CAPÍTULO DOIS

A caminho de casa, Gina fez um resumo para Matt dos acontecimentos. Depois, permaneceu em silêncio. Estava muito chateada para conversar.

Abalada pelo testamento de Belinda, estava simplesmente aterrorizada diante do sério risco de perder Lydia, e desestruturada pelo reencontro com Harry. Como a irmã podia tê-lo escolhido como tutor da criança? Afinal, Belinda mal teve contato com os parentes do marido depois do casamento. Uma vez admitiu para Gina que Pablo nunca se dera bem com os parentes e, por isso, preferia morar em Londres. Quando Harry contatou Belinda, depois da morte de Pablo, ela ficou histérica e determinada a não ter o menor contato com a família do falecido marido. Ao mencionar o testamento que fizera, não admitira ter incluído Harry. Gina não estava preparada para essa evidente mudança.

Entretanto, podia compreender o motivo de Harry ter sido escolhido: Belinda sempre tivera o maior respeito por dinheiro e status. Chegava a ser irônico que a irmã se sentisse intimidada pela nobreza da família do marido. Sem dúvida, nomeara Harry no testamento por interesses financeiros. Sabendo que Gina era paupérrima, devia ter suposto que incluir o mega rico Harry poderia resultar numa oferta para contribuir na educação da sobrinha. Gina agarrou-se à ideia, rezando para que o irmão de Pablo não tivesse intenção de se envolver na vida de Lydia.

Gina amava Lydia como se tivesse nascido dela. O laço entre Gina e a sobrinha sempre seria forte porque como havia tido leucemia na infância, Gina sabia que o tratamento que lhe tinha salvado a vida podia tê-la deixado estéril. A ligação com o bebê da irmã foi intensificada pelo simples fato de que, desde o nascimento, Lydia ficara apenas sob os cuidados de Gina.

Inicialmente, Belinda não se sentia bem e precisou de Gina para cuidar da filha até se fortalecer. Em poucas semanas, entretanto, encontrou o homem com quem viveu até falecer. Doug, um vendedor bem sucedido, com uma vida social intensa, não demonstrara interesse nenhum no bebê da namorada. Tendo se apaixonado por ele, Belinda rapidamente passou toda a responsabilidade de Lydia para os ombros de Gina.

Em várias ocasiões, Gina tentou argumentar com a irmã e persuadi-la a passar mais tempo com a filha.

— Nunca deveria ter tido essa criança! — finalmente Belinda confessou despudoradamente. — Se eu tiver que começar a brincar de mamãe e ficar mais tempo em casa, Doug vai encontrar outra pessoa. Sei que não estou sendo justa com você, mas eu o amo muito e não quero perdê-lo. Me dê mais algum tempo. Sei que ele vai acabar aceitando Lydia.

Mas Doug não aceitou. Pelo contrário, disse a Belinda que não havia lugar em sua vida para uma criança.

— Foi por isso que tomei uma decisão — disse Belinda a Gina, aos prantos, duas semanas antes de morrer. — Você provavelmente não vai poder ter filhos, e sei o quanto ama Lydia. Tem sido uma mãe fantástica para ela, muito melhor do que eu poderia ser. Se quiser, pode ficar com ela para sempre, e assim poderei vê-la ocasionalmente.

Nesse dia, Gina achou mais sábio não falar nada, pois estava convencida de que o caso de Belinda e Doug já dava sinais de falência e de que, em breve, a irmã se arrependeria amargamente de ter sacrificado a filha em função dele. Gina tinha crescido numa casa onde as amiguinhas do pai tinham os próprios filhos. Sabia que havia homens que recusavam-se a assumir a responsabilidade de qualquer pessoa, a não ser de si mesmos. O pai era desse tipo: um charmoso malandro, de um egoísmo colossal, mas nunca havia ficado sem mulher. Com muita freqüência, essas mulheres priorizavam as necessidades dele em detrimento das dos próprios filhos, numa tentativa vã de segurá-lo.

— Minha Nossa Senhora!... Belinda não podia ter deixado de contar para você! — Norah exclamou surpresa ao ouvir da chegada de Harry no escritório do procurador. — Essa sua irmã era uma caixinha de surpresas!

Ocupada em acariciar Lydia e saborear o aconchego da sobrinha nos braços, Gina suspirou.

— Provavelmente, Belinda incluiu o nome de Harry e não voltou a pensar nisso. Não tinha segredos comigo.

