CAPÍTULO CINCO

Gina demorou-se o quanto pôde com Geórgia no banheiro. Precisava pensar. Tanta coisa estava acontecendo, e tão rápido, que não conseguia raciocinar.

Sentia-se uma idiota por não ter pensado que pessoas como a recepcionista de Harry já conheciam sua irmã. Sem dúvida encontraria outros. E o pequeno deslize com a mesada... Oh, Deus! Sentia medo só de pensar em ser desmascarada.

Não queria nem pensar na reação de Harry.

Harry deixou a janela quando ela voltou ao escritório. Apesar de querer manter a calma, Gina sentiu um frio no estômago diante da presença dele.

— Só agora percebi que Geórgia deve estar precisando de muitas coisas, como roupas e brinquedos — ele disse, tomando cuidadosamente o bebê no colo. — Tenho tempo livre agora, então podemos fazer compras se quiser.

Gina não sabia o que responder. Geórgia estava realmente precisando de roupas porque estava crescendo muito rápido, mas fazer compras com Harry como se fossem um casal normal...?

Fingiu arrumar a sacola de fraldas para evitar olhar diretamente para ele, pensando em alguma desculpa.

— Já que suas roupas são de grife, será que sua filha não merece o mesmo? — Havia um tom acusador na voz.

Gina estava tensa ao fechar a bolsa. Escolhera o que havia de mais conservador nas roupas deixadas por Cho, nunca imaginara que fosse algo de grife.

— Esta coisa velha? — resmungou, olhando a roupa com desdém.

Harry sorriu.

— Você deve vestir a roupa uma vez e atirá-la no fundo do guarda-roupa.

Gina quase riu da verdade contida naquelas palavras. Poderia ter comprado algo de grife para si mesma se ganhasse um dólar por cada peça de roupa que recolhia do chão depois das noitadas de Cho.

Jogou os cabelos para trás e sorriu maliciosamente.

— É minha culpa se me enjoo rápido?

— Sabe de uma coisa, Gina Weasley? — Ele lhe lançou um olhar incisivo. — Estou ficando ansioso para me casar só para lhe ensinar a se comportar. Você é a mulher mais fútil que já conheci. Será um grande prazer lhe dar uma lição que já deveria ter aprendido há muito tempo.

Gina fingiu tremer.

— Oh! Estou tão assustada, Sr. Potter. Os olhos dele brilharam de desprezo.

— Se eu não estivesse com Geórgia no colo, começaria a lhe dar uma lição neste exato momento.

Os olhos de Gina faiscaram, presunçosos.

— Se encostar um dedo em mim, vai se arrepender.

— Valeria a pena, garanto — ele retrucou.

— Você acha? — Ela ergueu o queixo. — Seu irmão pensava assim também.

Gina sabia que só se salvara pelo fato de Geórgia estar nos braços dele. As pequenas mãozinhas estavam agarradas à camisa branca, o rostinho concentrado em Harry, como se estivesse maravilhada.

A expressão do rosto dele revelava o quanto ele lutava para manter a calma.

O interfone sobre a escrivaninha quebrou o tenso silêncio.

— Sr. Potter? — A voz agradável de Luna invadiu a sala. — Seu pai na linha dois.

Harry devolveu Geórgia para Gina sem a olhar nos olhos.

— Com licença. — Virou-se para atender ao telefone.

Gina pegava o canguru quando ouviu as primeiras palavras da conversa. Mesmo que Harry falasse sua língua nativa rapidamente, ela tinha estudado o suficiente para entender o ponto principal da conversa.

— Sim — Harry disse. — Encontrei uma solução. Casarei com ela no dia 15.

Gina não podia ouvir a resposta do pai, mas pôde imaginar a partir das respostas de Harry.

— Não, ela diz que não quer dinheiro ou qualquer um dos bens de Cedrico... Acho que ela está tentando fingir que está mudada... Sim, providenciei uma mesada, mas duvido que isto baste por muito tempo... Sim, sei que ela é tudo que Cedrico dizia ser... Eu sei, eu sei... é uma mulherzinha sem princípios...

Foi difícil para Gina esconder qualquer reação. Fumegava de raiva e, enquanto acomodava Geórgia no canguru, prometeu vingar-se do insulto.

