Não há vermelho na sua paleta
Capítulo 12: Estática
O nome dela saiu de seus lábios em uma afirmação inegável.
O toque, no entanto, não produziu nenhum calor.
Havia uma resistência, algo não palpável, mas real o suficiente.
Era como estática, dando uma sensação dormente em sua pele. Sasuke virou a mão em palma, fechando os dedos lentamente, acompanhando seu movimento como se a sensação não bastasse sozinha.
Seu coração se acelera pela segunda vez, o som de suas batidas estouram em seus ouvidos. Ele quer vê-la, ouvi-la. Mas tudo que há é a sutil percepção de sua presença. É diferente da substância de um chakra, denso o suficiente para ser contabilizado, como se pulsasse em segundo plano.
Como um vínculo e um pequeno puxão.
Sakura está ali.
Sakura.
Sasuke cuidadosamente se levanta, sem nunca soltá-la, sentindo que se pressionava com força demais seus dedos apenas atravessavam a resistência em sua palma.
Um pensamento horrível o atinge, o Uchiha pensa se não era um sinal de loucura, seu cérebro convenientemente criando ilusões da única coisa que poderia confortá-lo e rasgá-lo em pedaços com a mesma intensidade.
— Isso é real? — Sasuke não quer imaginar que ele está delirando, ainda assim, a pergunta sai. Como um curativo que precisa ser arrancado de uma única vez.
Não houve resposta imediata.
Minutos se passam até que uma interação diferente surgiu.
Uma pressão em seu antebraço. Uma cadência de sete. Três apertos rápidos acontecem seguidos de uma pausa. Dois apertos rápidos. Pausa. Dois apertos longos. É marcado demais para ser apenas casual. Uma linguagem codificada.
Sasuke pisca, tentando se manter funcional, embora ele sinta seu cérebro poroso e líquido, ao mesmo tempo, desconectando de suas próprias emoções e do mundo palpável ao seu redor. Ele se prende a coisas materiais como o aroma de carvalho vermelho do chão, aos sons de Naruto lavando a louça na cozinha e à temperatura do quarto, numa busca pela sanidade.
Não funciona, o Uchiha quase esperava por isso, sua fragilidade evidenciada e seus olhos parecendo tão assustadores agora, o vermelho deles queimando no quarto enquanto ele retinha as lágrimas armazenadas em seus canais.
Arde, como feitas de ácido, sua visão quase embaçada.
Ele tenta afastá-las porque precisa, acima de qualquer coisa, estar presente.
Mesmo que não haja nada além de instintos e o esqueleto de algum controle emocional.
O toque vem novamente, da mesma maneira. Cadenciado e perfeitamente pausado.
— Isso é…
Morse. Seu pensamento completa, as pequenas ligações voltando a funcionar em segundo plano.
Sakura e ele haviam treinado morse no passado, há mais de um ano. Kakashi não tinha nada melhor para ensiná-los no intervalo das suas primeiras missões rank D e os trancou em uma biblioteca por algumas horas em uma semana para garantir que iriam aprendê-lo.
"Vocês nunca podem saber quando pode ser útil", ele havia dito, despretensiosamente.
Naruto apenas dormia ou lia quadrinhos com épicos que considerava interessantes, revelando seu desgosto pela tarefa chata; e depois que Sakura desistiu de tentar convencê-lo a participar, ela apenas se distraiu ao seu lado com a ideia de aprender o código.
Eram tempos simples. De um sharingan mal desenvolvido, um objetivo bem traçado e de cabelos cor de rosa na cintura. Eram dias sempre raivosos, mas de maneira distorcida eram o mais próximo da felicidade que Sasuke alcançou depois de Itachi.
— Pode fazer de novo? — Sasuke perguntou, tão baixo quanto ele pode, falando com o vazio do quarto. O Uchiha não queria que Naruto suspeitasse que algo anormal estava acontecendo. A etiqueta colocada por Kabuto havia sido removida por ele antes de sua saída, o único vestígio de sua presença sendo o pergaminho.
Então, Sakura faz.
A palavra é simples: [sim.]
Ela é real.
