CAPÍTULO DEZ
Gina mal entrara no quarto quando ouviu o celular tocando na bolsa largada no chão. Pegou o aparelho e ficou tensa ao ver o nome da irmã piscando na tela. Baixando a voz, fechou a mão em concha ao redor da boca.
— É você? — perguntou.
— Claro que sou eu — Cho retrucou. — Quando pode me mandar o dinheiro? Estou atolada com algumas contas.
Gina rangeu os dentes.
— E o seu namorado? Não é o mão-aberta que você esperava?
— Deixe de ironia, Gina. Temos um acordo, lembra? Se não me obedecer, eu apareço para pegar Geórgia e começo a procurar quem a adote. Você nunca a verá novamente. A escolha é sua. Pode me transferir o dinheiro agora, senão... Sabe o que acontecerá. Não esqueça, basta um telefonema para seu marido e seu segredo estará revelado.
Gina sabia que não havia escapatória. Já era tarde para explicar a Harry quem ela realmente era.
— A propósito, como foi o casamento? — Cho zombou. — Foi tudo o que sempre sonhou?
— Você sabe que não — Gina retrucou. — Senti-me uma fraude o tempo inteiro.
Cho riu.
— Mas não por usar branco, querida. Você é uma das poucas noivas com o direito de vesti-lo. Pena que seu marido não goste de você. Aposto que eu o traria para minha cama se estivesse no seu lugar. Algo no tom da irmã fez Gina irritar-se.
— Na verdade, ele gosta de mim.
A risadinha zombeteira irritou Gina ainda mais.
— Só porque acha que você sou eu. Se estivesse agindo como você mesma, ele nem a olharia duas vezes. Você é tediosa.
Gina conteve-se com esforço.
— Acho que não é uma boa ideia ficar me ligando. Outra pessoa pode atender...
— Continuarei ligando enquanto o dinheiro não estiver na minha conta — Cho ameaçou. — E se não conseguir falar com você pelo celular, ligo para o telefone da casa.
Gina suspirou resignada.
— Está bem, está bem. Vou transferir o dinheiro.
— Boa menina! Sabia que você agiria com bom senso no final.
Gina esperou os dedos pararem de tremer antes de fazer a transferência. Então foi para a cama, mas era impossível dormir. Estranhamente, não era o dinheiro que a deixava acordada. Por mais que tentasse, não conseguia tirar o beijo da cabeça, a urgência com que a língua invadira sua boca, zombando de todos os outros beijos que já tinha recebido.
Não podia acreditar na própria tolice. Estava apaixonada por um homem que simplesmente a odiava. Mesmo que Harry descobrisse quem ela realmente era, Gina sabia que ele nunca a perdoaria por ter sido enganado.
Frustrada, deu um soco no travesseiro antes de se jogar na cama. Era inútil tentar dormir. Precisava de uma boa dose de exercício. Olhou para o relógio ao lado da cama e fez uma careta ao ver que já passava de meia-noite. Tarde demais para andar pelo quarteirão. Então lembrou da piscina aquecida e da academia no andar de baixo.
Deveria se arriscar?
Será que Harry ouviria?
Procurou por seu velho maiô antes que mudasse de ideia. Nadar era justamente o que precisava. A casa era imensa e, além disso, Harry provavelmente já estava dormindo profundamente.
Não se preocupou em ligar as luzes; deixou a babá eletrônica e a toalha em uma das espreguiçadeiras e entrou na piscina iluminada pelo luar.
A tensão dos músculos começou a desaparecer à medida que o líquido prateado lhe envolvia, o chapinhar da água contra as laterais da piscina o único som enquanto ela nadava.
Gina parou para amarrar novamente os cabelos e, piscando por causa da água nos olhos, viu um par de pernas masculinas bronzeadas paradas à beira da piscina. Ergueu lentamente a cabeça e deu de cara com Harry.
Ele ainda a fitou por um bom tempo, o silêncio a envolvê-los.
— Algum problema, Gina? Está com dificuldades para dormir sozinha?
Ela ergueu o queixo.
— Não. E você?
Os olhos dele buscaram o ponto onde a água lhe tocava os seios. Gina estremeceu, como se ele tivesse acariciado aquela região com a ponta dos dedos. Sentiu os mamilos enrijecerem sob o velho maiô, a pele dos braços e das pernas se arrepiando. Tentou não olhar para o corpo moreno, mas era incrivelmente difícil ignorar o abdômen modelado e a trilha escura de pelos que desapareciam sob o short preto.
Ergueu o pescoço para manter contato visual, sentindo uma sensação peculiar no estômago quando Harry começou a entrar na água.