— Não mesmo? — insinuou Norah. — Assuma que Belinda só dizia o que achava que você queria ouvir!

— O que quer dizer com isso? Está me provocando?

Enrubescendo, Norah pareceu embaraçada.

— Claro que estou.

Não era a primeira vez que Norah sugeria que Gina não conhecia tão bem a irmã quanto supunha. Gina ficou irritada, mas desconsiderou a insinuação. Sabia que Norah e Belinda mal se toleravam. Norah era mal-educada para o gosto refinado de Belinda, e a frieza da jovem a deixara magoada e ofendida.

Gina deixou o pequeno e aconchegante bangalô da família Moore e voltou para o trailer onde vivia. Belinda odiara morar ali, e ficou satisfeitíssima ao mudar-se para o apartamento do namorado na cidade. Mas Gina via o trailer como seu lar, e apreciava o fato de a grande janela da frente dar para um campo onde, por vezes, os carneiros pastavam. Na verdade, na sua lista de desejos constava o sonho de algum dia estar em condições de parar de alugar e poder comprar um modelo moderno.

Vestindo o jeans e pegando o material de limpeza, Gina apressou-se em recuperar o dia de trabalho perdido. Por mais que tentasse, não conseguiu bloquear as memórias do casamento de Belinda e o primeiro encontro com Harry...

Gina ficara animada com o convite para madrinha. Parte do entusiasmo tinha se desvanecido ao perceber que Belinda queria que ela escondesse a origem humilde e evitasse qualquer aproximação com a família de sangue azul de Pablo. Os apelos insistentes da irmã a persuadiram a compartilhar a data especial com ela e aceitar as restrições impostas.

Belinda pagou todas as despesas, e para baratear a viagem para a Espanha comprou um pacote de cinco dias num resort. O pai de Gina, a namorada da época e o filho dela decidiram aproveitar e dividir o apartamento. No dia da chegada, Gina acompanhou Belinda a uma reunião na impressionante casa de um dos parentes de Pablo.

Gina sentiu-se como uma idiota no vestido rosa que Belinda insistira em comprar-lhe. Preocupada em não envergonhar a irmã, refugiou-se na sala de bilhar. Lá encontrou Harry pela primeira vez. Ao desviar o olhar do jogo solitário, o viu parado na porta. Simplesmente maravilhoso, numa camisa preta de colarinho aberto e calça esporte.

— Há quanto tempo está parado aí? — perguntou. Harry riu.

— Tempo suficiente para apreciar sua habilidade — respondeu num inglês perfeito, embora com sotaque. — Mas você não está jogando bilhar; está jogando sinuca. Quem lhe ensinou?

— Meu pai.

— Ou você é uma jogadora inata, ou tem praticado um bocado.

Gina resistiu a vontade de admitir que o pai a fazia matar aula, quando era criança, para levá-la a bares na hora do almoço e fazer apostas de que ela venceria todos os jogadores. O pai só cessou esse passatempo lucrativo quando lhe chamaram a atenção pelo elevado número de faltas da filha.

— Eu acho... — balbuciou, mordendo o lábio inferior enquanto o estudava entre os cílios, sentindo-se tremendamente envergonhada. Desconfiava de homens bonitos, e ele era maravilhoso. Também percebia os sinais sutis de elegância cara nas roupas, o que fazia com que se retraísse automaticamente. — ... que não deveria estar aqui.

—Por que não? Não é amiga da noiva?

Lembrando-se dos avisos de Belinda, sacudiu a cabeça concordando.

— Qual seu nome? — perguntou Harry aproximando-se.

— Gina...

Ele estendeu a mão.

— Sou Harry.

Desajeitada, tocou-lhe as pontas dos dedos e retrocedeu em direção à porta.

— Melhor voltar para a outra sala antes que notem minha ausência. Não quero que eles me achem grosseira...

— Eles...? Todas essas aterrorizantes pessoas espanholas?

— Pode parecer engraçado pra você, mas não falo a língua, e as pessoas que falam inglês parecem não compreender meu inglês e ficam insistindo para que eu repita... É um pesadelo! — confidenciou, agradecida por encontrar alguém que podia entender o que dizia.

— Vou até lá. Como ousam assustar você a ponto de esconder-se na sala de bilhar? — Harry provocou.

Gina olhou-o orgulhosa.

