Olho Azul 20 Anos Apresenta:
Cada Vez que nos Encontramos,
Cada Vez que nos Separamos
Capítulo 25 — Porta Aberta
Ainda estava chovendo, mas pouco. O lugar onde Seiya e ela se sentaram para comer naquela tarde tinha janela para o lado de fora, e na rua nem todos usavam guarda-chuva enquanto andavam de um lado para o outro sem pressa. Até a chuva contribuía para ser um sábado chato.
— Você parece cansada. — Seiya lhe deu um peteleco, puxando-a de volta do reino do tédio.
E ele tinha razão. Usagi estava exausta, apesar de haver dormido por algumas horas no sofá ao lado de Mamoru, enquanto este assistia às notícias da manhã. Um acordo tácito de manter o status quo pusera um fim à conversa série. Logo que terminara seu chá, Mamoru a puxara em um abraço e assim ficaram até o almoço. Depois, ela havia se apressado para trocar de roupa em casa e se encontrar com Seiya naquele dia nublado e úmido.
— Como eu ia falando, o que acha de irmos a um algum lugar com fontes termais na golden week? Tava a fim de fazer algo mais tradicional, já que nas duas últimas eu só fiquei viajando que nem doido. — E riu, parecendo lembrar-se dessas viagens.
Usagi lhe devolveu um olhar confuso. A última coisa que gostaria no momento era de um tempo tão íntimo com o namorado. Gostava muito de estar com ele, conversar com ele, ser mimada, mas não de momentos a sós. É, ela realmente não gostava de ser a namorada dele, apenas que ele fosse seu namorado. Por quê?
— Não se preocupa, eu não vou te tocar, Usagi. — Seiya olhou para o pudim que acabara de chegar à sua mesa e começou a comê-lo pouco a pouco enquanto prosseguia: — Que tal irmos em quartos separados? Você pode chamar algumas amigas, a Minako... Tem até aquela Naru, né? Faria bem a ela. Mas seria estranho se o sujeito lá fosse. — Ele sorriu.
Usagi assente lentamente, mas franze a testa.
— Eles estão juntos de novo; não sei se a Naru aceitaria ir sem o noivo. Aliás, não sei se é o tipo de programa deles de qualquer forma.
— Mas é um programa legal, não é? Eu queria chamar o Taiki também, podíamos tentar mostrar pra Naru que há outros por aí. Pena que ele tá na China. Quem sabe um cara que dá aula comigo lá no curso? Ele é bem maneiro, japonês, mas o inglês dele quase não tem sotaque nenhum! E o Yaten, ele vai, tenho certeza. Vai ser divertido, viu?
Ela baixa a cabeça para o que sobrara de seu bolo e tenta imaginar aqueles dias com Seiya, sabendo que, ao mesmo tempo, Mamoru estaria buscando um jeito de fugir de Tóquio para longe da confusão que era o caso de ambos. Não que Usagi fizesse parte desses motivos.
Naquele momento, bateu-lhe um incômodo. Um desespero. Levantou a cabeça para Seiya e era quase como se visse um estranho comendo com ela na mesma mesa. "Termine, sofra um pouco e logo se recupere," "termine com ele e continue comigo", era o que Mamoru lhe havia dito na mesma manhã.
E lá estava Seiya. Um amigo por quem Usagi tinha grande carinho, mas um homem por quem ela começava a sentir ojeriza. Era uma palavra tão forte, que Seiya não merecia, mas era a verdade. Que amizade era aquela que Usagi queria tanto manter, então? Também era injusto com ele. Seiya merecia encontrar alguém e ter um relacionamento normal, de preferência sem ser traído ao menos uma vez por semana.
Ela só gostaria de não haver começado a chorar naquele mesmo instante em que estava para dizer as palavras finais daquele lindo conto de fadas. Não era o que queria. Chorar fazia parecer que estava se martirizando para liberar Seiya de suas garras. Principalmente porque, na verdade, ela era a egoísta que não conseguia deixar ir um brinquedo que não mais lhe agradava.
Ela nunca iria crescer, né?
A chuva havia aumentado desde que começou a escurecer naquele sábado e agora Mamoru estava deitado na cama tentando dormir. Não tinha como não pensar no estranho relacionamento que vinha mantendo com Usagi, como nunca fizera com mais ninguém.
Era verdade que não teriam futuro. Ela continuaria com aquele estrangeiro pelos próximos meses até perceber sozinha o que ele já vinha lhe alertando: que aquela relação não tinha futuro. Sexo não era algo fundamental, mas não querer fazer com o namorado o que ela conseguia com um quase perfeito estranho como Mamoru era um alerta. Mas que lhe trazia uma esperança — Usagi não estava apenas buscando uma aventura qualquer com ele, talvez também estivesse buscando algum tipo de conforto. Infelizmente, ele não conseguiria ficar por perto tempo o bastante para a ver se tornar disponível.
