Nota inicial da autora: Finalmente terminei o capítulo. Ficou bem longo porque não quis deixar nada "solto". Espero que gostem!

Obrigada a quem comentou no capítulo passado: , HelloBraga, Autumnbane, Isa Raissa, MikeRyder16, Katie Christensen, 05csomoragnes11, ShivaAurora e Day.

NOTA: Aqui no FFnet tive que cortar 10 páginas. O capítulo integral (com ilustração) posso mandar para quem pedir (por aqui ou pelo twitter).


UM CAMINHO PARA DOIS

CAPÍTULO 48

Para sempre juntos no mesmo caminho

Cinco anos depois:

Na estação central de Tokyo, Sesshoumaru já aguardava em pé na plataforma de desembarque pelo trem de Nagoya. Ao lado dele, estava uma menina sentada em seiza no chão.

— Asuka quer ir pro banheiro. – ela falou de repente.

Alguns segundos de silêncio se passaram até Sesshoumaru responder:

— Pode ir. Você já sabe o caminho. – ele a olhou de canto.

— Mas Asuka não quer ir sozinha.

— Sua mãe está chegando, Asuka. Não posso sair daqui agora.

Aaaaahhhh... – ela lamentou porque não teria muita escolha além de aguardar ali pela chegada da mãe.

Sesshoumaru sabia que a resposta seria aquela. Asuka não queria deixá-lo sozinho na plataforma e nem perder a chegada de Rin. Viu-a fazer um beicinho e franzir a testa em dúvida.

Quando ia sugerir novamente para procurar o banheiro sozinha, os dois viraram os rostos para a direção do trem que chegava de Nagoya, onde Rin trabalhava.

— Sua mãe chegou.

Imediatamente, a menina ficou em pé e começou a dar pulos para comemorar.

— Mamãe chegou, mamãe chegou!

Rin desceu do trem primeiro e virou-se para puxar uma mala de rodinha e um carrinho de alumínio com duas caixas de documentos. Usava um vestido amarelo com flores coloridas bordadas até os joelhos e mangas transparentes. As botas de cano curto a deixavam um pouco mais alta.

Ao virar-se, notou Sesshoumaru com a testa franzida e timidamente encolheu os ombros, imaginando que haveria discussão em casa. A primeira coisa que ele havia notado era a caixa de documentos. Aquilo era trabalho e que ela estava levando para casa, algo que eles haviam combinado de não fazer. Ele não levava nada do serviço para fazer em casa aos fins de semana, ela não trazia nada de Nagoya também.

Logo depois, Asuka agarrou as pernas dela e Rin abaixou-se para segurá-la no colo, recebendo um abraço mais apertado da filha.

— Mamãe, mamãe... – ela murmurava com o rosto colado ao de Rin.

— Você já está grande demais. Nem consigo mais carregar. – ela piscou e abaixou-se para colocar a filha no chão, perguntando – Asuka, você se comportou?

A filha deu uma confirmação de cabeça.

— Asuka se comportou direitinho. – ela respondeu e apontou um dedo para o pai – Papai que não quis deixar Asuka ir pro banheiro.

— Quer que eu vá com você? – Rin perguntou.

— Não precisa. Asuka já sabe ir sozinha. – ela respondeu com certo orgulho, fazendo o pai estreitar os olhos de leve. Depois virou as costas para os dois e andou na direção dos banheiros, deixando os pais finalmente sozinhos.

Sesshoumaru ainda olhava para a figura da filha que se afastava mais e mais quando sentiu os braços de Rin circularem a cintura dele.

— Oi, Sess... – ela deu um suspiro apaixonado – Fiquei com mais saudades.

— Espero que você não fique com saudades do trabalho também com tanta coisa para ler. – ele olhou de canto para o carrinho com as caixas.

Rin sentiu que ele estava irritado e encolheu os ombros. Quem estava errada era ela por levar as coisas do trabalho para a capital. Mas era por um bom motivo que ele ainda não sabia.

— E Asuka está cada vez mais teimosa. Claro que não é novidade saber a quem puxou.

Rin bufou as bochechas de indignação. Ele sempre dizia que ela era teimosa e que a filha tinha a mesma natureza.

— Parece que ela se diverte com isso. – ele esticou a alça da mala com a mão para deslizá-la suavemente pela plataforma – Você vai levar esse carrinho?

— Sim... Sess, eu queria falar com você sobre...

A fala foi interrompida pela filha que puxava a barra do vestido para chamar a atenção:

— Asuka já voltou. – ela anunciou – Podemos ir pra casa agora?

— Lavou as mãos? – Rin perguntou com um sorriso, recebendo uma confirmação da menina.

Instantes depois, os três saíram juntos da estação em direção ao estacionamento – Rin puxando a alça do carrinho com as caixas com a mão esquerda e segurando a de Asuka com a direita, Sesshoumaru segurando a da filha com a esquerda e deslizando a mala de rodinhas.

— E como foi a visita do tio Hashi na semana passada? – a mãe perguntou no caminho.

— Tio Hakudoushi chama o papai de nomes engraçados! – Asuka respondeu.

Sesshoumaru não comentou, optando por olhar indiferentemente para frente e ignorar um sorriso travesso de Rin. Ela provavelmente já imaginava quais nomes o irmão havia inventado para aquela vez e, como sempre, levou na brincadeira.

Durante o trajeto em um silêncio confortável, os dois ficaram ouvindo Asuka cantarolar uma cantiga qualquer até eles passarem perto de um lugar conhecido e ouvirem a filha falar:

— Olha, o lugar onde o papai e a mamãe se conheceram! – ela exclamou ao passarem próximo dos prédios e do jardim da entrada da Universidade de Tokyo.

