CAPÍTULO QUATRO

No dia seguinte, Gina ligou para a biblioteca dizendo estar doente para que pudesse arranjar uma creche para Geórgia. Como não possuía carro, estava limitada a uma creche particular cujas taxas eram extorsivas.

Não teve notícias de Harry nos dois dias seguintes. Tudo parecia tão irreal que Gina às vezes se perguntava se não tinha imaginado coisas. Contudo, no terceiro dia, ela recebeu uma carta informando que a cerimônia de casamento seria realizada em 15 de julho.

Sentiu um calafrio. Parecia não haver saída. Teria de casar com Harry para ficar com Geórgia.

Ficava aterrorizada só de pensar que teria de fingir ser a irmã por meses, talvez anos, mas não tinha alternativa. Incrível que umas poucas palavras ficassem entre ela e sua liberdade. Se dissesse: "Não sou mãe de Geórgia", não haveria casamento.

Cinco palavras que a deixariam livre, mas que lhe roubariam a sobrinha... para sempre.

Como esperava, Cho não fizera mais contato. Gina tinha tentado o celular, mas as inúmeras mensagens de texto continuavam sem resposta.

Largou a carta para dar atenção aos choros de Geórgia, evitando pensar que se casaria com um homem que a odiava muito.

Quando voltava à pequena sala de estar com Geórgia no colo, o telefone tocou e Gina correu para atender.

— Gina. — A voz profunda de Harry soou ao seu ouvido. — É Harry.

— Que Harry? — Estava novamente com a personalidade de Cho, como se ouvir a voz macia ligasse um interruptor às suas costas.

Ouviu Harry respirar fundo e se parabenizou mentalmente por ganhar aquela pequena batalha, mesmo sabendo que o mais provável era Harry ganhar a guerra no fim.

— Tenho certeza de que sua reputação faz com que alguns nomes se repitam em sua lista — ele comentou insolentemente.

— Nem queira saber — ela respondeu.

— Recebeu minha carta?

— Deixe-me ver... — Remexeu a pequena pilha de contas reunidas sobre a mesa apenas para irritá-lo. — Ah, aqui está. É um contrato pré-nupcial, não?

— Pensou que me casaria sem me proteger?

— Isso depende de que tipo de proteção está falando.

— É um acordo comercial, Gina. Nada mais.

— Por mim está tudo bem. Desde que você não volte atrás com suas palavras. Como garantir que posso confiar em você?

Houve um tenso instante de silêncio. Gina o imaginou rangendo os dentes no esforço de manter certa educação.

— Receberá sua mesada assim que estivermos casados, nem um segundo antes — ele afirmou enfim.

— Não confia em mim, Sr. Potter? — Imitava o jeito da irmã com satisfação. — Está com medo de ser enganado?

— Gostaria muito que tentasse — ele a desafiou. — Acho que não preciso lhe alertar das consequências caso isso não passe de fingimento seu.

Gina estremeceu ao pensar na ironia daquela frase. O fingimento já não fizera com que cavasse a própria cova?

— A propósito, já que vamos nos casar em questão de dias, seria inapropriado continuar me chamando pelo sobrenome.

— Harry — ela sussurrou o nome sedutoramente.

— É apelido?

— Não é apelido. É de origem francesa, como minha mãe.

— Fala francês tão bem quanto italiano?

— Sim, e várias outras línguas.

Gina estava impressionada, mas não admitiria.

— E você? — ele perguntou logo em seguida.

— Eu? — Ela bufou. — De jeito nenhum! Inglês é a língua universal, não entendo por que as pessoas se preocupam em ficar falando outros idiomas.

Gina era razoavelmente fluente tanto em francês quanto em italiano, mas preferiu não revelar. Havia estudado idiomas na escola e na faculdade, adquirindo bom nível de proficiência. Mas agora era conveniente que Harry a considerasse uma completa cabeça-de-vento que não tinha nada melhor a fazer senão se enfeitar para preencher o tempo.

— O advogado virá ao meu escritório para que assinemos o contrato pré-nupcial. Você precisa trazer sua certidão de nascimento para que eu possa dar entrada na licença de casamento. Pode ser amanhã às dez?

