Harry se encontrava novamente na biblioteca do castelo para mais um estudo. A primeira semana passou rapidamente.

Jane ainda não trocara uma palavra com ele e Alec apenas respondia suas perguntas.

Era maio desconcertante. Ele não sabia o que dizer ou como agir. Aro e Caius foram mais abertos ao recebê-lo, mas Jane e Alec eram completamente o oposto. Ele queria que todos se dessem bem.

Nos últimos dois dias, Jane começou a brincar com Celine e o respondia quando ele fazia alguma pergunta.

Alec passou a falar mais e dava informações além daquelas que ele precisava apenas para poder ter algum assunto.

Ele passou a apreciar isso e fez de tudo para segui-los.

Os dois irmãos vampiros passaram a se dar bem com o bruxo, mas ainda não sabiam ao certo quais eram seus sentimentos sobre ele.

Essa mudança veio de quando ambos perceberam que esse jovem era diferente de qualquer outro aprendiz. Os outros faziam de tudo para chamar a atenção dos reis e os considerava crianças.

Já Harry, nunca exigiu atenção, apenas tinha a sede de conhecimento e ficava feliz com qualquer outro vampiro que pudesse responder suas perguntas. Harry também nunca duvidou de seus poderes e força, ao que eles eram gratos, mas nunca admitiriam isso.

O mago reconhecia seus valores e os tratou como igual. Diferente de muitos.

Agora, depois de ler sobre as relações que os vampiros têm com outros seres e criaturas, ele começou os questionamentos. Harry ainda não conseguia entender por completo sobre o mito da briga eterna entre lobisomens e vampiros.

— Então isso quer dizer que os vampiros e os lobisomens não são inimigos mortais como muitos acreditam...?

— Isso é correto. Há muito tempo, um vampiro descobriu ser companheiro de uma humana, mas infelizmente a humana foi infectada por um lobisomem desonesto. Todo o ódio está incrustado na sociedade tão firmemente que ainda hoje há desavenças entre certas matilhas e certos clãs.

— Mas se esse vampiro amava tanto a sua companheira, por que ele não ficou com ela até o momento de sua morte? Ele só a amaria se fosse pela eternidade? — Harry perguntou à Alec. Aro e Marcus não puderam permanecer por conta de várias reuniões, então Alec o estava ajudando e Jane estava com sua filha.

— Esse vampiro acreditava que eles jamais poderiam ser felizes juntos. Leovan foi transformado em vampiro, então não havia chance alguma dele se juntar à sua amada por conta de seu corpo morto. Já Cayetana, ela não podia ser transformada em vampiro porque o vírus ao qual foi contagiada curaria qualquer veneno ou machucado em seu corpo.

— Fico realmente triste por eles. Ambos queriam ser felizes e por conta disso, se tornaram amargos. Mas por que Drácula não lhe deu outra companheira?

— Nossos companheiros já são decididos antes mesmo de nascermos. Drácula vê apenas o potencial, ele não pode contar com o que irá acontecer na vida da pessoa. Nosso conde não tem permissão para ver o futuro de cada vida. Se ele pudesse, tenho certeza de que ele faria algo.

— Entendo... Essa parte da história foi muito triste. Podemos dar uma pausa? Também preciso alimentar Celine.

Apenas com um aceno, Alec se levantou seguido por Harry. Eles caminharam até o sofá onde estava Jane e a bebê.

— Olá querida. — Harry sorriu para a sua filha. A menina abriu os braços para o pai que a pegou rapidamente. Tem se divertido, meu amor? — A garotinha soltou gargalhadas quando seu pai fez cócegas. — Venha, está na hora de mamar.

O menino se sentou no sofá e puxou a blusa, assustando Alec e Jane, mas ele não percebera suas expressões. Um silêncio caiu na sala e Jane pôs fim.

— Você pode amamentar? Como isso é possível? Espera, dói? — Ela perguntou com uma careta.

— Querida, isso não é nada comparado à quando eu tive que aguentar seus chutes na minha bexiga. — Harry sorriu para ela. — No meu mundo, o mágico, alguns magos podem engravidar. Ainda se estuda poções que podem fazer com que qualquer casal homossexual possa ter um herdeiro do próprio sangue sem precisar de uma substituta ou de inseminação.