Rin olhou com carinho para o local e depois lançou um olhar para Sesshoumaru. Ele então tinha mostrado para a filha onde haviam se conhecido em algum passeio e Asuka, como qualquer criança, havia memorizado rápido.

Discretamente, ela tocou no joelho dele e Sesshoumaru, na primeira oportunidade que teve, rapidamente pousou a mão em cima da dela.

— Ah... – ela levou o indicador delicadamente ao queixo, pensativa – Hashi pediu pra ligar hoje... Disse que tinha uma coisa importante pra contar... O que será?

Sesshoumaru deixou escapar apenas um leve arquear de sobrancelhas que não dava para ser notado por ninguém, além das mãos apertarem o volante com força. O cunhado, em competição nacional e viajando nos últimos dias de cidade em cidade, já ia contar fofoca e teria que tomar alguma providência.

— Deve ser para contar que está saindo com aquela assistente do seu primo Jakotsu.

— Ele tá saindo com ela? – ela arregalou os olhos em choque – Não acredito!

— Como você não percebeu isso, minha Rin? Todo mundo já sabe. Até Asuka já sabe.

— Asuka sabe sim. – a filha concordou.

— Eu demoro pra perceber essas coisas, você sabe disso... – Rin se defendeu fazendo um beicinho.

Ao chegarem em casa, Rin avisou que iria tomar banho antes de preparar o jantar e desfazer as malas e Sesshoumaru aproveitou para ligar para Hakudoushi, sabendo que ele estaria em instantes ao vivo na televisão.

Ligou no canal da transmissão do campeonato de kendô ao mesmo tempo que ouvia o telefone tocar.

O que foi? – Hakudoushi perguntou num tom irritado.

— O que você quer falar com Rin?

Um momento de silêncio se fez e Sesshoumaru conseguia até ver, daquela distância da tevê dos bastidores, o outro dar um sorriso maligno.

Ohhh... – ele começou – Tá com medo da mulher brigar agora, é?

Sesshoumaru olhou de canto para a direção do corredor. Rin ainda estava no quarto.

— Você não vai contar o que aconteceu quando esteve aqui, né?

Eu fiquei no hospital por dois dias e quase perdi uma luta! – Hakudoushi falou entredentes.

— Que aprendesse a se defender melhor de Asuka, Hakudoushi. – Sesshoumaru permaneceu indiferente – Quantos anos você tem e quantos anos ela tem?

Ela me atacou porque você mandou! – o cunhado acusou.

— Você quer um pedido de desculpas, Hakudoushi? É isso? Asuka inventou até uma musiquinha para esse momento. Quer ouvir?

Não, peraí! 'Cê sabe que eu não sei dizer "não" pra ela!

— Que coisa mais irônica, Hakudoushi. Dizia tantas vezes "não" para Rin e agora não consegue fazer o mesmo com a sua sobrinha preferida?

Eu só tenho essa sobrinha!

— ASUKA! – Sesshoumaru a chamou num tom mais forte por cima do ombro.

— O que foi, papai? – no outro instante a filha, usando agora uma camiseta rosa e um macacão jeans com o próprio nome estampado, já estava atrás dele, o cabelo agora preso num rabo de cavalo no alto da cabeça.

— Seu tio quer falar com você. – ele estendeu o telefone para ela.

— Qual deles? Asuka tem vários. – ela começou a contar nos dedinhos – Tem o tio Inuyasha, o tio Miroku, o tio Jakotsu...

— É o seu tio favorito.

Os olhos dela arregalaram e ela pegou o telefone.

— Ah, é o meu tio Hakudoushi... – ela falou num tom de emoção – Tio Hakudoushi, é a Asuka!

Pela televisão, Sesshoumaru conseguia ver Hakudoushi com um braço amparado na parede enquanto segurava o telefone com a mão.

— Papai, o tio Hakudoushi não tá falando com a Asuka. – ela reclamou.

— Cante aquela musiquinha de pedir desculpas. – ele a instruiu.

Não, não, não! Não cante, Asuka! – Hakudoushi implorou pelo telefone tão alto que era possível Sesshoumaru ouvi-lo.

Asuka respirou fundo e começou a melodia e a cantarolar numa voz infantilmente desafinada:

Jiggly puff... Jiggly pufff... desculpe, tio Hakudoushi, desculpeeee…

— Conte o que fez desde ontem na escola. – Sesshoumaru a instruiu. Na transmissão da tevê, já começaram a anunciar os adversários.

— Ontem Asuka ficou muito ocupada. Pintei, brinquei com meus coleguinhas, vi um filme...

Nozomu Hakudoushi! – anunciaram finalmente.

— ... e Asuka também brincou com o papai e conversou com a mamãe e... e... e...

— Agora peça para ele não contar nada para sua mãe.

— Tio Hakudoushi, você não pode contar nada pra mamãe.

Asuka, querida, titio precisa desligar. – Hakudoushi falou – Vou aparecer na tevê.

— Na tevê? – ela franziu a testa e olhou para o aparelho – Ah, é o tio Hakudoushi!

Vou desligar agora e depois conversamos, ok? – ele ouviu o nome ser chamado pela segunda vez e, temendo desclassificação, andou apressado na direção do tatame onde ocorreria a luta – Vou mandar um abraço na tevê. Diga ao seu pai que não vou falar nada.

— Ok. – ela concordou com a cabeça e entregou o telefone para o pai, correndo para fora da sala – Ele disse que não vai falar nada.

Sesshoumaru desligou o celular com um sorriso de vitória e viu a filha voltar, segundos depois, com o banquinho de madeira que ela usava para sentar-se na frente da tevê.

— Ah, Asuka esqueceu a bandeirinha! – ela correu de novo e voltou mais alguns depois com uma bandeirinha branca com o nome do tio e um coração.

