Olho Azul 20 Anos Apresenta:

Cada Vez que nos Encontramos,
Cada Vez que nos Separamos


Capítulo 8

Mamoru sacudiu o cabelo assim que saiu do trem, perguntando-se por que havia descido naquela estação. Era como um impulso ir até ali, mas até começar a tocar o apito do trem avisando que as portas se fechariam, ele já se havia convencido a apenas voltar para seu apartamento. Ainda assim, em vez de esperar o próximo trem que logo pararia na plataforma, Mamoru, pôs a pasta do trabalho contra o corpo e passou pela catraca em direção ao bar de Motoki.

Já ouvira o amigo lhe dizer algumas vezes sobre como nas terças-feiras ele ficava a tarde toda dentro do recinto, limpando com cuidado todos os acidentes e incidentes do final de semana anterior. Era uma regra que ele se estabelecera pouco após começar ali, já que o próprio nunca fora muito fã de uma faxina. Por isso, precisava não apenas transformar em um hábito, mas em uma obrigação. Havendo contratado já alguns auxiliares, a ordem para eles era ainda mais forte para o próprio patrão.

Pensando assim, Mamoru nem sequer ligara para Motoki, seguiu direto ao bar para conversar com o amigo. Talvez ele entendesse como algo estava errado em sua vida, de como ele não sabia mais o que fazer dali em diante. Incluindo, como se sentia arruinado tendo se fingido doente pela primeira vez em anos na empresa para não ter mais que ficar no escritório naquele dia.

Desceu as escadas para o subsolo do prédio, onde o Drunk Crown se encontrava, e abriu a porta, percebendo seu peso pela primeira vez após as cerca de cinco vezes que viera ali. Um cumprimento de boas-vindas ecoou atrasado pelo bar vazio, e Mamoru procurou de onde vinha a voz feminina.

Era verdade, Motoki também lhe mencionara que costumava estar acompanhado de uma ou mais pessoas para limpar tudo. Normalmente, aquela pessoa era sua funcionária mais antiga, mas a segunda pessoa, ou terceira, dependendo do estrago, era uma escala aleatória de quem se dispusesse a participar. Mamoru sabia que a voz vinha de Usagi, que devia ter sido a sorteada a fazer turno naquele horário não muito querido pelos funcionários.

— Ah, aí está você. — Mamoru sorriu, após se debruçar sobre o balcão, para achar a moça entretida com um pano e mais um vidro de produto de limpeza para remover sujeiras. — Não deveria prestar mais atenção aos clientes que chegam?

— Eu disse "bem-vindo", não foi?

— Não pareceu muito convidativo. Apenas fantasmagórico.

Usagi pareceu não ouvir. Bem, claramente fez que não ouvira. E continuou em sua empreitada contra um círculo vermelho acobreado no chão bem ao lado do móvel.

— Onde está Motoki? — perguntou Mamoru, sentando-se e pondo seu paletó e pasta no banco ao lado.

— Não te interessa... — A resposta fora pronunciada para dentro, como se ela nem quisesse que ele a ouvisse.

— Ele está na cozinha ou no banheiro? Tá tudo tão silencioso...

— Motoki não está, você vai pedir alguma coisa antes de ir embora? — Usagi estava agora sentada no chão e a saia que usava abria ao seu redor.

— Pode me trazer cerveja?

— Não.

— Como?

— Leia no quadro.

Mamoru percebeu o quadro negro com algumas regras do lugar, incluindo a de que a moça devia estar falando, sobre não se vender bebidas alcoólicas antes do expediente, que nas terças começaria às oito da noite. Instintivamente, conferiu seu relógio e não eram nem quatro. Até para serem quatro horas ainda faltava uma eternidade, então Mamoru agradeceu que a pessoa ali fosse ao menos Usagi, com quem teria a intimidade de insistir.

— Eu não vou sair por aí quebrando o bar, — disse, para logo acrescentar: — E darei uma boa gorjeta.