— Sim... eu sei, tomarei cuidado... Ciao. Gina sorriu inocentemente ao se virar para ele.

— Então, onde faremos compras?

Pouco tempo depois, enquanto passavam por lojas de departamento e butiques exclusivas, Gina se perguntava se tinha caído numa espécie de sonho consumista. O cartão de crédito de Harry foi utilizado tantas vezes que deixou Gina abismada com a quantidade de dinheiro que Harry gastava comprando coisas e mais coisas para a sobrinha. Belas roupas, brinquedos caros, copos infantis para quando Geórgia deixasse a mamadeira... Tudo para ser entregue no escritório dele.

Quando foi hora de Geórgia comer, Harry sugeriu entrarem num café para que comessem algo enquanto cuidavam da menina.

Se não estivesse tão faminta, Gina teria recusado a sugestão. Não comera nada de manhã por causa da choradeira de Geórgia, e seu estômago começava a reclamar.

Logo a mamadeira foi aquecida e entregue por uma jovem garçonete. Gina estava prestes a oferecer a mamadeira à sobrinha quando viu a maneira como Harry a olhava.

— Quer dar a mamadeira? — perguntou. Harry hesitou brevemente.

— Claro, por que não? — ele enfim respondeu. Ver como Harry segurava Geórgia causou uma sensação estranha em Gina. Ela se remexeu na cadeira e olhou o cardápio que a garçonete deixara na mesa, mas as palavras pareciam borradas, pois seus pensamentos disparavam para todas as direções.

Harry cuidava da sobrinha com tanta tranquilidade que fez Gina imaginar se um dia ele desejara ter seus próprios filhos. Se fosse o caso, por que se prender a um casamento de conveniência?

Gina sabia que os italianos valorizavam muito a família. Mas se casar com uma estranha, mesmo sendo mãe de sua sobrinha, não era levar os deveres familiares longe demais?

Talvez ele anulasse o casamento no futuro e exigisse a custódia de Geórgia. Era uma ideia inquietante, mas Gina não teria chances quando sua verdadeira identidade fosse descoberta. Seria considerada uma mentirosa, e nenhum juiz lhe concederia nem mesmo visitas à sobrinha.

A fome desapareceu subitamente. Gina afastou o cardápio, dando de ombros.

— Não está com fome? — Harry perguntou.

— Só quero um café. — Ela desviou o olhar.

— Preto.

A garçonete veio anotar o pedido, aproveitando para dar uma olhadinha no bebê que já tinha terminado sua mamadeira.

— Qual a idade dela? — a moça perguntou.

— Quatro meses — Gina respondeu.

A garçonete sorriu enquanto olhava do bebê para Harry.

— Ela se parece com pai, não?

Gina estava prestes a dizer que Harry não era o pai de Geórgia, mas mudou de ideia no último minuto.

— Sim — respondeu, espantada por não ter percebido a semelhança antes.

A garçonete foi buscar o café, e Gina ficou observando Harry colocar Geórgia para arrotar como se tivesse feito isso milhares de vezes.

— Nunca pensou em ter seus próprios filhos? — perguntou sem pensar.

A expressão de Harry revelava pouca coisa, mas Gina tinha certeza de ter visto uma ponta de arrependimento naqueles olhos escuros.

— Não. — Ele apoiou Geórgia no outro ombro.

— Não planejava me casar e constituir família.

A resposta a deixou intrigada. Sabia da existência de vários solteirões declarados, mas Harry não parecia um deles.

— Este casamento foi ideia de seu pai? Harry firmou os olhos nos dela.

— Por que diz isso?

Gina brincava com a ponta da toalha de mesa, evitando os olhos dele.

— Um palpite, acho. Ouvi dizer que italianos se preocupam muito com crianças.

— Suponho que foi por isso que mandou aquela carta, para dar o golpe final — ele disse, inclinando-se sobre a mesa para que outras pessoas não ouvissem a acusação. —Não pensou no quanto estava magoando um idoso que mal consegue lidar com a própria dor?

Gina gostaria de poder contar a verdade. Ficava magoada por Harry pensar assim dela, quando na verdade a culpada era a irmã.

