Capítulo 7

"I heard she sang a good song, I heard she had a style
And so I came to see her and listen for a while
And there she was this young girl, a stranger to my eyes1"

Killing me Softly, Frank Sinatra

Ao abrir os olhos na manhã seguinte, Jaime se levantou do sofá e seguiu para o banheiro. O leve enjoo que começara no meio da noite estava ficando mais forte e ele precisou correr para não acabar vomitando no chão. Após colocar o pouco que tinha em seu estômago para fora, ficou algum tempo sentado no chão ao lado do vaso sanitário, até ter certeza de que não sentia mais vontade de vomitar; e, quando se sentiu mais firme, se levantou e escovou os dentes, pensativo.

Sabia o que esses sintomas significavam. Eram as primeiras reações de seu corpo à abstinência de álcool no seu organismo. Havia muito tempo que Jaime não permanecia um dia inteiro sem beber e era evidente que se manter afastado de seu vício traria algumas consequências. Se não bebesse nada naquele dia as reações seriam ainda piores.

Ao se olhar no espelho reparou no que não percebera no dia anterior. Estava péssimo. Tirou a camisa e analisou seu corpo que, naquele momento, estava muito abaixo de seu peso ideal e com um aspecto deprimente. Não era segredo pra ninguém que ele não estava se alimentando direito, porém ficou assustado ao perceber o que fizera consigo mesmo durante aqueles anos.

Não era de se admirar que Brienne estivesse tão relutante em encontrá-lo. Quem iria querer encontrar isso? Jaime encarou seu reflexo e percebeu que nem mesmo seus olhos lhe pareciam tão bonitos como antigamente. Não havia vida nele e era óbvio que essa ideia de encontrar a jovem era ridícula. O melhor a fazer era lhe enviar uma mensagem e desmarcar o compromisso.

Estava prestes a pegar seu telefone para prosseguir com seu intuito quando seus olhos caíram no caderno sobre a mesa de centro. Precisava devolvê-lo e, se não fosse naquele dia, teria que ser em outro. Neste ponto seu irmão estava certo, não podia fugir para sempre.

Voltou ao banheiro e encarou-se mais uma vez. Não havia nada que pudesse fazer, naquele momento, para trazer de volta o brilho de seus olhos, ou para que voltasse a ser o homem que fora um dia, mas podia aparar aquela barba volumosa e tentar parar de sentir pena de si mesmo ao menos por algumas horas. Seria difícil, porém precisava encontrar algum resquício de dignidade em si mesmo antes de encontrar Brienne.


Quando a jovem chegou à cafeteria, Jaime já estava sentado aguardando-a, bebendo uma xícara de café. Estava extremamente pálido e Brienne teve a nítida impressão de que aquele era o último lugar onde ele queria estar. Ao vê-la se aproximando, Jaime deu um sorriso que lhe pareceu forçado e acenou para chamar sua atenção.

— Olá — ele disse a Brienne e ficou indeciso se deveria se levantar ou não para cumprimentá-la e talvez puxar sua cadeira.

Felizmente esta decisão foi tirada de suas mãos, já que ela mal relanceou seus olhos antes de se sentar à sua frente. De alguma forma, isso lhe dava a certeza de que não estavam num encontro.

— Oi — a jovem respondeu constrangida, após colocar sua bolsa na cadeira ao seu lado.

Jaime sentiu-se um imbecil ao perceber que não sabia mais como iniciar uma conversa com uma mulher. Houve um tempo em que tinha muita desenvoltura ao conversar com alguém do sexo oposto, ou com qualquer outro ser humano, mas agora agia como uma criança de cinco anos.

— Eu... — os dois começaram ao mesmo tempo e isso, finalmente, pareceu quebrar um pouco da tensão que os envolvia.

— Pode falar — Brienne disse com um pequeno sorriso, que Jaime recebeu como uma oferta de paz.

— Certo.

Ele apertou a xícara em sua mão e respirou fundo antes de abrir a boca novamente.

— Eu sei que você disse que não aceita minhas desculpas, mas me sinto na obrigação de mencionar o assunto mais uma vez. Fui um idiota e realmente sinto muito. — Jaime a encarou rapidamente e então passou a fitar a xícara à sua frente.

Podia sentir o suor se acumulando em sua testa de tão nervoso que estava, e isso não se devia apenas ao fato de ter que se desculpar. Sentia-se exposto e perdido naquela cafeteria. A impressão que tinha era de que todos o encaravam e o julgavam por ser diferente deles.

— Acho que fui um pouco dura demais ontem ao telefone — a jovem concedeu. — Aceito suas desculpas. Acho que começamos com pé errado, então... podemos tentar de novo.

