Mais cedo, ele havia enviado algumas mensagens para ela, exigindo sua atenção, desenhos grosseiros e gifs nas quais Utahime decidiu ignorar. Verdade seja dita, ela o estava evitando há dias, e sentia que a qualquer momento isso voltaria para mordê-la na bunda. Ela sabia que Satoru aceitaria isso até um certo limite antes de aparecer onde ela estava, invadindo seu espaço pessoal, exigindo querendo saber por que ela não o estava respondendo. Se conseguisse conduzir bem a conversa, talvez conseguisse tapeá-lo e adiar a notícia por mais um tempo.

Utahime empurrou o bento para longe. Não conseguia comer, o cheiro de sua própria comida a enjoava. Sentia o peso do papel no fundo de sua bolsa, pendurado na cadeira. O exame de sangue confirmava que ela estava com quase nove semanas e tinha agendado a primeira ultrassonografia para o sábado à tarde. Shoko disse que iria com ela e que queria acompanhá-la para ter certeza de que cuidaria bem dela.

Respirando fundo ela sentiu como se o mundo tivesse ficado em silêncio. Era como se tivessem colocado uma cortina sobre ela. Cada dia que passava parecia ecoar como um sussurro solitário, durante o dia podia se distrair com as aulas e os alunos e nunca pensou que odiaria voltar para seu apartamento, onde ficava deitada deixando um mar de pensamentos a engolirem até que o cansaço a vencesse, única vantagem da gravidez era que ela apagava poucos minutos depois. Na última semana ela estava vivendo no piloto automático, os dias se desenrolando diante dela sem que ela pudesse sentir verdadeiramente a passagem do tempo.

Após a confirmação, parecia que todos os sintomas iniciais da gravidez tinham decidido se manifestar de uma vez. O cansaço pareceu cada vez mais, os enjoos não eram só matinais, e Utahime lutava para manter a aparência na escola. Às vezes durante o almoço ela se questionava se era um sintoma real ou simplesmente o resultado de fingir que nada estava percebia que o dia passava, ela sentia a necessidade de tentar segurar algo palpável, tentando parar o tempo, adiar cada segundo para evitar o dia que ela tivesse que encarar ele ou que as pessoas começassem a perceber sua situação.

Ela sabia que chegaria o ponto de não poder mais ignorar a situação, mas também não podia tornar o fato público. O conselho de Shoko sobre contar ao idiota ficava martelando em sua mente. Como poderia contar algo a ele quando isso nunca fora planejado? Ela sempre soube da forma como ele vivia, preconizando sua liberdade e a renúncia a laços, sejam eles de clã, superiores, namoradas... ou filhos.

Esse era o acordo deles. Ela não sentia necessidade de cobrar nada dele, e ele não daria nada a ela. Eram apenas duas pessoas que se encontravam nas noites solitárias, uma onde ela buscava um ombro e ele encontrava um desafio. Ela o negava, apresentando um risco real de ser posta para fora do apartamento se o irritasse o suficiente.

Toda vez que pensava em Gojo, Utahime sentia uma onda de frustração que a fazia querer arrancar os cabelos. E o pior era a vontade incontrolável de jogar algo naquele idiota. Sabia que se ele aparecesse na sua frente, não hesitaria em arremessar tudo o que estivesse na mesa em sua direção, mesmo que a barreira invisível dele o protegesse. A simples imaginação de um objeto atingindo sua cabeça trouxe um sorriso momentâneo ao seu rosto, trazendo certo conforto.

"Espero que esse sorriso em seu rosto seja por lembrar de mim, Utah."

Utahime pulou da cadeira ao ouvir aquela voz e reconheceu a presença daquele que atormentava seus pensamentos nas últimas semanas. Gojo apareceu na porta de sua sala com o uniforme de professor e a venda. Utahime sempre pensava como ele parecia um idiota com aquele cabelo que o deixava parecendo um pincel.