— Não. — Ela largou a ponta da toalha e ergueu os olhos. — Não, foi muito insensível de minha parte. Sinto muito.

A resposta pareceu surpreendê-lo. Até ela ficaria surpresa ouvindo uma coisa dessas saindo da boca de Cho. Não lembrava da irmã se desculpando por coisa alguma. "Sinto muito" não estava no vocabulário dela.

— Às vezes isso não basta — Harry disse, recostando-se novamente na cadeira, acomodando Geórgia melhor no ombro. — Uma vez que o mal está feito, não há como voltar atrás.

Gina sentiu-se enjoada pela verdade daquela curta frase. Quanto estrago já não tinha causado com as mentiras que vinha contando por causa da irmã?

— Sim, eu sei. Acho que estava muito confusa na época... Mal sabia o que estava fazendo.

O silêncio era quebrado apenas pelos murmúrios de Geórgia, que tinha descoberto o bolso da camisa de Harry, os dedinhos puxando o tecido com animação.

— Tentou pegar meu irmão numa armadilha, não foi? Usando o truque mais velho que existe.

Queria poder negar, mas isso seria outra mentira. A irmã decidira agarrar Cedrico de qualquer jeito. Gina ficara chocada quando Cho revelou o plano, comentado como estragara toda uma caixa de preservativos para engravidar como se tudo não passasse de um jogo. Gina ainda se sentia culpada por não ter conseguido convencer a irmã a desistir. Talvez se tivesse passado mais tempo com ela, se a tivesse aconselhado a pensar melhor nas consequências...

— Foi uma atitude impulsiva... — ela murmurou, olhos voltados para o chão. — Não tinha ideia de que tudo se voltaria... contra mim.

A resposta surpreendeu Harry novamente. Gina o fitou de relance e percebeu que o ar acusador tinha se suavizado um pouco.

— Poucos de nós passam pela vida sem arrependimentos.

Gina sorriu com tristeza.

— Não me diga que o grande Harry Potter admite ter cometido alguns erros?

Harry a fitou antes de se concentrar na criança quase adormecida em seus braços.

— Cometi alguns erros no passado, mas não pretendo repeti-los.

Gina se perguntava se as mágoas de um antigo relacionamento haviam feito com ele se tornasse cauteloso quanto a qualquer comprometimento emocional. Quanto mais pensava nisso, mais a ideia se tornava provável. Que maneira melhor de evitar qualquer envolvimento do que casando por conveniência, não por amor? Poderia se relacionar com quem quisesse sem a pressão de um compromisso formal já que ela seria sua esposa. Sua esposa...

Ficou em pânico ao pensar no que aquele relacionamento acarretaria. Mesmo que Harry tivesse declarado veementemente que o casamento não seria consumado, estariam vivendo sob o mesmo teto e certas intimidades seriam inevitáveis.

Podia imaginá-lo numa roupa menos formal, talvez enrolado numa toalha após o banho, expondo o corpo forte...

Gina afastou tais pensamentos da mente, o olhar culpado encontrando o olhar indagador de Harry.

— Algo errado?

— Não, claro que não.

— Você me parece estranha — ele comentou.

— Oh, sério? — Ela imitou um dos olhares mordazes de Cho. — E já me conhece tão bem depois de... — Conferiu a data no relógio. — Menos de uma semana?

— Já estou acostumado com tipos como você.

— Então basta conhecer uma para conhecer todas?

Harry sorriu cinicamente.

— Reconheço perigo quando o vejo.

— Perigo, é? — Ela sorriu com ar convencido. — Então me considera perigosa? O que o ameaça tanto? Meu sex appeal?

A boca retesada mostrou que ela marcara mais um ponto. Era irônico que ele estivesse lutando conta a atração que sentia por uma mulher que fingia ser outra pessoa. Que chances teria de atraí-lo como Gina... a verdadeira Gina? A Gina sem má-reputação? A Gina sem roupas de grife? A Gina que corria o risco de se apaixonar por um homem que a desprezava.

— Seu ego deve ter sido bem amaciado ao longo dos anos, mas não me juntarei ao seu bando de ávidos admiradores. Se espera cumprimentos, terá de procurar em outro lugar.

Gina ergueu as sobrancelhas.

— Mas você me acha atraente, não é? Vamos, admita.