— Então o outro pai... — Alec começou, mas foi interrompido.

— O outro pai morreu antes de descobrirmos sobre a gravidez. Nós estávamos noivos.

— Sinto muito. Eu não queria te deixar assim.

— Não se preocupe, faz alguns anos e eu aprendi a não chorar por qualquer coisa que o lembre. Só essa coisa de ser companheiro de um vampiro que me deixa um pouco assustado. — Ele confidenciou aos irmãos.

— Mas um companheiro vai cuidar de você e verá seu filho como o dele próprio.

— Eu não quero um companheiro que se veja como pai de Celine. Ela já tem um pai. — Ele mordeu, o que assustou um pouco a criança. Harry controlou sua respiração na intenção de acalmar sua magia e ninou sua filha. — Desculpe.

— Eu não entendo muito o que você está passando, mas sei que você só quer o melhor para a sua filha. Nenhum companheiro irá forçar isso. Um companheiro cuida e protege. A decisão fica a parte da criança se ela o que no lugar de pai. — Jane tentou confortar o bruxo.

— Estou assustado. Apenas isso. Fui jogado de cabeça nessa situação. Eu estava no meio de uma guerra e em uma simples visita ao banco, toda a minha vida ficou de ponta cabeça.

— Você tem todo o direito de estar assim. Não julgamos.

— Eu agradeço. Vocês são uns amores. — Harry beijou a testa de Jane que estava sentada ao seu lado no sofá e depois deu um beijo na cabeça de Alec que estava sentado no tapete aos seus pés.

Harry viu que sua filha já havia dormido então a manobrou no braço para que os dois pudessem ficar mais confortáveis e se encostou no sofá. Ele poderia muito bem tirar um cochilo.

Jane e Alec se entreolharam e tiveram "a conversa de irmãos".

Os dois vampiros jovens sentiram um calor reconfortante se instalar em seu coração há muito morto. Era isso que eles sempre desejavam. Caius e Aro fizeram seu melhor, mas ainda não era a mesma coisa. Havia algo diferente.

Eles abandonaram qualquer julgamento e se acomodaram mais próximo ao garoto.

Jane era temida por muitos, ela era uma vampira formidável na luta, mas naquele momento, ela se enrolou ao lado do jovem e deixou a tranquilidade cercá-la.

Alec, que sempre mostrou ser forte o bastante e sempre andava com uma máscara em branco impassível no rosto, deitou sua cabeça nos joelhos do bruxo e relaxou no calor.

A magia de Harry reagiu de forma protetora e envolveu todos num sono tranquilo e sem sonho. Era apenas um descanso. Os dois vampiros não dormiam desde seus tempos como humanos, já que eles eram vampiros transformados e sem qualquer tipo de magia.

Quando Aro e Caius terminaram a última reunião do dia, eles decidiram procurar por seus filhos, e foi essa a cena que os abraçou quando eles entraram silenciosamente na sala esperando surpreender seus filhos.

Eles sempre desejaram que Jane e Alec tivessem isso, mas apenas um submisso tinha o calor e cuidado adequado para um vampiro jovem.

Vendo a bela foto que eles faziam, os dois pensaram ao mesmo tempo que apenas faltava Marcus para sua família estar completa. Eles decidiram os deixar para que não se assustassem os vendo ali de pé.

Aro e Caius mal viram o tempo passar. Num piscar de olhos, ou talvez cinto, já perdidos na conta, eles olharam para os envelopes em suas mãos.

No próximo final de semana seria o aniversário de Celine, filha de seu aprendiz e companheiro. Eles estavam convidados.

Dizer que os dois ficaram surpresos, seria um eufemismo.

Eles já consideravam a menina com sua filha e sabiam bem que a magia de Harry inconscientemente já via Jane e Alec como família.

Os dois vampiros mais velhos pensaram que não receberiam o convite, mesmo sabendo da festa. Eles passaram a maior parte do tempo em reuniões, eram raras vezes que ficavam com o menino.

Agora, sabendo que foram lembrados na entrega dos convites, eles entraram num dilema.

