Cap. 91 – A carta de Pandora
Morgana sentiu o rugido do vento frio cortar o silêncio da manhã, ecoando pela Casa dos Gritos. A luz pálida do amanhecer filtrava-se pelas frestas das janelas empoeiradas, criando um jogo de sombras na sala. Sentada no chão, Morgana observava com atenção a porta, esperando que Remo terminasse de se vestir após mais uma noite de transformação.
O ambiente estava impregnado com a aura de angústia que envolvia Remo durante esses momentos. Morgana, no entanto, mantinha um sorriso compreensivo, pois já compartilhava muitos desses momentos com ele. Ela havia transfigurado uma capa mais pesada para proteger Remo do frio que permeava a casa, evidenciando sua preocupação silenciosa.
Morgana, com seu olhar atento, notou o semblante agradecido de Remo quando ele retornou à sala, agora vestido. A troca de olhares entre eles transmitia uma compreensão mútua, como se palavras fossem desnecessárias nesse momento de pós-transformação.
Morgana, percebendo a necessidade de Remo se recuperar após a noite de transformação, sugeriu suavemente:
- Que tal ficarmos mais um tempo aqui, Remo? Posso pedir a um elfo doméstico para trazer algo para você comer e se recuperar completamente.
Morgana, habilidosa nas artes mágicas, transformou as poltronas desgastadas em assentos novos e confortáveis. Ao se acomodar, ela sacou um cigarro, rindo da expressão pidona de Remo. Com um gesto casual, ofereceu-lhe um cigarro, compartilhando um momento descontraído após a noite angustiante.
Morgana, soltando a fumaça do cigarro, perguntou a Remo sobre o progresso de seus amigos no processo de se tornarem animagos. Seus olhos curiosos refletiam a preocupação e o interesse pela jornada deles.
Remo, surpreso, questionou Morgana sobre como ela sabia que os Marotos estavam tentando se tornar animagos. Seus olhos revelavam uma mistura de surpresa e curiosidade diante da informação inesperada.
Morgana riu da surpresa de Remo, revelando que, de maneira indireta, tinha sugerido a Sirius a ideia enquanto ele a procurava após a aula sobre lobisomens. Seus olhos brilhavam com malícia, sabendo que tinha contribuído para a busca de seus amigos por esse conhecimento. Morgana, com um olhar curioso, perguntou novamente a Remo:
- E então, como eles estão se saindo? Tendo muita dificuldade? Animagia é um assunto bem difícil.
Remo, com uma expressão séria, respondeu a Morgana:
- Estão trabalhando na mentalização. Não está sendo fácil, mas eles não são de desistir.
Morgana sorriu, soltando outra nuvem de fumaça do cigarro, e comentou:
-São bons amigos, isso é inegável. Estão dispostos a enfrentar desafios juntos.
Remo sorriu, um misto de gratidão e surpresa, e respondeu:
-São os melhores que eu poderia ter. Às vezes, mal acredito que tenho amigos tão leais.
Morgana sorriu gentilmente para Remo e disse:
-Você merece isso, Remo. Tem um bom coração, é leal e gentil. Um homem digno de receber tanta bondade e lealdade quanto oferece aos outros.
Morgana e Remo saíram da Casa dos Gritos após um lanche rápido trazido pelos elfos domésticos. Enquanto caminhavam pelos terrenos de Hogwarts a caminho do castelo, uma coruja voou baixo até Morgana, deixando uma carta cair aos seus pés.
Morgana invocou a carta para sua mão com um gesto fluido. Ao ver de quem era, um sorriso deslizou pelos lábios de Morgana. Remo, ao lado dela, sorriu e perguntou se era da estrela Black dela. Morgana riu suavemente e disse que não, que era outra estrela.
Remo olhou para Morgana com curiosidade e um sorriso brincalhão nos lábios.
- Outra estrela? Estou curioso para saber quem é essa "outra estrela".
Morgana riu suavemente e respondeu:
- Ah, é uma estrela especial, tão brilhante quanto a estrela Black, mas tem seu próprio encanto.
Morgana se despediu de Remo com um aceno suave, dirigindo-se ao seu quarto com um sorriso curioso, ansiosa para ler a carta que segurava nas mãos.
