CAPÍTULO SEIS
Assim que Gina percebeu que não havia mais qualquer sinal de machucado em Geórgia, decidiu voltar ao trabalho. Contudo, no dia seguinte, quando pretendia deixar a creche, sua pequena sobrinha chorou desconsoladamente no colo da funcionária, os bracinhos esticados em sua direção.
— Não se preocupe, Srta. Weasley — a mulher assegurou. — Ela vai se acalmar depois que você partir. É o que sempre acontece.
Gina mordeu o lábio, indecisa. O rostinho de Geórgia estava vermelho, os olhinhos cheios de lágrimas, o pranto cada vez mais alto.
— Talvez fosse melhor ligar para o trabalho e dizer que não posso ir.
— Nada disso — disse a mulher. — Ela vai ficar bem. Eu a levarei para ver os brinquedos enquanto você sai. Pode ligar quando chegar ao trabalho, mas garanto que não há razão para preocupação. Vamos, Geórgia — ela disse para a menina com um sorriso. — Vamos ver aqueles lindos ursinhos ali.
Gina ainda ouvia o choro de Geórgia ao sair do prédio, o coração apertado ao ver o desespero da sobrinha por se imaginar abandonada. Percebeu novamente o quanto era importante protegê-la, pois era óbvio que a menina a considerava sua mãe. Se Harry descobrisse a verdade agora, Geórgia sofreria muito, pois Gina tinha certeza de que ele a impediria de ver a criança.
A biblioteca ficava a poucas quadras dali, mas Gina caminhava arrastado, imaginando como as mães ao redor do mundo lidavam com o fato de deixar seus filhos aos cuidados de outros.
Amava seu trabalho, mas amava a sobrinha ainda mais. Se precisasse deixar o trabalho, engoliria o orgulho e aceitaria a mesada que Harry estabelecera no contrato pré-nupcial.
— Oi, Gina — Hermione Granger, uma das outras bibliotecárias, a cumprimentou assim que a viu. — Por onde esteve esses dias? Parvati disse que você estava doente. Já se sente melhor?
Gina guardou a bolsa no armário dos funcionários para evitar o olhar indagador da amiga.
— Estou bem, só um pouco cansada. Foi uma semana daquelas.
— Não me diga que sua irmã andou lhe dando trabalho de novo. Não sei por que não a manda embora, não sei mesmo. Ela se aproveita demais de você, não é surpresa que fique doente. — Hermione contraiu os lábios, fechou a porta da sala e estendeu para Gina a nova edição de uma famosa revista de fofocas. — Já viu isso?
Gina engoliu em seco ao ver o artigo da revista. Havia uma fotografia da irmã em frente a um dos mais conhecidos hotéis de Sidney, num vestido que deixava pouco à imaginação, abraçada a dois famosos jogadores de futebol, ambos com reputação duvidosa quanto ao trato com as mulheres. A legenda dizia que, de acordo com fontes do hotel, Cho e seus dois companheiros tinham feito uma barulhenta "festinha" na noite da última sexta-feira.
— Oh, Deus! — Devolveu a revista enquanto se sentava. — Era justamente o que eu não precisava.
— Sente-se bem? — Hermione a olhava com preocupação.
— Tenho que contar uma coisa, mas precisa prometer que não vai contar isso para ninguém.
Hermione fingiu passar um zíper nos lábios.
— Boca fechada.
Enquanto Gina contava o que acontecera, o rosto de Hermione se enchia de espanto.
— Está doida? — Hermione se levantou, agitada. — No que está pensando? Esse Harry Potter vai te comer viva se descobrir! Você vai parar na cadeia!
— Que mais posso fazer? Geórgia precisa de mim. Cho quer entregá-la à adoção, mas assim posso ficar com minha sobrinha e oferecer o amor que ela merece. É um preço pequeno a se pagar.
— Um preço pequeno? — Hermione estava atônita. — O que sabe deste homem?
Gina não pôde evitar um pequeno sorriso.
— Sei que adora Geórgia, e ela o adora também.
— E você? — Hermione lhe endereçou outro olhar indagador. — O que ele sente a seu respeito? Também te adora?
— Não. — Gina baixou a cabeça.
Houve um pequeno silêncio. Gina ergueu a cabeça e viu que a amiga a fitava contemplativamente.
— Acho que comecei a entender. Está apaixonada por ele, não é?
— Como poderia me apaixonar por ele? — Gina desviou o olhar novamente. — Mal o conheço.
— Deve sentir alguma coisa por ele porque, conhecendo-a como conheço, nunca concordaria em se casar se ao menos não o respeitasse e admirasse um pouco.
