- Aro? Caius? — Chamou Sulpicia ao entrar nos quartos de Aro.

Ela e Athenodora acharam estranho quando os reis não apareceram na sala do trono. O castelo estava silencioso. Nem mesmo Jane e Alec apareceram. Athenodora comentou sobre esse fato estranho. Eles a consideravam como tias e sempre procuravam ela logo depois de passarem um tempo com os pais.

As duas vampiras sabiam tudo o que acontecia. Elas apenas agiam como esposas deles até que eles concluíssem o vínculo.

Quando as mulheres entraram na sala, viram os dois reis sentados um do lado do outro no sofá com os olhares perdidos.

Bem, mais uma coisa estranha na lista de hoje.

Sulpicia chegou mais perto de Aro enquanto Athenodora se aproximava de Caius.

— Caius? O que aconteceu? — Athenodora perguntou calmamente enquanto segurava as mãos de Caius.

— Athen, querida. Eu acredito que erramos com alguém muito importante.

— Está falando de Marcus? O que vocês fizeram?

— Não falo de Marcus. Ele deve estar bem. Falo de Harry.

— O aprendiz? — Athenodora perguntou com o cenho franzido.

— Ele não é um mero aprendiz, Athen. Ele era a parte que faltava, nosso outro companheiro.

— Finalmente o companheiro submisso! — As duas mulheres exclamaram extasiadas com a notícia. Aro conseguiu sair de seu transe com a alegria.

— Espere... Caius, você disse que erraram. — Sulpicia encarou o loiro e depois o moreno. — Aro, o que vocês fizeram?

Trocando um breve olhar, Aro e Caius alternaram enquanto contavam tudo o que havia acontecido. As expressões das duas vampiras iam de horrorizadas à pura fúria.

— Como vocês ousam. Era o seu companheiro. Vocês receberam um breve histórico da vida dele e é assim que vocês tratam as coisas? Ele era um bruxo e fora criado por trouxas. Ninguém sabe o que ele passou nas mãos deles porque ele nunca se abriu. Vocês sabem bem como os humanos agem quando estão perto daquilo que não há como provar cientificamente.

— Nós reconhecemos nosso erro. Queremos falar com ele, mas o problema é que ele disse que não quer nos ver. Não quero piorar a situação.

— Bom ponto, Aro. Mas vocês podem simplesmente pedir para Marcus tentar entrar em contato com ele.

— Ele ainda não sabe, Sulpicia.

— Então acredito que seja hora dele saber. São séculos com a verdade escondida. Já passou da hora de tudo ser revelado. Eu não permitirei que vocês acabem com isso.

Aro e Caius entenderam o que ela quis dizer por trás disso. Ela e Athenodora não haviam encontrado seus companheiros. Elas sentiam mais falta do que eles. Afinal, mesmo não tendo o quarteto completo, os dois tinham um ao outro e tinham os filhos por perto.

— Entendemos e iremos falar com ele. Vocês podem pedir para Chelsea cancelar as reuniões de hoje? — Aro perguntou.

— Nós vamos. Mas antes, quero uma palavra de que vocês vão agora mesmo falar com Marcus.

— Damos nossa palavra, fique tranquila, querida. — Caius respondeu à Athenodora.

— Tudo bem. Estamos indo. Espero que não piorem as coisas.

E com a última fala sendo de Sulpicia, elas saíram da sala ao encontro de Chelsea.

Aro e Caius tentaram relaxar enquanto se preparavam para a conversa seguinte. Eles só podiam esperar que Marcus tivesse seguido seus conselhos em tentar limpar o vampiro de qualquer vestígio que o prendia e o deixava cego.

Caminhando lentamente para os aposentos do outro vampiro, os amantes ficaram em silêncio, deixando cada um com seu próprio pensamento.

Eles chegaram mais rápido do que desejavam e depois de um tempo de hesitação, Aro bateu na porta levemente, mesmo que não precisassem. Mas eles estavam tão nervosos que ficavam completamente perdidos no que fazer.

— Sim? — Marcus abriu a porta e viu Aro e Caius. Quando seu olhar caiu nos olhos do moreno e depois nos do loiro, ele ofegou. — Não. Não. Não. Não pode ser... — Ele definitivamente entrou na fase da negação. Não era isso que eles queriam ao chegar aqui.

Precisou de um punhado de tempo para acalmar o vampiro e explicar o motivo de tudo aquilo ter acontecido (envolvimento de Didyme) e depois explicar o motivo deles precisarem de ajuda.