— É o Hashi lutando? – Rin apareceu na sala usando um roupão rosado e uma toalha na cabeça.

— Vai começar agora. – Sesshoumaru avisou sem tirar os olhos da tela.

Não demorou muito para que Hakudoushi mirasse o men do adversário e ganhasse a primeira pontuação. Tinha sido tão rápido que Rin piscou várias vezes para tentar entender o que havia acontecido.

— Ele ganhou a primeira shiai, minha Rin. – Sesshoumaru explicou ao perceber a confusão.

— Ah... – ela tirou a toalha da cabeça e começou a enxugar as mechas escuras, afastando-se deles – Ele sempre ganha, né? Vou terminar de me arrumar então pra preparar nosso jantar.

Momentos depois, ela voltava para a sala com uma roupa parecida com a de Asuka, vendo a filha pular de um lado a outro com a bandeirinha que tinha para demonstrar apoio ao tio nas lutas que via ao vivo e pela televisão.

— Deu tudo certo? – ela perguntou, já sabendo a resposta.

— Tio Hakudoushi ganhou tudo e disse que gosta da Asuka!

— Ah... – ela sorriu – Que bom, né? Vamos comer oden pra comemorar?


À noite, depois de colocar Asuka a dormir sozinha, Rin voltou para o quarto e encontrou Sesshoumaru já pronto para dormir, sentado com as costas apoiadas na cabeceira.

— Asuka está tão grande... – Rin falou num tom que soou mais como um lamento – Vou ter que encomendar um pijama novo pro Jakko. O dela já está ficando pequeno.

Sesshoumaru estendeu a mão para ela e a ajudou a subir na cama, deitando os dois de lado para conversarem um de frente ao outro.

— Lembra que o médico projetou que ela ficaria mais alta que você?

Rin bufou adoravelmente, depois a expressão suavizou com um sorriso meio triste:

— Estou perdendo isso, que pena. – ela lamentou de novo.

Os dois ficaram em silêncio e ele aproveitou para mudar de posição, deitando-a de costas e posicionando-se por cima dela.

— Tenho algo para mostrar para você. – ele esticou a mão e pegou o celular da mesinha do lado esquerdo, entregando destravado para ela – Aconteceu na visita do seu irmão semana passada.

Sem dizer nada, ela pegou o aparelho para começar a ver um vídeo que ele colocou para rodar. Nele, aparecia Hakudoushi e Asuka com uniformes de judô treinando no jardim da casa.

A filha começou batendo de leve no punho do tio, com ele abaixando-se na altura dela para permitir que ela o segurasse pelo braço e o jogasse por cima do ombro no chão, naturalmente algo encenado por Hakudoushi. Asuka não fez absolutamente esforço algum para derrubá-lo.

— Ah, que gracinha... – ela murmurou, sentindo beijos no ombro, subindo pelo pescoço e chegando ao lóbulo da orelha.

Até que, no chão, ela pulou no peito dele várias vezes como se fosse uma cama elástica e o deixou sem ar. Rin arregalou os olhos e ouviu, antes do vídeo acabar, um "hunf" de Sesshoumaru, que filmava a cena toda, e um palavrão de Hakudoushi.

— Era isso o que ele queria me contar? – ela perguntou num tom indignado e tentou ignorar os beijos no rosto e pescoço – Não acredito que fez isso de propósito! E ainda usou nossa filha!

Sesshoumaru parou de beijá-la e ergueu novamente o rosto para encará-la.

— Por que acha que foi de propósito? – ele perguntou.

— Eu conheço esse seu "hunf". – ela sussurrou num tom mais irritado – Vocês dois parecem dois moleques brigando! Toda vez acontece alguma coisa assim!

Um leve sorriso apareceu nos lábios dele. Foi melhor mesmo ter ele mesmo contado do que ela descobrir por Asuka ou mesmo por Hakudoushi. Parecia bem menos irritada do que quando ela soube que ele estava treinando com o cunhado no dia do próprio casamento.

Abaixou o rosto e procurou os lábios dela, que respondeu soltando o celular e enlaçando os braços às costas dele.

Mas, segundos depois, tiveram que parar. Sesshoumaru foi o primeiro a soltar um suspiro e a sair de cima dela, deitando-se de costas para jogar um braço por cima dos olhos.

— Sess? – ela murmurou.

A resposta veio de outra forma: ela entendeu imediatamente a reação dele ao ouvir a porta abrir e Asuka entrar no quarto.

Sem dizer mais nada, a filha, que segurava um dragão marrom de duas cabeças feito de pelúcia, parou na frente da cama, subiu com certa habilidade no leito e entrou por baixo do lençol. Rin viu o tecido se mexer como se fosse uma minhoca movendo-se na terra, até Asuka aparecer entre os dois e deitar a cabeça confortavelmente em um travesseiro.

— Boa noite da Asuka. – anunciou, fechando os olhos.

Nem um segundo depois, ela abriu novamente os olhos para voltar-se para o lado da mãe.

— Alexa, apagar a luz.

E voltou a deitar a cabeça no travesseiro quando a luz da luminária próximo a Rin desligou sozinha, fechando os olhos sob a escuridão.

Rin religou a luminária manualmente.

— Pode já voltar pra sua cama, Asuka! – ela ordenou.

— Ah, não, mamãe! – ela sentou-se na cama – O papai sempre deixa Asuka dormir todas as noites aqui!

— Eu não acredito, Sesshoumaru! – Rin ficou ainda mais indignada, ainda mais que ele parecia ainda indiferente e despreocupado – Asuka tem que aprender a dormir no quarto dela!

— Não tem problema. Ela só quer dormir com você também depois de tantos dias. – ele colocou Asuka nos braços de Rin e deitou as duas na cama, sentando-se para fazer menção de levantar – Vou ver se ela desligou tudo no quarto.

