Olho Azul 20 Anos Apresenta:
Cada Vez que nos Encontramos,
Cada Vez que nos Separamos
Capítulo 9
Não esperava encontrar com Mamoru justo ali do outro lado da saída do Drunk Crown, de pé, olhando para o espaço entre a escada e a parede.
— É pra cima, caso esteja em dúvida, — disse-lhe, dando um tapa nas costas.
— Sabe, eu te vi beijando aquele rapaz naquele dia, bem aqui. Tava só me lembrando disso.
— É estranho ver os outros se beijando e depois ainda comentar. — Abraçou-se fingindo ter sentido calafrios.
Mamoru riu lentamente.
Usagi franziu a testa, recordando-se daquele dia, quando o próprio Seiya estivera um pouco alcoolizado e a fizera rir, pois dissera pouco tempo antes ser mais forte que um japonês. Mamoru estava numa categoria oposta de bêbado, parecia que toda a sinceridade de sua vida lhe vinha aos olhos, e a moça não conseguia evitar não se aproximar para olhar melhor.
— Afinal, o que te trouxe aqui hoje? — perguntou a ele, consciente de que estava perto demais. Consciente de que, naquele momento, ela poderia até beijá-lo, que mesmo alguém como Mamoru iria acabar retribuindo.
— Problemas... — Ele pôs a mão no cabelo, já não tão arrumado como quando chegara. Bastante distante de arrumado, na verdade. — Acho que o pessoal de onde trabalho tá querendo que eu desista da minha vaga.
— Oh... — O que dizer sobre aquilo? Fosse um cliente qualquer do bar, ela sugeriria cantarem algo em resposta aos "canalhas", mas nem estavam mais no Drunk Crown.
Percebeu que ele também não esperava qualquer resposta, pois já subia os degraus. Um por vez.
— Ei, pera. Eu também tô indo pra estação, vamos juntos! — Correu atrás dele, não sem antes prender o pé no degrau e quase cair para trás. Ao menos, Mamoru não percebeu o quase desastre, pois tinha certeza de que nem a bebedeira o seguraria de rir e soltar uma de suas frases presunçosas de sempre.
Estava já sem ar quando o alcançou na calçada da estreita rua paralela à principal.
— É melhor eu pegar um táxi.
Ela o seguiu e esperou até que ele achasse um disponível. Esperou que entrasse e fornecesse seu endereço, que não era muito longe dali. Inspirou fundo e pulou para dentro do veículo, antes que o motorista fechasse a porta.
— É melhor eu te acompanhar. Foi minha culpa por te deixar beber sem comer nada e ainda fora do horário certo. — E olhou para o motorista, que esperava alguma segunda ordem. — Pode ir, por favor. Para esse endereço.
— E seu encontro? Não vai se atrasar? — Mamoru o olhou confuso.
Usagi sorriu satisfeita consigo mesma.
— Falta ainda uma hora para eu estar atrasada, e nem é muito longe de onde você mora.
— Não entendo por que está sendo tão solidária comigo. Não aconteceu nada demais mesmo. Eu só estava precisando espairecer.
— Chegamos ao endereço, senhores, — anunciou o motorista, dando o preço pela corrida. O lugar era ainda mais perto que Usagi tinha calculado, podiam só ter andado no final das contas.
Mamoru lhe deu uma nota de cinco mil ienes e disse:
— Por favor, siga em frente com ela até onde ela disser.
— Não, eu vou subir contigo! — apressou-se Usagi, imaginando o quanto de troco receberia com o tanto a mais que o motorista havia ganhado. Provavelmente uns dois mil ienes. Não tinha muita certeza, Seiya e ela nunca usavam táxi, já que ele tinha sido bolsista do Ministério da Educação até então, e o trem já os levava a qualquer lugar.
— Usagi, eu já sou adulto, sei me virar. Vá pro seu encontro.
— E chegar cedo à toa? Não vamos acostumá-lo mal.
Resignado, Mamoru recebeu o troco de um sorridente motorista. Em que o senhor estaria pensando naquele momento? Que eram dois irmãos? Amantes? Como seria a vibração que Usagi e Mamoru passavam quando estavam juntos?
A porta do táxi se fechou, e Mamoru suspirou pelas costas de Usagi antes de andar para o prédio à frente. Era enorme e... caro, definitivamente caro.
