CAPÍTULO ONZE

A primeira coisa que Gina viu ao descer com Geórgia na manhã seguinte foi um cheque em seu nome sobre o balcão da cozinha, o dobro do valor da mesada que Harry havia depositado no banco no dia anterior.

Não sabia se ficava zangada ou magoada. Ele estava pagando a aposta por culpa ou para insultá-la ainda mais? Amassou e atirou o cheque contra a parede mais próxima, ouvindo um resmungo de reprovação às costas. Deparou-se com Minerva a encará-la com seu desprezo habitual, os olhos escuros mirando a bola de papel perto da parede.

— Quer que eu limpe, Signora?

Gina, sem pensar, respondeu em italiano.

— No. Mi scusi. Eu jogo fora.

Minerva ficou espantada, abrindo e fechando a boca feito um peixe.

Gina demonstrou arrependimento.

— Eu deveria ter contado antes. Falo italiano.

— Signore Potter não me contou isso — Minerva disse, estreitando os olhos.

— Ele não sabe. Minerva ergueu as sobrancelhas.

— Não contou a ele? Gina meneou a cabeça e suspirou.

— Há muita coisa que não contei a ele. — Olhou Geórgia, que chupava a mão ruidosamente. — Muita coisa.

Percebeu que Minerva a observava detidamente.

— Signore Potter tinha negócios a tratar. Voltará para casa antes de sairmos para o aeroporto.

Gina exibiu um sorriso hesitante.

— Grazie, Minerva.

— Ele será um bom marido — Minerva disse depois de breve silêncio. — Precisa lhe dar tempo. Ainda está sofrendo; não tem agido como ele mesmo.

Gina sorriu por dentro devido à ironia contida nas palavras de Minerva. Harry não era o único que não estava agindo como si!

— Geórgia é um belo bebê — Minerva disse, admirando a menina. — Ela trouxe alegria à vida do Signore Potter.

Gina brincava com os dedinhos da sobrinha.

— Você é meu mundo, não é, Geórgia?

— Você é uma mãe maravilhosa — Minerva afirmou. — Ninguém duvidaria disso.

Gina ficou surpresa. Minerva vinha sendo hostil há dias. O que causara aquela súbita mudança?

Minerva a observava com tanto intento que Gina desviou o olhar, incapaz de afastar o pressentimento de que a governanta começava a juntar algumas peças daquele complicado quebra-cabeça.

— Ligaram para você enquanto estava no banho. Não queria que o barulho do celular acordasse Geórgia, então atendi. — Minerva fez uma breve pausa.

Espero que não se importe.

— Não. — Gina engoliu em seco. — Não, claro que não me importo. — Tentou manter a voz calma. — Quem... quem era?

— Ela não disse, mas por um momento pensei que fosse você. Na verdade, foi estranho. A voz dela parecia familiar.

— Ela... deixou recado? — Gina perguntou, olhando para as mãozinhas de Geórgia com renovado propósito.

— Disse que ligaria mais tarde.

— Grazie.

Houve outro momento de silêncio.

— Signore Potter quer que eu a ajude com as malas.

— Não precisa, Minerva. Eu cuido disso. Não tenho muitas coisas para levar mesmo.

Minerva ainda a fitou com ar pensativo antes de ir cuidar de suas tarefas.

— Se precisar de alguma ajuda, Signora Potter, é só pedir. Será um prazer ajudá-la.

— Grazie, Minerva.

Gina esperou Minerva sair da cozinha para soltar o fôlego. Suspirou ao fitar a sobrinha, murmurando bem baixinho:

— Estou com água pelo pescoço, Geórgia. E estou afundando bem rápido.

Geórgia exibiu um de seus sorrisos desdentados e recolocou a mãozinha na boca.

Harry sabia da relutância de Gina em estabelecer contato visual. Ela falava educadamente com Minerva e foi abertamente carinhosa com Geórgia ao acomodá-la no carro, mas sempre desviava o olhar quando o via, as bochechas ficando levemente rosadas.