No final, Marcus estava lívido. Bastou uma conversa com o jovem aprendiz para ele ficar fascinado. Harry tinha um cheiro leve e sua risada podia acalmar até a mais turbulenta das almas.

— Então vocês cometeram um erro e esperam que eu conserte a sujeira de vocês? — Ele arqueou uma sobrancelha interrogativamente.

— Eu não teria colocado dessa forma. Mas sim. — Caius respondeu.

— Vocês sabem que não posso forçá-lo a falar com vocês, certo? E outra, nós nem sabemos se ele permitirá que eu me aproxime. No momento, a magia dele está agindo por instinto e protegerá aqueles que ele considera família, isso não envolve no momento, contra aqueles que ele vê como ameaça, e isso definitivamente envolve vocês dois e até pode ser que me envolva.

— Nós sabemos. Pedimos apenas que você diga que sabemos que erramos e que queremos uma conversa para explicar nosso ponto de vista.

— Tudo bem, Caius. Isso eu posso fazer. Agora, se me dão licença, preciso escrever uma carta.

— Erm... Você não vai dizer nada sobre sermos companheiros? — Aro perguntou com uma voz aflita.

— Ser companheiro de vocês dois não me repugna ou me enoja, se é isso que os preocupa por conta do meu silêncio. Mas preciso de um tempo para pensar. Toda a minha vida foi uma mentira. Não posso esquecer isso do dia para a noite. Meu vampiro está machucado e confuso. Nós queremos primeiro apreciar a recém liberdade.

— Faça o que for melhor para você. Nós iremos voltar. Tentaremos descansar nossa mente.

— Bom plano. Agradeço por jogar tudo em cima de mim de uma vez. — Ele falou sarcástico. — Mas vocês precisam ir e eu também.

Vendo a deixa, Caius e Aro saíram, deixando Marcus sozinho com seus pensamentos. Ele logo pegou um papel de carta e uma caneta.

Ele preferia deixar pergaminho e pena para assuntos reais. Um papel e uma caneta trouxa eram mais fáceis de se usar e eles tinham em abundância no castelo.

Pensando bem nas palavras, ele começou.

"Caro Harry.

Eu soube recentemente dos eventos ocorridos nessa manhã. Não o culpo por sair daqui, no seu lugar, eu teria feito o mesmo.

Minha mente está uma confusão, então peço perdão desde já.

Descobri, também recentemente, que sou o companheiro de dois vampiros e um bruxo. Isso não me assustou. Mas me apavorou. Eu não esperava por isso.

Sei que você não deseja ver ninguém nesse momento, e eu entendo isso e respeito. Mas gostaria de conversar com você e explicar a história da minha vida. Você me fez uma pergunta ontem e quero que você saiba mais do que a simples resposta que eu lhe dei.

Podemos apenas trocar cartas ou podemos marcar um local para nos encontrarmos.

Ainda estou resolvendo isso tudo sobre companheiros, então não sei se estou pronto para ver Alec e Jane. Sei que eles esperam que tudo se resolva, mas isso não acontecerá numa virada de hora. Espero que entendam.

Com meus mais sinceros cumprimentos,
Marcus Volturi."

Com a carta terminada, ele decidiu ir até os Diggory para que eles pudessem entregar a correspondência. Seria muito mais rápido do que usar qualquer outro meio.

Carta em mãos e sentimentos conflituosos, ele partiu para a colina onde residia a casa dos Diggory.

Ele sinceramente esperava que Harry tivesse deixado ele de fora na hora que ele tentou explicar o motivo da saída dele.

Harry sabia que estava com os nervos à flor da pele, mas jamais admitiria isso em voz alta.

Se passaram dias desde a carta de Marcus. Por dias ele se definhou na dúvida se dava uma chance para o vampiro ou não.

Ele havia concordado em ser treinado por causa da promessa de uma família, mas depois de seu desentendimento com dois dos reis, ele ficou na defensiva.

O jovem sabia que mesmo que seus dois filhotes, Jane e Alec, tenham escolhido ir com ele, seus dois filhos mais velhos sentiam falta dos pais.

Harry deixou esses dias para decidir seu próximo passo e para conhecer melhor seus dois filhos vampiros.

Jane era uma força da natureza. Mas dentro dela ainda havia aquele criança que nunca recebeu o carinho de uma mãe. Ela era inteligente e uma boa manipuladora quando se tratava de conseguir algo para si.