— Nossa, quanto você tá ganhando na sua empresa? — perguntou, mas ele já estava bem mais na frente, passando pela porta, não ia conseguir ouvi-la dessa distância. Sem coragem de refazer a pergunta, ela foi correndo atrás.
Entraram no elevador e ela estudou os botões. Havia mais de vinte andares. Mamoru apertou o número dez e aguardou sem se apoiar no canto, como ela tinha feito no segundo que entrara. Depois, caminharam ainda um pouco até ele parar e rodar a chave na porta, fazendo tudo como se já fosse uma rotina.
— Você tá com dor de cabeça? — concluiu Usagi, depois de tê-lo observado todo o percurso até entrarem na casa dele, e levou as costas da mão à testa dele. Estava quente. — E com um pouco de febre... Que tal eu fazer o chá que minha mãe me ensinou? Sabe, eu não sou de beber, por isso fiquei meio assim nos primeiros dias lá no bar.
— Eu estou bem, vou só sentar no sofá e assistir televisão. — Tirou o sapato, deixando a porta se fechar sozinha com um barulho. O som o assustou, e Mamoru levou a mão à cabeça, xingando baixo. — Sempre esqueço que fecha sozinha.
Usagi riu-se um pouco e observou o cômodo. Era uma sala bem pequena, menor ainda considerando-se que um terço na verdade era a parte da cozinha, separada por um balcão de madeira.
— Você mora sozinho? — perguntou, investigando o que havia de ingrediente para ser usado. Talvez pudesse fazer uma sopa para diminuir a embriaguez.
Ele fez um som parecido com um sim e ligou o televisor com volume baixo, talvez no mínimo do audível. Usagi notou que sua cabeça caía para trás do sofá, já encostada na parede. Seus olhos estavam quase fechados, tremulando levemente. Ele devia estar se sentindo mal demais para dormir e, com certeza, faminto também. Desistiu da ideia do chá e optou por fazer uma sopa. Ainda não sabia cozinhar quase nada, mas aquela sopa sempre a salvara nas manhãs de domingo, quando retornava triturada para casa e sua mãe ainda estava dormindo.
Deixou a água ferver e foi conferir o enfermo, ainda acordado no sofá. Aproximou bem sua cabeça de seu rosto e gritou seu nome, sem segurar a gargalhada enquanto o fazia.
— Ai, Usagi. Não precisava disso. — Ele massageou a cabeça, com os olhos semiabertos. E abriu-os num repente.
Os dois estavam perto demais de novo. E o próprio Mamoru havia se dado conta disso. Ainda assim, ele não se afastou, não desviou o olhar. Era o efeito da bebida?
Mamoru estendeu sua mão enorme para cobrir o rosto de Usagi. Era tão quente, e devia estar ainda mais que o normal devido à febre. A moça deixou-se curvar mais um pouco, jogando parte de seu peso naquela mão.
Enquanto isso, seus pensamentos não estavam em um transe, em vez disso, corriam a toda repetindo o nome de Seiya, de como ela era comprometida, gritando que o outro estava bastante bêbado e o faria com qualquer outra ali. Era diferente de quando ela se entregara ao namorado na semana anterior; não obstante a consciência de que estava para cometer um grande erro, fizera-o por também saber o quanto seu namorado a amava.
Agora, justo quando começaria o dia um da nova fase de seu relacionamento com Seiya, ela havia caminhado com os próprios para os braços de outro homem. Mamoru iria se lembrar nitidamente de tudo no dia seguinte, mas não queria dizer que não se arrependeria daquele comportamento. Era apenas um momento de fragilidade, um desejo por um pouco de atenção naquele apartamento vazio. Seiya também ficara várias vezes assim, bêbado e frágil, quando recebera as primeiras recusas de emprego. Ela nem queria imaginar por quem ou como ele havia sido confortado pelas recusas seguintes ao término de seu namoro.
Certa do próprio erro e quase certa de que ela havia previsto a situação desde que se encontrara com o homem na saída do Drunk Crown, com a bochecha aquecida pela mão de Mamoru, Usagi fechou seus olhos sem se compreender integralmente.
Continuará...
Anita
Notas da Autora:
Eu tô demorando mais que imaginava com esta fic... Pra piorar, eu tô com tendinite e aí acabo ficando com tempo limitado no computador. Claro que... acaba vindo antes a diversão. Foi mal...
Vamos ver se com o feriado aí eu consigo soltar mais coisa!
