Konoha estava em animo de euforia, hoje era o dia da celebração de um de seus maiores festivais mais importantes da vila, uma celebração de sua fundação. As ruas estavam cheias de pessoas, decorando por toda parte e música sendo toca em todo lugar.

Sakura observou como todas essas pessoas pareciam felizes e livres para se divertir como queriam, sem impedimentos ou tendo suas vidas na mão da morte todo dia.

Nós também seremos felizes e livres depois de hoje, Outer!

Sim, elas serão.

As duas planejaram como se livrar de seus pais por dois anos. Sakura sabe que poderia ir até o Hokage e pedir ajuda, mas ela não é ignorante e muito menos ingênua para não perceber que os shinobis não se importam com os assuntos civis, por mais que seja uma criança sendo espancada por seus próprios pais e possivelmente morta por eles também.

Se Konoha sente-se um pouco incomodada, não teria crianças morando nas ruas ou vivendo no distrito vermelho fazendo trabalhos questionáveis em tão pouca idade, apenas para poder sobreviver e comer.

Porém, Sakura não é mesquinha ao ponto de jogar toda a culpa no sistema fraturado da vila e do governo do Terceiro Hokage. Ela não é como as outras crianças que são ensinadas a serem boas e comprir as regras. Não! Sakura vive em um mundo cruel e corrupto, não existe um mundo perfeito e cheio de flores a qual os adultos tentam colocar no imaginário das crianças.

O privilégio dessa igualdade não foi permitido para ela, esse foi um dos principais ensinamentos que seus pais mais se dedicaram a ensinar.

Se o mundo é cruel, alguém como Sakura tem que aprender a jogar suas cartas e sempre sair vitoriosa, porque a perda significa dor ou morte. Ela aprendeu isso da pior maneira possível.

Sakura se lembra de ter a engenhosidade de pedir ajuda a um de seus vizinhos, esperando que a dor que seus pais sempre a presenteavam iria sumir se ela pedisse ajuda a alguém.

Um de seus maiores erros.

A marca da falta de ar, a escuridão tomando conta de sua visão, a pressão na parte atrás de seu pescoço que a empurrava e segurava para baixo com força. Sakura se lembra do sentimento de traição que possuíau em seu corpo quando a pessoa que tinha pedido ajuda, estava sentada no sofá de sua sala, tomando chá tranquilamente enquanto contava como Sakura estava contando mentiras pela mentira.

Seus pais colocaram suas máscaras de tristeza e sofrimento e interpretaram o papel perfeito de pais que ficaram tristes por sua única fazer essas brincadeiras de mal gosto, apenas para esconder a raiva que sentiam por trás de seus olhos.

O castigo que deu não foi somente agressão como as vezes anteriores, feitas pior, eles brincaram de afogá-la na banheira cheia de água poderia durar um mês. Mas não parou por apenas isso, eles gostariam de pedir-la implorar perdão toda vez que davam uma pausa para realmente não matar. Eles a trancaram em um quartinho escuro e vazio. Sakura só comia os restos que jogavam no chão algumas vezes na semana, muitos deles pobres e mofados.

Seus pais eram monstros que sentiam prazer em ver a filha sofrer em seus "ensinamentos" da vida. Eles eram pessoas com uma mentalidade distorcida e que tinham uma forma única de como criar uma criança.

Ela não suportava mais esse tratamento violento e criação distorcida. Sakura não queria vingança ou deseja guardar algum rancor eterno para os seus pais. Ela só queria o que seria justo. Seus pais tiraram tudo dela, alegria, felicidade, raiva, ódio, tristeza e amor. Tudo foi arrancado sem piedade, não deixando nada além de uma boneca vazia que não sentia mais nenhum sentimento, um objeto a ser manipulado por torturas abandonadas.

Ela queria sobreviver, mas Sakura também não tinha o direito de tomar tudo de volta ? Sim, ela tinha o direito de tomar tudo que eles roubaram em sua ganância sádica. Era seu direito também tirar tudo deles.

Isso, Outer! Nunca vou deixar você esquecer o que nos fez ser assim.

Eu não quero esquecer. Porque seria ignorar ou tolerar o que fiz durante toda a minha vida. Vai ser hoje que vamos iniciar nosso plano.

O céu já tinha começado a escurecer, as ruas se tornaram mais cheias e barulhentas. A porta de sua casa ficava mais perto no decorrer que seus passos se aproximavam e a distância cada vez mais curta. Suas mãos levaram a sua e seu coração a bater um pouco mais rápido à medida que se aproximava.

Estou aqui. Você nunca vai ficar sozinha, Outer. Nunca!

Obrigada, Interior!

