Olho Azul 20 Anos Apresenta:

Cada Vez que nos Encontramos,
Cada Vez que nos Separamos


Capítulo 26

Usagi acordou no dia seguinte com o cheiro de comida. Ela havia deixado a porta aberta na esperança de que Mamoru viesse lhe abraçar, mas não aconteceu. Contudo o aroma brincou com suas narinas e chegou a seu estômago, surtindo o mesmo efeito. Certo que ele amava comer. Mas ela gostava ainda mais de comer o que Mamoru lhe fizesse, ainda se ele encomendasse de alguma loja de prato feito da esquina, a ideia de dividir uma refeição com ele a animava. Mas antes de se deixar levar pelo impulso de seguir o rastro da comida, recordou-se da estranha conversa da noite anterior. Nunca teria esperado um pedido de namoro daquele homem. E, de certa forma, ainda tinha vindo com uma declaração tardia. Como assim em algum momento Mamoru havia gostado dela? E como foi que ele pensava já ter dito isso a ela?

Um vulto surgiu à porta, mas Usagi não precisava abrir muito os olhos para adivinhar quem fosse.

— Vamos almoçar? — Ele não se aproximou, nem parecia haver entrado no próprio quarto. — Acho que você já deve ter dormido por umas dez horas, cabecinha de vento. Não morreu de pneumonia durante a noite porque ouvi os roncos.

— Estou indo... — respondeu. Percebendo a mentira que ele acabara de contar, ela sentou-se na cama e se preparou para se defender da acusação infundada, mas tarde demais. Mamoru não estava mais ali.

Resmungando, Usagi foi até o banheiro e escovou os dentes com o quite que carregava na bolsa, que ela havia recuperado do balcão da cozinha na noite anterior enquanto Mamoru dormia encolhido e nada confortável no sofá.

Enfim desperta e com hálito decente, Usagi o encontrou já à mesa, parecendo estar apenas esperando que ela se juntasse a ele.

— Sobre ontem... — Usagi disse, buscando as palavras.

— Vamos esquecer aquilo. Eu menti sobre pararmos de nos ver, então, vamos esquecer o resto também. O que mais aconteceu foi há tempo demais, não faz sentido eu esperar qualquer coisa mais daquela declaração. — Mamoru começou a comer.

Eu não menti. E sei que me lembraria de uma declaração. Não menti ao dizer que Seiya foi o primeiro a gostar de mim, Mamoru.

— Bem, se eu gostei antes... Vocês sequer se conheciam àquela época, certo?

— Tá, mas eu nunca soube, já te disse. Então, não conta.

— Por que não pergunta à sua amiga? Pergunte a ela por que ela te perguntou e ainda me disse a resposta bastante clara de como... Bem, de que você me rejeitou. Tal como eu já imaginava que faria.

Usagi baixou a cabeça para o porco à milanesa à sua frente. Estava com fome, mas parecia errado comer ainda. Ainda mais um prato que Mamoru tinha preparado.

— Olha, eu quero que você esqueça — repetiu Mamoru. — Não sou eu o maior interessado? Digo, não sobre o que lhe pedi. Apenas sobre essa declaração, nem fui eu mesmo quem te falei e já foi respondida apropriadamente. Sobre o que lhe sugeri, eu preferiria que você pensasse e gostaria também de uma resposta.

Ela se fixou nos olhos dele, mas logo percebeu do que estavam falando.

— Estava falando sério sobre namorarmos? — perguntou, sentindo as bochechas queimarem ao mesmo tempo em que fez.

— Por que não? Não precisa ser algo forte, apenas passarmos um tempo juntos, como viemos fazendo. Mas sem terceiros. Sem você acordar aqui e sair para ver outro. Mas não responda. Agora é hora ainda pior que ontem para isso. — Mamoru sorriu calmamente. — Coma sua refeição e pense. Até lá, vamos apenas continuar como estamos. O que acha?

