De Coração Para Coração

Capítulo 1

"So goodbye, yellow brick road

Where the dogs of society howl"1

Goodbye Yellow Brick Road, Elton John

A última coisa que Negan esperava ao entrar naquele prédio era encontra um menino coberto de sangue, mas fora exatamente isso o que seus homens e ele viram: um menino com certa de cinco anos, que mais parecia um cachorrinho assustado, com o rosto e as roupas cobertas de sangue; e, pelo cheiro que vinha delas, se tratava de sangue de zumbi.

— O que aconteceu com você, menino? — um deles questionou receoso. — Menino!

Não obtiveram nenhum resposta além de olhos arregalados e assustados.

— Talvez seja melhor matá-lo — sugeriu Simon. — Ele parece mais pra lá do que pra cá mesmo.

— Não diga bobagens — Negan retrucou se aproximando devagar. — Você foi mordido? — O menino rapidamente negou com a cabeça. — Então, venha comigo — prosseguiu estendendo a mão para ele e o menino se encolheu assustado. — Eu prometo que não lhe faremos nenhum mal.

O menino pareceu ponderar por um minuto e Negan não conseguiu conter o sorriso que surgiu em seus lábios. Aquele menino estava totalmente certo em desconfiar dele e de seus amigos. O mundo em que viviam antigamente já não proporcionava muitas brechas para confiar em alguém, e diante do apocalipse a situação piorava consideravelmente.

— Se você sobreviveu até agora é porque é um garoto esperto, então sabe que, se ficar sozinho aqui, suas chances de continuar vivo não são muito boas — Negan afirmou analisando os arredores. — Há mais alguém aqui com você? Seu pai ou sua mãe, talvez? — Novamente o menino negou com a cabeça, dessa vez apresentando alguma tristeza em seu olhar. — Então sua melhor chance é conosco. Terá comida e um lugar seguro pra ficar.

Levou algum tempo, porém, mesmo que ainda estivesse receoso, o menino segurou a mão de Negan e se deixou levar por ele. Aquele homem tinha razão, no fim das contas, não havia mais nada para ele ali.


O caminho até o Santuário foi tranquilo e silencioso por parte do menino; e Negan não sabia se isso se devia ao fato de ele ser mudo realmente ou a algum trauma pelo qual passara. Levando em conta seu estado, apostaria no trauma.

O grupo entrou no Santuário e seu líder estava prestes a se aproximar de uma grupo de mães que entretinham algumas crianças para perguntar o que poderiam fazer para ajudar o menino. Porém, antes mesmo que pudessem dar um passo para chegar até elas, o garoto largou a mão de Negan, correu em direção a uma mulher que caminhava pelo ambiente e a abraçou.

— Você conhece esse menino? — Negan perguntou com o cenho franzido.

— Não — ela respondeu enquanto correspondia ao abraço da criança com uma expressão preocupada.

Negan assentiu e apenas os observou por um momento.

— Seu nome é Olivia, certo? — Negan questionou analisando-os e a jovem ficou surpresa por ele saber quem ela era.

— S-sim — afirmou envergonhada por ser o foco da atenção de Negan, ainda que por pouco tempo.

— Você pode tomar conta dele por enquanto?

— Claro — ela concordou acariciando a cabeça do menino. Seria impossível deixar de ajudar uma criança que parecia tão perdida e desesperada.

— Ótimo. Mais tarde falo com você, então — concluiu Negan ainda tentando entender porque aquele menino pareia gostar tanto da presença de Olivia. — Preciso resolver algumas coisas agora, mas logo irei até vocês.

— Tudo bem. — Olivia assentiu e se afastou do menino apenas o suficiente para que pudessem caminhar em direção ao banheiro.

Não estava acostumada a lidar com crianças, mas era mais do que óbvio que aquele menino precisava de um banho e roupas novas urgentemente.


Algumas horas depois, Olivia ouviu uma batida na porta de seu quarto e esta foi aberta logo a seguir. Negan, cumprindo sua palavra, foi verificar como estava o menino e a encontrou sentada em uma poltrona com um livro nas mãos, observando a criança que dormia tranquilamente em sua cama. A essa altura ele já havia tomado banho e jantado.

— Podemos falar agora? — Negan questionou ao abrir a porta e Olivia assentiu se levantando e deixando o livro de lado.

— É melhor falarmos lá fora pra não o acordar — ela disse ao se afastar da criança. — Ele já passou por muita coisa; ao menos acredito que sim.

Olivia o acompanhou para fora do quarto e ele encostou a porta.

— Ele disse alguma coisa? — perguntou Negan. — Um nome talvez?

— Não — explicou Olivia sacudindo a cabeça. — Nem um pio.

— Tem certeza de que nunca o viu? Ele parece confiar em você.

— Tenho. Eu nunca o tinha visto — a jovem reafirmou. — Talvez eu o lembre de sua mãe ou alguma tia. Não sei. Só podemos imaginar.

— Bem, ele claramente passou por momentos muito ruins — concordou Negan. — Não sei bem o que aconteceu aos pais dele ou seus responsáveis, mas, pelo sangue em suas roupas, já deu pra perceber que não pode ter sido nada de bom. Vamos cuidar dele, é claro, mas no momento você parece ser a única pessoa com quem ele quer ficar. Você acha que pode cuidar dele de maneira mais definitiva?

— Você quer dizer como se eu fosse a mãe dele? — Olivia questionou levemente assustada e Negan assentiu.

— Eu sei, é algo bem inesperado, mas não faço ideia do que poderia acontecer a ele caso o forçássemos a ficar com outra pessoa. É claro que, se você não puder...

— Não. Eu quero ajudar. Não teria coragem de abandonar ele desse jeito. Eu só... Não sei. — Olivia passou as mãos por seus próprios braços e soltou o ar que prendia. — Nunca me imaginei como a mãe de slguém. Não sei se vou fazer um bom trabalho.

— Bom, pelo que vi até agora você está indo bem — Negan comentou com um sorriso de canto, e uma covinha se formou em seu rosto; algo que Olivia achava extremamente fofo. — E é claro que você não vai fazer isso sozinha. Sempre que precisar de ajuda, pode falar com uma das outras mães que vivem aqui; e eu vou estar por perto. Também quero ajudar esse rapazinho.

— Certo. Vou fazer o melhor possível — a jovem concordou se sentindo mais tranquila.

— Ótimo. Pelos próximos dias acho melhor você deixar o seu trabalho pra alguma outra pessoa fazer e se dedicar apenas ao garoto.

— Mas, Negan, eu...

— Olivia... — Ela se surpreendeu com a gentileza com que ele disse seu nome. — Até que se acostume à vida aqui, ele deve precisar de uma atenção maior, e você é a única que pode fazer isso. Temos que descobrir o que aconteceu para tentar ajudá-lo e, para isso, precisamos que ele se sinta seguro e acolhido. Tudo bem?

— Ok. — Não havia como discutir com relação a isso.

— Certo. Amanhã eu vou até o local onde o encontramos para tentar descobrir mais alguma coisa, mas assim que voltar venho ver como ele está e te digo o que descobrir, ok? — Ela assentiu.

Ambos esperavam que o dia seguinte lhes trouxesse mais respostas sobre aquele garotinho, por mais dolorosa que a verdade pudesse ser. Para ele estar, aparentemente, tão traumatizado, algo de muito ruim devia ter acontecido.

1 "Então, adeus, estrada dos tijolos amarelos

Onde os cães da sociedade uivam".