CAPÍTULO DOIS
Não fazia muito tempo que Gina dera de comer a Geórgia quando a campainha tocou naquela manhã de segunda-feira. Dando uma rápida olhada na pequena sala, caminhou sobre o carpete surrado, imaginando o que sua vizinha idosa queria agora. Arabella Figg já levara uma caixa de leite e meio pacote de biscoitos, e ainda nem era hora do almoço.
Abriu a porta com um sorriso no rosto, que desapareceu imediatamente quando seu olhar se ergueu de encontro a um par de olhos escuros, quase negros.
— Srta. Weasley?
— Pois não? — ela respondeu, inconscientemente levando a mão à garganta.
O homem parado à sua porta era mais impressionante ao vivo do que na foto do jornal. Era mais alto que a maioria, coma mais de 1,80 m, os ombros largos e a postura nada menos que autoritária. O queixo severo e bem barbeado insinuava certa intratabilidade em sua personalidade, e os olhos não possuíam qualquer sinal de cordialidade.
— Imagino que saiba quem sou. — A voz era profunda e sova com certa aspereza.
— Eu... er... sim.
O que mais poderia dizer? O jornal com a foto dela ainda estava aberto sobre a mesinha de centro. Dizia a si mesma para jogá-lo fora sempre que passava pela sala, mas o deixara no mesmo lugar. Não sabia exatamente o porquê.
— Creio que está com a filha de meu irmão.
— Eu... sim, é isso mesmo. — A imagem das manchas escuras no corpinho de Geórgia vieram à mente de Gina, cujo pânico acelerou as batidas de seu coração a um nível quase intolerável. Tinha que mantê-lo longe de sua sobrinha!
— Gostaria de vê-la.
— Ela está dormindo no momento então... — Deixou a frase no ar, esperando que ele entendesse a indireta.
Não foi o que aconteceu.
Harry sustentou o olhar dela por um bom tempo e, quando Gina começava a fechar a porta, ele usou o pé para bloquear a ação.
— Talvez não tenha me ouvido, Srta. Weasley. — O tom endureceu ainda mais quando os olhos escuros encontraram os dela. — Vim ver a filha de meu irmão. Não partirei antes disso.
Gina sabia que ele estava determinado e, afastando-se da porta, encarou-o com frieza.
— Se a acordar, ficarei extremamente zangada. Por favor. Continue dormindo, Geórgia, Gina pedia silenciosamente enquanto ele entrava.
Harry a olhou de cima a baixo. Quando os olhos de ambos se encontraram, os dele estavam cheios de desprezo.
— Cedrico me contou tudo sobre você.
Gina ficou confusa. Nunca conhecera o amante da irmã gêmea. O romance de Cho e Cedrico tinha sido breve e explosivo, como todos os outros.
Ele não podia estar pensando...
— Ele me disse que você representava problemas, mas não tinha ideia do quanto — Harry continuou vendo que ela não dizia nada.
Gina o encarou por um instante, imaginando se deveria esclarecer que ela a confundira com a irmã, mas no fim deixou tudo como estava para ver quais eram as intenções dele. Afinal, que mal havia nisso? Só precisava fingir ser Cho por alguns minutos e dizer que tinha mudado de ideia. Assim que o convencesse de que não tinha intenção de lhe entregar a "filha", talvez ele fosse embora.
Já tinha feito esse tipo de coisa antes. Muitas vezes ficara no lugar de Cho para receber a punição que a alterada de sua mãe tinha para aplicar. Se conseguia enganar a própria mãe, Harry Potter seria moleza.
— As críticas do seu irmão são irônicas, considerando o comportamento dele — Gina disse, incisiva.
Um brilho ameaçador surgiu nos olhos dele.
— Ousa difamar meu irmão morto? Gina ergueu o queixo.
— Ele era um farsante. Estava envolvido com outra quando concebeu Geórgia.