Morgana deitou-se na cama, abrindo a carta com um brilho de alegria nos olhos. As palavras de Pandora traziam notícias e carinho, deixando Morgana feliz por manter esse laço mesmo após a formatura da amiga.
Morgana lia a carta com atenção, absorvendo cada palavra de Pandora. Ela podia sentir a empolgação da amiga através das linhas, e a ideia de Pandora compartilhar suas experiências na América Latina despertou a curiosidade de Morgana. Estava ansiosa para a volta da amiga e para as futuras conversas repletas de histórias mágicas.
Enquanto Morgana lia a carta, podia sentir a energia vibrante das palavras de Pandora. A descrição das terras da América Latina saltava das páginas, pintando um quadro vivo em sua mente. Pandora compartilhava detalhes sobre feitiços e tradições mágicas únicas, entrelaçadas com a rica cultura da região.
A cada palavra escrita por Pandora, Morgana mergulhava mais profundamente na narrativa fascinante de suas experiências. Pandora descrevia rituais mágicos realizados em meio à natureza exuberante, revelando tradições antigas que ecoavam com a essência da magia selvagem e primitiva. Nas entrelinhas, Morgana podia sentir a paixão de Pandora pelo desconhecido, seu espírito aventureiro que a impelia a explorar novos horizontes.
Pandora compartilhava histórias de encontros com bruxos e bruxas locais, suas habilidades mágicas únicas e os laços estreitos que mantinham com a natureza ao seu redor. As descrições dos feitiços usados para se comunicar com animais e plantas eram como poesia para os olhos de Morgana, despertando sua imaginação para possibilidades mágicas além das fronteiras europeias.
Ao ler a carta, Morgana sentia a saudade de Pandora misturada com a alegria de poder compartilhar novamente histórias e experiências mágicas. Ela ansiava pelo dia em que poderiam se reunir e trocar detalhes pessoalmente, alimentando sua própria curiosidade com a magia única da América Latina que Pandora tão vividamente descrevia.
No encerramento da carta, Pandora revelava sua sincera saudade por Morgana. As palavras saltavam da página, carregadas de afeto e ansiedade. Ela expressava como contava os dias para o tão esperado reencontro, destacando a falta que a presença de Morgana fazia em sua jornada pela América Latina. O tom da carta transmitia não apenas a saudade, mas também uma promessa implícita de compartilhar cada detalhe emocionante assim que estivessem novamente lado a lado.
O último parágrafo da carta capturou a atenção de Morgana, revelando um toque especial. Pandora mencionava um desenho na parte de trás, uma marca que ela mesma havia criado exclusivamente para Morgana. A amiga expressava que essa marca era mais do que um simples desenho; era uma representação única de Morgana em sua essência. A ideia de ter uma marca personalizada, concebida pela criatividade de Pandora, deixava Morgana intrigada e ansiosa para ver o desenho que simbolizaria tão intimamente quem ela era.
Morgana virou a carta com curiosidade, seus olhos examinando cada detalhe do desenho que Pandora havia criado. Era uma marca única, intrincada em seus traços, e Morgana sentiu uma mistura de emoções ao observá-la. A curiosidade deu lugar a um sorriso quando notou a pequena nota de Pandora na parte inferior. As palavras, escritas diziam: "Além da marca do seu lorde, agora você tem a sua própria marca. E eu a quero em mim."
Essa revelação trouxe uma nova dimensão à conexão entre Morgana e Pandora. A marca não era apenas uma representação artística; era um símbolo de união, uma expressão da amizade profunda entre as duas bruxas. Morgana sentiu uma gratidão calorosa pelo gesto de Pandora, uma marca que transcendia o físico e representava o laço duradouro entre elas. O desejo expresso por Pandora de ter essa marca em si mesma adicionava uma camada extra de significado, solidificando a importância desse símbolo compartilhado.
Morgana contemplou a marca com um olhar atento, absorvendo cada detalhe meticuloso do desenho. A lua tríplice dominava o centro da marca, cada uma das luas das pontas adornada com um conjunto de seis estrelas negras. Ela notou a elegante simetria, as estrelas na lua da direita dispostas em decrescente, enquanto na lua da esquerda estavam em tamanho crescente.
