Olho Azul 20 Anos Apresenta:

Cada Vez que nos Encontramos,
Cada Vez que nos Separamos


Capítulo 12

— Por que demorou tanto!? — perguntou Usagi, já na entrada seu apartamento, tirando os sapatos.

Mamoru agiu automaticamente, puxando um par de chinelos para visitas e os pondo na sua frente e fechou a porta.

— Como assim demorei? — Estava procurando um relógio quando sua sacada chamou-lhe a atenção. Estava completamente escuro. Por quanto tempo havia dormido?

— Bem, eu tava com o dedo doendo de tocar a campainha. — Usagi havia parado ainda com a boca semiaberta e esticou seu pescoço. — Não acredito que estava dormindo! — Revirou em sua bolsa e estendeu um papel amassado. — Foram mil quatrocentos e cinquenta ienes.

Era o recibo de um táxi. Uma parte de sua mente não se sentia como alguém que tivesse qualquer relação com aquele papel, a outra entrou em pânico.

— O táxi que você me mandou pegar. Mamoru, você tá bem? — Usagi mostrava preocupação genuína com a pergunta ao mesmo tempo em que seus lábios ensaiavam um riso.

— Espera. Eu te mandei pegar um táxi? De verdade? — Saiu correndo até o objeto que derrubara mais cedo. Seu celular, com o qual passara seus últimos momentos de consciência enquanto trocara algumas mensagens com Usagi. Exceto que achara haver sido um sonho. Ele nunca a mandaria sair do encontro para vir a seu apartamento em plena madrugada. Tinha acabado de contar vantagem para si mesmo que não era esse tipo de bêbado. Mesmo que o tivesse feito, Usagi iria ignorá-lo, né? Não daria ouvidos a ele nem quando sóbrio.

Mas lá estava no histórico do aparelho, um convite para continuarem. O quê? Coisas de que se arrependeriam. Não posso agora, mas chego em duas horas. Em duas horas, já vou ter me arrependido. Veremos quando eu chegar.

Percebeu que Usagi esticava a cabeça.

— Não me diga que estava bêbado e não se lembra de nada? — perguntou-lhe. Havia um tom de frustração ali?

— Eu estava bêbado, mas lembro, sim. Apenas não achava que tinha feito mesmo — explicou-se, pondo o aparelho na mesa.

— E o que houve com o jarro? Ouvi o barulho enquanto te chamava. — Ela se agachou, começando a juntar os cacos maiores com as mãos.

— Deixe aí, cuido disso depois. Por que não se senta? Vou trazer um chá... Tudo bem se for gelado?

— Claro. — Ela havia se sentado com cuidado com a longa saia e pondo a bolsa a seu lado.

O que estava acontecendo agora? Ele a chamara, Usagi veio tal como lhe pedira e agora os dois beberiam chá gelado em plenas... Oh, mal era uma da manhã. Idiota. O horário não era o problema! Aliás, havia quanto tempo que não estava com uma mulher? Definitivamente, desde que viera para Tóquio mal chegara perto de uma. Em Nagasaki, os últimos meses foram rodeados de caos, mas isto também descreveria bem todos os anos na cidade. Faria bem a seu corpo estar com alguém naquele momento, mas mesmo bêbado ele já sabia em que resultaria envolver-se com Usagi: arrependimento.

Ela não gostava dele, era a base do relacionamento de ambos. Usagi sempre o odiara e já havia deixado isso claro pouco antes de Mamoru se mudar para Kyuushu. Anos se passaram e agora ela poderia estar a fim de alguma aventura, aproveitar seus últimos anos de faculdade abrindo-lhe uma exceção, mas nunca iria querer nada além. Não quando ela já tinha um namorado sério, um que era estrangeiro. Aquilo tinha que ser um ponto contra Mamoru, com sua cara tediosa, como qualquer outro que ela podia encontrar pela vida. E, de toda forma, estava claro que aquela noite seria algo fora do padrão e não o início de nada que pudesse ser duradouro. E doía perceber a quanto estava disposto. Jogar longe toda a precaução, toda a certeza de que incorria em erro e aproveitar a chance única. Bem, a segunda chance, já que na primeira ocorrera resistência de ambos. Mas mesmo que a quisesse, não fazia ideia de como dizê-lo agora que sua cabeça estava límpida, sem nenhum vestígio das cervejas de mais cedo, exceto pela ressaca.

E, servir chá gelado à uma da manhã não podia ser a técnica infalível de conquista com maior chance de sucessos. Mesmo assim, ele pôs os dois copos na bandeja e os levou até a mesinha da sala. Usagi sorriu, agradecendo, e ficou contemplando-os.