— É a regra. Agora vá embora e me deixa em paz com esta maldita mancha. Tenho que terminar logo...

— Com pressa, é? Mas não irá a lugar algum, pois o bar não pode ficar sozinho.

— Não vai ficar, eu te trancarei aqui dentro. — Seu olhar era de ódio, apesar de ser brincadeira, ou assim ele imaginava. — Aliás, não está cedo demais pra beber? Se tiver acabado de ser demitido, eu posso abrir uma exceção. — Ela sorriu com malícia.

Mamoru pegou-se a imaginar se ela não fazia ideia de como fizera uma dedução provável. Afinal, por que ele estaria por ali no meio do dia? Ou era apenas o jeito de ela perguntá-lo?

— Eu apenas saí cedo do trabalho; foi um péssimo dia. Tem sido uma péssima semana, na verdade. Não pode abrir uma exceção? Afinal, sou amigo do Motoki e não causarei problemas. Você já me viu beber antes, alguma vez fiquei bêbado realmente?

Usagi mordeu o lábio inferior. O pano sujo foi levado até perto de seu ouvido, e ela respondeu, por fim:

— Assim eu fico numa situação complicada... Eu sou proibida de fazer isso, mas e se fosse para te abrir uma exceção? Motoki ficaria bravo se eu não tivesse discernimento o bastante para saber melhor. — Agora ela passava os dentes no lábio superior.

— Estou perguntando se você, Usagi, me abriria uma exceção. — Decidiu se inclinar em sua direção.

Devia ser a primeira vez na vida em que implorava por algo alcoólico. E confessava que o estava fazendo apenas para implicar com ela, pelo desafio. Havia algo de reconfortante na troca de palavras e, se Mamoru simplesmente aceitasse pedir qualquer outro item do cardápio, o assunto terminaria ali, pois Usagi retornaria à sua tarefa.

Ao mesmo tempo que insistia, não esperava pela concordância.

— Tá certo... — e mesmo assim, ela disse isso.

Mamoru olhou de novo para ela, com a expressão de quem pedia que repetisse o que havia sido dito.

— Tá bom, não precisa implorar por algo assim. — Ela se levantou, jogando o pano com violência em cima de uma das pias. — Parece até que vai morrer se não tomar uma.

Isso lhe deu a sensação de que ela havia desistido com mais paixão de lutar contra a mancha do que de argumentar com ele. Por outro lado, fez-lhe pensar que apenas ele participava do joguinho usual entre os dois.

Mamoru olhou para o imenso copo de cerveja e para a espuma quase caindo pela borda. Então, voltou-se para a jovem, que também lhe dava uma toalha quente.

— Eu devia ter posto isto logo que você se sentou, né? — comentou ela, puxando um cardápio. — Não quer nada pra acompanhar?

— Você está sendo assustadoramente cooperativa.

— Só tô cansada de ficar no chão. — Mostrou a língua. — Não leve minha fofura pro lado pessoal.

Mamoru percebeu-se quase rir em retorno. Mas era como se algo bloqueasse o movimento dos músculos da face, então ele voltou a olhar para a cerveja.

— Acho que vou ficar só com esta por enquanto.

Usagi suspirou e fez as pazes com o pano, sentando-se mais uma vez no chão.

— Mas você tá realmente sozinha aqui? Não tem medo de clientes chegarem? — Ele não queria deixar a conversa morrer ali e apenas ouvir a esfregação junto com o borbulhar de sua bebida.

— Não virá ninguém, só regulares sabem que abrimos a esta hor,a e todos sabem que hoje é dia de limpeza. Temos clientes bem compreensivos.

— Por isso mesmo eu vim, achava que Motoki estaria aqui, — explicou, percebendo que tomara já um quarto do copo, o qual já era maior que o normal.

— Deveria ter perguntado a ele, em vez de fazer viagem perdida. Motoki não virá hoje.