No coração da marca, a lua do meio apresentava uma cabeça de lobo dentro, cercada por um ouroboros sinuoso. A complexidade do símbolo era evidente, e Morgana percebeu as adagas invertidas nas partes das linhas que ligavam as luas das pontas com a lua central. Em cada adaga, um ramo se erguia, culminando em uma bela rosa vermelha na base.
A combinação de elementos, a lua tríplice, a cabeça de lobo, as estrelas, as adagas e a rosa, formava uma narrativa visual rica. Morgana sorriu ao passar a mão pelo desenho, maravilhada pela profundidade de entendimento que Pandora tinha sobre ela. Cada elemento meticulosamente escolhido na marca tinha uma conexão intrínseca com sua própria essência.
A lua tríplice, uma referência à deusa Hécate e ao divino feminino, ressoava com a natureza multifacetada de Morgana. O lobo, além de evocar sua forma animaga, carregava dualidade em seus significados. Representando o bem, o lobo simbolizava astúcia, inteligência, sociabilidade e compaixão. Por outro lado, na perspectiva do mal, encarnava crueldade, luxúria e ambição.
Ao perceber o ouroboros no desenho, Morgana quase riu, admirando a escolha simbólica. A serpente que engole a própria cauda, formando um círculo, representava para ela o ciclo da vida, o infinito, a mudança, o tempo, a evolução, a fecundação, o nascimento, a morte, a ressurreição, a criação, a destruição e a renovação. Era uma escolha profunda, que ressoava com a complexidade de sua própria existência.
As rosas e adagas adicionavam outra camada de significado, simbolizando a dualidade da vida. A rosa, representando os bons momentos, a felicidade, a vida e a beleza, contrastava com o punhal, símbolo dos momentos difíceis e até mesmo de um lado sombrio, insidioso e afiado. Morgana sentiu uma profunda apreciação pela habilidade de Pandora em traduzir sua essência em um desenho tão repleto de significados.
Morgana realmente riu com um sorriso malicioso ao tocar as estrelas no desenho. Além das estrelas de cinco pontas simbolizarem os quatro elementos (terra, água, ar e fogo), a quinta ponta representava o espírito. As estrelas, para Morgana, representavam suas próprias estrelas da sua constelação, como ela gostava de chamar: Bellatrix, Andrômeda e, futuramente, Pandora.
Cada uma de suas estrelas iluminava um pouco de sua própria escuridão. Essas presenças em sua vida proporcionavam não apenas luz, mas também calor e companhia, dissipando as sombras que Morgana carregava consigo. Cada uma delas desempenhava um papel único na constelação da vida de Morgana, trazendo beleza ao seu próprio modo e contribuindo para a complexa tapeçaria de sua jornada.
A marca de Pandora não era apenas um desenho; era um testemunho simbólico da conexão única entre elas.
Morgana não conseguia deixar de imaginar a marca, meticulosamente desenhada por Pandora, na pele dela. A ideia de que Pandora desejava carregar aquela marca, representando a conexão entre elas, era algo que ecoava em sua mente. Imaginou como aquela marca se integraria à pele de Pandora, tornando-se parte dela da mesma forma que Morgana a considerava parte de si mesma. A sutil promessa de união entre elas, marcada por um símbolo único, pairava no ar, criando um laço invisível, mas poderoso.
Os olhos de Morgana brilhavam intensamente com desejo ao visualizar mentalmente sua marca, um pouco abaixo da nuca de Pandora, oculta sob os longos cabelos loiros dela. A imagem provocativa e a promessa tácita de uma conexão profunda faziam com que a mente de Morgana fosse envolvida por um calor sutil, alimentado pela intensidade da imaginação e da antecipação.
O desejo de Morgana aumentava ainda mais à medida que sua imaginação se desdobrava, visualizando suas outras estrelas, Bellatrix e Andrômeda, ostentando sua marca. A ideia de que aquela marca única, carregada de simbolismo, seria compartilhada por todas elas, criando uma ligação inquebrável, alimentava o fogo do desejo de Morgana. Cada uma delas seria marcada não apenas na pele, mas em um espaço mais profundo, vinculando-as em um pacto secreto e poderoso que transcendia o físico.