— Mulheres como você se acham irresistíveis, mas permita-me dizer que você não é. Acha que me deixo encantar por seios fartos e olhos sedutores?

Gina fingiu confiança.

— Posso sentir seu interesse daqui — ela murmurou. — Aposto que se eu colocasse a mão por baixo da mesa e examinasse a evidência por mim mesma, você estaria em sérias dificuldades.

Os olhos dele eram provocadores, abalando Gina por inteiro, mas ela não recuaria. Sustentou-lhe o olhar com um desafio do qual não se julgava capaz.

Mesmo que Harry tentasse disfarçar, Gina notou como ele se remexeu na cadeira, como se temesse que ela fizesse exatamente o que disse que faria. Sua mente começou a vagar... Como seria sentir sua ereção? Ele estremeceria ao toque de seus dedos? Gemeria de prazer? — É hora de irmos. — Harry já estava de pé ao falar.

Geórgia resmungou com o súbito movimento, mas logo se aninhou novamente no peito do tio, os olhinhos se fechando, os dedinhos ainda agarrados ao bolso da camisa.

Gina não se levantou com tanta pressa, demorando-se para pegar a sacola de fraldas e a própria bolsa.

— Acha melhor colocá-la no canguru? — perguntou a Harry.

Harry olhou a menininha e meneou a cabeça. —Não. Eu a levo. — Olhou a conta deixada pela garçonete e acrescentou: — Nós precisamos comprar mais alguma coisa?

Foi o "nós" que mexeu com ela. Vendo-o com Geórgia no colo, não pôde deixar de lamentar as circunstâncias. Como as coisas teriam sido diferentes se tivessem se conhecido sem o peso da inconsequência de seus irmãos. Talvez descobrissem que tinham muitas coisas em comum. Ele era o tipo de homem confiável, qualquer um notava isso, e ela... Bem, não era a farrista que ele acreditava ser. Se ele ao menos soubesse!

— Não. — Evitou os olhos dele para que não visse o brilho das lágrimas. — Acho que já temos o bastante. — Colocou as bolsas no ombro e o seguiu de cabeça baixa.

As ruas da cidade estavam tão cheias que tornavam qualquer conversa difícil e desnecessária. Gina estava feliz pelo recolhimento. A culpa a dominava. Deveria ter sido mais firme com Cho, insistido para que assumisse suas responsabilidades. Mas desde quando Cho assumia qualquer responsabilidade? Sua política era trocar um desastre por outro, deixando que a irmã gêmea remendasse os pedaços deixados para trás. Gina fizera o mesmo com a mãe, assumindo responsabilidades na tentativa de garantir certa segurança para todas. E de nada adiantara, pensou com tristeza. A mãe continuou bebendo e cavando o próprio túmulo, não havia nada que Gina pudesse fazer para impedi-la.

Harry apertou o botão de pedestres e deu uma olhada na figura silenciosa ao seu lado enquanto esperava que a luz do semáforo mudasse.

— Ficou tão quieta de repente.

Gina escondeu sua angústia e exibiu um sorriso vazio.

— Só estou cansada. — Bocejou longamente. — Geórgia me acordou cedo. — Forçou outro sorriso. — Crianças: quem em sã consciência as teria?

Harry foi poupado de responder pela mudança no sinal. Estava claro que dinheiro era a preocupação principal de Gina, que tratou de ficar grávida do homem mais rico que encontrou. Mas ainda era um mistério que ela não tivesse pedido uma montanha de dinheiro quando ele propôs casamento. Esperava que Gina pedisse milhões, mesmo assim parecia ter ficado surpresa com o valor da mesada. Fingir desinteresse pelos bens de Cedrico não seria apenas uma maneira de fazer com que acreditasse que estava mudada?

Sabia que Gina só representava problemas. Ela tinha o terrível hábito de misturar sedução e inocência, como se quisesse confundi-lo. Se Cedrico não tivesse dito o quanto ela era manipuladora, teria acreditado estar lidando com outra pessoa.

Deu uma olhada nela, percebendo o quanto parecia ansiosa.

Harry suspirou. Casar-se seria a parte fácil; contudo, se não fosse cuidadoso, seria difícil manter as mãos longe dela.