— E você ficará aqui sozinha até fechar?

— Eu não! — Ela sorriu, agora seu olhar era vago. — Tenho um encontro com meu namorado.

Ah. O namorado.

— Aquele estrangeiro?

— Quantos mais eu teria? — respondeu emburrada.

Mamoru riu-se.

— Não me venha dizer que não que esperava que eu sequer tivesse um! Aliás, vamos mudar de assunto. Não tô a fim de falar do Seiya pra você.

— Seiya é um nome bem japonês...

— É o nome do meio dele. E isso não te interessa. — Usagi puxou o copo vazio de cerveja e foi lavá-lo. Percebia-se que já estava acostumada a todas aquelas funções.

— Quando começou a trabalhar aqui mesmo?

— Há quase três meses.

— E por quê? Motoki me comentou algo sobre você estar deprimida, mas, na minha opinião, parece muito melhor que eu, bebendo em plena luz do dia.

Usagi se virou para ele, mas continuava a enxugar o copo recém-lavado.

— Que tal mais uma cerveja? — sugeriu Mamoru, após notar que falara demais. Devia tê-lo interpretado como algum sinal de que o melhor era ter pagado e ido embora atrás de Motoki.

— Aqui está... — disse a moça, mas seu pé esbarrou no plástico do produto de limpeza que vinha usando, e ela pareceu se lembrar de sua grande missão contra a mancha maligna, ao mesmo tempo que se esquecera do comentário infeliz do cliente.

Mamoru suspirou baixo e notou que o segundo copo também já estava na metade. Por outro lado, o tempo havia passado a ponto de já serem quase cinco da tarde. A esta hora, ele estaria terminando suas tarefas, mas decidiria fazer hora extra como qualquer outro na firma. No lugar, estava terminando sua segunda cerveja e esperando que Usagi se desocupasse para pedir a terceira.

Nesse momento, sua mente pareceu voltar um pouco no tempo, e quase pudera ver a jovem à sua frente com duas marias-chiquinhas dançando pelo ar, tal qual muitos anos atrás. Quando pensar nela trazia um grande sorriso a seu rosto.


Usagi pegou o celular, certificando-se de que o relógio na parede não estivera errado, nem mesmo Rei, chegando ali pontualmente às sete e meia da noite. Ela marcara às oito com Seiya em uma estação próxima e precisava sair correndo se quisesse chegar algo perto do horário certo, já que pontualmente seria impossível se ainda estava no Drunk Crown. Ainda assim, estava curiosa com o que acontecia na sua frente.

Acabou por digitar uma mensagem para Seiya: "Acho que vou me atrasar uma hora, você me perdoa?" Sorriu enquanto escolhia o emoticon mais fofo antes de enviar.

— É nisso que dá descumprir as regras. — Rei havia acabado de deixar suas coisas em um canto e ainda conseguira ler a mensagem antes que fosse enviada. Por isso, puxou a outra para dentro da cozinha e a olhava de uma forma ameaçadora, como se estivesse prestes a lhe enfiar os caninos.

— Não tem problema, é só o Mamoru... — comentou. — É até divertido que ele esteja assim.

Espichou a cabeça pela porta da cozinha e percebeu o moço já com alguns botões da camisa abertos e a mão na testa. Olhava perdido para um ponto do bar que apenas ele devia conseguir ver. Mamoru não passara pela fase alegre da bebida, havia chegado direto para a da depressão, com certeza porque já não estava muito bem desde que pisara ali. Usagi continuou a lhe servir as cervejas na esperança de que começasse a falar algo, até o acompanhou uma vez quando o próprio insistira que não queria beber sozinho daquela forma. Mas a camaradagem de bar ainda não funcionara. Usagi contava agora com o momento de distração em que Mamoru parecia já estar com parte do cérebro dormindo para desvendar seus segredos.

— Você é muito inconsequente, bebendo sozinha com esse cara. Seu namorado não vai gostar nada de saber da razão por que se atrasou. Vocês não acabaram de voltar?