O coração de Gina disparou de apreensão. Tinha conseguido se passar pela irmã, mas agora começaria a assinar documentos na presença de um advogado. E se a mandassem para a prisão? O que aconteceria com Geórgia? A sorte era ter dito seu nome verdadeiro porque, sendo a gêmea mais velha, só seu nome aparecia na certidão de nascimento, como era a prática na época. Mas e se vissem a certidão de nascimento de Geórgia? Era o nome de Cho que estava impresso lá. Como conseguiria explicar aquilo?

— Gina? — A voz profunda interrompeu o instante de pânico.

— Desculpe. — Ela ajeitou a sobrinha no colo.

— Geórgia estava escorregando.

— Está com ela no colo?

Geórgia deu um murmúrio animado, como se estivesse respondendo ao tio.

— Sim — disse Gina, sorrindo para a sobrinha.

— Eu ia colocá-la para dormir quando você ligou.

— Como ela está?

— Está bem.

— Ela acorda muito à noite?

— Poucas vezes. Mas logo dorme outra vez.

— Diga-me, Gina. — Havia um tom indefinível em sua voz. — Você gosta de ser mãe?

Gina não hesitou em responder.

— Claro que sim.

Houve um estranho silêncio.

Ela se perguntava se deveria ter sido tão honesta. Cho provavelmente responderia de maneira completamente diferente; talvez ele estivesse confuso com a súbita mudança de personalidade.

— Você não me parece ser do tipo maternal. —A voz estava repleta de escárnio.

— Então como lhe pareço, Harry? — Gina respondeu com voz sedutora, querendo consertar sua falha.

Sentado em seu escritório, Harry suspirou, ignorando a pergunta.

— Irei buscá-la amanhã às nove e meia.

— Você tem assento infantil no carro?

Harry franziu a testa. Não tinha pensado nestes detalhes.

— Mandarei instalarem um hoje.

— Não irei com você se seu carro não estiver adaptado para transportar uma criança. Não é seguro. Harry suspirou irritado.

— Mandarei instalar o assento, nem que seja a última coisa que eu faça, certo?

— Ótimo. Então posso confiar em você? Harry fechou os olhos e contou até dez.

— Harry?

Ele abriu os olhos ao ouvir seu nome. Gina tinha uma voz tão suave...

— Sim... — Ele limpou a garganta. — Pode confiar em mim.

— Então até amanhã.

— Sim. — Harry começou a se sentir sufocado com a gravata. — Até amanhã.

Quando a campainha soou às nove e meia no dia seguinte, Geórgia ainda chorava, o que fazia desde cinco da manhã.

Gina estava ficando desesperada. Acariciava de leve as costas de Geórgia ao atender à porta, o cabelo caído sobre os ombros e os olhos fundos por ter dormido pouco.

Quando viu a figura imponente de Harry Potter parada ali, quis chorar feito a menininha em seu colo.

— Ela está doente? — Harry perguntou enquanto entrava.

Gina afastou o cabelo do rosto, sentindo-se angustiada.

— Não sei. Ela está assim desde quando acordou. Harry pegou a menina, colocando a palma da mão sobre a testa dela para ver a temperatura.

— Não está muito quente. Ela comeu? Gina meneou a cabeça.

— Já ofereci três ou quatro vezes, mas ela continua rejeitando.

— Talvez seja melhor levá-la ao médico — Harry sugeriu. — Quem costuma examiná-la?

Gina ficou muda. Não sabia onde Geórgia era levada para os check-ups mensais, considerando-se que Cho fizesse tal coisa.

— Eu...

Harry a fitou de maneira acusadora.

— Você já a levou ao médico, não?

— Eu...

Ele bufou, furioso.

— É uma criança pequena — ralhou. — Precisa tomar vacinas e verificar o peso regularmente para garantir um crescimento adequado.

— Ela é muito saudável — Gina disse, afligindo-se quando Geórgia recomeçou a chorar.

Harry ergueu uma sobrancelha. Gina mordeu o lábio.

— Talvez sejam os dentinhos.

— Qual a idade dela? Quatro meses? Não é um pouco cedo?

