CAPÍTULO DOZE
Depois de cuidar de Geórgia, Gina a deixou aos cuidados de Minerva e foi para o quarto que Sibila lhe preparara.
Era luxuosamente mobiliado, a cama imensa dominando o quarto com pilhas de travesseiros e almofadas coloridas, o chão forrado por tapetes caríssimos. Havia um grande armário, uma penteadeira e duas portas: uma para o banheiro, outra para a suíte de Harry. Gina desviou os olhos daquela porta e foi até a janela, vendo o majestoso Vesúvio. Uma leve brisa fazia as cortinas esvoaçarem, carregando o aroma das flores de laranjeira para o quarto.
Ouviu uma batida na porta de ligação entre os dois quartos. A garganta ficou seca quando Harry apareceu no quarto. Ele estava vestido formalmente, parecendo mais alto e autoritário em seu smoking, a camisa branca evidenciando a pele morena e os olhos escuros.
— Desculpe, não vou demorar. Só quis ver se Geórgia estava bem acomodada primeiro. Espero por você no meu quarto. Bata na porta quando estiver pronta para descer. Eu a acompanharei para que aprenda a andar pela casa.
— Obrigada. — Esperou que ele saísse para se despir, desejando ter tempo para um banho, mas não queria aborrecer James atrasando-se para o jantar. Lavou-se na pia e colocou uma leve maquiagem, prendendo o cabelo num coque. O vestido pertencera a Cho e, mesmo justo, era elegante e simples, a gaze rosa criando contraste com sua pele clara.
Bateu de leve na porta e conteve o fôlego enquanto ouvia os passos de Harry se aproximando.
— Pronta? — ele perguntou, fitando-a com indisfarçável aprovação.
Ela deu um sorriso nervoso.
— Sim.
A sala de jantar era tão suntuosamente mobiliada quanto o resto da casa. Candelabros de cristal pendiam do teto, e as paredes estavam adornadas com caríssimas obras de arte e vários espelhos de moldura dourada, que tornavam a sala ainda mais ampla. A longa mesa de jantar estava posta para três pessoas, a louça disposta de maneira elegante, com um perfumado arranjo de rosas ao centro.
James Potter, sentado à cabeceira, relanceou Gina assim que ela entrou na sala.
— Está atrasado, Harry — ele disse em italiano, em tom reprovador. —Ainda não ensinou sua esposa a ser pontual?
Harry puxou a cadeira para Gina enquanto olhava zangado para o pai.
— Não é culpa de Gina estarmos atrasados — respondeu também em italiano. — Tive que fazer várias ligações. Fui eu quem deixou Gina esperando.
Gina esperou Harry se sentar à sua frente antes de oferecer um olhar de agradecimento. Ele a encarou brevemente, uma sombra de espanto nos olhos.
James resmungou alguma coisa e tomou um grande gole de vinho tinto. Gina viu os olhos de Harry ir da taça na mão do pai ao jarro quase vazio.
— Sua casa é muito bonita, Signore Potter — ela disse para quebrar o desconfortável silêncio.
— Será de Geórgia um dia — James respondeu em inglês, acenando para que o criado enchesse novamente o jarro. — A não ser que Harry tenha um filho. O que me diz, Harry? — Voltara a falar em italiano, acrescentando em tom de insulto: — Pode continuar de onde Cedrico parou. Tenho certeza de que sua esposa não se importará, desde que a pague bem. Já abriu as pernas para vários outros, por que não faria o mesmo com você?
Gina respirou fundo, apertando as mãos sobre o colo, o rosto ficando vermelho de raiva.
— Gostaria que não a insultasse na minha presença, papai. Afinal, ela é a mãe de sua única neta e merece um pouco de respeito.
Os olhos de James chisparam de fúria.
— É por causa dela que seu irmão está morto! Ela tem que pagar!
— Como? — Harry perguntou calmamente. — Insultando-a sempre que tiver a chance? Fazendo com que se sinta culpada o tempo todo, como costuma fazer comigo?
James bateu o copo com tanto ímpeto sobre a mesa que até o candelabro retiniu junto com as outras taças dispostas ali. Encarou o filho, o rosto vermelho e os lábios brancos de tão apertados.
— É verdade, não é? — Harry continuou com o mesmo tom calmo. — Sempre me culpou pela morte de mamãe porque não quer admitir seu próprio papel naquilo tudo.
— Você estava atrasado! Você a matou por estar atrasado!
— Não, papai — Harry insistiu gentilmente. — Era você quem estava atrasado. Lembra o quanto tive que esperar até que aparecesse para assinar o resto daquela papelada? Você estava bebendo. Tive que esperar que ficasse sóbrio para que pudesse assinar o que era preciso.
