Olho Azul 20 Anos Apresenta:

Cada Vez que nos Encontramos,
Cada Vez que nos Separamos


Capítulo 13

Mamoru ainda sentia que não caminhava reto ainda quando chegou ao prédio onde se encontrava o Drunk Crown. Fazia já vários dias que queria ir lá, ao menos rever Usagi após aquela estranha noite de terça-feira, mas não o conseguira e tinha certeza de que era por ser um covarde.

De toda forma, muito vinha acontecendo naquela semana e, naquele mesmo dia, ele havia estado por triz de escrever sua carta de demissão, rascunhada anteriormente em sua estação na empresa. Apenas não o fizera porque um assunto urgente surgira e precisava ser resolvido por ele. Melhor colocando, ninguém mais iria se mexer para resolver se ele não o fizesse, mas todos o culpariam na hora de falar para o superior. Fora algo assim na quinta-feira quando Mamoru nem sequer havia notado o aviso de cancelamento de entrega de produtos para uma festa de casamento, revendidos por eles à empresa que organizava a cerimônia. Ele não era o encarregado daquela venda e, mesmo assim, alguém mudara no quadro de caneta o nome de quem estava cuidando do assunto para fazer parecer que era. Custara muito até o mal-entendido ser desfeito, que o real encarregado havia tirado folga no dia e pedira por telefone que Mamoru ficasse cuidando da tarefa. Nunca houvera tal pedido, e se houvesse, não seria a ele e sim a alguma pessoa mais próxima que ao menos tivesse algum conhecimento de tudo.

Naquele dia, novamente, houvera a necessidade de alguém fazer visita in loco, e essa pessoa não trabalhava aos sábados. Normalmente, nesse caso, o superior designaria alguém se já não houvesse um substituto, tendo em vista que em sábado algum o responsável trabalhava. Bem, o substituto ajustado era Mamoru, ainda que ele nem soubesse disso, tampouco o havia concordado. Mesmo assim, tivera que ir ao local com um estagiário apenas e acordar tudo apesar de não haver tido tempo de ler todo o relatório sobre o cliente no caminho. Feliz que tudo houvesse dado certo, o estagiário lembrou que ainda podiam ir à reunião em um bar, combinada dias antes para aquele sábado a fim de comemorar o aniversário de umas moças do escritório, beber e comemorar com todos. Uma reunião a qual Mamoru não havia sido convidado, apesar de até o homem que não trabalhava sábados ter estado presente.

Mamoru abriu a porta do Drunk Crown, funcionários gritando com entusiasmo que ele era bem-vindo. Uma daquelas vozes apenas fez seu coração pular e o moço considerou dar meia-volta. Não sabia ainda como conversar com Usagi após tê-la feito trair o namorado, nem havia conseguido entrar em paz com ele próprio sobre o que realmente acontecera. Ainda assim... aquele era um dia em que precisava se permitir, apenas aquele dia ele precisava estar em um local familiar.

Sentou-se em sua cadeira costumeira, tão isolada que ninguém parecia sequer notar que ainda havia mais uma antes do final do balcão do bar. Àquela hora, ainda existiam dois grupos de trabalhadores animados nas mesas, junto a um que devia ser de universitários. Motoki veio lhe cumprimentar, já com a toalhinha úmida.

— E aí, cara! Como já tá tarde, achava que nem viria hoje. Vai querer beber o quê?

— O de sempre, acho. Traga qualquer coisa pra eu comer também.

— O de sempre e qualquer coisa, né? — Motoki sorriu afetado. — Agradeço como você é específico.

— Vamos, não complique minha cabeça... — Deitou-se sobre o braço por um instante e, em seguida, pôs-se reto como se houvesse tomado um choque. Motoki acabara de passar os pedidos — da forma correta — a uma funcionária. Alguém que não era Usagi, era uma moça alta que parecia ser a de confiança.

Assim que confirmou os pedidos de Mamoru, a moça alta sumiu para a cozinha. Ele pôs os dedos na testa enquanto apoiava o braço pelo cotovelo no balcão. Estava cansado e com a cabeça um pouco tonta devido ao álcool de mais cedo. Antes não houvesse ido à reunião. Qual era o ponto de aparecer em um lugar para o qual não havia sido convidado? Parecera uma boa ideia, mas ele não via nada em comum com aquelas pessoas, tinha acabado só ouvindo o monólogo de uma das mulheres mais jovens do escritório, que provavelmente estava tentando dar em cima dele.

Pouco depois, sua bebida surgiu em cima de um porta-copo no balcão, com dois cabos de canela no meio do copo.

— Um Khalúa Latte — disse alguém.

Mamoru sentiu a corrente elétrica pelo corpo novamente e olhou direto nos olhos de Usagi.

— O frango no espeto virá em breve — ela complementou.

Impossível ela ter pensado que aquele olhar tinha sido para cobrar um prato! Aquela era a primeira vez que se viam... vestidos. Mas as palavras não saíram de sua boca, se era que lá haviam chegado, e Mamoru apenas concordou, observando-a sair de sua frente para conversar com um senhor bem mais velho. Este agora parecia lhe haver pagado alguma bebida e falava bem alto para que brindassem e depois fossem ao karaokê. Mamoru a viu pegar no microfone e teve uma súbita visão de ambos em um motel, seminus, escolhendo uma música no quarto para que cantassem, mas apenas uma parte.

— Argh. — Balançou seu cabelo, ainda um pouco duro pelo gel passado de manhã. Tentou ajustar sem usar espelho e, nesse momento, seu pedido foi trazido pela moça alta.


A porta se abriu instantes depois do dueto de Usagi com o cliente haver terminado. Uma jovem com roupas discretas entrou, olhando ao redor. Era aquele momento em que você não conseguia parar de encarar alguém, pois sentia que aquela pessoa era familiar. Cabelos ruivos cacheados abaixo do ombro, olhos enormes e uma postura de menina rica, mas discreta, diferente da aura emanada por pessoas como Rei.

