Não há vermelho na sua paleta
Capítulo 13: Degradação permanente
[Fale-me sobre meus pais.]
[Me diga o que aconteceu depois.]
[Por que vocês estão nesse lugar?]
[O que há com Naruto?]
[Kakashi-sensei parece outra pessoa.]
As perguntas surgem uma atrás da outra. Urgentes, atropeladas e dolorosas. Os pontos e linhas eram cruas e indiferentes, impossíveis de traduzirem os sentimentos dela de maneira adequada e precisa, mas, de alguma forma, como que para suprir a deficiência, Sasuke conseguia reconhecer as emoções conflitantes em Sakura através do vínculo artificialmente criado pelo jutsu de Orochimaru.
Ele tenta – como nunca tentou antes – falar claramente e sem rodeios.
A maioria das respostas é narrável.
Eventos que podem ser colocados em uma linha do tempo, explicados calmamente da melhor maneira que ele pode .
Mas Sasuke estagna quando percebe que não sabe como dizer para Sakura como todos, à sua própria maneira, estavam devastados pela sua ausência, como galhos flutuando na correnteza, afundando, submergindo; sacudidos em todas e desiguais direções.
Sasuke não pode explicitamente dizer que os pais dela mal tiveram paz desde que ela se foi. Que eles não eram eles mesmos. Reduzidos a nada mais do que seu luto em vez de pessoas.
Ele é incapaz de falar à Sakura que Mebuki e Kizashi eram como zumbis nas ruas da vila, divulgando uma verdade, lutando por ela incansavelmente.
E mesmo essas informações se tornam apenas fragmentos desatualizados e incompletos. Kakashi parece esconder deles a verdadeira natureza do que acontecia ao lado de fora do apartamento, maquiando com um véu de palavras macias uma realidade ainda pior que eles não tinham nem ideia.
Sasuke não podia fazer isso com ela.
— Eu vou tentar conseguir informações sobre seus pais.
[Mas será que eles estão bem?]
— Eles se importam muito com você. — Sasuke responde, suas sobrancelhas franzidas, traduzindo as pequenas implicações. Ninguém estava bem. E se houvesse uma possibilidade era apenas um tropeço e uma tentativa.
Demoram-se muitos minutos até que Sakura volte a dizer algo. Ele tenta economizar os traços no pergaminho, comprimindo os sinais em traços menores, o papel quase no fim.
[Como você vai me trazer de volta? Você é só um genin, Sasuke.]
— Eu estou descobrindo sobre isso ainda.
[Você está me escondendo algo. Eu sinto.]
Sasuke se contorce com a realidade.
Como ele poderia deixá-la saber sobre Orochimaru ou o pacto que fizeram? Ou mesmo sobre sua pretensão de abandonar a vila e procurar o sannin das cobras muito em breve?
Ele gostaria de poder dizer, que fosse tão simples apresentá-la ao inferno moral de sua futura e sombria busca desenfreada.
O fardo seria seu, unicamente; a informação exilada em si mesmo, nunca dita.
Ela, Kakashi e Naruto iriam se machucar se soubessem. Tentariam impedi-lo. Ou, ainda pior, pediriam para dividir o seu fardo.
Seja como for, eles sofreriam por seu sacrifício.
E Sasuke já havia feito sua escolha.
Quando estivesse tudo feito, eles poderiam perdoá-lo.
— Eu estou fazendo o que está ao meu alcance, Sakura. — Ele tenta olhar para a mistura agora ilegível de pontos no papel do pergaminho. — Eu não posso pedir que você confie e acredite em mim. Só posso pedir para você esperar.
[Você está sempre sofrendo tanto.]
O lápis quase cai de suas mãos trêmulas.
— Eu matei você. — A voz de Sasuke é grave, há tantos traços de autoaversão que ele soa como um animal ferido.
Ele reconhece um toque em seu rosto, tão súbito que Sasuke recua levemente para trás, sentindo-se indigno, mas o toque persiste, sem nunca abandoná-lo. Junto a palavras reconfortantes que soam como espinhos e aspirinas, ao mesmo tempo:
[Eu sei o que aconteceu com sua família. Sei que sente muito por mim.]