— O-o que está fazendo? — Ela recuou.
— O que acha que estou fazendo?
Gina decidiu sair da piscina, mas o pé escorregou do degrau. Sentiu as mãos de Harry amparando-a pela cintura.
O ar que tanto precisava para respirar ficou preso na garganta quando ele fez com que ficassem frente a frente. Podia sentir a atração magnética daquele corpo, atraindo-a cada vez mais, mesmo que a parte racional de seu cérebro insistisse para que ela se afastasse. Os dedos de Harry apertavam ligeiramente sua cintura, as coxas musculosas se colocando entre as dela.
— Acho que isso não é boa ideia — Gina disse, na esperança de que ele não notasse seu nervosismo.
— O que não é boa ideia? — ele perguntou, os olhos ardentes.
— P-pense no que isso pode lhe custar... — Gina sentia a coxa dele se pressionar ainda mais contra ela.
As mãos dele agora estavam em seus ombros para garantir que Gina não virasse o rosto, a voz era rouca e profunda.
— Acha que me importo com o dinheiro? Gina umedeceu os lábios, mas logo desejou não ter feito isso, pois o olhar de Harry foi atraído para sua boca.
—- É mu-muito dinheiro... e se dobrar a quantia... — Olhou para a boca de Harry, imaginando se ele a beijaria. Só um beijo. Isso não quebraria a promessa de não consumar o casamento, quebraria?
Harry baixou a cabeça lentamente, detendo a boca a milímetros da dela. Gina fechou os olhos enquanto seu corpo procurava pelo calor dele.
Ao primeiro encontro dos lábios, a excitação se alastrou feito chama, inflamando seus sentidos numa fogueira de paixão. Harry lhe atacou a boca, empurrando sua cabeça para trás enquanto a língua avançava com determinação, os braços puxando-a para que sentisse onde seu corpo mais pulsava.
Gina buscou pelo pescoço dele, os dedos afundando-se nos cabelos, os seios espremidos contra o peito dele, os mamilos sensíveis.
As mãos dele buscaram os seios, moldando-os sobre o tecido gasto, as palmas cálidas tomando-os possessivamente, a boca ainda colada à dela. Harry afastou as alças do maiô, as pontas dos dedos correndo sobre os mamilos até Gina desejar que ele fizesse o mesmo com a língua.
Como se tivesse pronunciado seu desejo em voz alta, Harry voltou-se para os seios expostos, usando boca e língua, fazendo com que Gina mal se aguentasse sobre as pernas.
As mãos de Gina desceram até a cintura dele, os dedos inexperientes deslizando sobre onde o short estava distendido, a ereção aumentando como se ansiasse pelo toque feminino.
Harry gemeu quando ela o tocou, gemeu ainda mais quando os dedos de Gina deslizaram para dentro do short, onde ele pulsava com crescente urgência.
Ele interrompeu o beijo e encarou Gina, os olhos escuros ardendo de desejo, o peito arfando enquanto tentava recuperar o fôlego.
— Era exatamente o que você planejava, não é? — ele disse entre os dentes. — Queria que eu comesse minhas próprias palavras, cada uma delas.
— Não! — As mãos de Gina afastaram-se do corpo dele. — Não, claro que não.
Harry rosnou de escárnio.
— E mais um de seus truques. Você gosta de bancar a inocente de vez em quando para disfarçar seus verdadeiros motivos. — Harry se afastou, os olhos ainda cheios de desprezo.
— Harry... eu...
— Sei o que pretende. — Saiu da piscina e voltou a olhar para ela. — Não vai descansar até me ver implorar. É o que quer, não, Gina? Seu triunfo final frente à rejeição de Cedrico seria ter o irmão mais velho aos seus pés, oferecendo tudo o que quisesse em troca de seu corpo. Por isso não quis dinheiro, não foi?
— Mas...
— Saia da minha frente! Leve suas mentiras e seus joguinhos para longe de mim!
Gina saiu da piscina com dignidade, seu orgulho impedindo que Harry a intimidasse com sua fúria. Sabia que estava mais irritado consigo mesmo do que com ela. Irritado por desejá-la, apesar de tudo o que ele dizia para negar.
— Não pode ficar me dando ordens — ela disse, parando diante dele. — Não vou permitir.
— Não vai permitir? — ele perguntou, curvando o canto dos lábios.
— Não — ela respondeu, sustentando-lhe o olhar. — Não permito que fale comigo desta maneira.
Harry ergueu os ombros.
— Diga, Gina, como pretende me deter? Ela umedeceu os lábios.
— Pensarei em algo.