O que uma criança de 2 anos recebe de presente? Um grimório? Não, ela ainda não sabe ler. Uma viagem? Não. Ela nem vai se lembrar. Uma casa? Talvez seja demais.

Eles podiam estar desesperados, mas jamais admitiriam isso. Então, eles chamaram Jane, ela era a mais jovem deles. Ela saberia o presente ideal.

Quando Jane chegou no quarto, ela perguntou o motivo da chamada.

— Querida, você começou o presente para Celine?

— Sim, pai. Por que a pergunta?

— Nós queríamos pedir sua opinião, mas não queríamos afetar sua escolha de presente.

Jane arqueou a sobrancelha, sabendo o que eles realmente queriam.

— Uma roupa ou um brinquedo de pelúcia pode ser bom. Há uma loja que vende tudo para crianças de tal idade. Se quiser, posso dar o endereço de onde fui.

— Quem disse algo sobre isso? Nós apenas queríamos uma mera opinião. — O loiro começou o teatro.

— Papais, eu convivo com vocês faz anos. Esperam mesmo que eu caia nisso?

— Nunca é tarde para facilitar algo para nós, pobres velhos, de centenas de anos. — E para um maior efeito, Caius se deixou cair pesadamente na poltrona.

— Velhos não deveriam chegar a ponto de abalar esses corredores quando fazem sexo.

— Olha a língua!

— Assim me magoa, querida. — Aro e Caius exclamaram ao mesmo tempo.

— Era apenas isso? — Jane segurou a revirada de olhos. Ela podia amá-los, mas não precisava aguentar todo o drama.

— Sim, sim. Pode ir. Agora sabemos qual realmente embrulhar.

Aro bufou para o seu amante. Sua filha já sabia de tudo, para quê continuar toda essa cena? Quando Jane saiu, Aro falou secamente para Caius.

— Acredito que sem sexo está em ordem até que possamos dar um jeito de não aterrorizar quem passa por esses corredores.

— O QUÊ? Mas... Aro! — O choramingo começou.

— Essa é a minha palavra final. É constrangedor ouvir esse tipo de coisa da própria filha. Precisamos nos segurar.

E sem dar chance de Caius fazer outra cena, ele se retirou da sala.

De um lado era Caius fazendo beicinho e do outro era Harry.

— Mas Yara, eu queria apenas uma festa pequena.

— Isso é você. Mas já perguntou para sua filha?

— Exatamente! Ela é minha filha. Lógico que vai preferir o mesmo que eu.

Quando Harry terminou de proferir as palavras, Celine agarrou um dos enfeites enquanto ria alegremente mostrando seus dentinhos.

— Ela quer uma festa! — Exclamou Yara alegremente.

Estavam apenas os três em casa. Amos deixou toda a arrumação para os dois. Harry pensava nele como um traidor. Como ele ousa deixá-lo aqui para a tortura de Yara?

Enquanto a mulher falava descontroladamente sobre tudo o que a neta merecia na festa, Harry planejou uma brincadeira tortuosa para Amos. Ele precisava falar com os gêmeos sobre suas novas invenções.

Celine, manhosa, reclamou que já queria outra refeição. Harry a deitou em seus braços confortavelmente e deixou que ela puxasse todo o alimento, enquanto ele fazia pequenas caretas de dor.

— Esses dentes machucam. Quando que ela vai parar de pedir?

— Ah, querido, o leite dura tanto tempo quanto o seu bebê precisa. A magia da criança é quem dita o necessário. Alimentei Cedric até os 4 anos. Não reclame. — A mulher riu do bruxo. Sim, apenas pela expressão dele, podia-se ver que ele estava horrorizado.

— Bebê do meu coração. Você não vai torturar seu papai tanto assim, não é mesmo? — O nervosismo era claro em seu tom.

A criança o olhou e sorriu feliz enquanto aumentava a força da sucção.

Yara pôde apenas observar a cena enquanto se lembrava dela própria alimentando seu filho. Não querendo trazer um clima cabisbaixo, ela balançou a cabeça para espantar as lembranças e se virou para o elfo que estivera conversando momentos antes. Ela passou toda a lista para ele e os detalhes do bolo para que ele pudesse dividir entre os outros elfos.