Alec mostrava ser imbatível — era mais por conta de sua irmã —, mas ele era um jovem que queria sua família completa cheia de amor e carinho para transbordar.

Os dois vampiros rapidamente se deram bem com Celine. Sua filhotinha gostava quando Jane brincava de avião e, mais ainda, quando Alec fazia caretas.

Ele sentia aquele calor bom quando via seus três filhos juntos. Celine pode não ser uma vampira, mas ela amava os pirulitos de sangue que Jane dividia. Alec podia sempre ser visto brigando com Celine quando um dos dois pegava os últimos doces de sangue. Era uma comédia ver um vampiro velho brigando com uma criança de apenas 2 anos.

Remus passou a ver seus filhotes como seus próprios netos. Dora estava chegando perto do prazo, então o medibruxo a colocou de cama até o nascimento. Ainda tinha aquela tensão sobre o próximo Lupin. Remus não queria que seu filho herdasse os genes de lobo, já Dora achava que não havia problema, caso acontecesse.

Jane e Alec queriam conversar com Lupin sobre ser um lobisomem, mas eles ainda ficavam receosos em mostrar sua opinião. Eles conversaram com Harry e o menino disse que Remus era sedento por conhecimento, então ele não levaria a mal, caso eles tivessem provas para afirmar o que eles diriam.

O jovem bruxo havia acabado de colocar Celine no berço e estava dando voltas no átrio de sua nova casa. No dia seguinte a sua chegada, ele foi até gringotts para falar sobre suas propriedades e escolheu uma para ser limpa e estar pronta para a sua chegada. Uma semana depois ele estava se mudando com seus filhos. O flú estava aberto apenas para A'Toca, o Chalé das Conchas e A Cabana Lupin.

Os Weasley logo vieram para conversar e conhecer o lugar. Jane e Alec já haviam se tornado cúmplices dos gêmeos. É claro que ele nunca foi alvo de brincadeiras. Os gêmeos sabiam que Harry sempre escolhia a vingança mais dolorosa e Alec ainda tinha a memória fresca sobre a ameaça do pai em colocá-lo nos joelhos. Jane ria do medo do irmão, mas ela não queria testar a legitimidade de suas palavras.

Ron e Hermione estavam prestes a fazer os NIEM's e, de acordo com o que Ron confessou para o melhor amigo, ele estava esperando o anel chegar pelo correio coruja para pedir Hermione em casamento. Harry estava feliz e emocionado, seu amigo estava crescendo e se tornando um ótimo homem.

Bill e Fleur estavam felizes com seus empregos por enquanto. Fleur ganhou uma promoção no trabalho e, para a tristeza de Molly, ela e Bill não desejam um filho tão cedo.

Charlie ainda era o mesmo, cada fim de semana, um amante diferente na cama. O que não mudava era seu amor pelos dragões. O homem amava trabalhar na reserva e não trocaria isso por nada, bem, era o que ele dizia. O dragoeiro não se juntou à família, mas ele fez uma rápida chamada de flú.

Percy conseguiu um bom emprego no ministério. O atual ministro, Lucius Malfoy, leu sobre o trabalho dele e deu uma boa palavra para o menino. Ele tem seu próprio lugar, que divide com a namorada Audrey. Ambos tinham os mesmo pensamentos de Bill e Fleur, então era mais um casal que não cumpria os desejos de Molly tão cedo.

Ginny tinha terminado com Dean, ela havia lhe dito que homens nunca mudam, então focaria em seu sonho de ser jogadora profissional de quadribol, portanto, filhos não estavam em sua lista de desejos. Desde mais nova ela já havia dito aos pais que não tinha o desejo de ser mãe. Molly havia dito que com o tempo mudaria. Bem, até hoje não mudou. A menina começou a trocar cartas com Harry e estava feliz

Neville e Luna vieram visitar apenas uma vez. Como suas famílias seguiam os antigos costumes, Neville estava cortejando sua pretendida, Hannah, e Luna estava esperando chegar na idade para ser cortejada por Rolf, o herdeiro Scamander, com quem o pai assinou um contrato de casamento.

A família estava feliz e Harry era contagiado por esse sentimento.

Voltando para a Inglaterra, Harry viu o bom trabalho que Lucius estava fazendo no ministério. Muitas leis que antes tratavam criaturas como escravas foram abolidas e todas as criaturas têm os mesmo direitos que bruxos. Agora, todos seriam julgados pelos crimes cometidos e não por serem apenas quem são. Marcus, o herdeiro Flint, começou uma escola primária para todas as crianças que possuíssem magia. O conselho dos governantes trouxera mais aulas para Hogwarts, incluindo magia das trevas e magia de sangue. Afinal, foi descoberto em antigos grimórios que muitas formas de cura estavam nessas áreas da magia.