Rin o viu sair do quarto e deu um suspiro cansado, voltando a atenção para a filha sonolenta nos braços.

— Esse bichinho é novo? – ela perguntou com suavidade.

— Papai comprou pra Asuka.

— E qual é o nome dele?

— Ah-Un. – ela respondeu com orgulho.

— Ah-Un... – a mãe repetiu – Que bonitinho.

— Asuka gosta de dar nomes pra tuuudo!

Rin deitou-se de lado e fez carinho no cabelo da filha, que começou a ficar com as pálpebras cansadas.

— Vamos dormir? – a mãe sugeriu.

— Mamãe, pra você dormir, precisa contar até 60 na sua cabeça.

Rin deu um sorriso ao pensar com carinho que foi o irmão que ensinou aquilo para a filha.

— Vamos contar juntas então depois do "boa noite".

A filha se acomodou confortavelmente nos braços da mãe.

— Boa noite da Asuka. – ela fechou os olhos, segurando firmemente o novo brinquedo e cedendo ao sono.

— Sonhe com coisas boas, Asuka-chan.

Não demorou muito para Sesshoumaru retornar ao quarto e voltar a deitar-se ao lado da esposa, envolvendo-a nos braços e puxá-la contra o corpo dele. A mão ainda conseguia alcançar o topo da cabeça da filha, deslizando os dedos pelas mechas apenas para se certificar se ela dormia mesmo.

— Asuka tem que dormir no quarto dela, Sess. – ela reclamou baixinho – Eu queria ficar com você hoje.

— Depois do feriado prolongado podemos resolver isso.

— Você sempre faz todas as vontades dela.

— Isso não é verdade. Eu sei ser bastante severo também. Ela pediu desculpas a Hakudoushi depois. – ele a abraçou e deslizou o nariz pelo pescoço dela, que aceitou o carinho com um sorriso.

— Fiquei morrendo de saudades desse abraço. – ela deixou escapar um sorriso – Na verdade, eu também queria dormir assim há tempos.

Um beijo no ombro fez com que ela suspirasse.

— Boa noite, minha Rin.

— Boa noite, amor. – ela fechou os olhos – Durma bem.


No dia seguinte...

Kaede estava já aguardando no pátio da residência quando o carro de Sesshoumaru passou pelos portões e deu uma volta até estacionar próximo ao jardim. Segundos depois, as portas abriram e, de uma delas, Asuka desceu correndo com o dragão de duas cabeças de pelúcia:

— Vovó Kaedeee! – ela corria com os braços estendidos e abraçou as pernas dela.

— Ora, ora... olha só quem temos por aqui. – ela deu um abraço e deixou a mão em repouso no topo da cabeça dela – Eu estava achando que você já tinha esquecido de mim.

— Nããããooo... – ela balançou a cabeça para os lados para enfatizar – Asuka não esquece ninguém!

— Entre e procure Jaken. Ele está terminando de preparar o seu lanche favorito.

— Táááá! – ela entrou correndo pela casa, tirando o sapato às pressas no genkan, gritando ainda – Jaken-samaaa... Olha o meu dragão de duas cabeças!

Depois que Asuka afastou-se mais, Kaede voltou-se para os pais que carregavam duas malas pequenas de viagem, dando um sorriso para Rin:

— Bem-vinda de volta. Está tudo bem em Nagoya com a sua família?

— Sim. Minha mãe mandou lembranças. – ela sentiu o rosto corar.

Depois da morte de Bokuseno, Sesshoumaru não apareceu por semanas para discutir algumas questões básicas sobre a casa e negócios da família. Portanto, era uma das primeiras vezes em semanas que se falavam.

Kaede não queria discutir o sumiço de Sesshoumaru depois da morte do avô e a falta de resposta sobre o que ele faria com a casa. O fato de sequer ter ligado ou aparecido para visitas a deixava mais irritada.

— Jaken passou o dia arrumando os antigos quartos. Entrem, por favor. – ela não deu atenção a Sesshoumaru e Rin olhou de canto para o marido, preocupada. Ele, como sempre, parecia tranquilíssimo.

— Vamos, Rin. – ele falou para a esposa, deslizando as duas malas com uma única mão e puxando a mão dela com a outra.

Antes de subirem as escadas, os olhos dela repararam na mesa da sala com o tabuleiro de go coberto por um pano de seda em tom lilás pastel. Aquele era o lugar que ela e Bokuseno haviam escolhido para jogar depois que Asuka havia nascido. Muito provavelmente Kaede cobriu a mesa e o tabuleiro por respeito ao antigo chefe.

Talvez as coisas fossem decididas bem naquela semana. Já havia falado que preferia que a casa fosse mantida e ele, como novo chefe da família Taisho, preservaria parte daquela história cheia de lembranças. Era uma casa grande e dava perfeitamente bem para os três morarem ali com Kaede.

Apertou a mão dele e recebeu um olhar de canto com uma leve sobrancelha arqueada, dando um sorriso como resposta.


Enquanto Sesshoumaru, Inuyasha e Kaede estavam na biblioteca discutindo quem ficaria com o quê da herança, Rin estava sentada na poltrona da sala que geralmente ocupava enquanto observava pensativa o tabuleiro de go com as peças brancas e negras dispostas aleatoriamente.

Pelo tempo que havia morado ali, durante a gravidez e o mestrado, Bokuseno jogava com ela com bastante frequência: durante o período de pesquisa e escrita do trabalho, durante os últimos meses de gravidez, durante os dias que Sesshoumaru precisava ficar dois ou três dias fora em viagens de serviço.

Aquele jogo simbolizava bons momentos e apoio que teve no começo da vida naquela nova família.