— Yara, vou levar Celine para o berço. Você ainda precisa da minha ajuda?

— Não, tenho tudo sob controle. Pode ir descansar. — A bruxa sorriu.

— Você pode entrar em contato com Jane, Alec e Dimitri, por favor? Eu disse que os veria hoje para falar mais sobre o mundo mágico, mas estou completamente acabado. Acho que nem consigo aparatar.

— Claro que eu aviso. Pensei em dar um passeio na cidade, posso avisá-los.

Lady Diggory era uma mulher compreensiva. O menino havia a pouco iniciado suas aulas de luta. Entre um novo tipo de aula, os livros sobre vampiros, o tempo que passava estudando para tirar os NIEM's e uma criança prestes a completar 2 anos, ela via o motivo dele estar tão cansado ultimamente.

A mulher sempre dizia que ela amava cuidar da neta e que ele não precisava tirar os NIEM's agora. Mas ele era teimoso e dizia que fazendo os testes no ministério, seria menos uma coisa na lista de afazeres e que cuidar de Celine era sua prioridade.

Bem, não adiantava. Ele não mudava de ideia. Ela podia apenas ajudá-lo quando chamada e ver onde ele ia parar todo sobrecarregado, com pesos que ele mesmo colocou em si.

Decidindo ir para a cidade antes que escurecesse muito, ela colocou uma roupa mais trouxa e fechou a casa. Assim que a mulher aparatou na cidade, ela decidiu ir primeiro ao castelo.

Dando seu nome e o motivo de sua visita à mulher, ela logo foi pedida para seguir um guarda, m da forma que Amos a explicou.

— Espere aqui, por favor. Chamarei Jane.

Ela apenas concordou com a cabeça e esperou que o vampiro voltasse com a menina.

Assim que uma vampira de cabelos loiros entrou na sala, Yara se sentiu obrigada a apreciar a beleza a sua frente. Os livros realmente não mentiram. Os vampiros tinham uma beleza incomparável e desejável por qualquer outro ser.

— A senhora disse que tem uma mensagem de Harry?

— Sim, ele me pediu para avisar a você e mais dois outros vampiros que ele não poderia vir hoje. Ele deseja descansar e relaxar. O menino está sobrecarregado. Eu o avisei. Mas parece que tudo o que digo entra por um ouvido e sai pelo outro. Incrível.

— Eu entendo. Seria pedir muito que eu, meu irmão e nosso amigo possa visitá-lo hoje? Nós realmente gostamos de passar um tempo com ele. Claro. A casa fica na colina. Ela é a maior de todas.

— Obrigada por isso. Nós realmente gostamos de passar um tempo com ele.

— Ele também ama, com certeza. Ele sempre chega em casa falando de vocês. Fico feliz por isso.

Jane ainda não sabia como receber elogios de pessoas novas. Com Harry ela se acostumou, ele não exigia nada dela. Nem mesmo uma palavra.

Antes que a mulher fosse embora, ela se virou para a vampira.

— E se puder, tem como levar um sangue ensacado ou em qualquer outra coisa? Faz tempo que ele não se alimenta e acredito que parte do cansaço pode ser essa falta.

— Vou levar um ensacado. Ele só bebe assim. — A mais jovem acenou com a cabeça e se retirou da sala.

Jane e Alec se sentiam bem ao redor de Harry e gostavam da sensação da magia ao seu redor. Eles ainda não sabiam o motivo disso, mas ficavam satisfeitos em apenas se juntar à Harry no que quer que ele esteja fazendo e apreciavam o calor que emanava do bruxo. Eles sempre adormeciam ao redor dele. Os dois gostaram dessa pequena mudança. Afinal, fazia anos que eles não experimentavam isso e sentiram falta.

Sem nem perceberem, Harry estava construindo um lar começando por eles.

Harry estava recebendo seus convidados e sorria ao ver Dora brincando com sua filha. Ela e Remus haviam se casado e no momento ela estava na 27ª semana de gravidez. Mais um maroto para aterrorizar a todos.