Gojo sorriu de forma travessa e se aproximou, provocando Utahime. "Afinal, como poderia não pensar no Grande Satoru Gojo?"

Utahime encarou ele com um olhar de descrença, Gojo entrou na sala se aproximando dela ignorando completamente a ideia de espaço pessoal.

"Sentiu minha falta Utah? Impossível não sentir falta, afinal, quem mais poderia preencher esse vazio na sua vida sem graça, Utah?" Gojo disse com um tom brincalhão.

"Utahime-senpai," corrigiu ela, ignorando completamente a tentativa de Gojo de lhe tirar uma risada. Ela voltou a olhar para o bento, fingindo total desinteresse e viu de relance ele fazendo um gesto dramático colocando a mão no peito.

Gojo diminuiu o sorriso, sentou-se na ponta da mesa, a perna dele roçava em seu braço. "Então, por que tem me ignorado, Utahime?" Ele questionou, encarando o bento dela procurando algo para roubar, puxou um pedaço de salmão rápido o suficiente evitando o tapa que ela direcionava na mão dele.

Utahime manteve o olhar fixo no Bento, sentindo o enjoo da ansiedade se misturar com o aroma da comida.

"Estava ocupada com a escola e missões e o que você veio fazer aqui, ein?E para de roubar minha comida"

Utahime viu Gojo puxar outra parte do seu almoço e enfiar na boca, mastigando da forma mais ruidosa possível, sabendo que ele estava fazendo isso pra irritar ela, provavelmente como uma vingança mesquinha por ela ignorar ele.

"Utahime, o que aconteceu?"

Gojo perguntou novamente, ignorando os protestos dela, a essa altura Utahime já tinha desistido de tentar salvar seu almoço e deixou ele puxar para si a comida, passando os hashis para ele se encostou na cadeira, encarando um ponto no fim da sala se concentrando tentando ignorar o enjoo. Um arrepio subiu sua coluna, ela sabia que ele a estava encarando, sentiu o olhar pesar nela, ele vagava procurando qualquer pista que explicasse a mudança de comportamento dela.

Gojo suspirou e olhou sério para Utahime

"Utahime, por favor. Você não é do tipo que mente ou esconde as coisas. O que aconteceu de errado?"

Utahime hesitou por um momento, ignorando o rosto dele evitando os olhos, mesmo vendado ela sabia que não suportaria encarar ele.

"É realmente nada, Gojo. Só estou um pouco indisposta hoje, não é nada grave."

Antes que ela pudesse perceber, Gojo colocou o bento na mesa e segurou o braço dela. Utahime sentiu a atmosfera mudar ao seu redor, e antes que pudesse dizer qualquer coisa, eles foram teletransportados para um parque isolado nos arredores da escola irmã de Kyoto.

Utahime não conseguiu segurar o enjoo que a atingiu e correu para vomitar junto a uma árvore. Gojo a observou com uma expressão de surpresa misturada com preocupação. "Eu pensei que você já estivesse acostumada com o teletransporte, Utah."

Utahime se endireitou, respirando fundo e limpando a boca com as costas da mão. Ela olhou para Gojo com um olhar de irritação. "Você é um idiota, sabia?"

Gojo segurou seu braço novamente, desta vez mais gentilmente. "Não minta para mim, Utahime. Algo está te incomodando, e eu quero saber o que é."

"A única coisa que está me incomodando aqui é você, Gojo. E como você pode ter tanta certeza de que estou mentindo?"

"Sua energia amaldiçoada é diferente, Hime. Não é mais a calma que costuma ter. Quando entrei na sala, vi sua energia oscilando como um espiral. Sei que algo está te incomodando."

"Estamos conversando a mais de 10 minutos e você não me gritou ou jogou algum objeto em mim, não sei se gosto de você assim." Gojo se aproximou dela, segurando seu queixo, forçando a encarar ele. "Acredito que somos amigos o suficiente para que você possa confiar em mim para contar o que está acontecendo. Você não precisa lidar com isso sozinha."