Observou-a enquanto dirigia até o aeroporto, franzindo a testa ao ver como ela parecia inquieta.

A lembrança da intimidade partilhada na noite anterior o atormentava constantemente, a sensação do corpo dela, a boca macia, os soluços por ter agido com ímpeto demais.

Tivera tanta certeza de que seria capaz de resistir, mas no fim foi impossível. Mesmo que o irmão a tivesse descartado, Harry sabia que não seria fácil seguir o exemplo. Apesar de tudo o que sabia sobre ela, não conseguia tirar Gina de sua mente. Cada pensamento seu era voltado para ela; mesmo dormindo era assombrado por ela.

Não conseguia compreender Gina. Se era mesmo o tipo de mulher que o irmão descrevera, por que evitava seu olhar? Estava confuso desde a noite anterior. Nada fazia sentido. Sabia que as pessoas podiam mudar, mas a mudança de Gina desafiava todas as possibilidades.

— Pelo seu silêncio, presumo que não está animada com a viagem — ele disse depois de prolongado silêncio.

Gina vasculhou a bolsa aos seus pés e entregou a Harry o cheque que ele lhe deixara pela manhã, os olhos comunicando sua raiva. Harry olhou para o cheque por um instante. Seria um truque?

Viu o quanto ela parecia ressentida.

— Lamento pela noite passada. A viagem será ainda mais desagradável se não aceitar meu pedido de desculpas.

— Aceito as desculpas — ela retrucou. — Só não aceito seu dinheiro.

— Não sei por que está zangada. Foi uma aposta honesta. Eu perdi e paguei... Ou talvez você esteja zangada por ter concordado com um valor tão baixo? — Ele sorriu ligeiramente. — Quer que eu triplique o valor para aplacar sua ira?

Gina desviou o rosto, os olhos brilhando com lágrimas de raiva.

— Ora, Gina! Já foi paga por seus encantos antes. Cedrico me disse o quanto você adorava receber joias por seus favores. Afinal, esta é a moeda universal das amantes. Não há motivo para se fingir afrontada; não estaria sendo você mesma.

Não, Gina pensou com pesar. Certamente não estava sendo ela mesma.

Pouco tempo depois, Gina estava parada ao lado de Harry, esperando pelo pior. Tinha "esquecido" a certidão de nascimento de Geórgia. Caso alguém pedisse outro documento, não saberia o que fazer. Felizmente ninguém pediu nada. Foram liberados como se fossem um casal comum viajando com a filhinha. O jatinho de Harry em nada se parecia com o avião no qual Gina viajara anteriormente. Sentou-se num assento luxuoso enquanto Harry acomodava Geórgia ao lado dela, a equipe oferecendo assistência e perguntando se tudo estava ao seu gosto.

Enquanto o jatinho taxiava, Gina fechou os olhos, o pânico fazendo-a suar.

Sentiu a mão de Harry segurar uma das suas, o toque quente de seus dedos incrivelmente tranquilizador. Abriu os olhos e encontrou o olhar dele. Encabulada, preferiu olhar para as mãos.

— Sei que é tolice, mas não consigo evitar. Harry apertou de leve os dedos dela.

— Feche os olhos e tente dormir. Antes que perceba, já teremos chegado.

Ela fechou os olhos para dormir, mas, embora exausta, era impossível ignorar o fato de Harry estar sentado tão perto dela. Podia sentir a fragrância do pós-barba e, sempre que ele se mexia, sentia o leve toque do braço forte contra o dela.

Notou que Harry lhe deu algumas olhadas, com ar pensativo, o que a deixou incomodada. Será que estava suspeitando dela?

A Villa Potter ficava a pouca distância de Sorrento, no topo de uma colina com vista para a baía de Nápoles, os arredores tomados por oliveiras e videiras que cresciam viçosas entre alamedas de limoeiros e laranjeiras. O palacete não era velho, mas fora construído no estilo clássico e era cercado por pátios pavimentados com pedra e belos jardins.