Usagi assentiu e enfim conseguiu levar o pedaço de carne à boca.


Não obstante o pedido de Mamoru para que ela esquecesse, não obstante ela mesma se pedir para não pensar em algo que já havia passado, Usagi não conseguia deixar de pensar na tal declaração. E se ela não podia conseguir mais detalhes do envolvido, ao menos, havia outra pessoa que era para saber. E quem sabe, até mais?

Conferiu seu celular no caminho para Motoki. Como ela não trabalhara no sábado, havia todo tipo de mensagem em seu celular. Duas de sua mãe perguntando a que horas ela chegaria pela manhã, o que a fez perceber que havia dormido duas noites seguidas na casa de Mamoru. Mais algumas de Minako relatando haver saído com Yaten na sexta, mas Usagi sabia que foram acompanhados por Seiya e mais algumas pessoas. Uma do próprio Seiya logo após terminarem, perguntando se ela havia chegado bem e para lhe ligar assim que pudesse. Usagi suspirou impotente com essa. Antes que se preocupasse mais com o que fazer sobre isso, uma nova mensagem de Minako chegou, perguntando onde ela estava. Grata pela distração, respondeu-lhe prontamente que a caminho do bar. Então, lembrou por que pegara o aparelho no início e mandou uma mensagem para Naru: "podemos nos encontrar amanhã?" O aparelho começou a tocar no instante seguinte.

Eu posso ir te ver hoje — disse Naru quando Usagi a atendeu, já descendo na estação.

— Hoje eu já estou chegando no Motoki... Não vou poder ir.

Então, eu vou até lá.

Usagi pensou. Rei não estaria trabalhando, o que evitaria desconforto. E quanto mais rápido resolvesse aquela questão sobre Mamoru, mais rápido conseguiria se acertar com o próprio — ou assim esperava. Por isso, concordou.

Menos de meia hora após chegar — fantasticamente na hora — ao Drunk Crown, Naru apareceu com a expressão de quem precisava resolver um quebra-cabeça. Isto espantou Usagi. Mesmo sendo ela quem tinha um mistério e tanto a solucionar, vinha só arrumando os copos simplesmente por não ter mais nada para fazer naquele início de noite de domingo. Motoki nem estava lá e Makoto só apareceria após as oito.

— Vim logo que pude — disse Naru, sentando-se ao balcão.

Usagi perguntou-se se não seria sua primeira vez naquela parte do bar. A imagem que tinha de Naru era dela sentada a uma das mesas, com a postura bonitinha como estivesse num desses cafés chiques.

— Precisamos muito conversar, não é? — Naru perguntou.

A sobrancelha de Usagi se ergueu tanto que poderia ter passado de sua testa.

— Conversar? — repetiu lentamente, encucada com o quanto Naru estava indo direto ao assunto. Teria Mamoru já falado com ela? Ele não precisava ter feito isso. Na verdade, nem deveria. — Como ele descobriu seu número? — Usagi perguntou diretamente.

Era a vez de Naru franzir a testa. Logo, sua expressão passou a revelar alguma hesitação e até culpa.

— Nós nos vimos ontem na rua, enquanto Masato e eu fazíamos compras. Foi quando ele me contou... Bem, eu dei meu número depois, caso ele precisasse de algo, só isso. Isto quer dizer que já está tudo bem com vocês?

— Ontem? Na rua? — Usagi sentiu o queixo já caído. — De madrugada?

— Não, de tarde! — Naru baixou a cabeça sem graça. — Vocês se viram de novo depois, então? — E sorriu um pouco. — Fico feliz. Mas se já está tudo certo, por que você queria falar comigo?

— Exatamente porque não tá tudo certo, né? Naru, por que nunca me falou que ele gostava de mim!?

— Quê? — A expressão da amiga era vazia. E confusa ao mesmo tempo. Mas logo se recompôs. — Não é óbvio que ele gosta de você?