No pouco tempo que ele passou na Itália, a Inglaterra já havia pulado anos no quesito de desenvolvimento. Arthur Weasley era o responsável por procurar uma forma de trazer algumas coisas do mundo trouxa para funcionar no mundo mágico. Dizer que ele estava feliz com o novo trabalho seria um eufemismo. O patriarca Weasley era apaixonado por bugigangas trouxas.

Harry deu um pulo de susto quando ouviu uma chave de portal do lado de fora de sua casa. Ele abriu as portas cuidadosamente e viu Marcus Volturi caminhando em sua direção.

— Olá. — O bruxo falou sem jeito.

— Olá, pequeno. Está pronto? — Marcus perguntou depois que pegou as mãos de Harry e deu um leve selar nos nós dos dedos.

— Sim. Aonde estamos indo?

— Agora, meu jovem, isso é uma surpresa. — Marcus estava apostando em seu charme para atrair seu jovem companheiro.

Harry enrubesceu quando ouviu o "meu" da frase num tom possessivo. Era claro que ele não gostava de se sentir uma propriedade, mas vindo de Marcus e sabendo que não era isso que ele quis dizer, ele ficou feliz.

— Eu pedi por uma chave de portal para o nosso destino, espero que esteja tudo bem em você nos trazer de volta.

— Não há problemas.

Com um aceno, Marcus segurou firme as mãos do bruxo e esperou segundos para ela ser ativada.

Novamente, Harry perdeu o equilíbrio e não encontrou o chão dessa vez apenas por conta dos braços de Marcus.

— Gracioso. — Marcus bufou com o canto nos lábios se erguendo num mini sorriso.

— Oh, cale-se, vampirão. Agora, onde nós estamos?

— Nós estamos em um distrito bruxo que apenas as pessoas de alta classe conhecem. — Marcus estava orgulhoso.

— E como você ficou sabendo disso se não é um bruxo de alta classe? — Harry arqueou uma sobrancelha.

— Bem... talvez eu tenha tido uma ajuda dos Diggory...

— Não sei por que estou impressionado. Amos sempre tenta me convencer a frequentar esses lugares...

— Você não gosta? — A preocupação era clara.

— Marcus, eu sou louco para experimentar esses restaurantes, mas por ser um senhor e um lorde, esperam muito de mim. Não quero ter que suprir as expectativas desses bruxos.

— Entendo. Então acredito que você ficará bem por eu ter escolhido uma mesa no térreo. Será apenas eu e você.

— Você me deixará mal-acostumado...

— Tudo do melhor para o meu companheiro. — Marcus sorriu galanteador.

— Oh, por Morgana. Receio não conseguir durar a noite toda.

— Espero que esteja falando de um jeito bom.

— Você não sabe falar sem usar uma segunda intenção? — O jovem o encarou.

— Eu sou um vampiro, esperava o que? Tenho uma alta resistência e gosto de mostrar meus truques.

— Certo, não durarei essa noite. — O bruxo murmurou.

— Não se preocupe, meu pequeno, ficarei na Inglaterra pela próxima semana, teremos tempo de sobra para nós dois.

Harry definitivamente não estava animado para os próximos dias com Marcus. Ele acredita que antes de Marcus ir embora, esse vampiro tirará mais dele do que qualquer outra pessoa já conseguiu, e ele não sabia dizer se era bom ou ruim.

— Esse lugar é maravilhoso... — Harry disse olhando as estrelas.

Eles jantaram com uma conversa leve. Uma coisa aqui, outra ali. No momento, eles estavam esperando a sobremesa. Harry, previsível como sempre, escolheu a torta de melaço.

Graças às mudanças que Lucius Malfoy estava fazendo no ministério, Marcus pôde escolher uma variedade de alimentos próprios para vampiros. Harry podia até não admitir abertamente, mas o lorde Malfoy era bom no que fazia.

Harry estava um pouco preocupado. Era a primeira vez de Jane e Alec sozinhos com Celine. Até agora, ele não recebera nenhum tipo de mensagem desesperada, então ele supunha estar tudo bem.

— Fico feliz que tenha gostado. — Marcus sorriu para ele enquanto o garçom servia as sobremesas.