— Não sei! Nunca... — Deteve-se antes de terminar a frase. Quase dissera não saber nada sobre bebês! O que Harry pensaria dela?

Ele afagava as costas de Geórgia. Depois de um tempo o choro se transformou num leve soluçar e, em seguida, os olhinhos dela já se fechavam.

Gina não deixou de admirar a habilidade de Harry. Estava há horas tentando acalmar o bebê sem qualquer sucesso. Parte dela se ressentia do fato. A outra parte o admirava secretamente.

— Vá se arrumar — Harry disse baixinho para não acordar a menina. — Ainda temos tempo, mas o trânsito a esta hora do dia é sempre uma incógnita.

Gina foi para o quarto e fechou a porta suavemente. Examinou o conteúdo de seu armário com desânimo. A maioria das roupas era conservadora ou ultrapassada. Seu trabalho como bibliotecária não exigia nada sofisticado, e como frequentemente precisava quitar os débitos da irmã, não comprava nada novo para si mesma há muito tempo. Possuía muitos jeans, na maioria peças descartadas por Cho, e uma coleção de blusas, também de Cho, muito reveladoras.

No fim, optou por uma das roupas de Cho. Fingia ser a irmã, então devia vestir-se como ela, mesmo que repugnada por exibir tanto de seu corpo, especialmente para alguém como Harry Potter.

Tudo nele a perturbava. Seus modos tinham um ar masculinamente ameaçador. Embora soubesse que, no fundo, Harry era movido pelos mesmos motivos que ela, não podia deixar de ficar agitada em sua presença. Provavelmente por sua falta de experiência com homens; não sabia lidar com alguém tão forte, tão no controle, tão obstinado.

Suspirou enquanto alisava o vestido justo. Quem dera se passar pela irmã fosse tão fácil quanto vestir aquela roupa. Pegou um cardigã de caxemira, colocou-o casualmente sobre os ombros e voltou para onde Harry a esperava.

Ele estava de pé com Geórgia nos braços, as linhas sérias do rosto suavizadas enquanto olhava para a menina adormecida.

Gina respirou fundo ao ver a cena. Era óbvio que ele adorava a sobrinha e faria qualquer coisa para protegê-la, mesmo casar com uma mulher que odiava.

Seguiram até o escritório de Harry em silêncio, e Gina sentia-se imensamente agradecida por isso. Geórgia finalmente tomara uma mamadeira e caíra no sono logo depois de ser acomodada no assento infantil instalado no carro. Harry estava concentrado no trânsito intenso da manhã.

Gina observou as unhas roídas enquanto imaginava o que estava por vir. O que ele teria dito ao advogado sobre o casamento? Deveria fingir que eram como qualquer outro casal?

Cinco palavras, lembrou-se. Cinco palavras e tudo estaria terminado.

Assim que chegaram ao estacionamento abaixo do prédio do escritório, Gina saiu do carro e começou a ajustar o carregador de bebê ao peito, os dedos tremendo ao lidar com a fivela.

Harry lhe entregou Geórgia, ajudando a colocar as perninhas da menina nos lugares devidos. Gina sentiu a mão dele roçar seu seio esquerdo e pulou como se tivesse sido tocada por ferro em brasa.

Os olhares se encontraram, o dele cheio de antipatia.

— Melhor não fazer qualquer demonstração de aversão ao meu toque enquanto estivermos na presença do advogado. Ele acha que este é um casamento normal, e prefiro que ele continue a pensar assim.

Os olhos de Gina flamejaram enquanto ela arrumava as tiras do carregador sobre os ombros.

— Não é exatamente normal forçar alguém ao casamento.

Harry ativou o alarme do carro antes de responder:

— Você será mais do que recompensada por seu empenho.

— O fato de estarmos assinando um pacto pré-nupcial não causará suspeitas?

— Pactos pré-nupciais são comuns hoje em dia. Além disso, tenho que proteger acionistas e investidores, inclusive meu pai, que começou este negócio do nada. Não deixarei que uma mulher ambiciosa pegue metade de tudo que tanto trabalhamos para conquistar caso o casamento chegue ao fim.

