Olho Azul 20 Anos Apresenta:
Cada Vez que nos Encontramos,
Cada Vez que nos Separamos
Capítulo 14
Usagi sentiu uma batida no ombro enquanto terminava de lavar mais copos. Era um dos sinais de Motoki de que estava na hora de ela recolher as coisas para ir embora, cinco horas. O primeiro trem já estaria saindo quando chegasse à estação e caso se atrasasse teria que esperar meia hora pelo próximo.
Olhou na direção de Mamoru tentando ser discreta. Ele também parecia estar se arrumando para sair, pois acabara de receber a conta e já estava com a carteira tirada de seu bolso traseiro. E que traseiro... Droga, não era hora de pensar algo assim. Nunca seria hora enquanto ela ainda tivesse um namorado. Certo, ela podia pensar sobre o traseiro de outros homens, Seiya sequer ligava para essas coisas, mas não sobre o cara com quem ela o traíra, nem precisava consultá-lo para saber disso.
— Usagi, o copo já tá bem limpo. — Makoto tinha vestido um casaco fino, típico da primavera, e a olhava na expectativa.
Não estava encarando Mamoru, né? Só havia se desligado, só isso. Mas não lembrava mais em que posição estava até ser chamada para conferir que não fizera nada tão embaraçoso. Pegou um pano e o passou rapidamente no copo para não fazer Makoto esperar mais, não se importava tanto de perder o primeiro trem, mas não podia fazer com que a outra também o perdesse, como já acontecera antes. Era uma meia hora preciosa de sono, Usagi sabia como fazia falta após uma noite de sábado.
Mas o copo se estilhaçou ao bater na quina da pia quando ela se preparava para guardá-lo. Usagi pulou para trás, tentando não gritar para não assustar os sonolentos clientes ainda no estabelecimento.
— Está tudo bem? — perguntou Motoki, pegando em seu braço. Em algumas das vezes anteriores, Usagi se conseguira um rio de sangue apesar não ter sido um corte profundo nem nada.
— Tá sim... — respondeu desanimada. Três meses ali e ainda quebrava copos daquela forma. Então, correu até os objetos de sempre para poder recolher tudo. Odiava quando quebravam daquela forma, porque os cacos tendiam a voar para lugares imprevisíveis. — Makoto, acho melhor você ir pra casa.
— Ah, tem certeza?
— Não perca o trem por uma bobeira destas! Suas aulas também voltam na segunda, certo? Aproveite o último dia livre.
A moça lhe sorriu e se despediu de todos.
— Não prefere que eu recolha? — ofereceu Motoki, pondo alguns cacos no monte já formado.
— Não, eu que quebrei. Vá fechar todas as contas.
Voltou aos cacos. No início, junto com o pânico de haver se ferido, Usagi sentia-se envergonhada de fazê-lo em um local tão público. Agora só se sentia mal. Suspirou pensando se Mamoru ainda a estava olhando, pois ele com certeza ainda estava na loja quando o copo quebrara. Olhou para cima e lá estava ele, sentado em seu lugar, encarando-a. Droga, qualquer cavalheiro ao menos perguntaria se ela estava bem. Muitos já teriam vindo ajudá-la como Motoki fizera. Ficar só olhando era muito pior que ignorar, pois a deixava nervosa de cometer mais erros.
Ao terminar, passou um pano úmido para garantir que não havia mais nada no chão e mesmo assim sabia que encontrariam cacos pelo bar inteiro na próxima semana, mesmo onde não era para ser fisicamente possível terem chegado. Motoki deveria mudar para copos de plástico.
O ar da noite bateu em seu rosto. Por ainda ser cinco da manhã em final de inverno, o sol não dava sinais de raiar, mas não estava mais tão frio como quando começara no bar e as cerejeiras na rua começavam a desabrochar naquele início de abril. Aquela prometia ser uma primavera mais conturbada que a anterior, quando começara seu primeiro namoro da vida, afinal, a estação mal tinha começado, e Usagi já havia dormido com dois homens, sendo que namorava apenas um. E sequer se sentia mal por ele, apenas consigo mesma por haver feito algo tão errado e não se arrepender apropriadamente. Até naquelas questões ela tinha que ser atrapalhada para de repente fazer sexo com outro? Aquilo não era quebrar um copo, tentou se dizer.
