CAPÍTULO UM

Gina estava chocada com a irmã gêmea.

— Pretende mesmo levar isso adiante?

Por trás dos cílios cobertos por uma grossa camada de rímel preto, o olhar de Cho era desafiador.

— Não posso cuidar de um bebê. Além disso, eu nunca a quis mesmo.

— Mas Geórgia é tão novinha! — Gina protestou. — Como pode abandoná-la?

— Esta é uma oportunidade única. Se eu não agarrá-la com as duas mãos, talvez nunca na vida tenha outra chance dessas.

— Mas ela só tem quatro meses! — Gina exclamou. — Deveria criá-la em memória a Cedrico.

— Não devo nada a ele! Esqueceu que Cedrico se recusou a reconhecer a filha? Nem quis fazer teste de paternidade, sem dúvida porque não queria aborrecer a noivinha dele. — Cho andava pela sala, zangada. — Eu deveria saber que não podia confiar nele. Os homens da família Potter são famosos por levar uma vida de playboy; é só olhar o jornal de ontem para perceber.

Gina lembrava-se da foto de Harry Potter, irmão mais velho de Cedrico, num dos cadernos de fim de semana que circulavam em Sidney. Era raro haver uma semana sem qualquer referência ao seu ritmo de vida bilionário. O bonito semblante moreno tinha sido a primeira coisa que notara ao abrir o jornal.

— E Potter sabe que pretende entregar a sobrinha dele em adoção?

Cho se virou para encarar a irmão.

— Eu escrevi para o pai dele na Itália semanas atrás, mas ele foi categórico quando recusou conhecer Geórgia como neta. Então enviei uma foto dela. Ficará com a pulga trás da orelha quando ver o quanto ela se parece com Cedrico. Tive que agir, já que minha vida está assim por culpa do filho dele.

— Mas...

Cho lhe lançou um olhar irritado.

— Não quero mais nada com a família Potter. Eu lhes dei a oportunidade de reclamarem Geórgia, mas a desperdiçaram. E é para dar prosseguimento ao plano B que estou de partida.

— De partida? — Gina a fitava consternada. — De partida para onde?

— Estados Unidos.

— E Geórgia? — ela perguntou, o coração aflito. — Não está mesmo pensando em... — Não conseguia nem enunciar o resto da frase.

Cho deu de ombros.

— Pode cuidar dela por uns meses... É o que você tem feito na maior parte do tempo mesmo. Além disso, é óbvio que ela gosta mais de você do que de mim, então não vejo por que não deixa-la com você por enquanto. Pode cuidar dela até alguém adotá-la.

O estômago de Gina se revirou. Era duro pensar que a irmã tinha tão pouca estima pela menininha que estava dormindo no carrinho de bebê perto da janela. Como podia ser tão insensível a ponto de abandonar a própria filha?

— Olha... — Gina tentava trazer a irmã à razão. — ... sei que está perturbada; só faz alguns meses que Cedrico... se foi.

Cho se voltou para ela com fúria.

— Por que o eufemismo? Cedrico não foi a lugar nenhum... ele morreu.

Gina engoliu em seco.

— Eu... eu sei.

— Estou feliz que tenha levada a noiva estúpida com ele — Cho acrescentou com tom aborrecido.

— Não quis dizer isso, quis?

O semblante de Gina se retorceu em amargura.

— Claro que sim. Odeio a família Potter e qualquer um ligado a eles. — Jogou os cabelos loiros para trás e encarou a irmã. — Tenho a chance de começar uma nova vida com Miguel Corner nos Estados Unidos. Ele me ama e me prometeu um papel em um de seus filmes. É minha grande chance no cinema. Só uma idiota a deixaria escapar. Esse eu usar as cartas certas, talvez ele me peça em casamento.

— Falou com ele sobre Geórgia? Cho revirou os olhos.

— Esta doida? Claro que não. Ele pensa que Geórgia é sua filha.

Gina assustou-se.

— Como pode pensar em casamento sem contar a ele sobre seu passado?

Cho lançou um olhar mordaz a irmã.

— Miguel nem pensaria em se envolver comigo se eu tivesse revelado algo assim. Ele pensa que meus olhos "inocentes como os de uma criança" são a própria luz do sol. E continuará pensando assim, mesmo que eu precise mentir odos os dias para garantir que isso aconteça.