Assim que o garçom partiu, eles começaram a desfrutar de sua última refeição antes de partirem. As conversas leves se mantiveram até saírem do local.

— Está tudo bem se dermos mais um passeio?

— Claro. Posso perguntar ou essa será outra surpresa?

— Nós, meu pequeno companheiro, estamos indo à um museu que abriu semana passada. Eu percebi que você ficava fascinado quando lia os livros da nossa biblioteca, então pensei que gostaria.

Os olhos de Harry brilharam de emoção mal contida. Apenas com uma conversa Marcus foi capaz de descobrir seus gostos, algo que ninguém mais fez, mesmo o conhecendo há anos.

Ele queria tanto visitar um museu, ouvir as histórias e estudar as antiguidades...

Antes de dizer alguma coisa, o bruxo percebeu que já estava na porta de entrada com Marcus entregando as entradas para o segurança. Assim que a passagem foi permitida, ele andou um pouco mais rápido já querendo ver tudo de uma vez.

Marcus vendo a expressão de Harry e lendo suas atitudes facilmente, se elogiou internamente. Ele acertou precisamente.

— Você gostou?

— Eu amei, Marcus. Obrigado por isso, por me trazer essa experiência incrível. — Seus olhos estavam transbordando lágrimas de felicidade e agradecimento.

— Tudo por você. — O vampiro beijos os cabelos rebeldes de seu companheiro e passou um braço ao redor da cintura do mais baixo.

Eles seguiram a guia, enquanto ela lhes contava as histórias por cada passagem.

Harry ouvia tudo fascinado e Marcus só podia admirar a felicidade que seu jovem companheiro emanava.

Depois de passar por cada cômodo, a guia os levou para a entrada antes de pegar um grupo de pessoas que haviam entrado.

— Vamos, meu jovem?

— Já acabou? Mas foi tão rápido...

— Isso é porque você estava muito entretido para ver a hora passar.

— Bem. V ver se consigo fazer pedidos via coruja dos livros que ela mencionou... — A última parte foi resmungada para si mesmo, mas Marcus ouviu claramente. Ele rapidamente pensou em comprar os livros, mas sabia que Harry veria isso de forma errada. Então ele iria com calma.

Os dois saíram do local e puderam ver a rua com uma pequena porção de pessoas, provavelmente pelo horário tão tardio. De mãos dadas, eles caminharam quase que sem destino, apenas aproveitando o tempo sozinhos.

Harry estava feliz por ter dado uma chance ao vampiro. Ele não se sentia tão tranquilo assim desde...

Marcus percebeu o olhar de dor no rosto do jovem e se preocupou.

— Harry, o que aconteceu? Está tudo bem?

— Sim, sim. Tudo bem. Apenas... me lembrei de algumas coisas... — Harry deu um sorriso aguado na direção de Marcus e logo voltou a olhar para frente.

O vampiro sabia que tinha algo. Vendo o bruxo tremer levemente, ele não sabia se era por causa do frio ou pela lembrança.

Achando um café 24 horas logo na esquina seguinte, ele caminhou com o jovem até o local e abriu as portas, deixando que o bruxo entrasse primeiro.

Harry soltou um suspiro deliciado quando o ar quente tomou conta de si. Olhando ao redor, ele viu o lugar aconchegante que entraram e escolheu uma mesa perto da janela, mas ainda escondida, para poder observar a rua com os poucos seres que ainda caminhavam por lá.

Uma garçonete chegou para atendê-los e Harry pediu um chá de frutas vermelhas, enquanto Marcus escolhia um cappuccino com sangue.

Eles ficaram em silêncio até a mulher chegar com seus pedidos.

— Eu... tenho uma pergunta que ronda minha mente. — Marcus falou mansamente, mas Harry ainda ficou rígido. — Eu não vou exigir respostas, mas gostaria que fôssemos abertos, já que decidimos nos conhecer melhor. — Ele viu Harry relaxar forçadamente contra o banco estofado do outro lado da mesa.

— Não estou pronto para contar tudo. Você ficaria satisfeito com o pouco que posso lhe contar?

— Meu pequeno, até se você não pudesse me dar nada eu ficaria satisfeito. Só de te ter ao meu lado sou feliz. — Marcus esticou seu braço e passou as costas de seus dedos longos na bochecha do bruxo. O vampiro o viu suspirar e percebeu que estava se preparando para iniciar a história.