— Ele estava formalmente comprometido com Fleur Delacour – Harry comentou rudemente. — Estavam juntos desde a adolescência. Você estava interessada nele só por causa do dinheiro, mas Cedrico só tinha olhos para Fleur. Acha mesmo que ele se casaria com uma mulherzinha oportunista que já dormiu com quase toda Sidney?
Gina ficou tensa de raiva. Sabia que a irmã era um pouco promíscua às vezes, mas Harry Potter falava como se ela fosse uma prostituta, não a pessoa insegura e emocionalmente instável que realmente era.
— Isso é típico! — ela retrucou. — Por que os homens podem fazer loucuras e as mulheres não? Enxerguem a realidade, Sr. Potter. As mulheres possuem sexualidade própria e, nos dias de hoje, têm o mesmo direito de expressá-la.
Os indecifráveis olhos escuros a examinaram dos pés a cabeça novamente.
— Já que fala de direitos, precisamos conversas sobre a filha de Cedrico. Por mais que me aborreça o fato de a menina ser uma Potter, ela tem o direito de conhecer a família do pai.
— Acha que esta decisão cabe a mim.
— Creio que não, Srta. Weasley. — A voz se tornou ameaçadoramente baixa. — Talvez não tenha percebido com quem está lidando. A família Potter não permitirá que uma mulherzinha qualquer crie alguém com seu sangue. A não ser que me obedeça, farei de tudo para tirar a menina de você, para que não seja maculada por sua falta de moralidade.
Os olhos de Gina se arregalaram de medo. Não duvidava da ameaça. Poucas pessoas na Austrália desconheciam a monumental riqueza da família Potter. Com os melhores advogados e uma total falta de escrúpulos, Harry Potter não hesitaria em fazer o que prometia.
Gina tentou não parecer intimidada, mas nunca se sentira tão apavorada. Se Harry descobrisse que ela não era a mãe da criança, Gina não poderia fazer nada para impedi-lo de levar a sobrinha embora.
Mas ele não descobriria.
Reunindo coragem, ficou bem ereta diante dele, os olhos cinzentos emitindo um desafio.
— Posso parecer uma mulher de pouca moral, mas amo esta criança e não permitirei que um playboy a tire de mim. Ela é um bebê. E bebês precisam das próprias mães.
Harry a examinou novamente, notando a firme linha da boca e o ângulo obstinado do queixo. Pela primeira vez, Harry imaginou o quanto o irmão se sentira tentado por aquela mulher. A compleição pequena era extremamente atraente, tanto quanto os brilhantes cabelos loiros que contrastavam perfeitamente com e pele macia. O corpo voltara ao normal bem rápido, Harry pensou, já que dera à luz a pouco tempo. O ar de inocência, contudo, servia de fachada para uma mulherzinha ambiciosa que tinha revelado suas intenções ao fazer seu irmão cair na armadilha mais velha do mundo: gravidez.
— Sob circunstâncias normais concordaria com você — ele respondeu no mesmo tom. — Tendo sido criado por uma mãe maravilhosa, eu seria a última pessoa a sugerir que uma criança fosse criada por outra pessoa. No entanto, seu histórico não me inspira confiança. Afinal, quem foi que mandou uma carta para a Itália dizendo que pretendia entregar a menina em adoção?
— Foi uma atitude impulsiva. Eu estava aborrecida, não estava pensando direito — Gina apressou-se em dizer. — Não tenho intenção de abandoná-la. Geórgia é minha e ninguém... ninguém mesmo... irá tirá-la de mim.
Sem qualquer aviso, Harry aproximou-se dela, sua incrível altura lançando uma sombra sobre a figura delicada de Gina. Ela conteve-se para não recuar, mas foi difícil manter-se firme diante daquela presença ameaçadora.
— Que esquecimento meu — ele disse com voz arrastada, tirando a carteira do bolso. — Eu deveria saber que você faria um pouco de pressão. Quanto?
Gina o fitava atônita.
Harry ergueu uma sobrancelha.
— Creio que tudo se resume a isso, não?
— Não sei do que está falando — ela respondeu, a garganta repentinamente seca.