O jovem observava seus amigos, Ron e Mione interagirem. Ele sabia que os dois se amavam. Mas os dois eram orgulhosos demais para admitir tal coisa.

— Vocês vieram! — Harry riu alegremente ao ver Alec, Jane e Dimitri. — Que bom que estão aqui. Há uma parte da mesa dedicada a vocês. Pirulitos de sangue, sangue doado com nosso FireWhisky e tentei fazer um biscoito com sangue, não sei se deu muito certo. — Ele sorriu envergonhado. — Yara sabe tudo o que tem no menu do hoje, é só perguntá-la.

— Oh, os famosos pirulitos que Jane e Alec tanto falam, finalmente! — Dimitri empurrou o presente nas mãos de Harry e seguiu para a mesa.

O garoto sorriu para o vampiro. Ele podia ser um guarda e ter um dom poderoso, mas ele agia como um adolescente. O bruxo se virou para os dois vampiros restantes.

— Bem, boa sorte ao tentar tirá-lo de lá. Podem por favor levar esses presentes e colocá-los na cesta perto da mesa do bolo? — Harry recebeu dois acenos e distraidamente beijou a testa de ambos antes de ir cumprimentar os novos convidados.

Jane e Alec ainda não entendiam tudo o que estava acontecendo — nessa estranha relação deles com o mago, —mas deixaram quieto e seguiram até Dimitri.

Quando parecia que todos os convidados haviam chegado, os três reis Volturi entram na sala e foram diretamente a Harry.

— Harry, fico feliz por ter sido chamado. Trouxe uma lembrança para Celine. — Harry pegou o presente que estava na mão estendida de Caius.

— Este é o meu presente, espero que ela goste.

— Obrigado, vocês dois. Tenho certeza de que ela os amará. Se vocês seguirem Jane, chegarão na diversão. — Harry pegou o outro pacote e sorriu para ambos.

Os dois amantes apenas acenaram e seguiram o caminho para uma das mesas, onde podia sentir a presença de seus filhos e seu guarda.

— Devo dizer que me sinto honrado por ter sido lembrado em tal convite. — Marcus falou pausadamente.

— Bem, eu não podia o deixar de fora. — Harry sentiu um pequeno frio na barriga quando aquele olhar intenso do vampiro se intensificou, ele tinha certeza de que até sua alma poderia ser desnudada através de tal ato.

— É uma residência... aconchegante, devo dizer. — Marcus olhou o local a sua volta e prestou atenção aos mínimos detalhes que facilmente passariam despercebidos por muitos.

Harry aproveitou a distração e bebeu avidamente do corpo esbelto que estava a sua frente. Eles estavam tão próximos que seus dedos coçavam nervosamente para poder tocar no que pudesse pertencente ao vampiro. Quando o jovem voltou seu olhar ao vampiro, percebeu que o vampiro o olhava de uma forma tão intensa, mas ainda assim estranha. Ele provavelmente percebeu que Harry o avaliava enquanto estava distraído.

— Er... Uh... Bem...

— Mesmo com uma herança de vampiro você não é nada gracioso. — Marcus observou. As bochechas beijadas pelo sol avermelharam levemente e o bruxo teve de desviar o olhar.

— Voltando... Você pode encontrar seu clã na mesa destina à vampiros. Eu ainda tenho de servir os convidados, então não sei se poderei parar para uma conversa.

— Claro, continue. Mas devo dizer que você vai me dever uma conversa. — Marcus o fitou e esperou que o jovem acenasse, antes de ir para a direção que o menino deu.

Harry estava uma bagunça internamente. Ele nunca trocara uma palavra com o vampiro durante seus aprendizados no castelo. Mas agora, vendo a maneira como ele se veste casualmente, que aceitou ser convidado e ainda o olhou daquela forma... esse homem poderia colocar seus hormônios em ebulição rapidamente, apenas com seu olhar tão forte.

A festa seguiu calmamente. Nada fora do lugar. Bem, os gêmeos testaram suas novas brincadeiras nos convidados, mas todos levaram na esportiva, então estava tudo bem.