Sakura chegou a casa que viveu toda sua vida, abriu a porta com cuidado e suportou a hora. Hun… a hora certa em que sua mãe possivelmente estaria no quarto se arrumando e seu pai enchendo a cara de bebida na sala. Seus passos eram silenciosos enquanto Sakura caminhava pelo corredor e subia as escadas em direção ao quarto de seus pais.

Pela brecha na porta, era possível ver a silhueta de sua mãe aplicando maquiagem em frente ao espelho. Ela usava um quimono vermelho com bordados de ouro nas mangas e nos desenhos sagrados em harmonia. Brincos de rubi e maquiagem que realçavam suas feições delicadas. Era uma mulher bonita com seus longos cabelos pretos soltos e olhos verdes. Uma figura que era a própria definição de elegante para qualquer um a visse na rua de perto ou de longe. Essas mesmas pessoas nunca imaginariam o que essa mulher elegante era capaz.

O plano de Inner e Sakura tinha planejado era perigoso e arriscado, sem margem para erros. Exigia mais do que preparação teórica.

Vamos, Outer. Respire fundo e fachada o que ensaiamos. Não podemos recuar.

Inner está certo. Sakura não vai recuar.

Duas respirações profundas depois, uma mente focada e limpa de qualquer distração.

Que plano comece!

Com cuidado, Sakura empurrou a porta do quarto, anunciando sua presença. Olhos verdes eletrizantes iguais aos seus e ao mesmo tempo diferentes, a fitavam fixamente pelo espelho.

- O que você está fazendo aqui no meu quarto, coisa repugnante ? - A voz saiu mansa e calma, nunca desviando a atenção de Sakura.

- Papai mandou dizer que não vão mais para o festival e que iriam aproveitar a noite de outra maneira - Sua voz também saiu calma e indiferente.

Sua mãe parou apenas por um segundo de aplicar maquiagem no rosto, retornando logo em seguida. Seu rosto não demonstra nenhuma expressão de desagrado ou raiva pela notícia repentina. O quarto contínuo em silêncio, para logo ser quebrado pela voz fria e autoritária de sua mãe.

- Tome banho e vista o quimono vermelho que seu avô mandou para você. Vou dar apenas dez minutos para estar pronto, caso contrário, enfiarei sua cabeça na banheira para ver o quanto tempo pode ficar sem respirar dessa vez, querida.

Sakura apenas acenou com a cabeça, não esquecendo lembranças antigas onde sentia falta de ar tomarem conta de seu corpo e mente. Elas logo foram reprimidas por Inner.

Até agora, está correndo tudo como previsto, Outer!

A Inner tinha razão. Para o plano dar certo, Sakura tem que seguir uma rotina que eles sempre conseguirão. Sua mãe é tão perspicaz quanto um ninja, qualquer perturbação desconhecida vai colocá-la em alerta e mudar suas ações.

Sakura não pode deixar isso acontecer!

Olhando para seu reflexo no espelho a fez franzir a testa. O kimono vermelho se adequa a sua figura, uma prova que seu avô tinha bom gosto. Mas seu cabelo seria um problema. Faltavam três minutos antes de seu tempo acabar, Sakura buscou escondida em seu armário, uma máscara branca de raposa. Era noite de festival, a maioria das pessoas usava máscaras semelhantes às de animais. Essa vai ter que servir para seu futuro propósito!

Sua mãe já estava saindo do quarto quando Sakura apareceu ao seu lado.

- Hun.

Nada mais foi dito além desse murmúrio afirmativo de sua mãe.

A descida das escadas e a caminhada que levaria para a sala foi lenta e sem pressa. Quando havia festas pela vila ou fora dela, seus pais sempre comparavam sem Sakura. Sendo as únicas vezes quando seu pai prefere ficar em casa e fazer sexo com sua mãe. O que resistiu, sua mãe odiava perder festas e, principalmente, para atender as necessidades de seu companheiro.

É por isso, que quando seu pai avisava que não iriam, sua mãe colocava ele para ir transar com qualquer puta do distrito vermelho. Só havia um pequeno detalhe… ela mandava ele levar Sakura junto, apenas para causar o maior desconforto possível a uma criança de 7 anos.

E é esse tipo de crueldade que Sakura espera essa noite, tudo para seu plano sair perfeito.

Elas chegaram à sala em pouco tempo. Seu pai estava deitado no sofá, com um copo de saquê em uma mão e outra cobrindo seus olhos. Sakura prestou atenção ao copo de saque em sua mão e tentou segurar o sorriso que queria surgir em seu rosto.

Seu pai usava um yukata preto com vermelho meio aberto no peito, seus longos cabelos escarlate caindo ao seu redor. Ele era um homem bonito e seus traços também, assim como seus olhos verdes vivos que a estavam mirando agora.

Sakura continua mantendo o rosto inexpressivo enquanto seu pai a analisava como uma cobra esperando alguma reação para atacar.