Ele soltou o ar que nem havia percebido que prendia e sorriu. Nesse momento o garçom se aproximou e perguntou o que Brienne ia querer. Ela pediu um chocolate quente e algo para comer e Jaime fez o mesmo, já que havia terminado seu café. Talvez aquela conversa não terminasse tão mal e nem fosse tão rápida quanto esperavam.

Aos poucos Brienne começava a se sentir mais à vontade conversando com Jaime e agora que o assunto se voltara para seus estudos, estava empolgada pela oportunidade de falar com um de seus ídolos sobre seu assunto favorito.

— Eu aprendi desde pequena a apreciar boa música e há alguns anos decidi que queria aprender mais sobre o assunto, e talvez me tornar musicista, mesmo não sendo muito talentosa — explicou fazendo uma careta e Jaime riu. — Sei tocar alguns instrumentos de maneira simplória, mas nunca me dediquei a nenhum deles com afinco. Não sei... Acho que ainda não encontrei aquele que toca minha alma, como você disse numa entrevista. — O sorriso no rosto de Jaime esmoreceu um pouco.

— Acho que faz muito tempo que nada toca minha alma. Não sou mais o mesmo — comentou baixando a cabeça e olhando para o ponto onde seu braço direito se encerrava.

— Ninguém é — respondeu Brienne notando a direção que os pensamentos dele seguiam. — Todos os dias nos tornamos pessoas diferentes do que éramos ontem. E, se não fosse assim, não haveria qualquer evolução.

— Esse pensamento é muito bonito, mas nem tudo é tão simples assim.

— Eu não disse que é simples, Jaime — ela replicou encarando-o e, por um momento, se perdendo naquelas piscinas verdes —, mas temos que começar de algum lugar. Eu posso não ter perdido uma mão, mas já passei por coisas muito ruins e as quais preferia esquecer.

Brienne bebeu um gole de seu chocolate temendo ter ido longe demais. Esta não era a hora nem o lugar para começar a falar de seu passado ou do dele.

— O que você faz quando precisa esquecer? — ele perguntou e a jovem soltou um suspiro de alívio por Jaime não a questionar a respeito do que dissera.

— A música ajuda muito — Brienne explicou com um sorriso satisfeito. — E eu gosto de correr também, então costumo ir a um parque que tem aqui perto e corro ouvindo música. Isso sempre me ajuda a organizar meus pensamentos.

— A música costumava me ajudar também. Eu adorava tocar saxofone e criar canções — Jaime disse sentindo-se nostálgico. — Não é mais assim.

— Por quê? — indagou Brienne angustiada. — Não é possível que todo o seu amor pela música tenha acabado depois de seu acidente.

— Você não sabe do que está falando — Jaime respondeu em um tom, repentinamente, mais frio.

— Já notei que você não gosta que esse assunto seja mencionado, mas precisa saber que sua vida não acabou por causa disso — a jovem insistiu mesmo sabendo que estava pisando num terreno perigoso. — Há tantas coisas que você poderia fazer no mundo da música mesmo sem poder tocar os instrumentos...

— Como o quê? — ele perguntou com raiva. — Ser um maldito professor?

— Sim. Esta é uma das opções. — O rosto de Jaime estava transtornado, no entanto, Brienne acreditava que agora havia ido longe demais para simplesmente engolir suas palavras. — Ou continuar compondo. Tenho certeza de que suas músicas permaneceriam fazendo sucesso durante anos e anos se fizesse isso. Elas ajudam muitas pessoas e...

— Eu não quero ajudar ninguém, Brienne — Jaime replicou batendo na mesa com seu braço direito, assustando-a. — Eu quero que me deixem em paz do jeito que eu sou.

— Este não é você — a jovem falou em um fio de voz e ele deu uma gargalhada sarcástica.

— E é claro que você saberia disso, já que me conhece tão bem, não é? Você me conhecia através de revistas de fofocas até ontem e acha que já é uma especialista no assunto? — Jaime se levantou da mesa com raiva e jogou algumas notas de dinheiro sobre ela. — Acredite, esta pessoa diante de seus olhos pode ser odiosa e patética, mas é isso o que eu sou agora; e, se não pode aceitar o que seus olhos veem, é melhor que esta conversa termine por aqui.

Dito isso, Jaime saiu do café furioso, maldizendo seu irmão que o incentivara a dar prosseguimento com essa loucura. Por que as pessoas não podiam entender que ele mudara? O Jaime que conheciam havia morrido e o que restara era apenas uma casca vazia.


1 "Eu a ouvi cantar uma boa música, eu ouvi que ela tinha estilo

Então vim vê-la e escutá-la por um tempo

E lá estava ela, essa jovem garota, uma estranha a meus olhos". Tradução Livre.