Embora Gina soubesse que ele estava sendo razoável, sentia-se magoada. Queria que ele pudesse enxergar a verdadeira pessoa por trás daquele tênue disfarce, uma mulher que se importava profundamente com a sobrinha, tanto que estava disposta a se casar com um completo estranho.

Ficou calada e o acompanhou para dentro do elevador. Sentia um aperto no peito. As pernas começaram a ficar moles. A mente era uma contusão de pensamentos desordenados: queria fugir, queria contar a verdade...

Tivera sorte até o momento. Harry não pedira a certidão de nascimento de Geórgia, mas isto não demoraria a acontecer, principalmente porque ele pretendia adotá-la. Ele queria que o pai conhecesse a única neta, o que significava viajar até a Itália. Seria legal levar Geórgia para fora do país? E se alguém pedisse a certidão de Geórgia e descobrisse que ela não era a mãe?

Percebendo que Harry a fitava, apressou-se em esconder sua inquietação com um sorriso vago.

— Do que está rindo? — Harry a encarava com desprezo. — Da rapidez com que gastará sua mesada?

— Isso depende de quão generoso você será. Harry revirou os olhos e apertou o botão do elevador novamente, como se isso acelerasse a subida.

— Ainda não estamos casados, então é melhor não contar com um dinheiro que ainda nem recebeu — ele resmungou.

As portas do elevador se abriram e Gina o seguiu até seus escritórios.

Saber o quanto o irritava lhe dava uma agradável sensação de poder.

A recepção do império bancário de Harry não deixava dúvidas quanto aos lucros da empresa. Gina olhou para uma pintura na parede da sala de espera, arregalando os olhos ao perceber que era um autêntico Renoir.

— Sr. Potter — a recepcionista murmurou para o patrão. — O Sr. Dumbledore está esperando na antessala de seu escritório.

— Siga-me — Harry disse para Gina por cima do ombro.

Algo dentro dela decidiu naquele instante que não ficaria recebendo ordens na frente de funcionários, ainda mais na frente da bela recepcionista que a encarava desde o instante em que chegaram.

— Olá. — Gina estendeu a mão sobre o balcão.

— Sou Gina, noiva de Harry. E esta é Geórgia. É sobrinha de Harry, sabia? Filha de Cedrico.

A recepcionista evitou a mão de Gina, como se tocá-la fosse queimá-la.

— Eu... eu pensei que seu nome fosse Cho — a jovem conseguiu falar enfim. — Não lembra? — Fitava Cho de maneira acusadora. — Já nos vimos antes.

Gina não tinha pensado na possibilidade de sua irmã já ter visitado o lugar.

Ficou levemente corada enquanto pensava numa desculpa que justificasse não ter reconhecido a recepcionista, mas seu cérebro não parecia funcionar.

— Foi quando Harry estava na Itália, em setembro — a recepcionista continuou, o tom reprovador.

— Cedrico estava em reunião, mas você insistiu em vê-lo.

Gina sabia que Harry prestava atenção em cada palavra, por isso precisava encontrar uma solução que não denunciasse seu disfarce.

Contou rapidamente os meses e concluiu que Cho viera procurar Cedrico em estado avançado de gravidez, provavelmente numa última tentativa de convencê-lo a aceitar a criança.

Baixou a cabeça num gesto de arrependimento, a mão acariciando a cabecinha de Geórgia.

— Sim... Bem, eu estava fora de mim... Hormônios, você sabe...

A recepcionista olhou para o bebê, a expressão severa se suavizando imediatamente.

— Ela se parece bastante com Cedrico, não é? Gina apenas assentiu.

— Não atenderei ligações no momento, Luna — Harry disse, a voz autoritária interrompendo aquele princípio de conversa. — Vamos, cara. Temos assuntos a tratar.

Cara? Gina disfarçou o espanto bem a tempo. Não sabia como lidaria com aquela maneira carinhosa de falar. Era como se o relacionamento estivesse passando para outro nível, um nível com o qual não tinha qualquer experiência.

Seguiu Harry pelo espaçoso saguão onde outras caríssimas obras de artes estavam expostas, cada uma delas lembrando-a da quantidade de dinheiro que Harry dispunha para tomar a custódia de Geórgia.