— Não me escondo das pessoas.

— Vamos jogar... — Ele entregou-lhe o taco que tinha abandonado. — Vou ensiná-la a jogar.

— Vou dar uma surra em você — avisou.

Os incríveis olhos negros brilharam satisfeitos diante desse desafio.

— Acho que não.

Na verdade nunca jogou tão mal. Estava tão alterada com a sua presença que não conseguia parar de olhá-lo. Estava aterrorizada com a atração que exercia sobre ela. Embora fosse jovem, sabia o resultado desse tipo de entusiasmo físico. Com alívio, viu Belinda chegar, perplexa ao encontrar a irmã caçula na companhia de Harry. Belinda logo encontrou um jeito de separá-los.

— Você não se deu conta de quem ele era? — repreendeu-a Gina. — Não devia estar conversando com ele. É o irmão mais velho de Pablo... aquele com o título e o castelo... o marquês de Salazar.

Para um marquês espanhol de verdade, Harry parecia — à primeira vista pelo menos — bastante moderno e normal. Gina ficou desapontada ao descobrir o quanto ele estava fora de seu alcance, e chateada por não ter esclarecido quem era. Indiferente às tentativas desajeitadas de mantê-los afastados, Harry arrastou Gina ao encontro do pessoal mais jovem. Quando a noite terminou, foi Harry quem precisou levar Gina de volta para o resort: na excitação de noiva, Belinda esqueceu que a irmã ia precisar de carona.

— Não posso entender por que você não está hospedada junto com sua irmã na casa de minha avó — Harry admitiu, ajudando-a a entrar num carro esporte vermelho digno de um filme do James Bond.

— Não quis atrapalhar...

— Acho que não devia ficar num apartamento sozinha. Não estou criticando sua irmã, mas você devia estar gozando da hospitalidade de minha família. Vou esperar até que pegue suas coisas — comunicou Harry com a autoridade de um homem acostumado a ser obedecido.

— Mas não estou sozinha... hum, estou com amigos. — Gina protestou encabulada, reconhecendo a impossibilidade de falar do pai quando Belinda tinha implorado que não dissesse a ninguém que eram na verdade meias-irmãs, pois a mãe havia tido um caso extraconjugal. A irmã se envergonhava e estava determinada a esconder a história de Pablo e dos parentes aristocratas.

— Amigos? — perguntou Harry desconcertado.

— Isso, decidi aproveitar e transformar minha viagem em férias... Algum problema?

— Não — disse lentamente. — Mas você chegou hoje de manhã à Espanha, e talvez não esteja capacitada a escolher um bom lugar para ficar. Meu primo me disse que esse complexo turístico onde está hospedada não tem boa fama. A polícia é frequentemente chamada para apartar brigas de bêbados.

Teve vontade de contar que o pai ficaria bem à vontade no lugar.

— Não sou uma flor delicada... posso me virar.

— Mas não deveria ter que se virar — murmurou gentilmente.

A ideia de que precisasse de um homem para protegê-la dos demônios era totalmente nova para Gina. Ficou acordada à noite, no desconfortável sofá-cama, na saleta do apartamento. Enquanto tentava se desligar do barulho da discussão entre o pai e a namorada no quarto, descobriu que não conseguia parar de pensar em Harry.

Sempre que esperou que Harry revelasse o seu pulso forte, ficara desapontada. Ele ouvia tudo que dizia com interesse. Não gritava, não xingava ou olhava outras garotas. Não dirigia depois de beber. Nem tentou embriagá-la ou seduzi-la. Harry, de uma forma misteriosa e romântica, fez com que Gina se sentisse especial, cortejada e merecedora de atenção pela primeira vez.

Aos vinte anos, Gina nunca tinha tido um namoro sério. Era virgem porque tinha pavor de se ver na mesma situação que arruinara a vida da maioria das namoradas do pai. Diferentemente delas, não tinha que se preocupar em engravidar ainda muito jovem, mas observara que depositar esperança e energia em incontáveis relacionamentos ocasionais podia resultar em baixa auto-estima, no abandono dos estudos e em poucas possibilidades de bons empregos, o que representaria pobreza. Tinha dito a si mesma que era inteligente demais para sucumbir à perigosa sedução do sexo casual, mas a verdade é que nunca se sentira nem remotamente tentada a se deixar levar pelas cantadas que recebera.