Ouvia a porta da biblioteca abrir e o esposo sair seguido pelo irmão e por Kaede, que ficou para trás para fechar a porta. Em pé, ela esperou com as mãos unidas na frente do corpo.

— E então...? – ela quis saber quando ele se aproximou acompanhado dos outros dois.

A resposta dele não veio de imediato, pois ele e Kaede observavam o tabuleiro.

— Ah... – ela começou num tom suave – Esquecemos de decidir sobre o destino desse tabuleiro.

Rin piscou, evidentemente surpresa, e cobriu em silêncio o tabuleiro com o pano de seda. Até sobre coisas daquele tipo as pessoas tinham que tomar alguma decisão? Era apenas um tabuleiro de go com um significado especial apenas para ela.

— Está na nossa família há bastante tempo. É uma peça histórica. – Kaede explicou ao vê-la confusa.

— Vamos ver isso depois. – Sesshoumaru colocou a mão direita na parte inferior das costas da esposa para guiá-la em direção às escadas, indicando que queria conversar com ela no quarto – Vamos, Rin.

— Bem, vamos agora ao Templo. – Kaede avisou enquanto tirava uma poeira imaginária das mangas com flores bordadas do kimono azul formal que trajava – Encontramos vocês lá.

— Até mais tarde! – Rin acenou para eles com um sorriso.

Inuyasha nada falou, apenas se limitando a colocar as mãos atrás da nuca e a seguir Kaede, parando apenas por alguns segundos para acenar para o casal, ou, melhor dizendo, para Rin.

Sesshoumaru continuou guiando Rin pelas escadas, parando apenas por segundos para olhar para a estante com uma coleção de espadas que era do pai.

— Vocês tiveram que decidir sobre isso também?

O silêncio dele foi a resposta afirmativa. Havia também uma certa tensão na mão às costas dela.

Minutos depois, já no quarto, ela subiu na cama para sentar-se em seiza. Ele sentou-se na beirada e mantinha ainda o rosto sério ao sentir a mão dela deslizar pelas costas dele.

— Como ficou a situação da casa? – ela perguntou gentilmente.

Sesshoumaru virou o rosto para olhá-la por cima do ombro:

— Falei para Kaede que você queria a casa e os dois concordaram.

Rin arregalou os olhos.

— Mas não foi isso que eu disse! – ela sentiu o rosto queimar de constrangimento – Eu disse que...

Sesshoumaru aproximou tanto o rosto do dela que a deixou sem palavras para completar a sentença.

— Ela entendeu o motivo e gostou de saber que Asuka vai passar mais tempo aqui.

— Oh... – ela baixou o rosto e franziu a testa. Então aparentemente não houve uma enorme discussão como ela estava acostumada a ver nos casos em que trabalhava envolvendo heranças e outras disputas em família – Nem Inuyasha questionou?

— Inuyasha quer continuar no Templo com Kagome, por isso passou a casa para mim. Meu avô tinha deixado para ele decidir o que fazer. – Sesshoumaru deitou-se em cima das pernas dela e sentiu a mão de Rin deslizar pelo cabelo curto – Ele pareceu também menos preocupado quando soube que você queria ficar por causa de Kaede.

— Não é só por causa de Kaede-sama. Asuka gosta bastante daqui. E você pode voltar a treinar no seu dojo depois de uma reforma. – ela falava já como a senhora da propriedade e deu um sorriso antes de aproximar o rosto – E tem gente aqui que pode ficar com Asuka entretida enquanto nós dois...

A mão deixou de tocar o cabelo dele para deslizar pelo torso, abrindo delicadamente alguns botões.

— ... ficamos ocupados com outras coisas... – ela completou suavemente.

Antes que os lábios encostassem, ele sussurrou:

— Então foi por isso que você pediu para ficar com a casa, sua insaciável?

Rin afastou o rosto e cruzou os braços, e em outro instante ele já estava mudando de posição e deitando-a confortavelmente na cama para ficar por cima dela. Tinha sido tão rápido que ela mal teve tempo de protestar antes de se beijarem e optar por questionar qualquer coisa depois.


Horas depois, Sesshoumaru acordou com o telefone tocando. Abriu os olhos, confuso, depois notou que era ainda dia e que Rin estava dormindo nua nos braços dele.

Estendeu a mão e pegou o aparelho em cima da mesinha ao lado da cama e estreitou os olhos ao ver o nome no display.

— O que foi, Inuyasha?

Vocês vão demorar ainda? – o irmão perguntou. Ao fundo, era possível ouvir Asuka chorando.

— O que aconteceu? – ele conseguiu soltar Rin sem precisar acordá-la, sentando-se na cama.

Asuka subiu na Árvore Sagrada e agora tá com medo de descer. Disse que só vai descer se você vier.

— E como ela subiu nessa árvore, Inuyasha? – Sesshoumaru começou a tocar gentilmente Rin nos ombros para acordá-la.

O berro de Asuka ficou mais alto no fundo. Também era possível ouvir as vozes de Sango e de Miroku, provavelmente tentando ajudar a menina a descer.

Eu ajudei, ué. – o irmão respondeu num tom quase idiota.

Antes que Sesshoumaru pudesse perguntar como o irmão não conseguiu dizer "não" para uma criança, outra pessoa já estava na linha para dar maiores explicações:

Sesshoumaru... – Kagome começou – Asuka-chan queria colocar um pedido na árvore e Inuyasha subiu com ela... Agora ela quer descer apenas se você vier. Nós estamos aqui com ela e um colchão por precaução. Mas não acho que ela vai cair... Ela só quer que você venha para ajudar a pregar o pedido porque não queria o Inuyasha.