Algo escuro surgiu em seu olhar antes de sumir rapidamente e direcioná-lo para sua mãe.

Haruno Mebuki e Haruno Kizashi, ambos primos e pertencentes ao mesmo clã civil, daí uma certa semelhança entre seus traços. Embora a cor do cabelo de sua mãe seja uma anomalia entre os Harunos. Preto em um mar vermelho e rosa.

- Leve Sakura com você, voltarei tarde e prefiro ir sozinha do que com um bêbado fedorento - Mebuki olhou brevemente por dois segundos e saiu indiferente, deixando os outros dois na sala.

Sakura continuou indiferente às ações de sua mãe, afinal, era o que ela precisava e pretendia. Já seu pai parecia confuso porque sua mãe o abandonou, apesar de terem combinado de irem juntos ao festival da vila. Porém, a confusão logo acabou e o olhar escuro voltou enquanto analisava a criança na sala.

Sakura está tendo um mal pressentimento, já era para seu pai se levantar e ordenar que ela o esperasse lá fora. A voz rouca de seu pai a acordou de seus pensamentos.

- Quantos anos você tem agora, garota ?

- Sete anos, pai - Sakura respondeu sem perder tempo.

Exterior, algo está errado.

Eu percebi Inner, mas deve ser porque é por volta dessa idade que as crianças civis podem sair da academia e meu aniversário está perto.

Pode ser isso mesmo, mas um motivo para realizarmos ainda hoje, caso contrário, eles vão nos tirar da academia.

Sakura ficou em silêncio e tentou acalmar o mau pressentimento que ainda existia em seu peito.

- Hun.

Seu pai murmurou. Devagar, ele se usando do sofá e foi pegar uma máscara branca em formato de um dragão em cima da mesa da cozinha.

- Vamos, Sakura.

Um desconforto preencheu seu peito ao ouvir seu nome anunciado por seu pai, ele nunca tinha dito seu nome. O desconforto sóou pior quando ele segurou sua mão em um aperto de ferro ao sairrem de casa.

Sakura tentou apagar esse sentimento ruim do mesmo modo que fez ao sentir alguém os seguindo. Era apenas paranóia de sua cabeça! Era apenas isso mesmo…

Para se distrair e voltar sua mente à missão, sua outra mão livre subiu para colocar a máscara de raposa no rosto.

Os dois seguiram em direção ao distrito vermelho.

As ruas continuaram a se encher de pessoas. Shikamaru voltou a arrumar sua máscara de gavião no rosto outra vez. Ele tinha pegado em uma das muitas barracas espalhadas pelas ruas. Com o propósito principal de esconder quem ele era para ninguém o reconhecer. Shikamaru teria problemas se seus pais descobrissem que seu filho estava no distrito vermelho de Konoha.

Um possível problema que se tornaria um grande incômodo.

Tudo isso por conta de sua maldita curiosidade! Quando ele seguiu o garoto Haruno, que agora sabia que era uma menina, até a casa dela, o herdeiro Nara tinha pensado em desistir e ir para sua casa, onde sua cama o esperava animada por seu companheiro de vida.

Contudo, quando estava se virando para ir embora, uma mulher bonita de quimono vermelho extravagante, saiu de casa sozinha e caminhou tranquilamente pela rua. Foi só por isso que Shikamaru decidiu esperar mais dez minutos para outro inquilino sair.

Não precisou esperar muito, em cinco minutos, mais dois inquilinos saíram. Um deles, sendo quem ele queria, usava um quimono vermelho bonito, o que realçava suas feições femininas delicadas de uma garota.

Shikamaru não teve tempo para poder analisar essa nova informação chocante. O homem ruivo que estava ao lado dela, pegou sua mão e seguiu a caminhar pela rua, não antes da garota colocar uma máscara de raposa no rosto.

Algo não se sentiu bem e esse sentimento não melhorou quando viu que eles caminharam por um caminho diferente da mulher, essa que ele supõe que seja a mãe de Haruno. Shikamaru só foi perceber que algo estava muito errado, ao notar o lugar em que ele acabou entrando.

O distrito vermelho.

E aqui estava ele agora. Nunca esteve por essas bandas e as imagens à sua volta não eram compatíveis.

Todo o distrito brilhava com luzes por toda parte, as ruas estavam lotadas de pessoas, a maioria usando máscaras como a dele. Mulheres quase nuas acenavam para qualquer um que passava perto, existiam até crianças de sua idade sentadas no chão pedindo dinheiro em troca de serviços, os quais Shikamaru não queria imaginar, mesmo sabendo quais eram.

O estado das crianças era de fome e falta de higiene.

Shikamaru não queria mais um minuto neste lugar deplorável, ele queria virar as costas e ir embora, fingir que nunca esteve aqui. Pelo amor de Deus! Ele só tem sete anos e mesmo sendo um Nara, ainda é só uma criança que nunca viu essas partes da vida.

