CAPÍTULO TRÊS
Harry planejava tirar-lhe Lydia e levá-la para a Espanha, refletia numa dor agonizante. Como ousava dizer a ela como o bebê que amava devia ser criado?
Determinada a manter-se ocupada para não ter tempo para irritar-se, deu comida a Lydia e a colocou na cama. Arrumou a van, sua casa há mais de três anos. Abriu a caixa de casacos que tinha para bordar e começou a trabalhar nas flores intrincadas.
Como podia enfrentar Harry, um aristocrata? Seu estilo de vida era realmente tão pobre? Tinha um teto seguro sobre a cabeça e o suficiente para comer. Tinha que admitir que a casa sobre rodas podia ser fria no inverno e as roupas nunca eram novas, mas Lydia era uma criança feliz. Como podia exigir direitos iguais sobre a sobrinha quando Harry podia oferecer tão mais em termos materiais?
Norah chegou às nove da noite. Ao saber que Harry voltaria no dia seguinte, ofereceu-se para cuidar de Lydia enquanto ele estivesse lá.
— Assim você vai poder conversar em paz. Onde disse que Harry está hospedado?
— Eu não disse... o cartão está na mesa — murmurou Gina, perguntando-se por que a amiga queria saber...
— Bem longe... o hotel parece luxuoso. Você devia dar uma caminhada na praia. Isso sempre acalma. Cuido de Lydia.
— Como posso me acalmar? Harry vai me afastar de Lydia — sussurrou atormentada. — Ele já tomou a decisão.
— Você não pode ter certeza. Espere para ver o que acontece. Pode ter uma surpresa — comentou enigmática.
— Não acho. Harry dava a impressão de estar determinado.
A senhora acariciou o braço de Gina para acalmá-la.
Gina caminhou na praia. A brisa transformou-lhe o cabelo numa massa desordenada. Harry não tinha mudado nada. Não demonstrou o menor jeito para pegar Lydia, mas era muito arrogante para reconhecer. Na verdade, parecia não saber nada sobre crianças pequenas, uma realidade que ele estava feliz em ignorar enquanto implicava com seus defeitos! Pior ainda, Harry tinha tanto preconceito contra ela quanto durante o último encontro na Espanha há quase três anos...
As memórias desse período ainda estavam frescas, e os pensamentos voltaram no tempo. O casamento da irmã tinha se tornado um sonho tanto para Gina quanto para a noiva. Até esse dia, Harry tinha facilitado a estadia de Gina. A elogiara por sua aparência num vestido roxo que ela secretamente detestara. Conversou com ela enquanto as fotografias eram tiradas, providenciou para que se sentasse ao lado dele na recepção, e funcionara como intérprete e tradutor para que ela pudesse se socializar com os outros convidados. Apresentou-a a várias pessoas, dançou com ela, e agia como se seu prazer fosse o principal objetivo dele.
Toda essa atenção fora uma experiência emocionante para Gina, que se sentiria deslocada na companhia de pessoas tão educadas se não fosse pela ajuda de Harry. Estava nas nuvens.
Belinda ficara preocupada e levara Gina para um canto para avisá-la.
— Harry está sendo muito gentil com você, mas não quero que fique imaginando coisas...
— Não estou imaginando nada — protestou incomodada, perguntando-se se estava fazendo papel de tola. Afinal, estava fazendo todas aquelas coisas ridículas como ficar piscando os olhos para ele e sorrindo em vez de gargalhar.
— Não há a menor chance de Harry sentir atração por você. Pablo diz que as exigências do irmão são tão altas que nem mesmo uma santa seria aprovada — a irmã avisou, como se pedisse desculpas. — Mas Harry é muito educado. Obviamente ficou com pena de você quando viu que estava sozinha a noite passada. Tenho certeza de que esse é o motivo pelo qual está se esforçando para que você se divirta.
— Sai fora! — disse Gina a Harry quando ele voltou a chamá-la para dançar. — Quando eu precisar de piedade, aviso.
— O que você está dizendo? — perguntou incrédulo.