Não há nada além de dor em seus olhos vermelhos quando a ideia começa a se assentar em seus pensamentos. Ela começa, sutilmente, a se transformar em dor física quando a marca da maldição pulsa, queima e punge em seu ombro. Não há nada que Sasuke possa realisticamente fazer para controlar o pânico, tristeza e arrependimento por trás de suas irís.
Há muito a se dizer, há muito a sentir. E o menino mal suporta estar ali.
Sasuke não sabe por onde começar. Ainda assim, ele move a boca, mesmo que pareça colada e cheia de lama, atrapalhando-se com as palavras:.
— Sakura, eu… — articula, sua voz soa além dele, e Sasuke supõe que está dissociando e se perdendo — o que eu fiz…
Os pequenos toques vêm antes que ele termine. [Pare.]
Sasuke estremece. Ela não quer te ouvir, irmãozinho. A voz calma de Itachi aparece e as maçãs se tornam o pano de fundo do seu próprio desespero.
— Eu preciso…
[Não. Agora não], ela lhe diz.
Sasuke se interrompe e seu rosto se contorce.
A consciência de que suas palavras vazias que não significam nada o atinge.
Mesmo que o toque de Sakura seja tão suave, seu significado é cortante. Sasuke luta para manter o controle de sua respiração. Ele não pode dizer com certeza, mas presume que seus olhos verdes refletem toda a decepção, desconsolo e raiva do mundo.
Ele precisava saber. Enfrentar. Ele não confiava em sua interpretação limitada. Sasuke sempre confundiu fome com amor. Ódio com angústia. Solidão com independência. Admiração com inveja. Ele precisava ter certeza de como Sakura se sentia para que pudesse absorvê-lo adequadamente, mesmo que isso significasse ter conquistado seu desprezo.
Então por que ele não conseguia vê-la?
Talvez Sakura não saiba como fazê-lo. Ou talvez ela esteja precisando de respostas.
Um frio passa por sua espinha.
Talvez, ela apenas não queira ser vista. Não por ele.
E essa percepção o atinge.
[Papel.]
Outro conjunto de códigos aparece, no entanto. Sasuke leva um longo momento para compreender e ele se sente apavorado quando nota que ela o interrompeu não porque não queria ouvi-lo, mas porque Sakura provavelmente tem muito a dizer.
— Papel — ele repete, atordoado, dando um olhar à sua mochila. — Eu vou pegar.
Sasuke se sente relutante em se afastar e buscar um pergaminho em branco e lápis. Quando ele volta, ele estende a mão para cima, a palma virada para o teto após se sentar no chão. Ele deve parecer uma figura patética, esperando receber de volta o toque do invisível. Parece passar uma eternidade até que Sakura toca o centro, entre as linhas de sua mão, dizendo suas palavras através de pequenos vestígios de sua presença.
A resposta natural deveria ser, finalmente bem encaixado, o medo, mas, estranhamente, ele não vem. De alguma forma obscura e desconhecida planejada por Orochimaru, a companheira de time que ele matou estava conversando com ele. Isso deveria ser suficiente para enlouquecer qualquer um.
Talvez ele já estivesse. As cascas de maçã nunca foram embora totalmente.
Entretanto, há algo maior, que agita seus ossos e os afunda em uma espiral danificada, levando por um caminho de um misto de emoções que, no grande esquema das coisas, não conversam entre si: ele sente vergonha, tristeza e a incerteza de alguém que não sabia nem por onde começar a dizer alguma coisa.
Quando Sasuke termina de escrever os traços, pontos e linhas no papel. Ele trabalha logicamente para traduzir o texto, temendo o significado de suas palavras a cada interpretação.
[Eu não entendo porque estou aqui.] É a primeira coisa que ela diz.
Sasuke abaixa a cabeça, olhando para as palavras traduzidas logo abaixo da linha de pontos e traços meticulosamente copiados. Antes que possa pensar muito sobre elas, os toques em sua palma voltam rapidamente.
[Estou com medo.]
Sasuke estremece, o lápis borrando o papel em branco. Ele aperta os olhos. A pressão emocional tão intensa que o sharingan permanece em suas íris.
