Capítulo 4
"The boy with the thorn in his side,
Behind the hatred there lies a murderous desire for love1"
The Boy with Thorn in his Side, The Smiths
Jaime voltou para casa sentindo-se patético por sua fracassada tentativa de agir como alguém normal, e completamente arrependido pela forma como tratara a mulher desconhecida que nada tinha a ver com seus problemas. Lançou o caderno dela sobre a mesa de centro da sala e se jogou no sofá, deitando-se com o braço esquerdo apoiado sobre a cabeça.
Perguntava-se quando se tornara esta pessoa descontrolada que insultava uma garota apenas porque ela lhe pedira um autógrafo. Apesar da resposta parecer óbvia, não podia afirmar que não estaria nas condições em que se encontrava se ainda tivesse a mão direita. Por mais cego que pudesse ser a respeito de seu passado, tinha que admitir que suas perspectivas não seriam muito melhores, caso continuasse seguindo a vida que levava em meio a bebidas e noitadas.
Tudo o que aquela mulher dissera era verdade. Ninguém tinha culpa do que lhe acontecera. Ninguém além dele mesmo.
Jaime se ergueu, sentando-se no sofá para poder analisar o caderno dela. Apenas naquele momento notou que a capa fora customizada por ela. Tinha a imagem e a logo de várias bandas e ela o encapara com algum tipo de adesivo transparente para preservá-lo. Jaime notou que o logotipo de sua banda também estava em meio a tantas outras e sorriu por conta disso. Em sua mente, depois do acidente, qualquer fã que tivesse a essa altura já teria se esquecido de sua existência, mas aparentemente isso não era verdade.
Ao abrir o caderno descobriu que Brienne Tarth, o nome que estava escrito no caderno, era uma jovem que levava muito a sério a tarefa de preencher a folha que solicitava seus dados pessoais. Ali havia dados que iam desde seu nome e data de nascimento a seus telefones e e-mail de contato; o que significava que Jaime poderia pedir desculpas por sua estupidez, embora não estivesse muito certo se deveria fazê-lo.
Fazia alguns anos que vinha agindo como um idiota e era bem provável que tornasse as coisas piores se telefonasse para ela. Pelo que estava escrito no caderno, Brienne tinha vinte e cinco anos, oito anos mais jovem que ele. O que indicava que suas mentalidades e personalidades certamente já seriam bem diferentes uma da outra, mesmo se não tivessem começado as coisas com o pé esquerdo; então qual seria o sentido de telefonar para ela e se desculpar? Nunca mais se veriam e ela devia se sentir agradecida por isso. Não fazia bem a ninguém ficar perto dele.
Ainda assim, havia uma parte de Jaime que sabia que não poderia simplesmente ficar com o caderno dela e deixar as coisas como estavam... ou talvez pudesse, caso não houvesse informações importantes ali. Ele folheou o caderno e descobriu que ela estudava música. Isso o surpreendeu bastante. Havia anotações na letra diligente e delicada dela sobre teoria musical e inúmeros assuntos relacionados à música, e isso fez Jaime se sentir ainda mais culpado.
Brienne não era como muitas das fãs que tivera na época em que fazia sucesso. Fãs que só estavam ali pela aparência dos músicos, ou que seguiam qualquer banda que fizesse algum sucesso... Este, definitivamente, não era o caso dela. Brienne realmente se interessava pelo assunto e, pelo que ele lia, podia constatar que, se ela era sua fã, era porque apreciava verdadeiramente sua música.
Jaime fechou o caderno com um movimento rápido e colocou-o ao seu lado no sofá, antes de cobrir o rosto com a mão e suspirar. Era um imbecil.
Ficou assim por alguns minutos, pensando no que fazer, até seu telefone começar a tocar, tirando-o da inércia.
— Você não me ligou de volta — seu irmão resmungou antes que ele pudesse se pronunciar. — Conseguiu sair de casa?
— Sim — respondeu um pouco irritado. — E agora sei que não deveria ter feito isso.
— Por quê? O que aconteceu? — Tyrion indagou confuso e Jaime lhe fez um breve resumo do que se passara.
Seu irmão começou a rir assim que ele terminou seu relato.
— Quer parar de rir? Que tipo de pessoa é você, que fica achando graça das tragédias que acontecem ao seu irmão?
— O tipo de irmão que se preocupa e que fica feliz de saber que, finalmente, você está se comunicando com outros seres humanos.
— Não foi exatamente uma conversa amigável, Tyrion. Nós discutimos — ele argumentou irritado, tentando fazer seu irmão perceber a loucura do que dizia.
— Sim. Concordo que não foi o começo ideal, mas, no mesmo dia, você saiu de casa, falou com alguém, demonstrou raiva e, agora, arrependimento — Tyrion replicou sem deixar de sorrir. — Isso é bem melhor do que a apatia e indiferença nas quais vivia afundado até então.
Jaime sacudiu a cabeça sem acreditar no que ouvia. Seu irmão só podia estar louco se realmente acreditava que toda aquela confusão havia sido positiva.
— E agora tem que se desculpar com esta garota. Você foi um troglodita e ela não merecia isso — ele prosseguiu.
— Acho melhor deixar as coisas como estão. Não haverá mais confusões se não nos falarmos. — Tyrion riu novamente.
— Eu não sabia que você era tão covarde assim, maninho. Uma coisa é ficar se escondendo dentro de casa, e outra bem diferente é cometer uma injustiça e não fazer nada a respeito. Não me diga que está com medo de ouvir mais algumas verdades? — O rosto de Jaime corou. — Depois da forma como agiu, isso é o mínimo que merece.
Ele não podia deixar de concordar com aquelas palavras. Tinha consciência de que mereceu ouvir as verdades que Brienne jogara em sua cara, porém isso não queria dizer que elas eram fáceis de engolir.
— Quer saber? Já estou farto de te ouvir — Jaime retrucou. — Tenho mais o que fazer.
— Tipo o quê?
Jaime não tinha uma resposta para isso, entretanto, não precisava de uma. Aquela era uma pergunta retórica e, como seu irmão adorava ouvir o som de sua própria voz, ele mesmo a responderia.
— Ligar pra essa moça e se desculpar? Se for isso, concordo plenamente.
— Esqueça essa história, Ty. Volte pra sua esposa e me deixe em paz.
Depois de tudo o que ouvira, Tyrion estava com um humor excelente, e não se irritaria com a grosseria de seu irmão.
— Vou te ligar amanhã e espero que tenha boas notícias pra mim. Já gostei dessa garota e nem mesmo sei o nome dela.
A menção à jovem fez com que Jaime relanceasse seu caderno e se acalmasse um pouco.
— O nome dela é Brienne — respondeu tranquilamente, esquecendo-se, por um momento, como esta informação apenas incentivaria seu irmão.
— Brienne e Jaime. Não me soa tão mal. — Jaime bufou irritado.
— Já chega. Não quero mais falar com você — falou pressionando o botão para encerrar a ligação.
Podia imaginar Tyrion gargalhando naquele momento e se divertindo ao contar a história para sua esposa, enquanto ele se atormentava tentando decidir se faria ou não aquele telefonema.
Mirando mais uma vez o logotipo da sua banda, Jaime voltou a abrir o caderno começou a digitar o número dela em seu celular. Em poucos segundos saberia se esta era uma decisão sábia ou não.
1 "O garoto eternamente atormentado,
Por trás do ódio jaz um desejo homicida por amor". Tradução do site .br.