É... E agora? Os dois deviam estar pensando nisso. Talvez não fosse para ser. Ela tinha namorado! "Sim, beba o chá e eu te levarei até um táxi para casa," pensou.

Então, sua mente ficou em branco. Não era a negritude de quando desmaiara no sofá mais cedo. Era um branco muito brilhante que lhe cegara os sentidos por um momento de tantas sensações que lhe passaram pelo corpo quando Usagi se sentou em seu colo no sofá e começou a beijá-lo com força.

Era difícil acreditar no que acontecia. Aquele peso em cima de si, os braços a enlaçá-lo... Era tão incrível que nem sonho poderia ser. Sentia seu corpo começar a agir sozinho, tirando o casaco que ela ainda usava, terminando de abrir a própria camisa, o que Usagi havia começado a fazer sem muito sucesso. E a beijava no pescoço, nos ombros... E na boca, sua boca era tão macia! Precisava de mais. Já.

Quando enfim tirara a segunda blusa e chegara a seu sutiã, começava a acreditar que Usagi não pararia. Muito pelo contrário, ela já havia lhe tirado o cinto da calça e tentava agora abri-la. Mamoru lhe sussurrou no ouvido:

— Vamos para o quarto.

— Onde? — perguntou-lhe e levantou-se em seguida, olhando ao redor. Não ficou muito tempo assim, logo lhe abraçou o corpo, e Mamoru teve que guiá-la pela memória de seu corpo, esbarrando em alguns móveis.

Ela se deitou na cama, tirando a própria saia e puxando o edredom sobre si. Levantou-o apenas para convidar que Mamoru entrasse ali com ela, o que ele fez com um sorriso. Aquilo iria acontecer mesmo. Estavam tão próximos de um ponto sem volta que talvez já houvessem passado dele. A língua da jovem percorria sua boca, e as mãos dele lutavam com o fecho do sutiã, até desistir e seguir para a calcinha, que saiu tão rápido que somente o susto o fez notar porque seus quadris se sentiam incomodados. Ainda estava de calça. Retirou-a no próximo instante junto com a cueca e agora estava diante de um daqueles momentos em que tudo podia mudar. Usagi talvez não fizesse ideia, mas Mamoru quase podia ouvir sinos, perguntando-o sobre que escolha faria, que estrada percorreria para passar por aquela encruzilhada.

Olhou para baixo, Usagi havia percebido sua hesitação e agora o contemplava com uma expressão divertida no rosto. Suas bochechas estavam tingidas no tom entre o embaraço e a vivacidade. Ele a beijou diferente de antes, sem qualquer urgência, queria saboreá-la com calma a fim de registrar o momento com todos os seus sentidos. Cheirou seus cabelos já bastante desalinhados pelo lençol e sentiu a fricção entre seu sutiã e seu tórax. Ouviu sua respiração ofegar.

— Usagi... — pegou-se dizendo sem querer. Não conseguia mais controlar nem mesmo o que dizia, encontrava-se em um estado acima de sua embriaguez convencional e não queria mais sair dele. Nesse momento, como que concordando, a moça o abraçou forte, chamando-o de volta a beijar sua boca.


A luz vinda do lado de fora e alguns passarinhos cantavam. Pensou em se virar para outro lado e continuar a dormir, seu corpo estava tão exausto e dolorido... Mas, por esse mesmo motivo, ela não queria se mexer. Então, por que acordara? Ah, fora um despertador. Um toque havia começado e parado instantes depois. E por que ela sequer teria programado um despertador se as aulas não começavam até a semana seguinte? Mas aquele também não era o som do seu celular.

Ah. Era mesmo. Ela havia aceitado fazer aquilo de que se arrependeria no dia seguinte, como Mamoru havia chamado a noite de ambos.

Ao final, quando seu corpo parecia que criaria vida própria a cada toque, ainda que não viesse de Mamoru, Usagi se vira em uma situação singular. Estava nua ao lado de um homem igualmente nu com quem não podia nem dizer não ter qualquer relação. Ele era mais que um desconhecido. Chamá-lo de conhecido já era diminuir os laços entre eles. Ele era a pessoa que sempre lhe enumerara todas as falhas, defeitos... E que podia fazê-lo, porque sempre agira de forma perfeita. Até aquela noite, talvez. Se bem que a pessoa comprometida ali era ela própria, e Mamoru não tinha nada com isso.

"Não sei qual a etiqueta aqui..." confessara ainda ofegante, antes que ele voltasse a si e começasse um festival de reclamações.

Talvez, ela fosse a única pessoa que após cometer a primeira traição estivesse mais preocupada com não cometer gafes em vez de sentir pena do pobre Seiya, quem a devolvera à estação como um perfeito cavaleiro após pagar o rodízio de doces em que praticamente sobre ela havia comido.