Ele exibiu um sorriso cínico ao abrir a carteira.
— Ora, Cho. Sou um homem rico. Diga o preço.
Harry estava surpreso por estar gostando daquele joguinho, sabendo que a qualquer instante ela sucumbiria a tentação que estava diante de seus olhos.
— Meu verdadeiro nome é Gina. E não quero seu maldito dinheiro.
Desta vez, Harry ergueu as duas sobrancelhas. Ficou em silêncio, tentando compreender o que ela estava tramando.
— Seu nome não é Cho? Tenho certeza de que Cedrico me disse Cho... Ou era mentira também?
Gina assumiu uma expressão pela qual a irmã gêmea era famosa.
— Gina é meu nome verdadeiro, mas acho que Cho soa mais sofisticado. — Examinou as mãos, imitando novamente a irmã, antes de erguer os olhos. — Como conseguiu me encontrar?
— Só havia uma única Srta. Weasley na lista telefônica deste distrito.
Como Cho morava com ela desde o nascimento de Geórgia, e raramente pagava as próprias contas, seu nome não constava na lista. Isso explicava como Harry a confundira com a irmã.
Deixou escapar um leve suspiro de alívio.
Tudo estava bem até o momento.
— Então... Gina. — Harry pronunciou o nome dela de maneira sugestiva. — Se não está atrás de dinheiro, o que quer?
— Nada.
O sorriso cínico reapareceu.
— Segundo minha experiência, mulheres como você sempre estão atrás de dinheiro, mesmo quando dizem o contrário.
— Sua experiência deve ser muito limitada, pois posso garantir que não preciso de seu dinheiro.
— Talvez não do meu, mas deve saber que meu irmão deixou uma herança considerável. Você teve uma filha com ele, o que significa que ela terá direito à herança quando tiver idade adequada.
Gina engoliu em seco. As coisas se complicavam a cada minuto.
— Não estou interessada nos bens de Cedrico.
— Quer que eu acredite nisso? Posso ver os cifrões brilhando por trás de seus olhos. — O olhar dele examinou a sala. – Veja este lugar! Cheira a pobreza e negligência. Acha que permitirei que minha sobrinha viva nesta espelunca?
Gina sentiu o orgulho invadi-la.
— É o que posso pagar no momento. Ele deu uma risada.
— No momento, sim. Não duvido que já exista outro pobre coitado na mira para sua próxima investida. — Exibiu um olhar de completo desgosto. — Deve estar oferecendo algo muito especial por trás dessa sua pose inocente para que alguém aceite sustentar o bebê de outro homem.
Gina nunca se considerou uma pessoa explosiva; Cho, com seu temperamento imprevisível, é quem costumava criar situações desagradáveis. Mas de alguma forma, ouvindo o desdém de Harry, mesmo sabendo que este era direcionado à irmã, sentiu-se ultrajada.
— Está se oferecendo para continuar de onde Cedrico parou? — perguntou num tom de pura provocação.
Os olhos de Harry brilharam com um ódio tão intenso que a desencorajou.
— Entendi seu joguinho — ele respondeu depois de um silêncio enervante.
— Só quero que saia de minha casa imediatamente. Não está nem um pouco interessado em minha so... filha. - Respirou fundo para disfarçar o deslize. — Se não sair agora, chamarei a polícia.
Os olhos de ambos se enfrentaram por segundos intermináveis, mas Gina foi a primeira a desistir.
— Por favor, saia, Sr. Potter. Não tenho nada a conversar com você.
— Quero ver minha sobrinha. — O tom determinado fez Gina erguer a cabeça. — Quero ver a filha de meu irmão.
Gina pressionou os lábios ao ver o quanto ele lutava para manter as emoções sob controle. Podia notar isso na voz, na postura rígida, no brilho úmido dos olhos.
Não esperava deparar-se com sentimentos tão profundos e envergonhou-se por julgá-lo tão mal. Aliás, Harry perdera o irmão sob trágicas circunstâncias. Mesmo que Cho tivesse muitos defeitos, Gina ficaria muito abalada se estivesse na mesma situação.