Antes nunca havia ficado acordada contando as horas até ver o cara novamente. Nunca tinha agonizado na dúvida se um homem gostava dela, ou se estava apenas sendo educado. Nunca antes tinha fantasiado como seria se esse homem a beijasse. Na verdade, a imaginação tinha sido tão atiçada por Harry que, quando voltou a vê-lo, ficou encabulada pela primeira vez na vida. Tinha flutuado na festa de casamento numa nuvem de tamanha felicidade que o despertar para a cruel realidade, um dia depois, tinha sido duro de suportar.

Harry permaneceu no escritório do advogado para esclarecer certos assuntos.

Evidentemente, Belinda não tinha um centavo quando morreu: trabalhava como garçonete. Entretanto, quando casou com Pablo, a linda loira era recepcionista de uma agência de modelos em Londres, sua sobrevivência fora assegurada pelo dinheiro e bens que herdara dos pais. Harry não precisou refletir muito para descobrir quem fora o responsável, e enfureceu-se. O fato de sua ex-cunhada estar vivendo com outro homem satisfez-lhe, de certa forma, a curiosidade em saber por que Belinda estava aparentemente tão determinada a não pedir ajuda à família do ex-marido.

Harry não se chocava com facilidade, mas ficou abismado quando, ao pedir o endereço de Gina, soube onde morava. Não podia acreditar que morasse num acampamento de trailers. Teria sido o desonesto irmão responsável por seu empobrecimento também? A limusine estacionou do lado de fora da entrada, enquanto o motorista conferia se o endereço estava certo. Harry decidiu que Gina era um problema que podia ser resolvido com dinheiro.

Gina limpava o chão de um dos trailers mais elegantes quando bateram à porta. Levantou-se, abriu a porta e ficou congelada ao dar de cara com olhos escuros como a noite. Sabia que não devia ficar enfeitiçada pelos traços simétricos, masculinos e sexy... O coração começou a bater muito rápido.

— Você disse sete horas da noite. Por que chegou tão cedo?

— Não cheguei numa boa hora? — perguntou Harry, o olhar aguçado indo da torrente de cachos tingidos de ouro pela luz do sol até a intensidade do rosto expressivo, e de volta para a curva suave da boca. Examinados individualmente, os traços eram comuns. Mas isso não explicava porque sempre tinha a impressão de ser incrivelmente bonita.

— Não é isso... Quer dizer, estou trabalhando e Lydia está dormindo. — Gina desfiou uma irritante tempestade de desculpas.

— Eu compreendo, mas não tenho nada para fazer nesse local enquanto espero. Também estou — o que é compreensível — louco para conhecer minha sobrinha — respondeu Harry sem preâmbulos. Havia frieza no olhar enquanto suprimia o absurdo desejo que sempre lhe despertava. Só podia pensar que ela exercia esse fascínio por ser diferente. — Posso entrar?

Sentindo-se ridiculamente envergonhada, Gina recuou para a pequena sala de estar, umedecendo disfarçadamente os lábios secos. Ele subiu o degrau e pareceu ocupar cada centímetro do espaço.

— Você vai ter que esperar até que Lydia acorde da soneca.

Ficou evidente a impaciência.

— Encontrar o tio deve ser bem mais divertido do que dormir. Não tenho muito tempo para passar no Reino Unido. Ficaria agradecido se não tornasse as coisas mais complicadas do que já são.

Ao final do curto discurso, Gina respirava pesadamente. Tinha colocado Lydia para dormir para que estivesse menos cansada para a visita de Harry. A chegada antes da hora tinha tumultuado seus planos. O corpo pequeno ficou retesado de aborrecimento e preocupação. Dobrou a cabeça cacheada e segurou, entre os lábios apertados, os ácidos comentários na ponta da língua. Harry Potter, marquês de Salazar, estava ocupado. O advogado o tratara como um rei, e a ela como um lixo. O aviso era claro: não podia se dar ao luxo de transformar Harry em inimigo. Se houvesse briga, ele ganharia em virtude da fortuna e status. Portanto, tinha que ser educada, pelo bem de Lydia, e engolir as ordens de Harry com a maior boa-vontade possível.

— Lydia vai ficar um pouco irritada se eu acordá-la antes da hora — disse Gina hesitante.

— Quero ver minha sobrinha agora — decretou Harry, decidindo que Gina acataria melhor uma voz autoritária.