Gina segurava Geórgia enquanto Harry a guiava pelo cotovelo em direção à porta de entrada, onde uma empregada conversava animadamente com Minerva, que seguira na frente.

Minerva entrou e a pequena italiana com quem ela conversava curvou a cabeça respeitosamente para o patrão.

— Buon giorno, Signore Potter. Seu pai está esperando no salon.

— Grazie, Sibila.

Sibila se voltou para Gina, mas em vez da recepção fria que Gina esperava, a mulher sorriu calorosamente.

— Seja bem-vinda, Signora Potter. Meu inglês não é muito bom, mas tentarei ajudá-la no que puder.

— Você é muito gentil — Gina respondeu. — Grazie.

Harry a conduziu para dentro do palazzo, os passos ecoando no piso de mármore. Outro empregado esperava do lado de fora do salon e abriu a porta quando eles se aproximaram.

Os olhos de Gina logo se depararam com o homem sentado numa cadeira de rodas próxima a um grande sofá.

— Papai. — Harry se inclinou para beijar as faces do pai. — É bom vê-lo.

As mãos de James Potter agarraram as laterais da cadeira de rodas quando Harry trouxe Gina para perto.

— Papai, esta é Gina. E esta é sua neta, Geórgia.

Gina estendeu a mão para James, mas ele a ignorou. Seu olhar estava concentrado no bebê em seu colo. Havia um brilho de lágrimas nos olhos dele, o queixo tremia ao esticar a mão nodosa para Geórgia.

Geórgia exibiu um sorriso, as mãozinhas segurando a dele.

Gina teve que lutar contra as lágrimas. Colocou a menina no colo do avô e recuou, procurando discretamente por um lenço. Notou o olhar penetrante de Harry, então fingiu-se interessada na vista da janela.

— Ela é tão parecida com Cedrico... e com sua mãe. — James falou em italiano, a voz embargada de emoção.

Gina viu como Harry parecia querer engolir as emoções que o comentário do pai evocavam.

— Finalmente fez uma coisa certa, Harry — o pai continuou falando na própria língua. — Sei que não queria estar casado com uma mulher dessas, mas isso logo terá fim. Já procurei aconselhamento. Quando for o momento, não será difícil tirar a criança dela.

Gina se esforçou para não revelar que o compreendia.

— Papai, precisamos discutir certas coisas, mas não agora — Harry comentou baixinho, o olhar fixo em Gina junto à janela.

James riu de escárnio.

— Acha que ela entende alguma palavra dessa conversa? Não seja idiota, Harry. Cedrico disse que ela não passa de uma mulherzinha frívola e ignorante. Duvida? Não vá me dizer que ela já achou o caminho da sua cama!

Gina percebeu que Harry cerrava o queixo, o rubor tomando suas faces, mas ela não teve escolha senão fingir-se alheia ao que era dito quando ele a fitou rapidamente.

— Não se esqueça do que ela fez! — James continuou fervoroso.

— Não esqueci — Harry disse, pegando Geórgia no colo. — É hora de Geórgia dormir. Melhor você descansar até a hora do jantar. — Olhou novamente para Gina, agora falando em inglês. — Vamos, Gina. Precisamos colocar Geórgia para dormir e nos trocarmos para o jantar.

Gina sorriu educadamente para James ao estender a mão.

— Foi um prazer conhecê-lo, Signore Potter. Pela segunda vez naquela noite, James Potter a ignorou.

— Papai? — Harry disse, olhando zangado para o pai.

James resmungou qualquer coisa incompreensível e apertou brevemente a mão de Gina.

— Obrigado por trazer minha neta para me ver. Não tenho muito tempo. Ela é tudo que nos restou de Cedrico.

Gina piscou para conter as lágrimas.

— Sinto muito pelo o que sofreu.

James recuou com a cadeira, dispensando Gina de sua presença.

— Não sabe nada sobre meu sofrimento. Nada. Harry segurou Gina pelo cotovelo e a levou para fora, fechando a porta do salon ao sair.