Harry jogou a cabeça para trás e riu. Gina franziu os lábios, zangada.
— Seus modos são deploráveis. Deve ser porque você tem dinheiro demais. Você pensa que pode convencer todos a fazer o que quer com um simples cheque.
— Ora, ora, ora. Olha o roto falando do esfarrapado.
— Sabe qual o seu problema, Harry? — ela disse, inflamada pela atitude dele. — Você não gosta de si mesmo. Fica me culpando pela morte de Cedrico, mas tenho a impressão de que culpa a si mesmo. Posso servir de bode expiatório, mas não deixarei que me amedronte só para aplacar sua própria sensação de inadequação.
Tornou-se óbvio que Gina havia tocado num ponto delicado.
Harry ficou calado por um longo tempo, mas seu silêncio era mais ameaçador que qualquer palavra.
— Diga-me uma coisa, Gina. — Harry ergueu o queixo dela com um dos dedos. — Por que se apaixonou por meu irmão?
Gina ficou paralisada, os olhos cheios de pânico, o coração disparado.
— Você o amava, não?
Gina baixou o olhar. Não poderia contar outra mentira.
— Não — murmurou. — Não o amava. Harry estreitou os olhos perigosamente.
— Sua maldita mulherzinha interesseira.
Gina fechou os olhos para não ver sua fúria.
— Olhe para mim! — Ele a agarrou e sacudiu pelos braços.
Ela abriu os olhos assustada, deparando-se com o ódio nos dele.
— Você destruiu a vida dele! — Os dedos afundavam-se em seus braços.
— Harry, eu preciso te contar...
— Não quero ouvir nada do que tem a dizer.
— Harry, por favor. — Os olhos estavam marejados de lágrimas e a voz implorava. — Você não compreende...
— Compreendo muito bem. Você ficou descontente quando Cedrico a abandonou sem lhe dar dinheiro algum. Foi por isso que ameaçou entregar Geórgia em adoção, não foi? — Parecia repugnado. — Nunca teve intenção de abandoná-la. Era apenas um joguinho para arrancar quanto dinheiro pudesse.
— Nunca quis dinheiro...
— Não minta para mim! Tudo não passou de mentira. Pois bem, tenho algo a dizer, Gina. — A voz soava mais baixa, mas não menos ameaçadora. — Pode ficar com seu dinheiro. Todo ele. Dobrarei sua mesada amanhã.
Gina ficou confusa.
— Mas...
— Mudei de ideia quanto ao nosso casamento. Decidi não aderir às regras que eu mesmo estabeleci.
— Não pode estar falando sério! Harry sorriu friamente.
— Por que está tão preocupada, cara? Dormiu com meu irmão sem amá-lo. Dormir comigo não estará além de suas possibilidades, garanto.
— Não dormirei com você! — Gina se desvencilhou e o encarou furiosa.
— Pode-se dizer que paguei bem por este privilégio — ele comentou cruelmente.
— Não estou à venda. Não importa quanto dinheiro jogue aos meus pés. Não serei comprada.
— Você foi comprada, Gina. Já embolsou uma das parcelas.
— Não quero seu dinheiro, Harry. Nunca quis. Pela expressão dele, era óbvio que não acreditava nela.
— Se não o queria, por que o dinheiro já não está mais em sua conta?
Gina ficou furiosa.
— Você conferiu?
Ele assentiu, a expressão inalterada.
— Não tinha esse direito! — Gina sentia o pânico aumentando. Se Harry a vigiasse tão de perto, não demoraria a descobrir a verdade. A transferência fora realizada há menos de duas horas. E se ele rastreasse sua conta para verificar onde o dinheiro fora depositado?
— Fica falando que não quer dinheiro, mas então o que quer, Gina? — Harry disse após certo silêncio.
Gina não podia responder. Como poderia dizer o que realmente queria? Queria Harry. Queria que ele a fizesse se sentir viva como mulher. Que a fizesse se sentir desejável, irresistível e preciosa. Queria que a desejasse por ela mesma, não por quem fingia ser.
Conteve o fôlego quando as mãos dele deslizaram por seus braços e seguraram seus pulsos.
— É o que você realmente quer, Gina? — ele perguntou, puxando-a para si. — É o que deseja mais do que dinheiro, a mesma coisa que já não me deixa pensar direito?
Harry baixou a cabeça, o calor de sua boca infiltrando-se na dela. Gina sentiu o fogo subir por suas pernas, o desejo que sentia por Harry intensificando ainda mais seu ardor.