— Já soube que você está sendo gentil comigo porque ficou com pena a noite passada...
— Não, não sou tão bonzinho e altruísta. — Os olhos escuros aprisionaram os seus. Pelo espaço de trinta segundos ficou tão fora do planeta Terra quanto um míssil projetado no espaço. — Foi sua irmã quem disse isso? Notei que ela lançava olhares ansiosos. É natural que queira protegê-la.
Ao levá-la de volta para o resort, insistiu em conduzi-la até a modesta recepção. Ao chegarem, sugeriu casualmente levá-la para jantar na noite seguinte e fazerem um tour pela parte menos movimentada da costa. Tentando responder no mesmo tom indiferente, aceitou e subiu o elevador como se flutuasse. Por sorte, ele não notou que ela estava tão atordoada que bateu com o nariz na porta do elevador.
Como a Cinderela sem fada madrinha para ajudar, Gina passou o dia tentando ficar mais bonita. Entretanto, no início da noite, o pai e a namorada brigaram. Miriam encontrou o namorado com outra mulher, e teve início uma tremenda discussão. Depois de ouvir da varanda a briga que terminou com cada um indo para um lado, Gina voltou para dentro.
Dez minutos depois, o filho adolescente de Miriam, Terry, apareceu. O garoto estava desesperado para encontrar a mãe e evitar que ela afogasse as mágoas na bebida. Só então Gina soube que Miriam vinha tentando abandonar o alcoolismo. Estava envergonhada pelo comportamento do pai em relação à pobre mulher. Também sabia que sua consciência não permitiria que ela não ajudasse Terry a procurar a infeliz mãe.
Contar a Harry a sórdida verdade não era uma opção. Ficou arrasada ao ligar e cancelar a saída com uma desculpa esfarrapada. Ele não fez menção a um outro encontro, e faltavam apenas 24 horas para seu vôo.
A busca nos vários bares do resort foi longa e infrutífera. Com os pés doendo, exaustos e sem dinheiro para pegar um táxi, Gina e Terry voltaram para casa pela praia a pé nas primeiras horas da manhã. O coração pulou de alegria quando Harry saltou de um carro estacionado em frente à entrada. Disse a Terry que fosse para a cama.
— Estava com tanto medo de não voltar a ver você — confessou encantada, esquecendo que tinha alegado doença como desculpa para não encontrá-lo.
— Você não vai voltar a me ver. — O rosto fino endureceu-se e Harry olhou-a desdenhoso.
Surpresa, olhou-o, subitamente consciente de estar menos glamorosa do que de hábito.
— Mas... por que não?
— De quantos motivos precisa? Não basta fingir estar doente quando não há nada errado com você?
— Havia uma razão para isso...
— Si. Eu a vi abraçando o jovem trajando uma camisa Union Jack. Você estava na praia com ele — murmurou Harry com voz sibilante, deixando o dedo casualmente esbarrar numa mancha na blusa. — Rolando na areia. Não preciso ser detetive para saber que estiveram transando ao ar livre.
Um bêbado na praia havia jogado areia molhada nela e sujado seu top branco e shorts.
— Você está enganado.
— É mesmo? Não lido com mentirosas ou tatuadas. — Harry deu uma olhadela de desprezo para a pequena borboleta colorida tatuada no ombro antes de concluir com sucinta ferroada: — Ou com vagabundas.
Gina não queria lembrar-se de que estava tão interessada nele que, mesmo depois disso, tentou falar com ele por telefone para provar sua inocência. Ele não atendia as ligações, mas finalmente ligou para ela.
— Pare de se preocupar com isso — avisou Harry com indiferença. — Não me deve explicações. Não tinha o direito de criticar seu comportamento. Você teve um encontro, e me contou uma mentira inofensiva. Não foi nada.