No momento, ele tinha sua pequerrucha nos braços enquanto os convidados se despediam. Quando o último foi embora, os Weasley se aproximaram de Harry e da criança. Vendo como os olhos de Molly brilhavam para segurar a menina e como ele estava realmente cansado, ele a entregou sem palavras e se recostou no sofá, a observando murmurar para a criança.

Vendo como o jovem estava cansado, os outros Weasley passaram a conversar baixo para não o despertar.

Harry não sentiu ser carregado até seu quarto por Charlie e nem se lembrava de chamar o nome de Marcus durante o sono.

Tudo estava na mais bela paz, enquanto um furacão de sentimentos surgia no Castelo Volturi.

— Por que isso agora? Qual é o problema? Ele está aqui apenas para treinar.

Didyme era o amor de sua vida, então por que parecia tão errado pensar nela desse jeito?

Marcus estava no mínimo furioso. Ele realmente não entendia o que estava acontecendo. Só ao observar o menino, seu vampiro interior cantava alegremente. Isso nunca acontecera antes. Ele sempre tivera controle sobre a fera.

Didyme dizia ter medo do vampiro que o habitava.

Mas parecia tão certo mostrar tudo e qualquer coisa para Harry.

Um garoto fofo. Que se preocupa com os outros. Estar na presença do jovem trazia um sentimento de plenitude. Era tão... diferente.

Ele queria chorar de desespero e gritar de frustração. Mas ele não pôde, ele prendeu tanto sua besta interior que ele mesmo se perdeu.

Cedendo finalmente aos instintos da besta, ele saiu cidade a fora.

A criatura não matou inocentes e nem os transformou. Precisava apenas se sentir livre e se acostumar novamente com sua pele.

Quando estava amanhecendo, ele voltou e mandou um bilhete para Aro e Caius, qualquer que recebesse primeiro, dizendo que não poderia comparecer às reuniões. Ele deixou sua pequena aventura fora do castelo para que os outros dois não surtassem.

Ele precisava se controlar, mas como?

Marcus nunca perdera o controle sob sua besta, então, por que justo agora?

O vampiro caminhou rapidamente pelo quarto pensando no que fazer.

O ensino do garoto logo acabaria, e ele queria domar sua fera antes de ver o menino. Ele era realmente intrigante.

Marcus sempre apreciou um bom enigma.

Decidindo meditar como sempre fizera para iniciar o controle sobre sua besta, ele o fez até que pudesse domá-la por completo.

O dia se passou da mesma forma tensa e terminou quando Aro e nem Caius suportavam o silêncio de Marcus, afinal, ele nunca faltara uma reunião.

Harry acordou completamente relaxado. Ele olhou para o berço e viu que sua pequena ainda dormia calmamente.

O bruxo se levantou da cama e por ser cedo demais, decidiu aproveitar o tempo para tomar um banho completo.

Ele pensou sobre a noite anterior. A festa ocorrera sem problemas. Sua princesa se divertiu e se esbaldou com toda a atenção recebida. Isso ela herdara do seu pai. Homem vaidoso. Sempre gostava de ser o foco em tudo.

Por um momento, ele congelara com a esponja na mão. Pela primeira vez, não doeu pensar em Cedric. Um sentimento de confusão pousou sobre ele e por lá ficou.

Ainda pensando profundamente, ele terminou o banho, se vestiu, escovou os dentes e voltou para o quarto.

Quando Celine acordou, ele cuidou das necessidades dela e desceu para o café da manhã.

Como sempre, Amos e Yara já estavam à mesa. Eles se cumprimentaram e Harry perguntou sobre os Weasley.

— Eles foram bem cedo. Charlie precisava voltar para a Romênia, Bill tinha uma reunião com os Goblins, Arthur precisava estar cedo no ministério, os gêmeos voltaram para a abrir a loja, como hoje é folga dos outros dois funcionários e os mais novos decidiram voltar com a mãe. Mas deixaram uma carta. Acredito que a deixei na mesa central da sala de estar.

Harry acenou para as informações que Amos dera e o café da manhã passou silenciosamente. Harry decidiu perguntar primeiro aos vampiros se era parte da herança acalmar sua perda. Amos e Yara sabiam que Harry estava escondendo algo, mas decidiram deixá-lo contar quando sentisse preparado.