Depois de fazer uma pausa para pensar, Gina sacudiu a cabeça, tentando ser justa. Havia um monte de crianças no casamento de Belinda, e a irmã lhe contara que os espanhóis adoravam crianças. Harry, obviamente, estava acostumado com bebês e convicto de poder conviver com a sobrinha. Abriu a porta de onde havia colocado Lydia para dormir sossegada em seu bebê-conforto.

Harry olhou para o embrulhinho embaixo da coberta, tendo no topo um tufo de cachos castanho-claros. A sobrinha parecia preocupantemente miúda. Tanto Pablo quanto Belinda eram altos. Por outro lado, Gina mal batia no seu peito, então era perfeitamente razoável que o bebê fosse pequenino. Lembrou-se de que ao chegar à Espanha deveria levá-la a um pediatra. O médico da família, um velho amigo, sugerira fazer um exame médico geral como precaução: um ou dois bebês da última geração tinham nascido com sopros cardíacos.

Controlando a própria relutância, Harry decidiu demonstrar um razoável nível de interesse pela criança e realizar uma inspeção mais detalhada. Afastou a coberta e levantou o bebê.

No mesmo instante, o bebê ficou duro como uma viga de aço, e olhou-o com enormes olhos castanhos assustados. A boca escancarou-se mostrando as amígdalas e um grito que teria despertado um cadáver explodiu. O rosto ficou roxo, o bebê debatia-se como se estivesse sendo atacado. Harry olhou para a sobrinha paralisado de terror.

— O que há de errado com ela? — perguntou.

— Você já foi arrancado da cama por um estranho e suspenso no ar como um brinquedo? — perguntou, resistindo ao impulso de tirar Lydia das mãos inaptas e insensíveis.

Ao ouvir o som da voz de Gina, Lydia virou a cabecinha. Esticou as mãos em direção à tia num movimento tão frenético quanto revelador.

— Talvez você devesse fazer o esforço de nos apresentar primeiro — censurou Harry, e sem mais conversa depositou a trouxa barulhenta nos braços de Gina.

Com a boca retorcida, as orelhas ainda vibrando com os gritos, olhou a pequenina sobrinha agarrar-se ao ombro de Gina como se fosse uma ostra instalada em sua rocha favorita. Um bem-vindo silêncio se seguiu. Harry considerou o drama desnecessário. Gina recompensou essa demonstração de favoritismo com uma grande quantidade de carinho, beijos e sussurros reconfortantes.

— Não tinha ideia de que a criança fosse tão apegada a você — admitiu Harry.

— Cuido de Lydia desde que ela nasceu. Belinda passou mal no início... e depois, bem, por várias razões não pôde passar, como gostaria, muito tempo com a filha.

— Que razões?

— Belinda começou a se relacionar com um tipo de pessoa que não se amarrava em crianças, e quando foi morar com ele, Lydia ficou comigo — explicou Gina.

— Aqui... neste lugar?

— Não temos essa sorte. — Gina deu uma gargalhada. — Essa é uma casa de férias de luxo. Aquela em que eu moro é pelo menos vinte anos mais velha e sem sofisticação.

Harry desviou a atenção para a sala que julgava claustrofóbicamente pequena. Sofisticação? Que sofisticação? A decoração era horrorosa e tão extravagante e barata que lhe ofendia os olhos. Era isso que ela chamava de luxuosa?

— Se não mora nisso, por que está aqui?

— Estou limpando para o pessoal que vai chegar amanhã.

Desconcertado, Harry a olhou.

— Você trabalha como faxineira?

— Algum problema? Ela devia estar brincando.

— Claro que não. Você disse que meu irmão roubou sua irmã. Você também perdeu dinheiro?

— Nunca tive dinheiro para perder — respondeu. Percebendo que ele não compreendia o motivo, suspirou e acabou confessando: — Existe um segredo escondido na minha família, e Belinda não gostava que eu falasse sobre isso. Belinda e eu temos a mesma mãe, mas pais diferentes. Só conheci minha irmã quando tinha 17 anos.

— Todas as famílias têm seus segredos — murmurou Harry, aliviado por finalmente encontrar uma explicação para o caso. — Vamos ser francos um com o outro.

Gina voltou a ficar tensa.

— Eu não ia mentir.

Percebendo sua ansiedade, Lydia levantou a cabeça e soltou um gritinho de desconforto. Harry levantou as mãos.