Morgana contemplava a ideia de ter sua marca gravada na pele não apenas de suas estrelas, mas também de seus leais comandados. A noção de uma marca que transcendia a superfície da pele, imprimindo-se na essência de cada um deles, era como a consolidação de uma lealdade profunda e duradoura. Era a criação de uma ligação mágica e simbólica que os uniria sob sua liderança e ideais. Essa ideia alimentava a ambição de Morgana, vislumbrando um círculo de seguidores marcados por sua influência.
Morgana contemplava a ideia de ensinar a seus seguidores a conexão com a magia antiga, uma tradição que remontava às raízes mais profundas da feitiçaria. Essa seria uma homenagem a Hécate, uma deusa venerada por sua avó e parte integrante das crenças da família. A criação da marca seria mais do que um símbolo; seria um elo entre seus seguidores e os princípios ancestrais que Morgana valorizava.
A marca, em sua visão, não apenas representaria lealdade, mas seria uma declaração de compromisso com os ensinamentos antigos, uma reverência à magia que fluía nos recantos esquecidos do tempo. Enquanto contemplava essa possibilidade, Morgana saboreava o poder que ter uma marca conferia. Era mais do que uma simples insígnia; era uma extensão de sua influência, uma conexão mágica entre ela e aqueles que escolhiam segui-la.
A lealdade manifestada através da marca era como uma sinfonia de poder, uma sinergia entre líder e seguidores, onde a magia antiga se entrelaçava com a magia contemporânea. Morgana vislumbrava não apenas a marca em suas mentes e corpos, mas como uma assinatura de suas almas, uma união que transcendia as fronteiras do ordinário.
Contudo, uma sombra de preocupação persistia. Morgana ponderava sobre como essa iniciativa seria percebida pelo Lorde das Trevas, sabendo que a autonomia era preciosa, mas também perigosa. O gosto do poder era irresistível, mas ela teria que tecer com cautela.
Morgana refletia sobre a delicada dança entre seus próprios desejos de liderança e a lealdade que deveria representar ao Lorde das Trevas. A ideia de marcar Bellatrix, uma das mais leais comensais, com sua própria marca, era uma expressão de sua autoridade e uma forma de solidificar os laços que a ligavam a seus seguidores.
No entanto, o receio persistia. Morgana não queria ser percebida como uma ameaça ao poder do Lorde das Trevas. Ela almejava ser uma figura influente nas sombras, uma "Lady das Trevas", mas não desejava usurpar o posto do lorde. Sabia que criar uma marca própria, especialmente em uma bruxa tão proeminente quanto Bellatrix, poderia ser interpretado como um desafio.
Enquanto pesava as opções, Morgana reconhecia a necessidade de agir com sutileza e diplomacia. Talvez, em vez de confrontar abertamente a hierarquia existente, ela pudesse apresentar a marca como uma extensão do legado mágico de sua família, algo que uniria seus seguidores em torno de uma tradição ancestral. Ou algo que beneficiária de alguma forma os comensais.
Morgana ponderava cuidadosamente sobre como abordaria a questão da sua marca. Consciente da sensibilidade do assunto, ela percebia que cada palavra e movimento poderiam moldar a percepção dos seus seguidores e, mais crucialmente, a reação do Lorde das Trevas.
Morgana repousava em sua cama, a carta cuidadosamente colocada ao seu lado. Um sorriso traquina brincava em seus lábios enquanto ela contemplava a ideia de se tornar uma "Lady das Trevas, jogando nas sombras".
Morgana se questionava, uma sombra de reflexão pairando sobre seu rosto. Nunca antes havia se imaginado como uma "Lady das Trevas". O que realmente caracterizava esse título? Seria a maestria nas artes obscuras, a habilidade de influenciar destinos sombrios, ou algo mais profundo e enigmático? Enquanto explorava esses pensamentos, Morgana confrontava a possibilidade de abraçar um papel que, até então, parecia estranho, mas que talvez pudesse oferecer um novo horizonte de poder e influência em seu caminho sombrio.