Mamoru se virou na cama, tentando imaginar como seria caso ele houvesse retornado um ano depois. Eles teriam ficado juntos mesmo assim? Ou Usagi já teria encontrado seu namorado ideal? Ela estaria já no quarto ano, quase para se formar e procurando um emprego. Talvez não possuísse tempo nem para um caso.
Ao chegar a essa conclusão, Mamoru percebeu que retornar para Tóquio não havia sido tão ruim assim. Mesmo que por tempo limitado, pudera estar com Usagi, tê-la em seus braços. E ainda não a tinha perdido. Era certo que seu futuro no momento só possuía duas direções que não cruzavam com ela: ir para Nagasaki, ou ficar com Rei Hino, mas ainda possuíam algum tempo juntos. Talvez até junho? No mínimo, até a golden week. Poderiam até ter todas as férias de verão, quem sabe a convenceria a tirar uns dias com ele em um local distante daquele namorado? Usagi não imaginava, nem lhe indagara por que não havia contactado o chefe de Nagasaki antes quando todos os problemas começaram, mas estar em Tóquio só seria realmente insuportável quando ela não deixasse mais o cheiro de seu xampu no travesseiro de Mamoru.
Exatamente porque ele estava pensando assim era que suas ações foram apenas reflexivas ao abrir a porta de seu apartamento para uma Usagi encharcada de pé no corredor.
— Você não disse que tinha guarda-chuva? — perguntou-lhe ao vê-la entrar, e a segurou nos braços. Sua pele estava gelada, envolta em uma camada de água.
— Mamoru... — Apertou-o com força. — Eu terminei. Nós terminamos...
O que fazer quando uma garota chorava tão forte junto a seu peito? Sempre que Mamoru via pessoas chorarem, e seu impulso era o de deixá-las sozinhas até se acalmarem. Ele não era bom em consolar e normalmente não se importava o bastante para sequer tentar isso. Adicionalmente, sabia por experiência própria que abraços, carinhos, palavras apenas faziam a pessoa chorar com mais força, perder o controle, como agora quando ele a abraçou. Ainda assim, Mamoru não pensava muito enquanto a segurava mais forte, como se Usagi pudesse desaparecer dali. Será que parte dele não creditava naquilo? Que era apenas ilusão?
— Mamoru... — O som veio abafado pelo tecido de sua própria blusa de dormir.
Usagi se afastava dele.
Quando achou que ela o empurraria longe, recuperando a consciência, ela fez o oposto, beijando-o com força, tanta que seus lábios doíam com o toque. E ele correspondeu. Não em força, mas em intensidade. A percepção de que Usagi estava nos seus braços parecia enfim gerar reações de seu corpo que nem ele conseguia explicar.
Usagi se afastou de novo. Seus olhos estavam com lágrimas.
— Que tal apenas dormirmos? — Mamoru pensou melhor, a sanidade lhe retornando apesar de aquela luta para sufocar o próprio desejo lhe deixar o corpo dolorido. — Melhor, vou pegar uma toalha e alguma roupa. Você toma um banho enquanto esquento um leite para te aquecer.
As mãos dela foram até seu peito e agora seguravam firme o tecido da blusa.
— Faça amor comigo — pediu com a voz rouca.
Mamoru estudou-a, sentindo sua garganta fechar dolorosamente. Aquela não era a hora de sexo, ele não queria ser a transição. Não dessa forma tão escancarada. Transições não dão certo, todos sabiam disso. Até porque transições levam a outros, por isso são chamadas assim. Caso cedesse e fosse para a cama com Usagi naquele momento em que ela chorava após enfim ter terminado com o estrangeiro, Mamoru estaria apenas lhe dando uma cama quente para chorar, associando-se ao relacionamento anterior. E isto ele vinha evitando a todo custo. Era verdade que tinha sido ele mesmo quem lhe sugerira terminar, mas foi como amigo quando ela havia procurado um conselho. Era a mesma posição que Mamoru queria manter ali, a de apoio amigo. Não a de uma transição.
Como Mamoru demorou a dar qualquer resposta, Usagi prosseguiu com as mãos agora no rosto do outro:
— Ao menos, finja fazer amor comigo. — Beijou-o de leve. — Não sexo como sempre. — Seus lábios agora roçavam a cada palavra. — Faça amor comigo, Mamoru.
Era como se sua mente voltasse a se dissolver. Toda sua resistência a não se tornar a transição sumia com aqueles semibeijos. Usagi não facilitava, acariciando sua nuca, sua bochecha e agora o beijando de verdade, mas ainda com leveza. O corpo de Mamoru estar em um torpor. Se antes ele teve que conter os próprios desejos, agora não era capaz de sentir mais nada. Apenas os toques de Usagi contra sua pele, os lábios contra os dele próprio.
Sua posição parecia injusta. Quando começou a reagir, não mais o fazia por desejá-la simplesmente. Era mais complexo, mais estranho. Ele a amava.