— Aqui. — Harry abriu a porta para ela. — Sente-se. Irei chamar Alvo.

Gina puxou uma das cadeiras de veludo para sentar-se e, acomodando Geórgia numa posição mais confortável, começou a olhar ao redor.

O escritório era imenso. Havia estantes com livros ao longo de duas paredes, os grossos volumes exibindo grande variedade de assuntos. A menos que servissem apenas de decoração, o que Gina duvidava, eles indicavam que Harry era um homem que lia bastante, pois além dos esperados termos sobre finanças e direito, havia alguns bestsellers e alguns dos clássicos que ela amava.

Era estranho saber que haviam lido os mesmos livros. Era como se isso estabelecesse uma ligação que não sabia se gostaria de ter.

A porta se abriu e um homem de aproximadamente 55 anos entrou com uma pasta debaixo do braço. Harry entrou logo atrás dele, uma de suas expressões indecifráveis no rosto.

— Cara, este é Alvo Dumbledore. Alvo, esta é minha noiva, Gina Weasley.

Gina fez menção de levantar-se, mas Alvo logo fez um gesto para que ela continuasse sentada por causa do bebê. Ele meneou a cabeça ao olhar para a menina adormecida, os olhos brilhando.

— Que pequeno tesouro. Tenho duas filhas. São minha vida e minha tortura diária. — Sorriu para Gina.

Ela esboçou um sorriso.

— Não é fácil ser pai.

— Não, mas o trabalho vale a pena, garanto. Minha filha mais velha vai se casar em breve; parece que era ontem que ela discutia com a mãe por causa da altura da saia do uniforme.

Gina conseguiu forçar um sorriso. Tinha lembranças de cenas parecidas entre Cho e a mãe, mas nenhuma delas era agradável.

Alvo abria a pasta sobre a escrivaninha e olhava para Harry.

— Redigi os documentos da maneira que você sugeriu, mas não seria melhor explicar tudo para Gina primeiro?

— Explique, então. — O tom de Harry beirava o desinteresse.

Gina ficou envergonhada. Não entendia de termos legais e temia não saber o que estava assinando.

— Como quiser. — Alvo entregou o documento a Gina. — Não se perturbe com todos estes termos legais, Gina. Isto só declara que, em caso de divórcio, você aceita um pagamento razoável em vez de uma divisão dos bens de Harry.

Gina tentou ler o texto complicado, mas nada fazia sentido. Procurou pelo nome de Geórgia, caçando alguma cláusula que Harry pudesse ter incluído para tomar a criança caso o casamento terminasse, mas não encontrou nada.

— Esta parte aqui declara que você receberá uma mesada durante o casamento. — Alvo Dumbledore apontou uma seção relevante.

Gina viu a quantia estipulada ali e engoliu em seco.

— Isto me parece um pouco... exagerado. — Ergueu a cabeça e viu que Harry a fitava de maneira estranha. Concentrou-se no documento novamente, o coração disparado no peito. Harry não era idiota. Se começasse a desconfiar, estaria perdida...

— Se puder assinar aqui. — Alvo indicou uma linha pontilhada. — E aqui. — Virou a página para que Gina a assinasse. — Pronto, isto é tudo. — Recolocou o documento na pasta e voltou-se para Harry, que estava apoiado no arquivo atrás da escrivaninha, os olhos fixos em Gina.

— Posso oferecer meus sinceros cumprimentos pelo casamento? — Alvo disse. — Sei que é uma época triste, mas muita alegria pode vir daí. — Ele limpou a garganta discretamente e acrescentou: — Como está seu pai, Harry? Harry se afastou do arquivo.

— Está... suportando. Alvo ofereceu sua simpatia.

— Um golpe tão terrível, logo após a morte de sua mãe.

— Sim.

Para Gina, a resposta monossilábica era significativa. Mesmo mostrando pouca emoção no rosto, algo na voz sugeria que Harry era um homem que estava sofrendo muito. Isso fazia com que o visse sob nova perspectiva. Não tanto como um empresário que queria conquistar o mundo, mas como um homem que sentia necessidade de proteger seus entes queridos.