— Mas se ele a ama...

— Gina, não quero ter a mesma vida da nossa mãe, que trocava um homem ruim por outro pior e despachava as filhas para um lar de adoção quando as coisas ficavam difíceis. Quero ter dinheiro e estabilidade, mas não conseguirei isso com uma criança a tiracolo.

— Mas você poderia...

— Não! — Cho a interrompeu, impaciente. — Não entende? Não quero esta criança; nunca quis.

— Largou a sacola de Geórgia perto do carrinho.

— Foi você quem me convenceu a continuar coma gravidez, então é justo que cuide dela até eu mesma encontrar quem a adote.

— Você? — Gina ficou tensa no mesmo instante. Cho exibiu um olhar de quem sabe das coisas.

— Existem pessoas que pagariam uma fortuna por um lindo bebezinho. Quero garantir um bom negócio. Usando minha ligação com Miguel, talvez eu encontre um ator de Hollywood que queira Geórgia. Pense no quanto estariam dispostos a pagar por ela!

Os olhos de Gina brilharam de espanto, o coração bateu descompassado no peito.

— Como pode fazer isso com sua própria filha?

— Não é da sua conta o que faço. A filha é minha, não é sua.

— Deixe que eu a adote — Gina implorou. — Sou parente de sangue, o que tornas as coisas mais fáceis, não é?

— Cho maneou a cabeça.

— Não. Aproveitarei esta oportunidade ao máximo. — Os olhos brilharam de cobiça. — Pensando bem, é uma tremenda sorte. É minha chance de me livrar da criança e ainda ganhar um bom dinheiro.

— Você é tão mercenária.

— Mercenária, não...realista. Podemos ser irmãs gêmeas, mas não sou como você. Gina. É hora de aceitar isso. Quero viajar, quero o conforto e os privilégios da riqueza. Pode ficar com suas longas horas numa biblioteca velha e tediosa... Eu quero uma vida.

Gina endireitou os ombros, ergueu o queixo com orgulho.

— Gosto do meu trabalho.

— Sim, pois eu goto de fazer compras, jantar fora e frequentar festas. E farei muito disso quando chegar a mansão de Miguel em Los Angeles. Mal posso esperar.

— Não acredito que vai simplesmente largar suas responsabilidades. Geórgia não é um brinquedo a ser descartado. É um bebê. Isso não significa nada?

— Não. — Os olhos frios cinzentos de Cho se encontraram com os dela. — Não significa absolutamente nada. Eu disse... não quero a menina. — Segurou a bolsa, vasculhando dentro dela, e entregou uma pasta de documentos à irmã. — A certidão de nascimento e o passaporte dela estão aqui; guarde-os bem até a adoção. — Pendurou a bolsa no ombro e virou-se para a porta.

— Cho, espere! — Gina chamou, olhando desesperada para o carrinho. — Não vai nem se despedir dela?

Cho abriu a porta e, com um olhar determinado, fechou-a com firmeza ao sair.

Gina sabia que seria inútil correr atrás dela. Na maior parte de seus 24 anos, de nada tinha implorado a Cho que parasse para pensar nos próprios atos. Sua geniosa irmã gêmea pulava de desastre para desastre, causando prejuízos imensuráveis e demonstrando pouco remorso. Mas este certamente era o pior.

Ouviu um choramingo vindo do carrinho. Atravessando a pequena sala, Gina ergueu o pequeno pacotinho rosa.

— Ei, preciosa — disse enquanto acomodava a criança no peito, maravilhando-se novamente com a perfeição de seus traços. — Está com fome, pequenina?

O bebê se aninhou nela, e Gina sentiu um amor irresistível dentro de si. Não suportaria que sua sobrinha fosse entregue aos cuidados dos outros. E se as coisas não funcionassem? E se a infância de Geórgia terminasse sendo como a dela e de Cho? Gina lembrava bem da infância... as temporadas em lares de adoção, alguns bem piores que a negligência na qual ela e a irmã viviam em casa. Como poderia deixar que o mesmo acontecesse com Geórgia?

Gina sabia que o sistema legal de adoção funcionava, mas essa prática de adoção consentida a deixava aflita. E se alguém totalmente inadequado oferecesse uma grande quantia a irmã de dinheiro a sua irmã? A que tipo de triagem os pais em potencial eram submetidos, caso essa triagem existisse?