— Sinto muito. — A voz saiu desigual. Ele contorceu os lábios.
— Mesmo?
Gina não respondeu, seguiu até o carrinho junto à única janela. Sentia a presença de Harry atrás de si ao afastar as mantas de Geórgia para que ele pudesse ver seu rostinho.
Harry se aproximou, o braço roçando no dela ao se abaixar para ver a filha de seu irmão. Ele ficou muito tempo sem falar. O silêncio era tão grande que Gina podia ouvir a respiração controlada de Harry, na tentativa de dominar a emoção por ver a sobrinha pela primeira vez.
— Posso segurá-la?
Era como se o coração de Gina tivesse dado uma cambalhota. E se ele segurasse Geórgia da maneira errada e ela chorasse?
— Bem... não creio...
— Por favor. — O tom entusiasmado chamou a atenção de Gina. — Gostaria de segurar a filha de meu irmão. Ela é tudo que restou dele.
Gina ergueu a menina adormecida, embalando-a gentilmente antes de entregá-la a Harry.
Viu milhares de emoções passarem pelo rosto bonito quando ele apoiou o pequeno embrulhinho no peito largo, o olhar pensativo ao admirar a perfeição do rosto sereno de Geórgia.
— Ela é... linda. — A voz estava rouca.
Gina teve dificuldades em evitar a emoção na própria voz.
— É sim.
Os olhos de Harry encontraram os dela rapidamente.
— Como ela se chama? Gina baixou um pouco o olhar.
— Geórgia.
— Geórgia - ele repetiu, como se o experimentasse. — Combina com ela.
Gina se surpreendeu ao ver a facilidade com que Harry segurava o bebê, uma das mãos a ampará-la enquanto a outra lhe explorava as feições, como se ele estivesse completamente maravilhado.
— Ela tem nome do meio?
— Grace — Gina respondeu, imaginando se deveria revelar que este também era o seu nome, mas no último instante desistiu. Ficara emocionada quando Cho contou os nomes escolhidos. Por um instante teve esperanças de que a irmã finalmente iria assumir suas responsabilidades. Mas, poucas semanas depois do nascimento de Geórgia, Cho voltou a frequentar festas e beber, deixando a criança com Gina com uma frequência tão grande que Geórgia começou a chorar sempre que Cho se aproximava dela, como se pressentisse sua completa inadequação para a maternidade.
Gina sentia-se desconfortável com o pesado silêncio. Harry ainda segurava Geórgia, o olhar fixo no rostinho da criança.
Resolveu dizer a primeira coisa que lhe veio à cabeça.
— Ela se parece com Cedrico, não acha?
Harry a encarou, a expressão obscurecendo instantaneamente. Gina pensou que ele concordaria com ela, mas Harry simplesmente voltou a admirar a criança em seus braços.
— Ele a viu alguma vez?
— Não.
Gina ficara furiosa quando Cho contou que Cedrico não queria ver o bebê. Não deixava de pensar que isso explicava por que a irmã nunca se sentira ligada à filha. Durante toda a gravidez, Cho nutrira esperanças de que Cedrico se apaixonaria pela filhinha assim que a visse, assegurando-lhe um futuro seguro ao torná-la sua esposa. Quando ele se recusou a fazer o teste de paternidade, Cho entrou em depressão profunda e em seguida se entregou despreocupadamente à uma rotina de diversão.
— Não — Gina repetiu, a voz carregada de amargura. — Acho que estava muito ocupado cuidando do casamento.
Harry não respondeu, mas Gina pôde ver como ele parecia aborrecido.
Observou-o recolocar a menina no carrinho, o toque firme e gentil ao acomodá-la.
Sob seu olhar penetrante, Gina achou difícil encará-lo sem pensar na maneira como o estava enganando. Subitamente lhe ocorreu que estava brincando com algo perigoso. Não havia uma lei contra usurpação de personalidade? Harry Potter não era idiota. Se descobrisse que fora enganado, ela sofreria graves consequências.