Teimosa como a mãe, Sesshoumaru pensou, confirmando que já estava a caminho antes de desligar.

— Hmm... – Rin murmurou ao abrir os olhos ainda sonolenta – O que foi...?

— Vamos ao Templo. Asuka subiu naquela árvore e só vai descer se eu estiver lá.

Rin sentou-se na cama segurando o lençol para cobrir os seios, já nervosa com a situação.

— Quem deixou essa menina subir naquela árvore? Ah, se eu pego a pessoa que deixou...

O marido já estava atando o nó do roupão quando ergueu uma sobrancelha para ela:

— Foi o meu irmão.

Rin ficou em silêncio por algum momento. Ela queria que fosse alguém da altura dela, como Jaken, por exemplo.

— Pois você vai se entender com ele, então. Dá uma bronca nele. – ela tinha o dedo em riste para falar sério.

Sesshoumaru aproveitou para pegar a mão dela e levantá-la da cama, fazendo o lençol descobrir todo o corpo dela. Precisavam tomar banho e se arrumarem para irem ao Templo.

— Ainda acha as pessoas aqui vão cuidar bem dela enquanto passamos a tarde juntos? – ele a guiava em direção ao banheiro – Inuyasha não conseguiu dizer "não" quando ela pediu para colocar um pedido naquela árvore.

— Ela é muito teimosa mesmo. – ela reclamou enquanto andavam juntos.

— Com quem será que ela é parecida?

Hunf. – foi o resmungo que veio como resposta.


Ao chegarem ao Templo Higurashi, o casal foi direto até a Árvore Sagrada que atraía muitos visitantes por ser um lugar onde era possível pregar pedidos e agradecimentos nas ripas do cercado de madeira que a protegia. Havia também um relato que as pessoas que subissem e pregassem os pedidos nos galhos tinham os desejos realizados.

E Asuka estava naquele momento abraçada a um galho esperando pacientemente pela chegada dos pais enquanto cinco adultos – Miroku, Sango, Kagome, Inuyasha e Kaede – estavam apenas olhando para cima. Um colchão inflável estava posicionado estrategicamente no chão apenas por precaução.

— Ah, Sessshoumaru! – Kagome falou com emoção e Asuka virou o rosto para ver quem havia chegado.

— Papai! – ela exclamou alegremente.

Sesshoumaru andou com passos firmes na direção do irmão e deu um soco leve no rosto dele e o fez cambalear.

— Êêêêê... Papai ganhou! – ela comemorou ao ver a cena.

— Isso é para aprender a não fazer todas as vontades de uma criança, Inuyasha.

Inuyasha rangeu os dentes como se fosse um cachorro.

— Calma, Asuka-chan, o papai já vai ajudar você a sair daí. – Rin tinha as mãos unidas em oração e encontrou o olhar preocupado da filha, notando o pedaço de papel que tinha firmemente preso na mãozinha.

— Bem, bem... deixem de brincadeira, vocês dois. – Kaede resolveu falar para quebrar a tensão entre os irmãos num dia em que tudo havia sido resolvido com bastante tranquilidade – Asuka quer pregar o pedido na árvore, Sesshoumaru.

Os adultos viram quando habilmente Sesshoumaru subiu nas ripas de madeira reformada para chegar ao galho onde a filha estava.

Primeiro ela viu o cabelo prateado. Depois a testa e finalmente os olhos sérios do pai fixos nos dela, do mesmo jeito que ele ficava quando ela não arrumava ou brinquedos ou no dia que ela fez muitos desenhos na parede branca da sala depois de ganhar uma caixa de giz de cera de Inuyasha. O rosto todo dava indícios de que ela estava com problemas.

Franzindo a testa tal qual a mãe fazia quando estava preocupada, ela baixou a vista e olhou timidamente o pai, lembrando-se apenas depois do motivo de estar ali:

— Papai, papai... – ela estendeu uma folha de papel de seda levemente amassada nos quatro cantos para ele – Tem que colocar o pedido da Asuka lá em cima!

Sesshoumaru pegou a folha e passou a vista: era um desenho bem infantil do que parecia ser ele com Rin acompanhado de Asuka. Ao lado da menina, tinha três pontinhos coloridos que representavam bebês.

— O que é isso? – ele quis saber.

— É a Asuka com o papai e a mamãe.

— E esses aqui? – ele apontou para os outros desenhos dos bebês, perceptível pelos rostinhos envolvidos em panos coloridos.

O pequeno dedo indicador deslizou no papel para melhor explicar:

— Essa aqui é a Towa-chan... – ela indicou o desenho azul com uma carinha de olho fechado, depois passou para o desenho lilás com um rostinho de olho aberto e meio bravo – E essa é a Setsuna-chan, elas nasceram juntas.

Por último, o dedo parou no desenho de uma bolinha verde menor que as outras com uma carinha muito menor.

— Esse é o Hideto-kun. São todos os irmãozinhos da Asuka-chan.

— Quantos irmãos você quer ter? – nem ele acreditava que uma família tivesse tanta criança assim.

Muitos! – ela respondeu com a maior naturalidade.

— E você escolheu esses nomes? – ele quis saber.

A filha balançou a cabeça para os lados e respondeu:

— Foi o vovô que disse pra Asuka.

O rosto ficou inexpressivo por alguns segundos, até que ela viu o canto dos lábios moverem no que parecia ser um sorriso.

— Bem, vamos colocar então o seu pedido na árvore. – ele começou a dobrar simetricamente o papel até ficar de uma forma que dava para ele amarrar em uma das fitas presas no galho.

— Cuidado, papai... – ela pediu.

Minutos depois, eles trocavam olhares.

— Vamos descer. – ele avisou.

Imediatamente, ela estava firme e segura no braço direito dele, com o rosto colado na base do pescoço dele.