— Óbvio? Como pode ser óbvio em um sujeito que nem deve saber meu nome de tanto me chamar de cabeça de vento gostar de mim? Ou ter gostado. Afinal, já faz o quê? Cinco anos?

— Cinco? — Era visível o esforço de Naru em parecer calma, mas também em vão. — É impressão minha ou não estamos falando do seu namorado?

Oh. Mamoru não teria lhe pedido em namoro se Usagi não houvesse terminado. Ontem, no final do horário comercial, Usagi simplesmente vagara como um fantasma e depois de enfurnara em um restaurante simples até que fechasse às onze. Tinha sido lá que ela acabara abandonando seu guarda-chuva sem perceber. Somente depois disso que Mamoru soubera do fim do namoro com Seiya. E somente por isso ele lhe pedira em namoro. Naru não os chamaria de namorados se o tivesse visto de tarde, certo?

— Você tá falando do Seiya? — perguntou Usagi, fazendo força para pronunciar aquele nome.

A moça à sua frente assentiu várias vezes.

— E de quem você estava falando, Usagi? Quer dizer que houve uma razão para vocês terminarem, né? — As mãos de Naru foram à boca. — O amigo do Motoki!

Usagi não sabia se estava brava pela rapidez com que Naru adivinhara ou envergonhada por haver tido sua traição descoberta. E exatamente por alguém quem sofria como o lado traído. Pior que Usagi sabia tão pouco sobre Masato, que ele até poderia estar mais certo ali que ela mesma, já que Naru descobrira tudo e mesmo assim continuavam juntos.

— Eu estou certa, né? — Naru havia interpretado o silêncio de Usagi como uma confirmação, Usagi podia jurar que ela parecia quase feliz. Só que não fazia sentido.

— Por que você parece feliz, Naru? — Usagi sentiu um acesso de choro, mesmo sabendo que não era a melhor situação para uma reação dessas. — Não sou nada melhor que o seu noivo... fazendo o Seiya passar por isto.

Ela levou um dedo aos lábios e respondeu despreocupada:

— Bem, você terminou com o Seiya né? O Masato também. — Então sorriu, nitidamente pensando no noivo. — Eu nem pedi nada, mas ele me garantiu que terminou com ela. Não esperava algo assim, apenas que nunca mais tocássemos no assunto.

A imagem da tal moça de cabelos curtos veio à mente de Usagi. E tinha rosto de Ami, a amiga de Rei.

Após ouvir daquele desenvolvimento na história de Naru, Usagi não teve coragem de voltar ao assunto sobre Mamoru. Ainda que Naru parecesse aprovar o novo relacionamento, era quase como se ela aprovasse Ami e Masato. Em outras palavras, ela apenas estava se esforçando demais.

Outra razão para ela não conseguir mais esclarecer aquilo foi a porta do bar se escancarar. Minako apareceu gritando ela mesma que fosse bem-vinda antes que Usagi o pudesse fazer.

— Aí está você! — disse Minako, acompanhada por... Não, arrastando Yaten pelo braço. E continuou: — A gente tá querendo reservar um hotel com piscina natural. O Seiya te disse, né?

Naru lançou aos dois olhos esbugalhados, enquanto Usagi mordia seu lábio inferior. Não havia como mentir em uma situação daquelas.

— Nós terminamos, Minako.

E tudo o que ouviu em resposta foi apenas um "oh", enquanto Minako tomava um banco próximo a Naru. Yaten foi quem mais demonstrou surpresa.

— Ele não me disse nada... — disse, mantendo-se de pé. — Estávamos falando do hotel anteontem quando saímos e nem falei com ele desde então.

— Então, ninguém falou com o Seiya? — foi Naru quem o interrompeu. Em seguida, olhou direto para Usagi. — Oh não, você precisa ligar para ele! Na verdade, eu já tentei e ele não atendeu. Por isso queria conversar contigo. Usagi, ele tava horrível ontem quando o vi... Aí eu fiquei bem preocupada. E se...