— Srta. Weasley. — A voz profunda atraiu o olhar dela novamente.
— S-sim? — Gina umedeceu os lábios, pressentindo as intenções dele, todos os seus instintos avisando-lhe que não gostaria nada do que estava por vir.
— Quero ver minha sobrinha com frequência e, mesmo compreendendo sua aversão a tal arranjo, conseguirei isso através da justiça caso não queira cooperar.
— Sou mãe dela. Nenhum juiz na Austrália a tiraria de minha custódia.
—Acha que não? — Harry sorriu. — E se eu contasse a eles sobre seu casinho com certo político poucas semanas depois de dar à luz?
Que caso? Que político? O que Cho andara aprontando?
Harry parecia ter visto uma ponta de medo no rosto dela, pois acrescentou em tom deliberadamente calmo:
— Vê, Srta. Weasley? Pretendo usar tudo que tenho contra você para conseguir o que quero. Ouvi dizer que tentou extorquir dinheiro do pobre coitado quando ele decidiu interromper o relacionamento. Teve sorte de seu caso não ter atraído a atenção da imprensa, mas bastaria uma palavra minha e... — Ele fez uma breve pausa para causar efeito. — Já sabe o resto.
Gina respirou fundo, sentindo o pavor espalhando-se pelo corpo.
— O que quer dizer exatamente?
Harry esperou um pouco antes de responder. Antes de ver a menina — e bastou uma olhada para saber que era mesmo filha de Cedrico —, só tinha pensado em oferecer uma enorme quantia de dinheiro à mulher e levar o bebê. Mas vendo a maneira amorosa de Gina com Geórgia, duvidou estar fazendo o melhor por sua sobrinha ao separá-la da mãe. Precisava ter certeza de que Gina era incapaz de criá-la. Isso se realmente conseguisse tomar a sobrinha, levando em conta a carta que o pai escrevera rejeitando o bebê. Gina tinha uma arma poderosa nas mãos caso decidisse usá-la.
Isso só lhe deixava com uma alternativa.
Harry encarou Gina com determinação.
— Quero reclamar a filha de meu irmão como minha.
— Não pode fazer isso! Ela não lhe pertence. Pertence a... a mim.
— Sabe que posso fazer isso.
— Como?
Gina nunca deveria ter perguntado. Os olhos escuros procuraram os dela. Uma ponta de medo começava a atormentar Gina.
— Quero a menina e farei de tudo para consegui-la, mesmo que tenha de me prender a você.
Gina ficou atônita, imaginando se teria compreendido mal a afirmação.
— Prender-se? O que quer dizer com prender-se? A boca dele se curvou num sorriso que não chegou exatamente aos olhos.
— Meu irmão não quis se casar com você, mas não tenho tais receios. Será minha esposa em duas semanas, ou garanto que jamais verá sua filha novamente. — Manteve-se sério, sabendo que seu blefe era convincente.
Gina demorou a recuperar a voz, a cabeça pesando com uma mistura de espanto e afronta.
— Acha mesmo que serei coagida desta maneira? — retrucou indignada.
— Estou contando com isso. Cedrico me disse que seu principal objetivo na vida era agarrar um marido rico. Então aqui estou, pronto para o papel.
Gina pensou em revelar a verdade, contar que era a irmã gêmea de Cho, mas o ar de arrogância de Harry a fez mudar de ideia no último minuto. Não entregaria a sobrinha sem lutar, mesmo que isso lhe custasse a liberdade.
— É de se esperar que um playboy mimado como você pense que pode conseguir tudo o que quer.
— Eu a pagarei generosamente, claro — Harry disse, os olhos escuros a observá-la atentamente. — Quanto quer?
Gina sabia que Cho pediria uma quantia exorbitante, mas algo a impediu de levar aquela farsa tão longe. Aceitar aquela espécie de suborno só lhe traria mais problemas.