Shikamaru já estava pronto para se virar quando viu…

A cinco metros de distância, o homem ruivo entra em um estabelecimento escuro comparado ao resto do lugar, levando uma garota junto como uma boneca.

Seu personagem cardíaco acelerou quando sua mente imaginou cenários de cenários que poderiam acontecer ali.

O homem ruivo e a garota.

Shikamaru é um covarde, ele sabe disso. Os filhos do lugar pareciam abafados em seus ouvidos, seu corpo parecia chumbo pregado no chão. Com grande esforço, puxou seus pés em direção oposta ao da garota e saiu andando para a saída do distrito vermelho. Mas algo o fez parar em sua trilha.

Seus olhos se arregalaram por trás da máscara e seus pés pararam com um só em sintonia. Lá, na entrada do distrito vermelho, e único caminho que ele sabe que levaria a saída, eram dois membros do seu clã.

Merda.

Merda dupla e fodida!

Não tinha como passar por esses dois, sua mente trabalhou em dezenas, não, milhares de planos de fuga para escapar da situação que se meteu. Droga!

Sua mente brilhante só conseguiu formular alguns, esses que diminuíram ao ver os dois começarem a caminhar mais dentro do distrito. Só restavam três planos de fuga.

O primeiro, seria andar tranquilamente em direção a saída e torcer para que eles dois não o notassem o herdeiro preguiçoso no meio de tanta gente. Porém, esse plano se mostrou impossível quando Shikamaru olhou a diferença das crianças desnutridas e para ele próprio. Seria como uma grande seta vermelha em cima de sua cabeça.

O segundo plano, seria ficar quieto no seu canto e esperar ele passar sem notar uma criança muito semelhante ao filho do chefe do clã Nara. O que também é impossível! Os dois membros de seu clã eram shinobis, eles iriam analisar cada pessoa perto de seu radar. O que restava apenas o último plano de fuga.

Shikamaru soltou um grande suspiro e olhou para a porta aberta do escuro local em que o homem ruivo entrou com a garota. Os Deuses lá de cima não pareciam aceitar muito bem sua covardia. Ah, que problema gigantesco que se meteu…

O aperto de ferro em sua mão ainda era persistente enquanto Sakura subia as escadas e atravessava corredores desconhecidos, seu pai não soltando ou afrouxando o aperto em nenhum momento.

Merda, exterior! O bastardo está fugindo do esquema de rotina que sempre faz!

Merda mesmo, seu pai sempre a permaneceu esperando na porta do bordel e iria atrás de alguma puta por horas. No entanto, ele parecia ter outros planos em mente, esse que Sakura tem uma impressão que já sabia desde a pergunta de sua idade. Droga!

O veneno ainda vai demorar para ter efeito.

Eu sei! Quem você acha que colocou no saquê, Inner?!

O que vamos fazer? Qualquer lugar que ele esteja nos levando está próximo de chegar.

Estou pensando! O veneno que produziu a base de plantas que o livro que roubamos aquela garota loira que tentou nos achar, dizia que causaria um ataque cardíaco com fortes emoções.

Sakura tinha planejado que seu pai tivesse essas fortes emoções ao fazer sexo com uma puta. Seria uma morte que ninguém ligaria a uma criança de 7 anos, uma morte natural ocorrida no distrito vermelho. Ninguém se importaria.

Contudo, parece que o bastardo de seu pai tinha sexto sentido enfiado no cu para tentar estragar seu trabalho árduo. Sakura não deixaria isso acontecer, ela só tinha que encontrar outra saída para matar seu pai e se livrar do que ele está planejando fazer com ela.

O veneno ainda estava em seu sistema. Eles estavam no distrito vermelho, em um lugar desabitado de qualquer ser humano, principalmente, testemunhas. Sakura passou a mão em seu quimono, com a aparência de tentar tirar a poeira. O que não era verdade, ela só precisava verificar se tinha em sua posse o item que roubou de sua instrutora da academia. Sua mão passou por uma preponderância em seu peito.

Ela tinha o item, assim como pensei em uma ideia.

Na mesma hora em que Sakura formulou uma ideia, eles subiram uma escada estreita que levava a um corredor curto que acabava em uma porta velha. Seu pai abriu a porta e entrou puxando ela para dentro, sem que ele percebesse, Sakura deixou a porta encostada ao invés de totalmente fechada.

Mas, seu pai parecia muito focado em leva-la para o centro da sala que não percebia. O lugar era escuro e fedia a muitos cheiros recebidos, tinha restos de comida tocada no canto parecendo que moravam a anos.

O aperto em sua mão afrouxou até soltar, seu pai deu alguns passos para traz e falou em uma voz de comando.

- Tire uma roupa.