— Eu não quero discutir com você.

— Ótimo... mas cá entre nós e as paredes, eu e você sempre vamos discutir.

— Não estou de acordo — disse com um sorriso, os olhos frios e confiantes. — O futuro de uma criança está em jogo, e depois do que aturou nos últimos meses, é natural estar estressada.

— Não aturei nada. Eu amo Lydia e adoro cuidar dela. A preocupação com o que vai acontecer, agora que você apareceu, é que está me estressando.

Dois pares de olhos, um verde e um castanho, estavam ansiosamente colados nele, ambos amedrontados. Pela primeira vez, em seus trinta anos de existência, sentiu-se como o lobo do conto de fadas, culpado por aterrorizar a menina inocente e vulnerável. Ao mesmo tempo, ser tratado como o mau sujeito o irritava e feria seu orgulho. Decidiu que estava na hora de deixar de lado a diplomacia. Se deixasse claras suas intenções e expectativas não haveria espaço para mal- entendidos.

— Por que deveria se preocupar se estou aqui para ajudar? Só posso entender que tem a intenção de me insultar...

— Não era minha intenção! — interrompeu Gina, pois suas palavras tinham sido mal interpretadas.

— Minha intervenção só pode trazer vantagens à minha sobrinha já que ela está vivendo na pobreza. Você fez o seu melhor. Aprecio os esforços e agradeço a preocupação, mas Lydia só vai ficar bem quando eu levá-la para a Espanha e assegurar-lhe cuidado e privilégios a que tem direito.

Enquanto falava, toda cor desapareceu do rosto de Gina.

— Não vivemos na pobreza...

— Do meu ponto de vista, acredito que sim. Não quero ofendê-la, mas preciso dizer a verdade.

— Você não pode tirá-la de mim... e levá-la para a Espanha — Gina respirava com dificuldade, sentindo-se tão mal diante da ameaça que mal conseguia emitir um som. A ideia de perder Lydia a atingiu como um soco no estômago, deixando-a catatônica.

— Por que não? — Harry levantou uma sobrancelha de ébano. Ela estava branca como a neve e apertava o bebê contra si. Uma mistura de frustração e raiva apossou-se dele, pois sabia que as intenções eram as melhores possíveis e a solução a única ajuizada. — Não vejo outra alternativa. Se você ama a criança, não vai se opor. Posso lhe dar uma vida bem melhor.

Gina retrocedeu como se não mais suportasse ficar perto dele.

— Eu morro se você tirá-la de mim. Eu a amo demais e ela me ama. Você não pode tirar-me da vida dela só porque sou pobre.

Harry emudeceu. Ficou desconcertado ao ver seu sofrimento, as lágrimas dançando nos olhos. Tinha posto o orgulho de lado. Parecia uma adolescente tentando enfrentar o valentão. O bebê, percebendo a tristeza da tia, soluçava.

— Não é uma questão de tirar você da vida dela... Você não está sendo racional — censurou-a exasperado.

Gina soltou um suspiro profundo e lançou-lhe um olhar de condenação.

— Não tenho vergonha disso... acho que o amor deveria vencer o dinheiro sempre...

— Pelo que entendo, você nunca teve dinheiro, então não está qualificada para emitir esta afirmação radical...

— Eu a amo... e você não!

— Se a ama por que não se controla e para de assustá-la?

Gina olhou-o angustiada e virou-se, acalmando a criança em seus braços.

Harry percebeu ser um erro tentar argumentar de forma objetiva, como se discutisse um negócio. Gina nada tinha de prático, ajuizado, controlado. Na verdade, nunca tinha visto uma mulher demonstrar tanta emoção e essa liberdade exercia sobre ele uma fascinação quase indecente. Seus sentimentos passionais eram um barril de pólvora. A curiosidade sexual ameaçou apossar-se dele e lutou contra isso, zangado com ela e consigo mesmo. Mas mesmo a raiva não podia deixar de fazê-lo perceber o desejo poderoso de agarrá-la e deitá-la na cama mais próxima. Dificilmente, uma resposta apropriada à sua agonia, reconhecia. Desprezou as reações primitivas que ela sempre despertava nele.

— Quero pensar sobre o que você disse — continuou Harry, decidindo que não seria proveitoso continuar a discutir nesse clima. — Volto amanhã às onze da manhã. Se precisar falar comigo, pode me encontrar neste hotel. — Estendeu um cartão. — Diga-me onde mora.