As línguas se movimentavam sensualmente, os movimentos incitando reações que Gina jamais pensou possíveis. Mordiscou o lábio dele, as mãos se agarrando onde podiam para que Harry não se afastasse. Ouviu-o gemendo, um ruído primitivo que a fazia se sentir incrivelmente feminina e vulnerável, mas, ao mesmo tempo, estranhamente poderosa.
Sentiu-se levar por uma onda de desejo tão forte que não havia como resistir, mesmo que quisesse. Aquela ardente química crepitava entre eles desde o primeiro dia e, apesar da resistência de Harry, tornava-se claro que ele não conseguiria mais se conter. A evidência de seu desejo por ela era inegável; Gina podia sentir a rigidez do corpo masculino contra o seu, a boca fazendo-a derreter com sua mágica.
Percebeu as mãos dele sobre as alças do maiô, puxando-as em seguida. Pouco depois o corpo de Gina tremia ao deixar a lycra molhada cair, a boca ainda presa à de Harry, o coração batendo num ritmo febril ao ser carregada para uma espreguiçadeira.
Harry colocou-se sobre ela, as pernas de ambos se entrelaçando. Aceitando o peso do corpo masculino com agrado, Gina começou a agarrar o short dele, mas Harry lhe afastou a mão. Ela ofegou ansiosa quando o sentiu contra si, seu membro procurando pela entrada de seu corpo com desespero semelhante ao seu.
Harry deu um grunhido gutural, que se sobrepôs ao gemido reprimido por Gina quando ele penetrou a maciez de seu corpo inexperiente. Ela prendeu o fôlego para não chorar quando ele avançou ainda mais, mas seu corpo se ressentiu da invasão. Gina soluçou, mordendo o lábio, tentando se conter, mas era tarde demais.
Harry parou e, tirando um pouco do peso de cima dela, franziu a testa ao olhar para Gina.
As lágrimas lhe inundavam os olhos e os dentes se afundavam ainda mais no lábio.
Harry praguejou e afastou-se dela.
Gina fechou os olhos.
— Gina... Eu...
— Por favor, não diga nada. — Gina levantou-se sem olhar para ele e pegou sua toalha.
— Por sua reação, deve ter tido problemas ao dar à luz Geórgia — ele disse, a voz sem qualquer nota de emoção.
Ela se enrolou na toalha.
— Gina?
— Não quero falar sobre isso.
— Precisamos conversar, querendo ou não. Preciso saber.
— O que você precisa saber? — Gina voltou-se para ele. — Quer saber como foi dar à luz a Geórgia depois de 15 horas de trabalho de parto? Saber como o pai dela se recusou a reconhecer sua existência?
Harry apenas a olhava.
— Não tem o direito de fazer qualquer julgamento — ela continuou. — Tem ideia do que é estar grávida e sozinha? Tem?
Harry respirou fundo, então suspirou.
— Não, não tenho. Você tem razão. Não tenho o direito de julgá-la.
— Geórgia precisava de um pai e minha... digo, eu precisava de alguém que me ajudasse a criá-la, mas seu irmão não demonstrou interesse.
— Ele não tinha planejado ter um filho com você.
— E daí? Quaisquer que sejam os fatores envolvidos na concepção de uma criança, é dever dos pais cuidar de seu bem-estar. Além disso, acidentes acontecem. — Ela o encarou incisivamente e acrescentou: — Não o vi usando preservativo ainda agora.
— Eu não... você sabe... —As palavras desapareceram, um forte rubor tomando o rosto de Harry.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Não sabia que os fluidos pré-ejaculatórios contêm milhares de espermatozoides? Talvez esteja na mesma situação de seu irmão agora.
— Se for o caso, estou preparado para assumir minhas responsabilidades.
— Mesmo que me odeie, que mal suporte olhar para mim.
Harry respondeu sem titubear.
— Colocarei meus sentimentos de lado se necessário.
Gina sentiu um aperto no coração. Ele era tão diferente do irmão, que fugira das responsabilidades sem pensar duas vezes. Sabia que Harry manteria a palavra, custasse o que custasse. Como queria lhe contar a verdade!
Virou-se antes que ele notasse qualquer coisa em seus olhos.
— Não precisa perder o sono. Não pretendo ficar grávida.
— Mas se acontecer... — Ele passou a mão pelos cabelos, considerando a possibilidade. — Vai me contar?
Gina o fitou por um instante.
— É o mínimo que posso fazer. Harry desviou o olhar primeiro.
— Vou ver Geórgia. Você deveria ir pra cama; parece... exausta.
Gina pretendia retrucar, mas percebeu que era verdade.
Harry pensou em chamá-la novamente, mas Gina já tinha saído, deixando-o sozinho com sua culpa.