— Não diga algo assim! — gritou Minako.

— Vou tentar ligar... — Yaten disse enquanto pegava seu telefone do bolso. Parecia o único que não tinha se desesperado.

Um silêncio se seguiu até que ele desligou a chamada, balançando a cabeça. Minako fez o mesmo com o próprio celular, mas o resultado também não se alterara. Naru também tentara mais uma vez ao mesmo tempo e foi a última a olhar para Usagi.

— Ele está bem, tenho certeza — disse com a voz trêmula. Ele estava, né? Ele estava bem ontem, na medida do possível. Por que não estaria agora?

Desistindo de ficar só nas cogitações, Usagi pegou o celular da parte de dentro do balcão e mostrou a todos que estava ligando. Vários toques se sucederam, um parecendo mais distante do outro, apesar de provavelmente ser apenas impressão, ou pelo aumento de cenas trágicas que passavam na frente de seus olhos.

Oi.

Ao ouvi-lo, Usagi soltou o ar. Seu maxilar até parecia dolorido da tensão dos últimos minutos.

Se não quer me dizer nada, eu vou-

— Não! Espere. — Respirou fundo, suas mãos ainda estavam tremendo, mas começou a ouvir de novo os próprios pensamentos. — Como você está?

Usagi, você não tem qualquer intenção de voltarmos, né?

Ela balançou a cabeça inconscientemente. Por sorte, ele não podia ver como ela o tinha feito com ênfase.

Estou desligando. — E a ligação ficou muda, sem ter dado tempo de ela nem tentar protestar.

— Eu tentei — falou em seguida, enquanto fechava o visor. Não podia chorar, ela não tinha aquele direito após ter feito tanto contra aquela pessoa que a amava. — Pelo menos, ele está bem.

Minako se levantou e caminhou para trás do balcão, puxando a amiga para longe de todos.

— Por que terminou assim com ele? Aquilo ainda de não conseguirem ir pra cama? — perguntou quando estavam a uma distância.

Usagi começou a confirmar com a cabeça e então a balançou com força.

— Há outra pessoa.

— O QUÊ? — gritou Minako. — Como assim outro!?

— Ei! — Usagi fez sinal que baixasse a voz.

— Não que eu realmente esteja surpresa. Você vinha meio estranha. — Sorriu e balançou os cabelos com a mão. — E sabe como tenho um dom com isso. — Piscou um olho. — Pode deixar que seu segredo morre comigo.

Usagi assentiu, mesmo sabendo que não só já era tarde demais após o grito de antes, como também que Minako contaria tudo a Yaten assim que pudesse. Era maior que ela. Ainda assim, sabia que estava sendo sincera naquele momento.

— Você, menina sentada aí que conhece o Seiya. — Minako já estava de volta ao lado de fora do balcão.

— É Naru Osaka. — disse Naru, com seus modos de sempre.

— Isso, vamos comigo ver o Seiya! — E Minako apontou para a saída.

— O Seiya?

— Eu não quero ir sozinha à casa dum homem, e é meio estranho a Usagi ir. Ainda mais que ele nem tá querendo falar com ela. Vamos como amigas do Seiya, entendeu? — Minako piscou para Usagi e começou a arrastar Yaten junto de Naru para fora.

Usagi pôde apenas acompanhar com os olhos os três saírem. Era para ser uma cena engraçada, mas ela não conseguia rir. A voz de Seiya ao telefone a havia feito se lembrar de como se sentira péssima no momento em que desistira de evitá-lo e fora ver Mamoru na noite anterior. Não sabia qual era o plano de Minako, apesar de ela parecer ter um, mas rezava que desse certo. No momento, não havia nada que ela mesma pudesse fazer sinceramente, pois Seiya não a queria como amiga.