Gina refletiu por um instante. Sim, respeitava Harry. Na verdade, se as circunstâncias fossem diferentes, ele era exatamente o tipo de homem pelo qual se apaixonaria. Harry tinha qualidades que ela admirava. Era leal, protetor e tinha um forte senso de família.
— Vamos, Gina — Hermione continuou. — Posso ver em seus olhos. Está praticamente caída por ele.
— Está imaginando coisas.
— Talvez, mas tomaria cuidado se fosse você — Hermione aconselhou. — Você não é durona como sua irmã. Vai acabar se machucando se não tomar cuidado.
— Sei o que estou fazendo. De qualquer forma, não tenho escolha. Amo Geórgia e faria qualquer coisa para protegê-la.
— Parece que você e seu futuro marido têm muito em comum, não acha? — Hermione comentou ao abrir a porta. — Os dois querem a mesma coisa e estão dispostos a sacrifícios por isso.
Gina não respondeu. Começava a achar que fora um erro revelar o que estava acontecendo para Hermione. A amiga percebia coisas que a própria Gina se recusava a examinar de perto.
Pegou o telefone e discou o número da creche para saber se a sobrinha estava bem, ficando aliviada ao saber que Geórgia finalmente pegara no sono. Recolocou o fone no gancho e caminhou até o balcão, feliz por ter algo a fazer que não fosse pensar em Harry Potter.
Gina mal entrara em casa ao fim do dia quando o telefone tocou.
— Gina? — A voz da irmã soou. — É você?
— Quem mais seria? — Gina retrucou. Cho riu.
— Bem, por um minuto pensei que fosse eu. Gina rangeu os dentes.
— Isso é tão engraçado. Sabe que por causa de suas tolices estarei casada com o irmão de Cedrico em poucos dias, não sabe?
— Sorte sua. Será mais do que bem recompensada. Um bilionário para chamar de seu.
— O dinheiro dele não representa nada para mim.
— Ótimo. Então não se importará de enviá-lo para mim.
— O quê? — Gina ficou tensa.
— Ora, Gina. Você ficará endinheirada. Falamos disso no outro dia, lembra? Quero que compartilhe de sua sorte comigo. Afinal, somos irmãs, irmãs gêmeas.
Gina respirou fundo.
— Não aceitarei o dinheiro dele.
— Não seja estúpida; ele está oferecendo o dinheiro para conseguir o casamento. Precisa aceitar.
— Não tenho intenção nenhuma de aceitar.
— Ouça. — A voz de Cho tornou-se firme. Se não aceitar o dinheiro, contarei quem você realmente é.
Gina engoliu em seco, os nós dos dedos ficando brancos de tanto apertar o fone.
— Não pode fazer isso. Ele tiraria Geórgia de mim.
— Acha que me importo?
— Como pode ser tão insensível? — Gina berrou. — Você é a mãe dela!
— Se não aceitar o dinheiro e entregá-lo para mim, contarei como o enganou. Acho que Harry não vai aceitar bem a notícia.
Gina acreditava nisso, mas não estava preocupada consigo mesma. A questão era Geórgia. Amava a sobrinha e não suportaria separar-se dela para sempre.
Pensou em contar a verdade a Harry antes que Cho tivesse a chance, mas sabia que seria inútil. Ele simplesmente tomaria a custódia de Geórgia e sem dúvida ficaria aliviado por não ter de se casar com ela. Não teria consideração por seus sentimentos como tia da menina, mesmo que ela implorasse para fazer parte da vida de Geórgia.
— Ainda não recebi nada — Gina disse. — O casamento é em alguns dias. Harry me disse que não terei mesada enquanto não assinarmos a certidão de casamento.
— Bem, assim que isso acontecer, quero que me mande o dinheiro. Todinho. Vou passar meus dados bancários.
Gina desligou o telefone minutos depois, enojada com os números anotados num pedaço de papel. A irmã acabara de vender a filha.
Mas ainda era um mistério que ela não tivesse pedido uma montanha de dinheiro quando ele propôs casamento. Esperava que Gina pedisse milhões, mesmo assim parecia ter ficado surpresa com o valor da mesada. Fingir desinteresse pelos bens de Cedrico não seria apenas uma maneira de fazer com que acreditasse que estava mudada?
Sabia que Gina só representava problemas. Ela tinha o terrível hábito de misturar sedução e inocência, como se quisesse confundi-lo. Se Cedrico não tivesse dito o quanto ela era manipuladora, teria acreditado estar lidando com outra pessoa.
Deu uma olhada nela, percebendo o quanto parecia ansiosa.
Harry suspirou. Casar-se seria a parte fácil; contudo, se não fosse cuidadoso, seria difícil manter as mãos longe dela.