— Bom trabalho! — A voz a despertou do sermão mental que tentava se aplicar. Mamoru estava bem a seu lado, com a mão apontando para um estabelecimento vinte e quatro horas. — Não quer comer nada, tomar um café?
— Acha que já não tomei coisas demais? — Passou a mão jogando os cabelos para trás. — Só quero deitar numa cama agora, Mamoru. — E não discutir a relação justo com o cara com quem transei terça passada, completou mentalmente.
— Que tal a minha?
Usagi o olhou como se acabasse de ver um alienígena. Ao menos, Mamoru tinha que estar pronto para rir alto e dizer não acreditar que ela cairia naquela. Bem, ele estava sorrindo, mas não parecia nem um pouco haver pregado uma peça.
"Nem morta", era o que ela deveria dizer. Era o que constava de resposta padrão para uma cantada daquele nível em qualquer manual. Mas será que depois de já ter conseguido o que queria, um convite daqueles era também chamado de cantada? Por fim, ela aceitou entrar com ele em um táxi até seu apartamento.
No caminho, cada um tinha ficado de um lado do veículo, nem se olharam ou se deram a mão. Pareciam até que trabalhavam juntos ou menos que isso, desconhecidos dividindo o carro ou algo assim. Subiram o elevador seguindo o mesmo comportamento e entraram pela porta com bastante calma. Usagi não queria ser a primeira a entregar o quanto seu estômago formigava em estar no mesmo ambiente com ele e apenas ele. Tirou o sapato da forma mais natural possível e pôs a bolsa na bancada que separava a cozinha da sala.
Inspirou fundo e disse:
— Preciso tomar um banho, você pode me emprestar uma toalha?
— Não, você vai fugir como na quarta passada.
— Tem janela lá?
Ele balançou a cabeça confuso.
— Eu garanto que ainda não sei me teletransportar. A toalha.
Mamoru sorriu resignado e caminhou até onde devia ser o banheiro, chamando-a que o seguisse. Lá, entregou-lhe a toalha, mas fechou a porta sem sair.
— Ainda prefiro não tirar os olhos de você desta vez, cabecinha de vento. — Agora ele exibia um largo sorriso irônico, enquanto se sentava no pequeno banco no meio do cômodo.
— Nunca que vou tirar a roupa na sua frente. — Usagi se virou para a porta, sentindo o coração chocar-se contra seu peito.
Mas Mamoru já a enlaçava, pondo suas duas mãos na parte superior da barriga. Um vento quente veio em seu pescoço:
— E se for assim de costas? — Beijou o local entre seu ombro e seu pescoço, fazendo movimentos circulares com os lábios. Enquanto isso, abriu seu casaco, desabotoou e fez cair no chão a bermuda curta que Usagi usava sobre uma meia-calça térmica.
Ela sentiu o corpo derreter com aqueles toques. Um lado seu queria ser teimosa e não ceder, e o outro argumentava com razão: se era isto o que os dois queriam, o que ganharia bancando a difícil. Estava claro desde que entrara no táxi que não escaparia de uma nova noite, ou manhã, com Mamoru.
Por que ali ela conseguia se sentir tão bem enquanto temia a cada segundo que Seiya simplesmente citasse o tópico? Seria a diversão de fazer algo errado? O fato de Mamoru ser um partido melhor que o namorado? Não, nada disso fazia a mente de Usagi reconhecer como explicação verdadeira.
Aliás, a segunda hipótese era absurda, concluiu, enquanto se virava para enfim beijá-lo na boca. Mamoru era sim muito mais atraente que Seiya, mas não lhe passava confiança. Aqueles encontros eram repentinos demais, era como se fossem virar vapor a qualquer momento, pois Mamoru não era um homem para ela. Não conseguia vê-lo caminhando com ela até um altar, falando em ter filhos, aceitando a organização que ela desse aos móveis da casa. Já Seiya, apesar de ainda parecer estar em um nível acima da própria Usagi, sempre fora um grande amigo que a ouvira reclamar dos professores e até os xingou junto com ela e eles já conversaram sim sobre filhos, nada muito a sério, pois a sombra de que o intercâmbio logo acabaria não permitira, mas nada impedia que o fizessem de agora em diante. Não que Usagi os quisesse no momento. Desde mais nova sequer considerara casar-se antes dos trinta, mas, no ritmo que sua relação com Seiya vinha, Minako mesma já sugerira após descobrir sobre a primeira noite do casal que logo eles acabariam decidindo ao menos morarem juntos.