Ao recuperar o próprio domínio, ele estava em sua cama, e Usagi sorria para ele. Mamoru tentou replicar o gesto, mas não conseguia, estava emocionalmente exausto. Sentiu a moça soprar seu rosto e notou que o sorriso se transformara em uma travessura. Começou a se mexer, para se ajeitar na cama, mas os braços de Usagi o abraçaram com força, puxando sua cabeça para o pescoço.
— Fique assim, por favor. Só mais um pouco, até eu dormir.
— Mas é desconfortável assim — respondeu ele, levantando a cabeça mais uma vez, com medo de perder o equilíbrio e acabar por machucá-la apenas com o peso do próprio corpo.
Usagi o olhou de volta sem esconder a decepção nos olhos. Mamoru segurou um suspiro de resignação e enlaçou a cintura da jovem, agora virando o próprio corpo. Em poucos segundos, a posição havia se invertido e um peso confortável estava inerte sobre ele.
— Se não for desconfortável para você, podemos dormir assim — disse ele, levando a mão até os cabelos dourados na cabeça de Usagi, que se haviam se espalhado sobre os dois e a cama.
— Mas eu não era tão pesada que afundaria um navio ou algo assim? — perguntou a moça, começando a se ajeitar para dormir ali. Devia ser alguma citação dele próprio, de muitos anos antes.
Mamoru sorriu de leve, seguindo com o movimento naqueles cabelos macios, ajeitando-os um pouco. Balançou a cabeça.
— Quanto tempo será que vai demorar? — perguntou Usagi, não parecendo haver percebido sua resposta. Ela agora estava como se a desenhar figuras no peito de Mamoru. — Foram dezenove anos ou algo assim para o meu primeiro namorado. Mais cedo que sua previsão de nunca, mas quanto mais será que demora? Pra alguém gostar de mim ao menos?
Mamoru dividiu-se entre seu eu de sempre, que pensou sobre a situação e sopesou as consequências, afinal, já havia feito o que era definitivamente o passo errado. E aquele que respondeu antes que a primeira parte decidisse como prosseguir:
— Seja minha namorada.
Usagi usou as palmas das mãos para se levantar e olhá-lo nos olhos. Sob aquela pressão, Mamoru quase disse ser brincadeira, como ela parecia esperar que ele fizesse pela expressão que lhe mostrava naquele momento. Entretanto, ele conseguiu manter a expressão firme.
— Já estamos quase lá com esta amizade colorida, né?
— Não sei o que de amizade nós temos que vivemos na cama.
— Não é verdade. Já fomos ao parque, à praia, ficamos no sofá...
— Sim, programas número um na lista de lugares para ir com amigos. — Ela se virou até a cama e lá se ajoelhou. — Eu sei da sua futura noiva. Eu acho que é uma péssima ideia começar um namoro com data de vencimento. Você também não entendeu o que eu disse; o Seiya realmente gostava de mim e é isso o que eu quero.
Mamoru sentou-se na cama e ajeitou os próprios cabelos, já colados em seu rosto suado.
— E eu só gosto de mentira? — perguntou. Agora não era mais a vez de continuarem a brincar de estarem em um filme de Hollywood. Eles eram pessoas com sentimentos. — Sou eu quem estou renunciando à parte de você gostar de mim, não é? Tem ideia de como é uma ideia ruim se envolver com alguém que acaba de terminar com outro? Ainda assim, aqui estou perguntando se você aceitar ficar comigo. Chega de encontros à meia-noite. — Não que ele quisesse mesmo acabar com aqueles encontros, não era tudo ou nada. Mas agora que já o dissera, era tarde demais e todas as fichas foram postas à mesa. Não. Havia ainda mais uma, lembrou. — Foi você quem me rejeitou primeiro e agora está falando como se aquele cara fosse o único em toda sua vida que já gostou de você.
— Eu falo assim do Seiya, porque é a verdade.
— Diga isso pra outro. É bem interessante que você tenha retomado sua amizade com aquela ruiva, porque ela mesma te lembrará de como você me rejeitou anos atrás.
— Como eu o quê? Está falando da Naru?
— Então, é verdade. — Mamoru sentiu a própria cabeça cair até seu queixo bater no peito. — Você nem sequer se lembra de ter me rejeitado.
E se levantou.
— Aonde vai? — Usagi indagou, seus olhos pareciam enormes, acompanhando o movimento do outro pelo quarto apenas iluminado pelas luzes que passavam pela cortina fechada.
— Tomar uma ducha e dormir na sala.
— Você me propõe em namoro e vai dormir no sofá? — Por trás do sarcasmo, havia algo mais que Mamoru não conseguia distinguir.
— Eu te proponho em namoro e te dou um espaço para pensar. Além do mais, você precisa dormir. Vou separar uma roupa confortável, tome um banho quente também e descanse.
Ele sabia que seus olhos o seguiam com algum desespero, como um filhote abandonado na esquina pelo próprio dono. Desta vez, pela primeira vez na noite, precisava manter sua sanidade e dar um espaço entre ambos. Mamoru já havia apostado alto demais com muito pouco em mãos para oferecer; ele não tinha coragem de ver as cartas de Usagi ainda.