— Obrigada, papai.

Lentamente, ele começou a descer os degraus de madeira até alcançarem o chão e serem recebidos por Rin.

— Asuka-chan! – ela abriu os braços e Sesshoumaru entregou a filha – Você não pode fazer esse tipo de coisa.

— O tio Inuyasha deixou! – ela apontou para o tio que estreitou os olhos.

— Ora, sua danadinha... – ele fechou o punho.

— Tá bom, Inuyasha, tá bom... – Kagome tentou acalmá-lo.

Rin puxou suavemente a bochecha da filha numa divertida repreensão. Sabia que Asuka conseguia convencer todos os tios a ajudarem nos planos mais divertidos, incluindo o próprio pai.

Mas teria uma conversa com ela porque algumas brincadeiras estavam ficando muito perigosas, como o que havia acontecido naquele dia, refletiu ao colocar a menina no chão.

— Que tal irmos ao parque? – Sango sugeriu num tom esperançoso ao notar que os irmãos se encaravam como se quisessem se atacar como cachorros – Podemos voltar na hora da celebração.

Kagome olhou o relógio no pulso e ficou pensativa.

— Mandamos uma mensagem quando acabar aqui, então.

— Combinado. – a amiga concordou.

Enquanto Sango e Miroku começaram a caminhar em direção às longas escadas do Templo Higurashi, Sesshoumaru notou que a filha tinha os olhos fixos no banco vazio da mesa de tabuleiros, onde normalmente Bokuseno se sentava para jogar com o avô de Kagome.

— Asuka, não fique para trás. – ele a chamou.

A menina deu um sorriso e correu alegremente para os braços do pai, que virou-se para ir embora ao lado de Rin, não deixando de lançar um último olhar por cima do ombro para o banco vazio perto da mesa de tabuleiros.


— Acho que Kagome-chan deveria considerar mudar a estética do lugar e colocar aquelas escadas rolantes na entrada do Templo, como aquelas de shopping. – Sango reclamou enquanto subiam as escadarias do Templo Higurashi no retorno do grupo – Descer é sempre fácil, mas essa subida...

— Como é que aqueles três conseguem tanta disposição para subirem isso tudo sem cansar? – Miroku reclamou e faz um sinal com a cabeça aos três que estavam mais à frente – Ah, claro... Eles só chegaram depois. Não é à toa que ainda não se cansaram.

— Ei! – Sango reclamou – Esperem por nós!

Do alto, ela viu Asuka acenar alegremente e continuar subindo.

— Rin! Eu vou brigar com você quando aparecer lá no escritório!

— Como eles são lentos... – Sesshoumaru reclamou mais à frente – Pensei que sua amiga gostasse de subir montanhas e fazer trilhas.

— Asuka, mais devagar! – Rin avisou à filha, que aparentemente não escutou, e voltou a conversar com o marido – Sango-chan está cansada, só...

— Cansada para subir escadas quando está acostumada a subir montanhas? Ela deve estar doente ou grávida, então.

O silêncio da esposa era o que precisava para a confirmação.

— Era melhor nem ter descido e ficado descansando no Templo, então. – ele concluiu – E o que ela quis dizer para você ir ao escritório dela?

A filha continuava cantarolando e subindo ainda mais, quase saltando de dois em dois degraus e contando cada um deles.

— Treze... Quatorze... Quinze...

— Asuka, é melhor você parar! – Rin avisou e deu um suspiro ao perceber que havia sido ignorada de novo – Essa menina não me escuta mesmo.

— Asuka. – Sesshoumaru usou um tom de aviso para falar, o que logo chegou aos ouvidos da filha, que parou quando ia pôr um pé em outro degrau – Sua mãe não vai repetir.

A garota parou, virou-se para os pais e sentou-se no degrau que pisava, apoiando o rosto entre as mãos enquanto esperava que eles a alcançassem.

— Quando você vai ao escritório dela? – ele repetiu a pergunta.

— Hmm... – ela parecia hesitante ao revelar a informação – Depois do feriado.

— Vai atrasar então a sua ida para Nagoya?

Rin subiu dois degraus a mais e virou-se para ficar de frente para ele e responder:

— Eu não vou mais voltar pra Nagoya. – ela falou de uma vez.

Sesshoumaru parou no degrau e olhou para a esposa – ele em pé dois degraus abaixo do dela e ainda assim continuava mais alto.

— Vou trabalhar aqui em Tokyo. Sango e eu montamos nosso próprio escritório e vamos começar a trabalhar juntas depois do feriado. Foi sugestão do papai e do Hashi.

Em todo o tempo que se conheciam, ela nunca o tinha visto mais de cinco segundos sem palavras, o que a deixou por um instante muito nervosa. Será que ele não havia gostado da novidade? Era para ser algo que deixasse todo mundo feliz. Ela não precisaria mais viajar toda semana e faria os próprios horários no trabalho. Havia até planejado chegar mais cedo para brincar com Asuka antes de dormir. Era algo que ela gostava de fazer e que havia ficado com Sesshoumaru durante a semana.

— Pensei muito sobre isso e o que mais pesou foi ficar longe de Asuka e de você. Sango-chan disse que não aguentava o serviço e ter que fazer hora extra e ganhar pouco. E agora ela está grávida e o trabalho dela não iria deixar que ela fizesse menos horas e nem dar uma licença... Então decidimos começar do zero com nossa própria empresa.

Sesshoumaru piscou e olhou por cima do ombro: Miroku e Sango estavam sentados num degrau tomando água e rindo de alguma coisa. Era uma pequena pausa e pareciam não se incomodar mais em subir as escadas, contando que fosse devagar.

— E aquelas caixas que você trouxe de Nagoya...