— Eu passei por muita coisa nessa vida. Coisas horríveis, dolorosas, amargas... Conheci o pior lado da vida. — O jovem começou com um nó na garganta. — Um maligno bruxo das trevas queria reinar em nosso mundo e então começou toda a carnificina. Por conta de uma profecia, ele tentou me matar, no processo, não só eu fiquei vivo, mas meus pais morreram tentando me proteger. — Ele não pôde conter a lágrima rebelde que desceu.

Harry passou calmamente por alguns eventos, deixando de lado os detalhes de morar com os parentes trouxas e alguns eventos na escola. Ele chegou a falar que descobriu que o tal bruxo maligno era sua última família e ele decidiu ajudá-lo, mas também não contou os detalhes de como fizera isso.

— Marcus, eu quero uma família. Quero a promessa de felicidade, amor, carinho... É o que o meu coração mais deseja. Mas eu sou um bruxo quebrado pelos horrores que tive de suportar em toda a minha vida. — Seu rosto estava vermelho por tanto chorar e as lágrimas já eram como cachoeiras em seu rosto.

Marcus se sentia angustiado. Ele sabia que Harry claramente ocultou algumas partes de sua vida, mas o pouco que ele falou já fez com que ele quisesse chorar junto com seu jovem companheiro.

Harry não estava quebrado, ele apenas precisava de ajuda para se achar no caos que era sua vida, e ele queria ser a mão ajuda e o ombro amigo.

Eles podiam ser companheiros, mas ele sabia que Harry não estava pronto, e ele confessa que nem mesmo ele estava pronto para algo mais. Então, no momento, ele podia apenas confortar Harry como um amigo confidente faria.

Marcus se levantou e deu a volta na mesa. Assim que ele passou um dos braços ao redor do Bruxo, ele sentiu Harry soltar todas as suas lágrimas e toda a dor e desespero em suas vestes. A roupa ele pode lavar depois, o que importa, era seu companheiro.

— Meu pequeno, você não está quebrado. Você apenas está perdido em sua bagunça. — Ele beijou castamente a têmpora do jovem. — Saiba que estou aqui para te guiar, pois não posso reconstruir você, isso está em suas mãos. Posso oferecer conforto e uma xícara quente de chá de frutas com um pedaço de torta de melaço.

— Obrigado. Isso é importante para mim e já me acalma de uma forma que você não imagina.

Marcus apenas apertou mais o bruxo em seus braços e esperou que o outro se recompusesse.

Tão focado em seus próprios pensamentos enquanto seu olhar percorria a rua, ele quase perde a respiração calma do bruxo.

Ele chamou a garçonete, pagou pelas bebidas e envolveu sua capa ao redor do bruxo enquanto o segurava em seus braços.

A sua chave de portal o levava direto para onde estava ficando esses dias na Inglaterra, por isso ele esperava que Harry os levasse de volta. Era tarde para enviar uma coruja e ele não tinha acesso ao flú.

Tomando uma decisão, ele pegou a chave e ativou. Chegando na casa, ele abriu a porta e rumou para o quarto mais aconchegante e quente. Não sabendo como Harry reagiria quando acordasse, ele apenas tirou a capa do menino e esticou os edredons sob o corpo pequeno, mas esguio.

— Você não está sozinho, meu pequeno. — E com a pequena despedida, ele beijou a testa do bruxo e saiu do quarto.

Indo para a sala, ele pensou sobre o que faria no dia seguinte com essas informações. Mas antes de qualquer coisa, ele enviaria uma coruja para Jane e Alec avisando que Harry havia dormido estava em um quarto separado e que assim que o bruxo acordasse, ele voltaria.

A claridade que entrava pela janela do quarto despertou Harry de seu sono confortável. Ele se levantou e olhou ao redor. Não reconhecendo o local, seu coração deu um pulo de desespero.

— Por Circe... Onde eu estou?

Forçando suas memórias da noite passada, ele passou por cada uma até conseguir relaxar novamente. Ele dormiu nos braços de Marcus e depois deu uma leve despertada quando o vampiro lhe deu um beijo, mas logo voltou a dormir.

Não tendo certeza do que fazer, ele se levantou da cama silenciosamente e apenas esticou os edredons antes de caminhar pela ponta do pé para pegar sua capa e tentar sair de casa. Ele sabia que o vampiro não dormia, mas ele não sabia se Marcus estava aqui sozinho ou se até mesmo o vampiro estava em alguma parte da casa o esperando acordar.

Ele caminhou pelos corredores e pelos cômodos até se encontrar no que parecia ser a sala de estar. Olhando ao redor, ele viu que estava vazia.