"Etiqueta do quê?" A voz de seu parceiro vira abafada, seu rosto estava enterrado cama, apesar de virado naquela direção.

"Se eu devo cair fora logo, essas coisas."

"Não diga besteiras, vamos dormir..." Mamoru mexera-se um pouco, até se enrolar no edredom o bastante para não puxar o que estava sobre o corpo da outra. Não lhe demorara muito até estar com os longos cílios tremendo em razão do sono.

Usagi também se sentia exausta após trabalhar e ter aqueles dois encontros. Não queria pensar em mais nada agora que tinha permissão para apenas dormir.

Exceto que o dia seguinte agora havia raiado e o despertador do dono da casa o havia acordado. Sentiu o peso de Mamoru mexer-se atrás de si. Ao menos, ela havia se virado oposta a ele durante a noite, não sabia como lidar com a situação de que agora se tornara sua amante. Não havia como desfazer nada. Ela nem mesmo se lembrava muito do que ocorrera, mas nunca esqueceria o momento íntimo partilhado com quem ela não possuía qualquer intimidade prévia. Era absurdamente diferente do que ocorrera com Seiya menos de uma semana antes.

Percebeu que agora Mamoru já estava de pé, andando pelo quarto. Ela abriu parte dos olhos e o notou a seu lado, agachado no pé da cama com sua calça da noite anterior em mãos. Era difícil ter certeza de sua expressão no momento sem se denunciar acordada, mas parecia procurar algo. Então suspirou alto e se levantou. Instintivamente, Usagi cobriu o rosto ao ver a nudez do homem bem à sua frente. Tinha se denunciado ou dava pra pensar que tinha se coberto enquanto dormia? Aguardou algum comentário venenoso, mas nada aconteceu. Pouco depois, a porta do quarto se fechava e ela percebeu estar só.

Sentou-se rapidamente na cama. A calça havia sido posta a seu lado, dobrada com cuidado. Agora, suas próprias roupas sozinhas davam um tom colorido à bagunça do chão de madeira. Não queria se envergonhar daquilo, as dele mesmo estavam iguais até serem parcialmente recolhidas... mas não era só aquilo que a envergonhava. Para começar, havia conseguido quase que desmaiar inteiramente nua ao lado de um mais-que-estranho. E vê-lo igualmente nu levantar-se na sua frente momentos antes não apenas a deixara sem graça, como a fizera sentir-se febril, como se pudesse repetir— Não, como se quisesse repetir o erro daquela noite.

Droga, isso era a definição oposta do arrependimento, né?

Percebendo que Mamoru estava no banho, procurou silenciosamente todas as peças de roupa da noite anterior, chegando até a sala para pôr o casaco e saiu correndo pela porta ainda com o sapato em mãos.

Havia algo de gratificante quando notou que havia conseguido sair de lá sem fazer qualquer barulho e sem ser percebida. Por outro lado, parte sua queria voltar e invadir o banho de Mamoru para continuarem até que ela pudesse sentir-se arrependida de novo. Sua imaginação tinha bastantes detalhes para colorir a cena de quando seu corpo se juntaria de novo ao dele. Se bem que podia apostar que ele tomava banho gelado. Isso não era muito sexy.

Ao chegar à rua, percebeu a calma absurda em que sua mente se encontrara enquanto tentava localizar para que direção ficaria a estação de trem. E, enquanto andava seguindo alguns homens engravatados com pastas de couro, pegou-se cantarolando alguma música antiga sobre namorados que tomavam o café da manhã juntos.

Sua única preocupação com Seiya era notar como o evento da noite anterior havia sido diferente daquele que parecia haver condenado o namoro dos dois muito mais que a traição que acabara de ocorrer. Suspirou e voltou a cantarolar.

Continuará...

Anita


Notas da Autora:

Estava tudo pronto aqui, só faltava publicar... e eu não publiquei. Bloqueei completamente da cabeça tudo aqui e só fiquei focada em escrever, escrever, escrever. Mas do que adianta escrever se vocês nunca têm acesso ao que faço porque EU não dou o acesso porque EU acabo não revisando/publicando... e assim cai.

São as mensagens de vocês que me dão o gás de vir aqui e acertar tudo, de saber que vale a pena a penitência. Obrigada mesmo, mesmo! Thais, Timbi, , Pandora Imperatrix, muito obrigada pelo apoio! E também a você que está lendo sem comentar, espero muito que você exista e que um dia a gente possa conversar e trocar umas ideias. Mas já tô muito feliz se você estiver aí continuando a ler.

Até a próxima!