— Eu vou consertar isso. — O Uchiha promete, mesmo que não tenha ideia de como.
Ela demora algum momento para retornar.
— Sakura? — Sasuke pergunta, baixinho.
Os toques voltam. Eles são apressados e incompletos. Sasuke perde alguns deles.
— Devagar — ele diz. — Por favor — acrescenta.
Por um longo minuto, os toques são reduzidos a nada e a resposta demora a voltar.
[Naruto não sente quando eu o toco.]
[Eu não consigo fazer você me ouvir.]
[Não acho que haja algo que você possa fazer. Eu estava apavorada, porque nada do que eu fiz nas últimas horas fez vocês me perceberem.]
O rosto de Sasuke fica em branco.
— Você estava aqui desde o começo? — Ele mal se importa como sua voz sai como um eco rachado.
[Sim.]
Não há necessidade de transferir essa fala para o papel e o Uchiha duvida que poderia sem estremecer.
Sasuke pôde materializar uma Sakura em pânico, gritando por eles, tocando-os sem ser sequer notada. Ele a imagina chorando, desconsolada e incompreendida. Ele leva a mão a boca, sentindo náuseas. Como se não bastasse todo o sofrimento que ele lhe causou, todas as coisas que ele roubou dela... Mesmo tentando remontar o que havia quebrado ele continuamente estava lhe provocando dor e mais dor.
— Eu não sabia que aconteceria assim.
[O vínculo apenas ficou mais forte conforme o tempo passou e eu consegui contato.]
[Eu estou muito confusa.]
Uma sombra recai sobre o Uchiha, seus ombros caindo, intocado pela promessa e esperança. Ele pode sentir, minando como água, a tristeza que estava tão fossilizada despertar e envolvê-lo. Uma parte dele só queria que isso parasse, que Sasuke pudesse encapsular em si mesmo o sentimento que ele passou a noite inteira fugindo e renegando.
— Eu não tenho muitas informações. Não é um jutsu meu.
A expressão de Sasuke se fecha em culpa. Ele deveria saber melhor e, em vez de embasbacado com o juramento atrelado ao pergaminho, ter arrancado respostas claras de Kabuto. No que ele estava pensando? Sakura estava sozinha e não havia nada que ele pudesse fazer sobre isso.
Os toques voltam, tão suaves como desde o início.
Sasuke se esforça para riscar os pontos no papel.
[Não gosto da expressão no seu rosto.]
Apesar disso, ela apenas se acentua.
[Eu me lembro de tudo de antes,] Sakura diz. [Vocês não sabiam o que estavam fazendo.]
— Você deveria me assombrar — Sasuke murmura. Ela não deveria consolá-lo pelo crime que cometeu.
[Eu não acho que sou um fantasma, Sasuke.]
— Então, me odiar.
[Eu não disse que perdoei ninguém, mas o ódio consome muita energia de uma pessoa como eu. Não vale a pena. No que isso muda? Eu parti me importando com vocês e vou continuar assim.]
Sasuke supõe que Sakura estava poupando suas palavras pelo limite imposto pela linguagem, necessariamente sintetizando pensamentos e emoções. Ela não os havia perdoado. Menos ainda havia aceitado sua tentativa de pedido de perdão. Ainda assim, não havia ódio. Era estranho para Sasuke. Na sua concepção, sempre há espaço para ódio.
— Eu destruí tudo.
[Eu não acho que você ou Naruto sejam maus, Sasuke.]
— Também não somos bons. — Se ainda havia algo dentro dele funcionando, o menino usou de todo seu esforço para manter-se no lugar. — Mas essa foi a forma que encontrei de trazer você de volta. Isso tudo... será temporário. — Se tudo que aquele homem disse for verdade.
Sasuke decide, pelo bem e aversão de Sakura ao sanin das cobras, manter em segredo o envolvimento de Orochimaru, distorcendo e mascarando a verdade se fosse necessário.
Ele traria Sakura de volta para Konoha e a entregaria a seus pais.
Restauraria o caos que implementou. Mesmo que ele morra por isso.
E isso nada tinha a ver com algum ato bondoso.