— Naru! Não acredito! — Usagi gritou por cima do cumprimento de boas-vindas de Motoki e dos três outros funcionários.

A jovem olhou em sua direção assustada como se houvessem acabado de lhe pôr os holofotes e a deixado cega por um instante. Logo, seus olhos brilharam mostrando reconhecer a pessoa que a chamaram e ela pareceu andar até Usagi dando pulos.

— Usagi Tsukino, não é? — perguntou assim que ficou próxima o bastante.

— Sim, exatamente! Nossa, que coincidência você vir a este bar! Há quantos anos não nos vemos?

— Uns dois acho... Desde que nos formamos, talvez.

— Pois é, algo assim!

— É... É seu... namorado? — Naru fez um movimento ligeiro com a cabeça para o cliente de mais cedo.

Usagi balançou todo o corpo em negativa.

— É apenas um cliente, Naru!

— Cl-cliente? — A pequena boca ficou em forma de o minúsculo.

— É, do bar. É que tô fazendo um meio-período aqui, sabe?

Naru suspirou.

— Ah, você trabalha aqui no bar!

Usagi levantou a sobrancelha, mas apenas concordou. Outro cliente a estava chamando, e sábado era péssimo dia para bate-papos, apesar de Rei não estar por perto para recriminá-la. Pediu licença e foi atender o novo pedido.

Quando percebeu, Naru conversava animada com Motoki, sentada em uma mesa afastada. Usagi correu até lá antes que surgisse mais trabalho.

— ...tentou ligar? — Motoki perguntava.

— Mandei duas mensagens. Como ele tá trabalhando, não quero atrapalhá-lo.

— Sendo sábado, ele já estaria aqui... — Motoki coçou o lado do nariz. — Bem, fique esperando à vontade. Apenas cuidado para não perder o trem!

— Aconteceu alguma coisa? — Usagi sentou-se ao lado da amiga, mas Motoki já havia saído para falar com Mamoru, ainda quieto em seu banco. Não, não podia pensar nele agora.

— Meu namorado, ele marcou comigo e nada até agora. Eu estava esperando na estação, mas cansei e decidi vir logo pra cá. Acha que devo ligar? Eu não queria ser chata...

— Por que não pede algo? — Usagi sorriu. — Algo bem caro pra ele pagar depois?

Naru sorriu de volta, aceitando o plano. Ela olhou o cardápio deixado lá por Motoki e pediu.

— Ao menos, fica como desculpa para você vir falar comigo, né?

— Ah, é mesmo! — disse Usagi, correndo para preparar tudo, feliz por ter um destino bem longe de Mamoru naquela noite.

E novamente se pegava pensando nele. Havia encontrado Seiya na tarde anterior antes de ir trabalhar. Ele estava ansioso para seu trabalho começar na semana seguinte e falava de vários planos. Queria muito também que ela fosse conhecer a nova casa assim que ficasse ajeitada, o que devia acontecer logo. Aproveitara a menção para insinuar que ela dormisse lá, dado era bem longe do centro. Dormir não queria mais fecharem os olhos e sonharem sob o mesmo teto. Ao pensar nisso, Usagi não conseguiu se controlar e confessou que talvez precisassem de um tempo, mas Seiya interpretara tudo errado, que ela só necessitava de se readaptar à relação que teriam dali em diante. E Usagi não pôde responder que ela também achava isso de início, mas que agora pensava que o problema não era ela.

Não que ela quisesse Mamoru. Apenas percebera na noite passada com o ele que Seiya não despertava nela as emoções que deveria apenas por estarem juntos. Enquanto com Mamoru, ela sentira o corpo quase explodir apesar de ela estar com um homem que nem amava.

— Ah, Masato! — A voz de Motoki veio bem em seu ouvido e quase a fez gritar de susto, por estar distraída limpando o balcão.

Levantou a cabeça e sorriu para o homem que ainda passava pela porta. Motoki apontou sem disfarçar muito para a mesa de Naru.

— Ela tá brava, hein! — Estalou a língua. — Não se faz uma dama esperar, muito menos de pé.

Naru tomava o suco que pedira, mas não tocara nos bolinhos de polvo que Usagi tinha servido. Talvez por sentir que era observada, virou o rosto na direção de Motoki e seu olhar tristonho se iluminou instantaneamente. Masato se sentou à mesa e baixou a cabeça.

— Espera, a Naru é a noiva do Masato? — Usagi perguntou ao Motoki.

— Pois é. Vocês se conhecem, né? Eu já tinha até esquecido de onde eu a conhecia. Lembro até hoje quando ele a trouxe pela primeira vez e ficamos os dois nos encarando até Masato dizer meu nome e ela me contar de você e tudo.

— Ela era minha melhor amiga!

— Aliás, Mamoru, você também a conhece, não?

Usagi só agora percebia que estava de pé quase em frente a Mamoru. Notou-o levantar a cabeça do prato vazio de frango e assentir uma vez.

— Ela cresceu pra se tornar uma mulher linda — continuava Motoki.

— Assim parece que a menina é sua irmã... — Makoto passou falando, arrancando risos.

— Bem, é a ex-melhor amiga da minha irmã.

— ... de consideração — completou Makoto, que retirava o prato da frente de Mamoru.

Um cliente chegou, e Usagi aproveitou-se para atendê-lo em vez de ficar tão perto do agora amante. Ex-amante? Uma noite amante?

Continuará...

Anita


Notas da Autora:

Quase um recorde com o capítulo novo, hein? Em compensação... meu pulso atacou. Ai. Mas vamos lá!

Até a próxima!