— Bem, parece que ele não está aqui.

— Quem não está aqui, pequenino?

— Droga! Não faça isso novamente, Marcus! Já disse que não gosto. — Harry exclamou com a mão sobre as rápidas batidas do coração e com a respiração ofegante.

— Isso significa que você ainda precisa testar suas habilidades. — Marcus o observou intensamente. — Montarei uma grade de programação. Diga-me os horários que você está extremamente ocupado e eu os deixarei de fora.

— O que? — O cérebro do bruxo ainda estava processando as informações. — Cara, eu acabei de acordar. Estou morrendo de fome e preciso ver meus filhos. Você não pode esperar?

— Como queira. Mas ainda hoje peço que envie seus horários. Não estarei aqui por muito tempo e quero que você esteja pelo menos na metade do caminho quando eu for embora.

— Tudo bem. Agora, posso ir embora?

— Você está acordado o suficiente para isso? — Perguntou preocupado.

— Não se preocupe. Se estou bem para formar frases, posso aparatar tranquilamente. — Harry deu um meio sorriso com a preocupação clara no tom e no rosto do vampiro.

— Se você diz... — Ele não estava completamente convencido. Mas o que ele poderia fazer?

— Bem, então até a próxima. Enviarei uma coruja até essa noite. — E sem esperar Marcus dizer mais alguma coisa, ele aparatou, aproveitando que a propriedade não tinha alas que impediam os tipos de transportes mágicos.

Chegando em casa, ele procurou pelos seus filhos e viu seus dois mais velhos tentando alimentar Celine.

— Minha princesinha está aprontando com os irmãos, é?!

A criança sorriu batendo palmas quando viu o "papa" na entrada da cozinha. Harry a pegou no colo e deu um beijo em suas bochechas sujas de papinha doce.

— Como vocês estão, meus pequenos? — Harry perguntou enquanto abraçava seus filhos vampiros.

— Estamos bem. Nosso único problema foi para alimentá-la essa manhã. — Alec comentou enquanto limpava a bagunça que Celine havia feito.

— Que bom que está tudo bem. Chegou alguma carta para mim?

— Uma coruja chegou mais cedo. Mas ela não permitiu que tentássemos pegar a carta. Acho que apenas você pode. — Jane o informou.

— Obrigada, querida.

Harry caminhou até a janela do corredor que sempre se enchia de corujas e procurou pela que tinha uma carta para ele.

O jovem a abriu assim que reconheceu a caligrafia. Lendo-a, ele sorriu e a dobrou antes de colocar no bolso.

— Posso perguntar do que se trata, pai? — Alec, o curioso, perguntou quando tentou ler por cima dos ombros do bruxo e não conseguiu.

— Alguém está vindo fazer uma surpresa. E chegará essa noite para a janta. Então, me ajudem no cardápio, faz tempo que não nos vemos.

— Tudo bem, mas quem é a pessoa? — Jane perguntou com um arquear de sobrancelha.

— Vocês o conhecerão esta noite, então paciência.

Harry sorriu dos filhos curiosos e seguiu o caminho para os quartos de Celine e limpá-la. Já começando uma programação para o dia na sua cabeça, ele começou sua rotina automaticamente.

O dia se passou calmamente e quando Celine tirou seu cochilo da tarde, Harry mandou a carta que prometera para Marcus. Com os assuntos da sua senhoria, seus estudos para os NIEM's e o tempo que queria passar com os filhos, quase não lhe restava uma folga. Em um anexo, ele disse a Marcus que os estudos só poderiam começar na semana seguinte, já que ele faria seus testes nesse final de semana.

Ele estava nervoso, mas também estava confiante. Harry estudou dias e noites desde que estivera em gringotts pela primeira vez com seus melhores amigos.

Quando a carta foi enviada, ele pediu ajuda de Alec e Jane na cozinha. Mesmo não sabendo muito, os irmãos ajudaram a preparar a janta. Quando Celine acordou, Jane decidiu ficar com ela enquanto Alec permanecia na cozinha.

Alec tinha um interesse em saber cozinhar, mas sendo um vampiro, ele precisou deixar de lado. Agora, que ele estava aprendendo a cozinhar alimentos com sangue, ele estava completamente feliz. Harry ficou contente em saber que um seus filhos dividia essa paixão consigo.

Jane era a própria negação na cozinha. Ela preferia ficar com uma criança chorando a preparar comida.

