de honra em um cesto galvanizado e reluzente.

Este, no entanto, possui a clara assinatura de Orochimaru até nos mínimos detalhes. Seja no entalhe de redemoinhos em alto relevo no papel de seda bordô que o envolve, no brilho do adorno prateado numa cópia fiel de uma serpente que o prende ou no cheiro de papel novo que se eleva de sua superfície.

Sasuke leva as mãos ao anel de prata e desliza-o por um centímetro com o polegar, numa breve e não pensada intenção de desatá-lo.

Seu coração misericordiosamente balança e ele hesita, aquilo que Orochimaru decidiu nomear como um presente não poderia ser menos do que um testamento de dívida.

Uma que ele nunca poderia pagar.

— Um pouco do seu chakra será suficiente para romper o selo — Kabuto o interrompe bruscamente. — Você pode dá-lo ao seu sensei e à sua vila para que eles o analisem ou o destruam.. — Ele suspira, como se realmente sentisse alguma emoção. — O que seria uma pena. Pois tenho certeza que você e Sakura tem muito o que conversar.