Como uma rotina, Amos se despediu de ambos antes de ir para o escritório, Harry se despediu de Yara deixando Celine em seus cuidados e saiu das enfermarias para aparatar mais próximo a cidade antes de ir caminhando para o castelo. Ele passou apenas dando uma saudação à Chelsea e seguiu o caminho tão conhecido até a biblioteca para primeiro falar com Jane e Alec antes de ir para os seus livros.

Tão absorto na leitura, Harry não percebera uma nova presença na sala. Quando o ser se sentou calmamente à sua frente, Harry saltou da cadeira com o susto.

— Pelas barbas de Merlin! Você não poderia ter anunciado sua presença como qualquer outro ser normal? — Sua mão pressionada em seu peito arfando.

— Pensei que já tivesse trabalhado em seus sentidos... — Marcus ergueu uma sobrancelha para a vergonha clara no rosto do bruxo.

— Eu queria relaxar antes de iniciar isso. Eu não gosto muito de luta e os treinamentos me fazem sentir como um soldado prestes a entrar em campo de batalha. Lutei no passado, mas apenas porque era a única opção senão a morte...

— Agora estou impressionado. Por que você esteve nessa situação?

— Um lorde das trevas muito estúpido decidiu que eu, um mero bebê iria destruir seu futuro reinado. — Ele respondeu secamente. — Então sempre que nos encontrávamos, ele tentava me matar.

— Devo dizer que você atiçou minha curiosidade. Importa-se se me contar essa história?

Já com o livro totalmente esquecido, Harry contou a história de sua vida. Sem perceber, essa fora a primeira vez em que ele se abriu e contou tudo para um estranho. Por mais que tenha se passado meses desde que ele frequentava o castelo, ele nunca parou e conversou com Marcus.

O dia foi passado com Harry contando sua história e Marcus fazendo algumas perguntas. No final, Harry se sentia leve com todo o peso colocado para fora em palavras. Era disso que ele precisava. Um ouvinte e alguém que não sentiria pena.

— Essa é uma história e tanto. Parece que os problemas te seguem. — Marcus sorriu.

— Oh, você não faz ideia. Eu realmente tento explicar isso para os meus amigos. — Ele bufou divertido com o comentário.

— Algum problema tem te seguido até Volterra?

— Assumo que ainda não. Mas só para você saber, não sou apenas um imã para problemas, coisas impossíveis parecem gostar de mim também. Então espero pelo último, acredito ser mais fácil de lidar.

— Se algo surgir, conte-me, por favor.

— Claro, não tirarei essa diversão de você. Oh, vampiro tão antigo quanto um fóssil que me vê apenas como uma prima distração nesse castelo tão enorme cheio de outros vampiros antigos.

Marcus riu do drama do jovem. Há tanto tempo que ele não fica tão despreocupado assim...

— Bem, jovem que mal saiu das fraldas, o que posso fazer? Você me diverte. — Ele entrou no teatro.

— Mas que audácia! Eu já tenho 17 anos, quase 18! — Marcus não pode evitar o pensamento de que a cara de indignação e o beicinho eram fofos no rosto do bruxo.

— Certo, adulto, o que você queira.

— Humph!

Um silêncio confortável surgiu entre eles. Marcus apreciava a paz que instalou em seu peito.

— O que você estava lendo antes de minha chegada?

— Companheiros. Não sei se estou pronto para iniciar um relacionamento com alguém, mas esse fato não me apavora tanto como quando eu cheguei. É até interessante. Quando descobri ser um submisso fiquei com medo. Mas descobri que na comunidade vampírica, os submissos são bem cuidados e eles não estão nem abaixo e nem acima, então do lado dos dominantes.

— Nós acreditamos na igualdade. Há muitas espécies que colocam os machos alfas no topo.
Os vampiros veem todos, jovens, idosos, homens, mulheres, dominantes, submisso e qualquer outro como iguais. O que nos interessa é o poder. Por isso que Aro, Caius e eu somos os atuais reis dos vampiros e o maior clã.

— Vocês são tão poderosos assim?