Usagi estava consciente que aquela provocação, ao menos, a moça não fizera de propósito. Ainda assim, havia conseguido lhe atingir. Fazia exatamente duas semanas que Usagi deixara o namorado dentro de um quarto karaokê e ficara a noite toda no Drunk Crown cantando e bebendo com Minako. Apenas para ligar no dia seguinte para ele e pedir para conversarem. Seiya ainda estava se mudando naquela semana, mas aceitara marcar imediatamente novo encontro na quinta-feira. E Usagi não queria se lembrar da última noite em que o vira.

Passara todo o final de semana respondendo por alto as mensagens no celular, incerta de como deveria ver Seiya dali em diante. As coisas deveriam ter mudado tanto assim? Não era para ter sido algo mais simples? Foram muitos dias de frustração até acordar no dia anterior e perceber era ela mesma quem estava tornando a situação mais complicada. Por isso, em vez de mandar uma mensagem, ligou para Seiya, disse que estava com saudades e, em resposta, ele disse que queria vê-la. O primeiro encontro após a primeira vez foi algo por que ela vinha ansiando desde o dia anterior. Queria terminar logo com aquela sensação estranha de não ser mais a mesma, queria normalizar sua relação e sua própria pessoa de uma vez por todas. Ainda assim, não importava quão incomum e hilária e até irônica a situação fosse, Mamoru bêbado no balcão à sua frente não era para ser motivo o bastante.

— Você está indo? — perguntou-lhe Mamoru quando se notou observado cada vez mais de perto.

— Só tava imaginando se você tava bem.

— Tô sim. O bar já está pra abrir, certo? E sua amiga já chegou. Apenas vá pro seu encontro. — Agora que ele lhe voltava diretamente o rosto, eram claros os sinais do álcool. Bochechas vermelhas, olhos pouco focados. — Sabe, é melhor eu ir. Não aguentaria mais beber nada hoje... — Pegou a carteira do bolso de trás da calça e começou a puxar notas.

— Eu fecho a conta. — Rei havia chegado, quase empurrando Usagi. Discretamente, fez sinal dev que ela fosse logo.

Usagi passou antes no banheiro e lavou a nuca. Agora nada estava no seu caminho de Seiya, por isso, o frio no estômago retornava. Sentiu o rosto ficar vermelho só em imaginar como eles se olhariam, se alguém ao redor saberia que tudo estava diferente, se tudo realmente estaria diferente. Esperava que não, ao mesmo tempo que uma partezinha dela torcia para que sim. Ouviu Rei conferir o dinheiro de Mamoru enquanto reaplicava a maquiagem no rosto. Estaria com cheiro de cigarro? Mamoru não fumara, mas aquele cheiro parecia permanente no bar. Aproveitou para passar um perfume, não haveria tempo de ir tomar banho em casa, e Seiya já devia saber como era o pós-Drunk Crown.

Saiu para encontrar apenas Rei ali ainda.

— Ele já foi. E nossa, ele não comeu nada enquanto esteve aqui? — Rei olhava para a cópia da nota com o consumo. — Por que não corre e vai com ele para a estação? Ele é seu amigo, afinal.

— Mamoru não é meu amigo, — respondeu, mostrando a língua.

— Amante? Até onde vi, você deu um bolo no seu namorado pra ficar mais tempo com ele.

— Foi só porque... — Desistiu de explicar, não havia palavras a serem postas para aquilo soar bem. E Seiya tinha que entender, aceitar qualquer coisa depois do que ela fizera pelos dois no último encontro. — Mas tem razão, vou me apressar por garantia.

E se despediu passando pela porta.

Continuará...

Anita


Notas da Autora:

Desculpa a demora! Nem vi o tempo passar aqui... Foi mal mesmo, muitos agradecimentos à Mari-Tsuki e a todos que ainda não desistiram de mim!