Gojo inclinou a cabeça, olhando nos olhos de Utahime. "Estamos conversando há mais de 10 minutos e você não me gritou ou jogou algum objeto em mim. Não sei se gosto de você assim."

Ele se aproximou dela, segurando delicadamente o queixo dela, forçando-a a encará-lo. "Acredito que somos amigos o suficiente para que você possa confiar em mim para contar o que está acontecendo. Você não precisa lidar com isso sozinha."

Utahime hesitou por um momento antes de finalmente falar. "Eu... Eu não sei se consigo falar sobre isso."

Gojo a observou com preocupação. "É algo relacionado aos alunos ou é algo pessoal? Se for promoção, sei que você não fez nenhum teste recentemente."

Utahime balançou a cabeça. "É pessoal... e acho que você não vai gostar."

"Por favor, tente. Você sabe que pode confiar em mim," Gojo incentivou.

Um silêncio tenso pairou no ar antes de Gojo tomar uma decisão. Com sua mão livre, ele removeu a venda dos olhos. Seu olhar era sincero e gentil. Utahime sabia identificar quando o sorriso de Gojo era genuíno. A leve covinha em sua bochecha aparecia, e seus olhos sorriam junto com seus lábios.

Gojo quebrou o silêncio. "Você confia em mim, Utahime?"

Ela assentiu com firmeza e, depois de um momento de hesitação, finalmente falou. "Estou grávida."

Utahime esperou, com o coração batendo forte, enquanto Gojo processava suas palavras. O silêncio era quase ensurdecedor, preenchido apenas pelo som do vento sussurrando pelas árvores.

Finalmente, Gojo falou, sua voz carregada de surpresa e incerteza. "Grávida?"

Ela assentiu, os olhos fixos no chão. "Sim, Gojo. Grávida."

Gojo ficou sério, afirmando com convicção: "Você não está mentindo ou brincando sobre isso, está?"

Utahime o encarou, seus olhos transmitindo a seriedade da situação. "Não, Gojo. Essa merda é real."

Gojo assentiu, olhando para o horizonte, perdido em seus pensamentos. "Não estava preparado para algo assim."

Eles permaneceram em silêncio por um momento, até que Utahime finalmente se livrou do aperto dele e caminhou até um banco de cimento próximo. Ela se sentou, olhando para o horizonte, tentando conter as lágrimas que ameaçavam escapar.

Utahime observou-o se aproximar e sentar ao seu lado no banco. A tensão era palpável.

"Você já sabe o que pretende fazer?"

Ela assentiu, firme. "Ficarei, mas não espero que você sinta a mesma obrigação. Conheço bem o suficiente para não ter expectativas e sei que esse não era o nosso acordo."

Ela viu o sorriso afetado dele e os olhos fixando o chão

"Como... como isso aconteceu?"

Utahime lançou-lhe um olhar irônico. Ele levantou o rosto encarando ela, acompanhado de um sorriso malicioso.

"Era retórico. Eu me lembro bem de como aconteceu."

"Você não precisa ficar, Gojo. Compreendo que talvez queira se afastar dessa situação."

"Quando você descobriu?" Ele continuava a ignorar os avisos dela de que poderia ir.

"Faz algumas semanas", respondeu ela.

Ele franziu o cenho.

"Por que não me contou?"

Ela deu de ombros, incerta. "Não sei."

"Você se sente bem para voltarmos para a sala?"

Utahime assentiu, sentindo um certo alívio por Gojo não pressioná-la mais. Ele se aproximou dela e passou o braço ao redor de sua cintura antes de teletransportar. Quando chegaram de volta à sala de aula, Gojo continuava com o aperto firme.

Ela afastou o braço dele sorrindo tentando convencer ele, ou até ela mesma, que estava tudo bem. Enquanto Gojo cuidadosamente a liberava, um som chamou a atenção deles.

O celular de Utahime na mesa apitou, uma notificação de um aplicativo de gravidez informando que o bebê estava do tamanho de um limão naquela semana.