— Sim. Nós tentamos manter nossa espécie na linha. É claro que quando um rebelde faz bagunça e não deseja seguir as regras, é morto. Mas não queremos nos arriscar ainda mais. Por sermos uma criatura e bebermos sangue para a nossa sobrevivência, somos temidos.

— E tudo aquilo que é temido ou não pode ser explicado, é do mal.

— Correto. Sei que você disse que não gosta de mortes. Mas pense, você é pai e sua filha é ameaçada por humanos que descobriram através de um bruxo rebelde que decidiu fazer magia em público no mundo trouxa, o que você faria? Mataria o bruxo e apagaria a mente dos trouxas ou apenas prenderia o bruxo e obliviaria a mente de todos os presentes, sabendo que corre o risco desse bruxo fugir e fazer a mesma coisa?

— Você me pegou. A segurança da minha filha vem em primeiro lugar.

— É disso que estou falando. Quando você se juntar definitivamente a um clã, os verá como família. Caso um deles sejam ameaçados, seus instintos farão com que você elimine qualquer tipo de ameaça.

— Entendo... posso compreender tudo isso, mas ainda não tenho estômago para mais mortes.

— Você disse que acabou de sair de uma guerra. Isso explica, mas logo isso passará. Ainda poderá sentir algo familiar a esses sentimentos, mas não será tão contra.

— Ainda não sei o que sentir com toda essa informação, mas voltando ao tópico da minha leitura, como saberei que encontrei meu companheiro?

— Depois que um submisso tem todos os dons treinados, ele sentirá seu vampiro dando as boas-vindas ao seu companheiro quando ele diz as antigas palavras de amor de um dominante para com seu submisso.

— E como um dominante descobre?

— Se um vampiro dominante estiver livre de qualquer amarra e se não estiver perdido dentro de si, ocorrerá na primeira troca de olhar.

— Caso não seja uma invasão a sua privacidade, você pode me dizer se já sentiu isso?

— Não... — Os olhos de Marcus se desfocaram e ele pensou sobre Didyme. Ele nunca sentira algo assim com ela. Todos sempre afirmavam que era exatamente assim que acontecia quando encontravam seu predestinado.

— Você está bem? — Harry perguntou preocupado. O longo silêncio o assustou.

— Sim, sim. Estou. Apenas um pouco perdido em algumas memórias.

— Desculpe pela intromissão. Eu realmente devo pensar duas vezes antes de fazer qualquer coisa.

— Você não sabia. Fique calmo. Gosto da sua curiosidade, sua pergunta apenas me fez repensar sobre algumas coisas.

— Se você diz...

— Bom. Eu agradeço a tarde. É bom fazer algo diferente. Eu não me sentia tão vivo e com energia há anos. Você é bom para esse clã. Tudo tem andado mais alegre desde a sua chegada.

— Fico feliz por isso. Eu vejo esse castelo como uma segunda casa. Eu amo a companhia de Jane, Alec, Dimitri e alguns outros guardas. Foi bom conversar com alguém sobre meu passado, me sinto mais leve. — Harry deu um sorriso radiante para o vampiro e pegou novamente o livro que estava lendo antes da interrupção. Faltava apenas algumas páginas para o fim e ele queria terminar antes de ir para sua filha.

— Espero que essas tardes possam se repetir. Até a próxima, jovem.

— Até, Marcus.

Marcus saiu da sala assim que ouviu a despedida do bruxo.

Ele estava confuso.

Didyme não era sua companheira?

Por que ele se sentia tão bem na presença do bruxo?

Se o bruxo via o castelo como sua casa, então por que ele não encontrara seu companheiro? Ele tinha certeza de que o jovem já havia interagido com todos os residentes do castelo.

Decidindo fazer essas perguntas para Aro e Caius, ele mudou sua rota.

Por um breve segundo ele lembrou de que devia desculpas aos dois vampiros.

Eles eram tão próximos e ele deixou a morte de Didyme afastá-lo de tudo.

Os dois vampiros sempre estiveram lá para ele, não era justo ignorá-los.

Depois de seu reencontro com seu vampiro interior, ele tem sido mais feliz e mais atento a tudo ao seu redor.

Ele limparia sua mente depois da conversa com Caius e Aro na intenção de se reconectar com todos os seus dons.