Gina angustiou-se quando James engoliu o que ainda restava de vinho na taça, o queixo tremendo como se não pudesse controlar suas emoções.
— É mais fácil culpar os outros que enfrentar a dor da verdade. — Harry suspirou. — Talvez nós dois sejamos culpados. Não deveria ter acobertado sua bebedeira por tanto tempo, mas só queria proteger mamãe. As coisas seriam diferentes se eu soubesse o preço que teria de pagar pelo meu silêncio.
James afastou-se da mesa e gesticulou para que o criado o levasse embora.
Harry se levantou por respeito ao pai. Gina continuou sentada, a garganta embargada pelo sofrimento de Harry.
— Lamento que tenha testemunhado isso.
— Está tudo bem. — Ela fitava a mesa para não precisar encará-lo. — Eu compreendo... Não tem ideia do quanto compreendo.
Houve um longo silêncio.
Gina não conseguia pensar em nada que pudesse dizer para preencher o silêncio. Estava ciente do peso do olhar de Harry, como se ele tentasse resolver um enigma.
— Desde quando fala minha língua? — ele perguntou, fazendo com que Gina o encarasse espantada.
— Eu... eu estudei na escola e na universidade.
— E mesmo assim não achou necessário me informar disso?
— Tive meus motivos.
— Sim. — Harry parecia ressentido. — Poderia ouvir o que estava sendo dito sobre você para usar contra mim mais tarde. Há mais alguma coisa que tenha se esquecido de contar?
Gina baixou o olhar.
— Não.
Ouviu quando Harry se levantou e prendeu o fôlego quando ele ergueu seu queixo.
— Por que tenho a nítida impressão de que está mentindo para mim, Gina?
— E-eu não sei.
Harry lhe ergueu ainda mais o queixo, fazendo com que o fitasse nos olhos.
— Você é uma mulher intrigante, cara — murmurou, o polegar lhe acompanhando contorno dos lábios. — Que outros segredos estes olhos cinzentos escondem de mim?
— S-segredo nenhum. — A voz saía esganiçada. — Não tenho segredos.
O polegar continuou seu movimento até Gina não conseguir pensar direito. Harry fez com que ela se levantasse e, com as mãos na cintura dela, baixou a cabeça para beijá-la.
Gina suspirou quando as bocas se encontraram, todo o seu corpo cantando em júbilo por estar nos braços de Harry mais uma vez. Sentiu a invasão da língua e começou a derreter, as pernas fraquejando, agarrando-se a Harry para não cair.
As mãos dele vagaram até seus quadris, puxando-a ainda mais. Gina sentiu o volume a ereção e suspirou de prazer quando ele se pressionou contra ela.
Harry afastou-se dela, os olhos brilhando de desejo.
— Disse a mim mesmo que não a tocaria. Depois da noite passada...
A entrada dos criados trazendo o jantar os interrompeu. Gina sentou novamente e tomou um longo gole de água, e ficou aliviada quando o jantar terminou. Tinham comido em silêncio, ocasionalmente fazendo um comentário ou outro sobre os pratos que eram servidos.
Harry veio puxar a cadeira para Gina levantar-se e a acompanhou até o andar de cima.
Ele lhe abriu a porta do quarto e a encarou com expressão insondável.
— Gostaria que considerasse a possibilidade de nosso casamento se tornar real.
Gina sentiu o coração acelerar no peito.
— Quero o melhor para Geórgia e, apesar do que meu irmão contou, agora acredito em você também. Por isso acho que o ideal seria nos comportarmos como um casal normal. Não seria bom que Geórgia crescesse com pais que brigam o tempo todo. — Harry sorriu ao prender uma mecha do cabelo dela atrás da orelha. — Você está cansada da viagem. Deixarei que durma em paz. Por enquanto.
Ela não queria dormir em paz! Queria dormir com ele, mas como poderia dizer isso sem revelar seus verdadeiros sentimentos?
— Vá, cara — ele disse, vendo que ela não se movia. — Estou tentando ser um cavalheiro, mas você não está tornando as coisas fáceis.
— N-não? — Ela umedeceu os lábios.
— Não mesmo. Basta olhar para você para que eu queira levá-la para a cama. Agora vá, enquanto ainda tenho forças para resistir.
Gina entrou, ouvindo a porta se fechar atrás de si.
Não sabia se gostava da ideia de Harry ser capaz de resistir a ela, especialmente quando não tinha a mesma força no que dizia respeito a ele. Mas Harry não estava apaixonado por ela, Gina lembrou-se com aflição. Ele a odiava, mesmo desejando-a. Decidira colocar o ódio de lado pelo bem de Geórgia. Será que a odiaria ainda mais quando descobrisse quem ela realmente era?