Então, notou que Mamoru aproveitara sua distração e já despira a ambos por completo, agora tentava fazer que ela se sentasse no pequeno banco.
— O que tá pretendendo? — ela perguntou e se arrependeu em seguida, já que falar tornara seu reflexo mais lendo ao jato de água que veio do chuveirinho bem no meio de seu rosto.
Mamoru gargalhava, enquanto ela tentava ter certeza do que acontecera.
— Ora, seu! — gritou, levantando-se para tirar-lhe a arma, mas no meio do caminho deu-se conta da própria nudez e acabou por levar um novo ataque do chuveiro. Agora, o jato era incessante no seu rosto. — Que espécie de banho romântico é este?
— Romântico? Pensei que era só um banho a dois — respondeu ainda com um sorriso arteiro.
Usagi sentou-se no banco, tentando esconder a nudez com os braços.
— Por que de repente ficou envergonhada? — Ele parou de sorrir e parecia inclinar a cabeça quase como um cachorro que não compreendera a ordem.
— Não foi de repente.
Mamoru se agachou na sua frente e pôs as mãos em seu rosto levantando-o alguns graus. Quando ela o fitou nos olhos, esperando que lhe dissesse algo, o homem lhe sorriu e lhe beijou os lábios com força. E ele tinha razão: aquela era a melhor forma de perder a vergonha. Usagi o abraçou, puxando mais sua cabeça contra si, mas o chuveirinho solto no chão a fez gritar de susto quando o jato de água lhe bateu nas pernas.
— É melhor você tomar banho logo — disse Mamoru, ajoelhando-se para pegar a borracha.
Ele pôs a saída de água em seu ombro, deixando cair lentamente por seu corpo, enquanto a olhava atentamente.
— Eu prefiro me dar banho... — reclamou Usagi, não podendo esconder o rubor da face.
E recebeu a borracha.
— Tem razão, mas me deixa esfregar suas costas. — Já tinha uma esponja em mãos quando o disse.
Usagi sorriu, percebendo que ir para o banheiro antes de tudo talvez houvesse sido uma péssima ideia. Bem, não tão ruim agora que estava novamente de costas para ele moço e sentia seu calor através da esponja nas suas costas. Fechou os olhos, tentando se lembrar de como ele a abraçara no outro dia, de como suas peles se roçaram. Tudo o que causara estranheza quando se tratara de Seiya, deixara-a encantada na noite com Mamoru.
Era surreal como naquele momento ela nem conseguia imaginar que houvesse como impedir que o caso se aprofundasse, que podia simplesmente vestir-se e ir para casa. Já era dia, os trens estavam saindo das estações.
— Que bom que aceitou vir — disse Mamoru bem próximo de seu ouvido. — Eu realmente estava precisando estar com alguém.
— Agora sou travesseiro pra chorar? — Ela olhou para trás rindo, apesar de seu estômago ter se revirado pelo peso das palavras ouvidas.
— Posso me deitar em você e chorar?
— Tá falando sério? Pior cantada. — Agora seu riso era de nervoso misturado a ansiedade. Já ouvira vários problemas e até ajudara apenas servindo como ouvinte, mas ser a confidente de alguém como Mamoru parecia outro nível. Talvez por ele ser um homem tão fechado, ganhar um relato em primeira mão de seus problemas seria o maior dos prêmios. Uma pena Usagi não ter qualquer confiança em poder ser mais que um ouvido já que nem experiência sexual ela tinha para lhe dar uma noite prazerosa — ou manhã.
— Não realmente sério. — Agora era a vez de ele sorrir antes de lhe dar um beijo curto e suave. — Mas eu precisava de verdade estar com alguém hoje. — Então, ele a abraçou forte, pressionando o tórax contra as costas molhadas de Usagi a ponto de ela conseguir até sentir seus mamilos.
Fechou os olhos novamente e inspirou fundo até poder se virar no banco, ficar de frente para ele e lhe dar um abraço tão profundo quanto o recebido, enquanto lhe segurava os cabelos úmidos e lhe beijava o pescoço.
— Minha vez de te ensaboar — disse ela, puxando-o para ainda mais junto de si até sentir que ele devolvia o gesto.
Continuará...
Anita
Notas da Autora:
Até a próxima!