— Na van azul no final... aquela estacionada no campo.

— Não pretendo soar como um ator de um filme de quinta, mas você pode melhorar tanto sua vida quanto a de Lydia. Você não precisa morar desse jeito.

— Por estranho que pareça, nunca encontrei ladrões de crianças morando assim; só pessoas decentes que não têm o dinheiro e o status social como objetivos de vida! — disse em tom de acusação.

Harry decidiu provar que era maduro não respondendo a essa provocação.

— Acho que seria menos penoso para o bebê se ela estivesse... descansando quando eu vier amanhã.

— Talvez devesse pensar no quanto Lydia ficará desolada se eu sumir de sua vida.

Harry estava suficientemente impressionado com o aviso, para olhar o bebê. Não podia deixar de suspeitar que a filha do irmão tinha herdado de Gina o temperamento emocional, e que era mais sensível que a maioria. Só levantar a criança acionara um alarme. Por um breve segundo, pensou em carregar a criança enquanto Gina e o bebê gritavam e soluçavam em alto tom, e mal conseguiu reprimir um calafrio muito masculino.

Descobrindo um pensamento que desconhecia, considerou o risco das notícias nos jornais. Ladrão de crianças. Não, tomaria cuidado para não fazer com que nada disso resultasse numa publicidade histérica. Era extremamente inteligente e um astuto homem de negócios. Era conhecido pela lógica e disposição em considerar aproximações inovadoras para alcançar soluções. Tinha certeza de que encontraria um jeito de persuadir Gina a aceitar o inevitável.

— Você não dá importância ao que eu ou ela sentimos, não é? — acusou Gina enquanto escancarava a porta, descia os degraus e colocava Lydia no carrinho.

— Me importo o suficiente para garantir que minha sobrinha não cresça com suas desvantagens.

Gina lançou-lhe um olhar ferido e ergueu a cabeça.

— Não é estranho que mesmo com suas vantagens — dinheiro, título, educação e sucesso — você seja um canalha egoísta sem nenhuma consideração com os sentimentos dos outros?

— Mas não sou hipócrita. Sei que não é a florzinha frágil que aparenta ser, querida. Continua a mesma mentirosa que me disse estar doente, e depois saiu para beber e transar na praia com um perdedor — lembrou-a com zombaria. — Você jamais vai entender um homem com boas maneiras como eu.

— É mesmo? Boas maneiras? Você? — Gina sussurrou para que Lydia não escutasse.

— Você disse que não estava se sentindo bem. Naturalmente, procurei-a para oferecer ajuda.

— Nã-nã-nã... isso não são boas maneiras. Você não confiou em mim, então apareceu para checar e não hesitou em tirar as conclusões erradas! — Gina despejou a raiva há muito contida. — Bem, para sua informação, eu disse uma mentira educada para evitar criar embaraços diante do motivo pelo qual não podia encontrar-me com você aquela noite. E por falar nisso, aquele perdedor a que se refere era Terry, o filho da namorada de meu pai. Embora fosse alto para a idade, tinha só 14 anos! Não era meu amante, nem nada meu, só uma criança assustada preocupada com a mãe!

Tendo despejado essa declaração final com vigor, afastou-se. Para Harry, ela parecia dançar ao se mover. Os cachos dourados balançavam sobre os ombros e costas. O tecido gasto dos jeans acentuava o ligeiro rebolado de suas pequenas nádegas. Não possuía nenhum atributo especial, o que tinha causava um efeito explosivo na libido dele. Não tinha orgulho dos instintos básicos. Querendo que sua excitação inapropriada fosse para o inferno, Harry respirou devagar e profundamente.

Mas ainda desejava botar para fora o escárnio por essa história tola que só um idiota engoliria. Queria perguntar como ousava falar com ele naquele tom impertinente. Queria que ela escutasse o que dizia quando falava com ela. Queria ensinar-lhe a respeitá-lo. Queria tomá-la nos braços e demonstrar habilidades sexuais que ele nunca tinha praticado na praia... pelo menos, não numa pública. Sendo quem era, entretanto, e orgulhoso de sua árdua autodisciplina, decidiu apenas vê-la afastar-se. Não podia mais ignorar o óbvio: por mais vergonhoso que fosse, só podia ser suas qualidades vulgares que o atraíam.