— Perdoe a indelicadeza do meu pai — disse enquanto rumavam para a grande escadaria que conduzia ao andar superior. — Ele ainda está sofrendo. — Hesitou um pouco antes de acrescentar: — Nem é preciso dizer que Cedrico era o filho favorito.

Gina parou e o encarou.

— Está tudo bem, Harry. Eu compreendo. Foi um momento difícil para todos vocês.

Ele sorriu para ela, de modo triste, mas ainda era um sorriso.

— Às vezes me pergunto o que minha mãe pensaria de você.

— Sua mãe?

Ele apontou para uma pintura pendurada na parede lá em cima.

— Minha mãe.

Da escada, Gina admirou o retrato da bela mulher de cabelos escuros e pele de porcelana.

— Ela é muito bonita.

— Sim... ela era.

O tom da voz fez com que Gina se voltasse para ele.

— Meu pai nunca me perdoou por ter causado a morte dela.

Gina ficou atônita. Harry a encarava por cima da cabecinha de Geórgia, que se apoiara em seu colo, as mãozinhas segurando sua camisa.

— Íamos nos encontrar, mas eu estava atrasado. Liguei dizendo que fizesse alguma coisa para se distrair enquanto eu não chegava.

Gina sentiu o ar preso no peito. Pressentia o que estava por vir, a culpa que pesava em sua consciência...

— Ela estava do outro lado da rua quando me viu. Acenou e chamou por mim... Uma scooter esbarrou nela quando ela foi atravessar a rua. Ela não viu o outro carro. Nem eu. Só a vi sendo lançada no ar e caindo na minha direção feito uma boneca de trapos. — Harry se virou para o retrato e suspirou. — Se eu tivesse chegado uns segundos antes...

— Não! — Gina lhe agarrou o braço. — Não, não deve pensar assim!

Harry se desvencilhou dela, segurando a sobrinha com firmeza enquanto terminava de subir a escada.

— Não se pode mudar o passado, Gina. Você, mais do que ninguém, sabe disso. Todos fazem coisas das quais se arrependem mais tarde.

Gina queria ter uma resposta, mas o que ele dizia era verdadeiro. Suas próprias atitudes impulsivas já tinham lhe causado um arrependimento incalculável. Se tivesse contado naquele primeiro dia o que estava acontecendo, talvez não estivesse naquela situação. Ele era um homem sensato, com princípios morais. Se tivesse falado sobre seus temores quanto à segurança de Geórgia... Será que ele teria tirado Geórgia de sua vida sem pensar no impacto que isso causaria à vida da sobrinha?

— Harry?

Ele se virou, a sobrinha adormecida nos braços.

— Gina, esta é a última chance de meu pai ter um pouco de paz. Sei que é difícil para você...

— Não é difícil — ela disse, tocando-lhe o braço gentilmente. — Devo isso à memória de Cedrico. Numa outra vida, sob outras circunstâncias, talvez ele tivesse aceitado Geórgia como filha. Foi o momento errado. Você assumiu o papel de pai de Geórgia. Eu sou... a mãe. Cabe a nós fazer o melhor por ela.

— Está satisfeita com isso por enquanto? Gina olhou a menina aninhada na força protetora dos braços de Harry.

— Estou satisfeita. — Suspirou ao buscar pelos olhos dele. — Por enquanto.

Um pequeno silêncio os envolveu. Gina não conseguia tirar os olhos da dor refletida nos dele. Voltar para casa afetara Harry profundamente, a corrente de lembranças sem dúvida evocava a culpa que ele sentia pela morte da mãe. Não sofrerá a mesma angústia? Embora a mãe fosse responsável pela própria morte, Gina sentia que tinha falhado de alguma forma. Se a tivesse internado numa clínica, ou feito visitas mais frequentes, talvez o resultado fosse diferente.

— Vamos. — A voz de Harry quebrou o silêncio. — Minerva cuidará de Geórgia. Meu pai não gosta de ficar esperando.