[Mas eu estou aqui, por alguma maneira que você está me escondendo.]
[Eu só posso esperar que você confie em mim de volta para me dizer qualquer dia.]
O conforto em suas palavras deveria ser proibido.
— Eu vou. — Sasuke escolhe cuidadosamente suas palavras, tomando um caminho mentiroso não pela primeira vez: — Qualquer dia.
O resto da manhã é dominado pela leveza de Sakura. Ela guiou-os por outras direções e manteve Sasuke ocupado em pensamentos sobre entender e estudar aquela nova forma de comunicação.
Eles teorizaram que o jutsu não era perfeito ou foi feito para ser gradativo de propósito, com Sakura assumindo independência aos poucos, conforme o vínculo – muito provavelmente formado pelo seu chakra inserido no selo – ficava cada vez mais fortalecido.
Não houve muito progresso além desses, no entanto. Sasuke ainda não podia vê-la ou ouvi-la ainda. E a cada tentativa a ansiedade parecia quase se materializar, pesando em seu estômago.
As perguntas dele para ela, no entanto, ganharam substâncias mais curiosas.
Sasuke agora sabia que Sakura não podia dormir, não tinha qualquer sentido tátil – como o calor do sol em sua pele e o frio do carvalho do chão. A Haruno explicou que se sentia em uma grande piscina de nada e vazio, como um vácuo ao seu redor, em uma Konoha levemente obscurecida por uma bruma, cuja única conexão que parecia palpável eram com suas emoções que pareciam atingi-la em leves puxões e ondulações.
Sasuke queria perguntar se ela podia sair da casa ou se o pergaminho a mantinha geograficamente presa a um raio específico, mas a ideia de que ela não pudesse retornar o fez deixar a ideia de lado imediatamente, assustando-se com a repulsa pelo mero pensamento.
Quando Kakashi retornou, próximo do almoço, ele encontrou Sasuke trancado no quarto e Naruto circulando entre os cômodos, sem conseguir se manter num mesmo lugar por mais que alguns minutos. O Hatake deixou um suspiro pesado sair, batendo na porta de Sasuke.
— Sente-se na mesa, Naruto. — Ele abriu a porta, devagar. Sinalizando para seu aluno rigidamente sentado na cama, com uma mochila fechada próxima de seus pés. — Sasuke, por que você não desfez sua mala?
O garoto demora alguns segundos para associar a pergunta do sensei.
— Eu dormi. — Sasuke mente, se acostumando a tornar um hábito. E não se importa se Kakashi parece acreditar ou não.
— Bom, então venha para cá.
Sasuke se levanta da cama relutantemente, ele consegue sentir o toque de Sakura em seu pulso o tempo inteiro. Ela não diz nada, no entanto. Ele não tem nenhum papel para anotar o código e seria difícil traduzir frases com mais do que quatro palavras em um tempo razoável, mas o Uchiha apenas pode esperar que Kakashi seja rápido.
Na pequena sala, o Hatake indica a cadeira vazia ao lado de Naruto para ser ocupada.
— Conversei com Tsunade sobre dá-los pequenas tarefas que podem ser executadas em domicílio. Acho que ninguém espera que vocês fiquem mentalmente saudáveis apenas olhando para o teto. Então, eu vou trazer alguns trabalhos para que vocês façam e contribuam com a vila.
— Que tipo de trabalho? — Naruto pergunta com os olhos baixos. Kakashi ainda não usava o colete jonin desde que tudo aconteceu. Os garotos não tiveram coragem de perguntar o porquê.
— Trabalho de escritório, papelada, preenchimento de formulários.
— Oh — Naruto suspira. Em outra vida, ele teria gritado sobre como aquilo era tão absurdo. Um ninja como ele ter que fazer trabalho manual… — Tudo bem.
Kakashi não consegue esconder seu olhar cansado e calcificado de piedade. Naruto parece pequeno e indefeso, encolhido.
— Vamos preencher mil papéis bomba, para começar. — Kakashi tira as etiquetas perfeitamente empilhadas em cinco blocos massivos, em branco. — Eu vou mostrar como devem fazer as inscrições. Sejam cuidadosos, ou o jutsu do papel não irá funcionar.