Quando tudo estava pronto, Harry pediu que seus filhos se arrumassem enquanto ele arrumava Celine e ele próprio.

Assim os quatro chegaram na sala, a lareira emitiu um som avisando que alguém passaria, dando a permissão, Charlie saiu em toda a sua glória.

O dragoeiro tinha um corpo parecido com o de Harry, mas ele era um pouco mais alto e tinha mais músculos nos braços. Seus cabelos ruivos e picotado nas pontas passam um pouco do ombro. Sua pele, beijada pelo sol pelo tempo que trabalhou debaixo do sol na reserva. Um longo sorriso surgiu no rosto do homem quando ele avistou Harry.

— Harry, irmão do coração. — Ele abraçou Harry com força enquanto dava gargalhadas. — Quanto tempo que não nos vemos. Se não fosse pelas cartas, até pensaria que você havia se esquecido do Weasley mais bonito.

— Você e sua modéstia. — Harry riu das falas do homem. — Agora, dramático, se passaram tantas coisas na minha vida que acredito ser mais fácil escrever um livro e fazer uma cópia para todos que não me veem a um tempo. Ter que me repetir toda vez se torna exaustivo.

— Então... — Charlie disse optando por ignorar os comentários de Harry por enquanto. — Quem são esses dois lindos atrás de você? — O sorriso galanteador já no lugar.

— Nem pense, Weasley. Esses são meus filhos mais velhos. Um fio de cabelo fora da linha e eu posso testar alguns feitiços que aprendi na biblioteca Black. — Ele ameaçou.

— Calma, Harry. — Charlie levantou os braços se rendendo com o tom do amigo, mas logo sua mente captou as palavras do jovem. — SEUS FILHOS?

Se Harry não estivesse tão protetor com seus filhos no momento, ele poderia ter rido da careta cômica que Charlie ostentava.

— Sim, meus filhos. Posso explicar durante o jantar.

Com a menção de comida, o estômago do dragoeiro rugiu de fome, fazendo com que o homem Weasley sorriso sem jeito.

— Bem, foi uma longa viajem...

— Está mais para o buraco negro que parece vir em todos os Weasley...

Harry levitou as malas de Charlie para o lado da lareira e entregou Celine nos braços do cuidador de dragões antes de seguir para a cozinha, com todos os seguindo.

Durante todo o jantar, eles conversaram. Harry falando tudo o que tinha acontecido desde a última vez que se viram, Charlie contando sobre seu tempo na reserva, Jane e Alec adicionando alguns comentários e Celine contribuindo com suas semi-palavras.

Em um ponto do jantar, Harry percebeu que sua filha mais velha estava agindo estranha. Ele ergueu uma sobrancelha para Alec, mas parece que nem mesmo ele sabia. Decidindo não a pressionar, ele apenas continuou sua conversa com o amigo.

No final, todos estavam satisfeitos e quase dormindo.

Harry apresentou à Charlie o quarto que ele ficaria durante sua estadia e se despediu dele. Quando ele colocou Celine em seu berço, ele pediu para Alec ir para o quarto dizendo que ele levaria Jane mais tarde.

Assim que Alec saiu, Harry levantou as barreiras do quarto e se sentou Jane em sua cama enquanto a abraçava.

— Filhote, o que aconteceu para você ficar desse jeito? Foi algo que falei?

— Não, papai, é só... — Ela parou antes de terminar.

— Saiba que pode contar sempre comigo. Eu estou aqui. — Harry beijou os cabelos loiros e sedosos de sua filha e abraçou mais forte.

— Esse não é o momento... Posso apenas pensar mais um pouco? — Sua voz soava assustada e isso apenas contribuiu para o desespero do bruxo.

— Claro, leve o tempo que precisar.

Eles ficaram mais um tempo abraçados até que Harry a levou para o quarto que dividia com Alec, por escolha deles, pois o lugar tinha quartos o suficiente para toda a família Weasley e Lupin.

Quando chegaram no quarto, Harry aconchegou Jane em sua cama e depois se levantou.

— Vocês desejam dormir?

— Não, quero passar essa noite da biblioteca. — Alec respondeu.

— Eu quero descansar minha mente, pai.

— Como queiram.

Assim que Jane dormiu, ele beijou mais uma vez seus cabelos e depois deu um beijo na têmpora de Alec antes de se dirigir para o seu quarto e tentar ter uma noite de descanso com as preocupações com sua filha mais velha.

Ele só podia esperar até que ela lhe dissesse algo e desejava poder ajudar, seja qual for o problema.