Seria um pai maravilhoso para Geórgia.

O pensamento se infiltrou em sua mente e, uma vez lá, não deixou que Gina pensasse em mais nada. Via Harry com Geórgia em seu primeiro Natal, seu primeiro dente, seus primeiros passos, seu primeiro dia na escola... seu primeiro namorado...

— O que acha, Gina? Gina encarou Harry, confusa.

— O quê?

— Alvo sugeriu que fizéssemos um documento referente a Geórgia. Os bens de Cedrico agora pertencem a ela, mas enquanto não completar idade adequada...

Gina se levantou, agitada, segurando Geórgia contra o peito para não perturbar seu sono.

— Já falei que não estou interessada nos bens de Cedrico.

Harry lhe lançou um olhar de advertência, mas era tarde demais. Alvo Dumbledore já vira a troca de olhares e tomou a liberdade de tirar as próprias conclusões.

— Cuidarei dos documentos necessários — informou a Harry em tom reservado enquanto rumava para a porta. — Mais uma vez, desejo felicidades.

— Obrigado — Harry disse e, voltando-se para Gina com a sobrancelha erguida, disse: — Gina?

Ela exibiu um pálido sorriso.

— Obrigada por me explicar tudo, Sr. Dumbledore.

— Não há de quê. — Alvo estendeu a mão e apertou a dela com firmeza. — Você não se parece em nada com o que imaginei, se me permite dizer.

— Não? — O estômago de Gina se revirava. Será que Cho também o conhecera?

— Não — Alvo disse. — Mas sabe como são as colunas de fofoca; inventam qualquer coisa para vender revistas.

O coração de Gina afundou no peito. Sentia-se desconfortável, torturando-se com as imagens da irmã se exibindo em várias boates de Sidney para conseguir uma foto em alguma página de revista.

Baixou o olhar para a menina em seu colo e assumiu uma postura séria.

— Isso tudo ficou para trás. Sou uma outra pessoa.

— Eu a parabenizo por isso — Alvo respondeu. — Criar uma criança é uma experiência que leva ao amadurecimento. Você tem família?

Gina meneou a cabeça, evitando os olhos dele.

— Não, nenhuma família. Meu pai morreu quando eu era bebê, e minha mãe morreu há três anos.

Harry franziu a testa ao ouvir a conversa entre seu advogado e a futura esposa. Percebeu que pouco sabia sobre Gina e suas origens. Sabia como era terrível perder um familiar, por isso algo dentro dele se abrandou um pouco. Sim, Gina era uma oportunista... mas era óbvio que amava Geórgia, fato que ainda o surpreendia.

O advogado saiu, e Geórgia começou a choramingar. Gina a tirou do carregador e, pegando a sacola de fraldas, fitou Harry, que estava parado em silêncio atrás da escrivaninha.

— Acho que preciso trocar a fralda dela — Gina disse.

— Quer que eu troque? — Harry se ofereceu. Gina o encarou horrorizada. Como poderia deixar que ele visse as marcas no corpinho de Geórgia?

— Não.

Harry pareceu ficar ofendido. Queria ser pai de Geórgia, um pai participativo, que alimentaria e trocaria a fralda de um bebê sem se afastar com nojo como certos homens faziam. Mas enquanto as marcas não sumissem, Gina não teria escolha senão mantê-lo longe de Geórgia.

— O banheiro é na segunda porta — ele disse, saindo de trás da escrivaninha. — Tem tudo o que precisa?

Gina o encarou de maneira arrogante.

— Já fiz isso antes, sabia?

Harry não respondeu, mas segurou a porta enquanto ela passava de cabeça erguida. Observou-a caminhar pelo corredor, Geórgia apoiada no quadril, as mãozinhas da menina enterradas nos longos cabelos loiros.

Seus dedos queriam fazer o mesmo, ver se eram tão sedosos quanto pareciam. Praguejando silenciosamente, Harry enfiou as mãos nos bolsos das calças e voltou para a escrivaninha.

Ignorou a cadeira e ficou olhando pela janela, como já fizera milhares de vezes, mas desta vez não via o porto.

Só conseguia ver um par de olhos cinzentos.