Kakashi entrega um pincel para cada um dos garotos e posiciona o pote de tinta no centro da mesa, desenhando em uma amostra as palavras e símbolos necessários. O pincel desliza fluidamente e, em menos de um minuto, a primeira etiqueta está pronta.
Naruto tem um sorriso pequeno em seu rosto.
— Sakura-chan teria adorado isso — ele diz, inicialmente para si mesmo. Então explica: — Ela sempre teve a letra mais bonita da sala.
Sasuke sente um pequeno aperto em seu ombro. E um puxão no vínculo que lhe dá mal estar.
— Sim... — Kakashi concorda suavemente. E olha no rosto de seus alunos como há dias não conseguia. — Ela tinha uma mania estranha de desenhar… o que eram aquelas coisas? Quando queria marcar algo importante.
— Rouxinóis. — Sasuke responde.
— Não foi esse bicho que entrou no saco de dormir dela sem querer, uma vez? — Naruto perguntou, com nostalgia.
Sasuke estava começando a se sentir sufocado.
Ele sabia o que eles estavam fazendo. Buscando essas memórias, chafurdando o passado como uma maneira de aliviar o peso do mundo sobre eles. Eu não quero isso. Esse tipo de conversa não iria levá-los a nada além do que ao desespero.
— Foi nossa primeira missão de campo. Sakura lembrou de levar repelente, eu havia me esquecido de avisar vocês — Kakashi complementou. — Ela sempre foi… tão atenciosa. Nossa menina.
[Estou aqui.]
Sasuke começou a sentir o desespero dela inundá-lo, as palavras martelando em suas costas em uma rapidez que ele mal podia acompanhá-la.
[Diga a eles.]
[Diga.]
— A… A Sakura-chan…eu… ah — Naruto começou a quebrar, como supôs, e Sasuke olhou alarmado para Kakashi. — Tinha que ter sido eu… a vila já me odeia. Tinha que ter sido eu.
[Fale para eles.]
— Naruto — Kakashi chamou-o, cautelosamente dando a volta pela mesa e ajoelhando-se em frente a cadeira do Uzumaki. Ele tremia, em soluços sem lágrimas. Sons saíam de sua garganta, pura agonia. — Olha para mim.
— Não consigo — seus olhos azuis percorrem todo os lugares que não o rosto de Kakashi. — Por que eu fui tão burro? Ela não merecia isso...
[Fale, Sasuke!]
— Garoto.
Kakashi deixa seus braços envolverem seu aluno, sem palavras de consolo para lhe oferecer.
— Estou aqui.
— Me desculpe por tudo — Naruto passa os braços ao redor do pescoço de Kakashi e o sensei reforça seu aperto.
O menino cai imediatamente da cadeira para seu colo, agarrando-o desesperadamente no momento em que seu choro disforme, finalmente, desaba em lamúrias sem sentido e lágrimas quentes. Naruto segura-se em Kakashi como se sua vida dependesse disso, como a única coisa que faz sentido e é sólida.
— Me perdoe, sensei — ele pede, uma vez mais, não exatamente para Kakashi nominalmente.
Sasuke sente todo seu rosto arder, seus olhos se inundarem, tão incapaz de se permitir sentir dessa mesma maneira.
[Diz logo.]
Ainda assim, ele sente a mão de Kakashi se esticar e segurar a sua, tão forte que Sasuke não faz nada além de retribuir. O olhar do sensei compartilha dos seus sentimentos, dos seus medos mais secretos e de sua dor. Enquanto Naruto treme em seu abraço, o rosto mergulhado no ombro do jonin mais poderoso da vila, não há nada ali além de três indivíduos permanentemente degradados.
Então, os toques de Sakura somem.
E a única coisa que Sasuke ouve é uma voz.
— Diga a eles agora!
Aquela voz.
Sasuke sente todos os pelos de suas nuca se arrepiarem e ele não se importa que Naruto e Kakashi estejam ali quando ele sussurra:
— Eu posso ouvir você.