Além disso, a pequena Geórgia dormia a menos de um metro de distância, o corpinho bem machucado. Tivera sorte desta vez, mas se ele olhasse por baixo do macacão...
Erguendo o queixo, Gina cruzou os braços e informou com involuntária ironia:
— Se pensa que pode me comprar, está muito enganado.
Os olhos dele relancearam os seios apertados sob os braços cruzados, demorando-se a fitar o rosto dela novamente.
Gina se enfurecia com aquela avaliação, perguntando-se como o comportamento da irmã a colocara naquela cilada. Sabia que deveria direcionar sua raiva a Cho, mas aquele homem a irritava profundamente.
— Já disse que não quero seu dinheiro. Eu me sentiria suja aceitando qualquer coisa de você.
— Boa tentativa, Srta. Weasley. Sei o que está fazendo. Está querendo fingir que não é a mulher ambiciosa que seduziu meu irmão, mas posso ver além de sua encenação.
Não pense que pode me enganar tão fácil. Já tomei uma decisão. E você fará o que eu disser, aceitando pagamento ou não.
Gina fez o que pôde para esconder o quanto a afirmação a afetava, a mente trabalhando desesperadamente, pensando numa saída para aquela farsa. Deus, mataria Cho por isso! Não podiam obrigá-la a casar só para ficar com a sobrinha. Mas o que mais poderia fazer? Cho não era uma mãe adequada, e Harry parecia ter evidências suficientes para comprovar o fato.
— Preciso de algum tempo para pensar. — Sentia-se um pouco irritada por soar tão parecida com Cho, mas persistiu. — Gostaria de analisar bem todos os ângulos antes de me comprometer.
— Não vim negociar, Srta. Weasley — ele disse de modo intratável. — Vim para assumir o papel de pai de Geórgia e pretendo fazer isso o mais breve possível.
Gina estava ficando mais alarmada. Havia um ar intransigente na voz que sugeria que Harry estava acostumado a conseguir as coisas ao seu modo.
Conte a verdade, ela repetia mentalmente. Conte quem você realmente é. Mas as palavras estavam presas em algum lugar dentro do peito, onde o coração já se apertava só de pensar em nunca mais ver Geórgia.
Tentou raciocinar com clareza, mas era difícil com Harry observando cada nuance de emoção em seu rosto.
E se aceitasse as exigências dele por enquanto? Ele dissera duas semanas. Certamente pensaria numa solução até lá. Precisava pensar em algo. Não podia se casar com um completo estranho!
Harry interpretou o longo silêncio como aceitação.
— Darei entrada nos papéis imediatamente.
— Mas... — Gina calou-se, o coração parecia estar saltando no peito. Oh, Deus! O que fizera? Ele não podia estar falando sério, podia?
— Talvez seja melhor deixar algo bem claro desde já, Srta. Weasley. Este casamento não existirá no real sentido da palavra.
— Quer dizer que não será legal? — Ela franziu a testa, tentando compreender.
— Será legal, claro, mas apenas no papel.
— No papel? — Gina ergueu as sobrancelhas.
— A união não será consumada — ele afirmou implacavelmente.
Gina sabia que deveria estar sentindo um imenso alívio, mas por alguma razão inexplicável sentia-se aborrecida. Sabia que no momento não parecia tão glamorosa quanto Cho, mas tinha uma boa figura e seus traços eram bonitos. Não a agradava ser dispensada assim, como se não tivesse atrativos.
— Quer que eu acredite nisso? — Gina perguntou com uma dose de cinismo na voz.
Harry ergueu a mão e fez o sinal da cruz sobre o peito.
— Eu juro.
Algo no ar de suprema confiança de Harry fez com que Gina pensasse em usar o olhar sedutor que a irmã costumava lançar aos homens. Colocou a mão no quadril, inclinando-o de maneira provocativa, erguendo os cantos da boca num sorriso malicioso enquanto murmurava:
— Só acreditaria se fosse um homem morto, Sr. Potter.