Percebeu a umidade na roupinha de Geórgia e, carregando-a para o quarto, deitou-a na cama e a despiu delicadamente, com fizera inúmeras vezes. Por baixo da manta, a menina vestia um macacão amarelado e puído. Gina tirou a roupinha pela cabeça da criança, afalando amorosamente coma sobrinha, mas suas palavras ininteligíveis morreram na garganta quando viu o que o macacão escondia. Seus olhos se arregalaram de horror ao se deparar com as marcas roxas ao longo do corpinho de Geórgia, marcas que tinham o tamanho perfeito de seus dedos, como se ela mesma tivesse causando aquele mal.

— Oh Cho! Como pôde? — ela soluçou, contendo as lágrimas por não ter sido capaz de evitar que a sobrinha sofresse a violência que fora comum em sua própria infância.

Decidiu naquele instante que faria o que fosse preciso para manter Geórgia consigo. Devia existir uma maneira de convencer Cho a lhe entregar a menina permanentemente.

Teria de encontrar uma maneira!

Outras mães solteiras conseguiam enfrentar as dificuldades, então ela também conseguiria... de alguma forma.

Mordiscava uma unha enquanto considerava as opções. Não seria fácil... mal poderia pagar uma creche com seu atual salário na biblioteca. Olhou para a menina adormecida, o peito se apertando dolorosamente ao pensar que jamais veria sua pequena sobrinha novamente.

Não. Simplesmente não podia permitir que sua irmã levasse a ideia adiante.

Ela seria a mãe de Geórgia.

Ninguém lhe tomaria a sobrinha.

Ninguém.

Harry Potter franziu a testa quando a secretária informou que seu pai estava na linha, ligando d Villa Potter, em Sorrento, na Itália.

Pegou o telefone e, girando em sua cadeira de couro, olhou para o vasto cenário do porto de Sidney.

— Harry! Você precisa fazer alguma coisa a respeito daquela mulher imediatamente! — James Potter despejou num rápido italiano.

— Está falando daquela amante de Cedrico? — Harry respondeu pacientemente.

— Pode ter sido amante, mas é mãe da minha única neta! — James resmungou.

Harry enrijeceu na cadeira.

— Por que tanta certeza assim de repente? Cedrico se recusou a fazer o teste de paternidade; disse que sempre usou proteção.

— Pode ser, mas agora tenha motivos para acreditar que a tal proteção falhou.

Harry franziu a testa e virou a cadeira novamente para a escrivaninha, o súbito baque no coração deixando-o em silêncio por um instante.

— Tenho uma carta aqui na minha frente com uma foto da criança. — A voz de James tremia um pouco. — Ela é idêntica a Cedrico nesta idade. É filha de Cedrico, tenho certeza.

Harry apertou os lábios enquanto lutava para manter suas emoções sob certo controle. A morte do irmão o deixava devastado, mas pelo bem de seu pai, em fase terminal, conduzira os negócios da família sem um único soluço. A filial do banco de investimentos Potter em Sidney estava em expansão, e Potter pretendia manter o extenuante ritmo de trabalho que adotara para bloquear a dor pela perda do irmão.

— Papai. — A voz soou profunda e áspera. — É difícil acreditar...

— Precisamos pegar esta criança — o pai insistiu. — Ela é tudo o que nos resta de Cedrico.

Um tremor de inquietação tomou Harry ao ouvir o tom determinado do pai.

— Como pretende fazer isso?

— Da maneira de sempre — o pai respondeu com indisfarçável cinismo. — Se oferecermos dinheiro, ela fará tudo que quisermos.

— Quanto dinheiro pretende gastar nessa sua missão?

James citou uma cifra que fez Harry encostar os ombros largos novamente na cadeira.

— É bastante dinheiro.

— Eu sei. – concordou o pai. — Mas não posso correr o risco dela recusar a oferta. Depois da resposta que dei a carta anterior, ela pode querer se vingar e nos negar a menina.

Harry lembrava-se do conteúdo da carta. Seu pai tinha lhe enviado uma cópia por e-mail, e a mensagem não fora nada lisonjeira. Podia bem imaginar a tal Weasley jurando vingança, especialmente se o que ela dizia era verdade.