Descobriu que suas boas maneiras comparavam-se a uma parede de pedra. Desejou-lhe boa viagem e desligou. Gina demorou muito até se recuperar do desapontamento. Por mais tolo que parecesse, tinha se apaixonado num espaço de 48 horas. Quantas vezes depois disso desejou nunca ter posto os olhos em Harry. Não podia sentir falta do que nunca havia conhecido. Nem ficaria comparando os homens rudes que conheceu com o nobre espanhol.
Voltando ao presente, Gina redescobriu sua determinação e esperança. Estava sendo muito pessimista. Não tinha tentado argumentar com Harry. Por que ele ia querer assumir o peso de um bebê? Pelo amor de Deus! Era solteiro. Quando Lydia começou a chorar, Harry mostrou-se enervado. Tudo que tinha a fazer era convencê-lo de ser capaz de oferecer a Lydia um lar onde houvesse amor e segurança. Talvez tivesse que encontrar uma acomodação melhor para agradá-lo, mas se ele estivesse disposto a contribuir com uma pequena quantia para o sustento de Lydia, isso seria possível. Então, quem sabe pudessem chegar a um acordo?
Harry decidiu tomar o café-da-manhã no restaurante, e não isolado na suíte. Acabava de comer quando o maitre aproximou-se para informar que tinha uma visita.
Uma senhora magra de cabelos grisalhos apresentou-se como Norah Moore.
— O senhor não me conhece, mas conheço Gina há anos — proclamou nervosa. — Sei que é cedo, mas quis ter uma conversa particular com o senhor antes de seu encontro com Gina.
Harry estendeu a mão.
— Harry Potter. Sente-se por favor. Gostaria de beber algo? Um chá?
— Gina disse que o senhor era muito educado... ela tinha razão. Não... obrigada — disse ansiosa. — Estou aqui porque estou preocupada com Gina.
— Como posso ajudá-la?
— Gina é maravilhosa para Lydia, adora a menina. Não deve tentar separá-las.
— Só quero o melhor para minha sobrinha — esclareceu gentilmente.
— Gina e sua sobrinha são tão unidas quanto qualquer mãe e filha. Além disso, a própria mãe queria que a irmã ficasse com a criança. Fui testemunha das palavras de Belinda. O senhor tinha conhecimento disso?
— Não, não tinha — confessou.
— Há uma outra coisa — continuou. — Algo que não quero dizer, mas sinto que preciso, para o bem de Gina.
— Posso ser discreto.
— Bem, Gina não pode ter filhos. Teve leucemia quando criança, e o tratamento deixou-a com sequelas. O senhor sabia?
— Não, não tinha conhecimento disso. — O maxilar contraiu-se, a palidez do choque espalhou-se pela pele bronzeada.
Sentiu-se mal com a revelação. Como ela devia ter sofrido quando criança... Também sabia o quanto Gina odiaria que ele tivesse conhecimento de algo tão pessoal. Estava ao mesmo tempo zangado e aliviado pela senhora ter decidido trair a confiança de Gina. Sua ignorância sobre o quanto Gina era vulnerável tinha feito com que agisse como um canalha.
— Portanto esse bebê é muito precioso para Gina. Ela teve uma vida desgraçada — continuava em tom acusatório. — Trabalha dia e noite, sete dias na semana tentando dar a esse bebê mais do que teve. Pode não parecer muito para os seus padrões, mas não subestime os sacrifícios que ela fez. Ela cuidou daquela irmã idiota também...
— A senhora foi bem clara, sra. Moore. Acompanhou-a até o carro e voltou para o hotel.
O que Sophie tinha dito? Eu morro se você tirá-la de mim. Tinha preferido ignorar a profundidade de sua afeição pela criança. Agora, graças à intervenção de uma estranha, era forçado a encarar a possibilidade de Gina ser muito ligada à criança — e por bons motivos se não podia ter filhos. Estava lidando com uma situação mais complexa do que imaginara. Se a privasse de Lydia, o desespero a faria cometer uma tolice? Inspirou e expirou lenta e profundamente aceitando os fatos. Esse não era um risco que achasse razoável correr. Pela primeira vez, reconheceu que Lydia era tão sobrinha de Gina quanto dele.