— Eram documentos meus e alguns clientes. – ela colocou a mão atrás das costas – Meu tio ficou triste por sair da empresa. Perguntou se eu podia continuar pelo menos à distância, por isso aceitei alguns casos pelos próximos meses...

A capital nunca ofertou para Rin oportunidades de emprego nunca época em que os dois faziam o possível para mantê-la ali. Ele havia conseguido emprego rápido por conta dos próprios laços familiares, mas ela...

Sesshoumaru subiu um degrau e encostou a mão no rosto dela.

... Mas ela definitivamente havia construído uma vida ali naquela cidade com ele.

— Podia ter me avisado para ajudar em algumas coisas.

— Não ia ser uma surpresa se eu contasse. – ela replicou com um sorriso e voltou a subir as escadas, notando que a filha continuava no mesmo ponto que o pai havia mandado parar – E eu estava mais preocupada com o que você decidiria sobre a casa. Acho que o seu avô sempre quis que você ficasse com ela depois que virasse chefe de família, mas o caminho até lá foi mais longo...

Os dois subiram mais alguns degraus até ela apressar o passo novamente para virar-se e ficarem frente a frente, ela com uma expressão determinada no rosto misturada ao vermelho que sempre permeava a face em momentos de timidez:

— Eu queria...

Sesshoumaru a encarou, notando que ela parecia nervosa ao tentar falar alguma coisa, já que mordia levemente o lábio inferior.

— Queria o quê? – ele a encorajou.

Tomando coragem para encontrar os olhos dele, ela novamente colocou as mãos para trás e revelou de uma vez o que queria:

— Eu queria ter mais um filho seu, Sesshoumaru.

Pela segunda vez em menos de meia hora, as palavras faltaram para ele. Certamente que havia ficado surpreso ao escutar uma coisa daquelas da boca da própria esposa, num momento como aquele, subindo as escadas de um templo depois da tarde que tiveram.

— Quer dizer, não precisa ser agora, sabe? – ela tentou se explicar – Asuka nasceu em um momento diferente, meio que sem planejamento, mas no fim as coisas deram certo. E eu acho também que ela ia gostar de ter um irmãozinho.

Os dois sentiram o vento passar e bagunçar o cabelo. O dela atrapalhou a vista e ela precisou segurar as mechas e prender uma parte atrás da orelha, apenas para voltar a olhá-lo e encontrá-lo já em outro degrau, o rosto extremamente próximo ao dela:

— Pode ser que nossa Asuka queira muitos irmãozinhos e escolher o nome de todos eles.

A boca de Rin abriu, tentando encontrar as palavras, mas naturalmente ela não conseguiu achar algo apropriado para dizer, nem que fosse de brincadeira, principalmente porque o costumeiro calor que sentia no rosto aumentou. Ele sempre a deixava sem jeito, era injusto isso!

— Vamos, minha Rin. – ele a tirou daqueles pensamentos – Nossa filha está esperando.

Rin olhou a menina e viu que ela os olhava aborrecida. Como Asuka era impaciente...

— Preciso visitar os túmulos dos meus pais e do meu avô esta semana... Você vem comigo? – ele perguntou.

A resposta veio com um sorriso e uma confirmação de cabeça. Naturalmente que ela iria acompanhá-lo. Era a primeira visita ao avô e ela queria estar presente para prestar homenagens também.

— Vamos conversar sobre isso mais tarde, certo? – ele falou numa promessa no ouvido dela – Não seja tão apressada, sua insaciável.

— Ora... – ela cobriu o rosto com as mãos e tentou conter uma risada meio nervosa, meio alegre.

— Vamos? – Sesshoumaru passou um braço pela cintura dela – Está ficando tarde... E os outros estão quase nos alcançando.

Os dois continuaram andando juntos até alcançarem a filha, que se levantou num pulo. A pequena ficou entre os dois e segurou a mão de cada um e pulava numa brincadeira os degraus, sabendo que não cairia porque eles não deixariam. Era divertido fazer aquilo.

E melhor ainda quando tantas pessoas unidas andavam juntas pelo mesmo caminho, seguidas de perto de amigos e familiares como os que eles tinham.

FIM

Nota final da autora: Aqui chega ao fim Um Caminho para Dois. Particularmente gostei bastante das mudanças. Foi uma história escrita em 2004-2005, sem telefones celulares (depois descobri que já tinha no Japão e nessa época não eram tão baratos aqui no Brasil), sem aplicativos de mensagens, com relações familiares complicadas, alguns conflitos etc. Sempre precisa ter isso, né? Mas no final é uma história de dois jovens adultos saindo da faculdade que só querem ficar juntos e decidir sobre a própria vida.

Nessa época não tinha nada de Yashahime, então a pequena Asuka foi invenção minha, daí adicionei apenas o desejo dela de ter mais irmãos no futuro, incluindo a Towa e a Setsuna. No original, era apenas o desejo dela de ficar com eles para sempre (assim como a Rin pedia para ficar para sempre com o Sesshoumaru-sama). Eu sempre senti que o Sesshoumaru poderia ter uma filha com a Rin e seria o tipo de pai que dá atenção e faz (algumas) vontades da filha, hahahaha. Imagine com um monte de filho, então.

Espero que gostem e que possam deixar um último comentário sobre o que acharam. Mandei a versão completa do capítulo (de 28 páginas com ilustração desenhada pela Gaby) para algumas pessoas + o one-shot do nascimento da Asuka.

Para quem quiser ler, tenho mais one-shots de SessRin, alguns muito antigos (publicados desde 2003) e outras histórias longas. Agora vou me dedicar a A Cor do Dinheiro. Quem quiser acompanhar, faltam poucos capítulos para acabar.

Obrigada por lerem até aqui!

Beijos,

Shampoo-chan