— Cedrico era o pai da menina.

Conhecia bem a reputação de Cho Weasley, mesmo sem conhece-la pessoalmente. Contudo, tinha visto algumas fotos que exibiam uma bela mulher de longos cabelos loiros e olhos cinzentos. Tinha o tipo de corpo que não só fazia os homens virarem a cabeça, como também fazia certa parte da anatomia masculina se exaltar numa velocidade impressionante. O irmão ficara completamente abobalhado até a verdadeira personalidade de Cho aparecer. Ainda recordava o sarcástico relato de Cedrico sobre a reação dela ao ser informada de que o curto e ardente relacionamento tinha chegado ao fim. Ela o perseguia por meses, atormentando-o incansavelmente.

Mas, de certa forma, pensar no sangue de seu falecido irmão correndo nas veias da filha dela corria mexia com Harry de maneira inesperada.

— Harry. — A voz desespera do pai interrompeu suas reflexões. — Precisa fazer isso. É uma questão de honra familiar. Cedrico teria feito o mesmo por você.

Era difícil para Harry se imaginar envolvido nos tipos de desastre que seu irmão mais novo costumava arranjar na vida, mas não adiantaria discutir isso agora. Seu pai já tinha sofrido demais; tinha perdido o filho amado.

Não era segredo na família Potter que Cedrico era o favorito do pai. A natureza alegre e a personalidade charmosa tinham conquistado a todos desde o dia do nascimento, deixando Harry, com seu temperamento mais sério, esquecido.

Franziu a testa ao pensar no plano do pai. Como convenceria aquela mulher a lhe entregar a criança? Ela pegaria o dinheiro e despareceria, ou insistiria em algo mais formal? Tal como...

O estômago deu um nó ao lembrar do irmão contando da incansável busca de Cho Weasley por um marido rico.

Claro que o pai não esperava que ele fosse tão longe!

Até o momento, Harry conseguira ignorar a pressão do casamento, embora tivesse chegado bem perto de se casar alguns anos antes. Mas tudo acabou mal, e ele decidiu evitar qualquer envolvimento emocional mais profundo desde então. Harry concluíra que mulheres não eram confiáveis quando havia dinheiro envolvido. E na família Potter havia muito dinheiro. Além disso, Cedrico vivia anunciando que se casaria cedo e perpetuaria a dinastia da família com seus vários herdeiros.

O coração ficou apertado ao pensar na menininha de cabelos escuros e olhos castanhos — olhos que um dia se tornariam travessos, como os do pai em seus breves trinta anos de vida.

— Fará isso? — James o pressionou. — Fará isso por mim e sua falecida mãe?

Harry fechou bem os olhos. Mencionar a mãe sempre o afetava profundamente. Não se esquecia daquele último dia, a maneira como a mãe sorriu e acenou para ele antes de ser atirada no caminho de um carro.

Harry ainda creditava que a mãe talvez estivesse viva se tivesse sido honesto sobre o motivo de seu atraso. Tinha atendido às suplicas do pai, mas a culpa ainda era como uma corrente presa ao seu pé, oprimindo-o impiedosamente com seu peso.

Quando o irmão morreu, Harry não conseguiu se livrar da sensação de que o pai teria sofrido muito mesmo se ele estivesse no lugar de Cedrico naquele carro.

Suspirou e respondeu ao pai com resignação.

— Verei o que posso fazer...

— Obrigado. — O alívio na voz do pai era inconfundível.

Harry sabia que os dias de seu pai estavam contados. Não seriam ainda mais preciosos se pudesse segurar sua única neta nos braços.

— Talvez ela não queira me ver — Harry alertou, pensando novamente na carta ofensiva do pai. — Pensou nessa possibilidade?

— Faça o que for preciso para que ela enxergue a razão — James instruiu. — Qualquer coisa. Mulheres com Cho Weasley esperam uma negociação.

Uma transação comercial.

Que mulher era essa que barganharia a vida de uma criancinha?

Minutos depois, recolocou o fone no gancho e voltou-se mais uma vez para a vista lá fora. Estreitou os olhos por causa da luz do sol enquanto pensava no que teria que fazer.

Visitaria a pessoas que mais odiava no mundo: a mulher responsável pela morte prematura do irmão.