Independente do fato de que Severus representasse seu passado ou pudesse moldar o futuro daquela criança, Snape não permitiria que ele o desafiasse. Conhecia bem o suficiente a astúcia de Severus quando realmente queria algo e estava disposto a usar todas as artimanhas para obter as respostas desejadas.

Sua curiosidade sempre foi impulsionada pela ambição, transformando sua própria sabedoria em uma habilidade para alcançar seus objetivos. Era um lobo constantemente alimentado dentro de si, impedindo sua própria ruína. Era o motivo pelo qual a razão sempre o guiava a superar a si mesmo e seus impulsos destrutivos.

- Senhor, posso fazer uma pergunta? - indagou Severus, ansioso, fixando seu olhar em Snape, em busca de aprovação para continuar.

- Você já fez e ainda não disse o que deseja saber - respondeu Snape de forma ríspida e cansada, evitando encarar diretamente o menino. Ignorando a expressão de admiração que surgia no rosto de Severus, fingiu não perceber o brilho que demonstrava o quanto ele o considerava forte.

- Eu vou ser um bruxo das trevas? Porque para conseguir fazer o que o senhor fez, só sendo um. Isso é ótimo, não é mesmo?! – as perguntas surgiram livremente, por Severus sentir um orgulho e maravilhamento diante das ideias que se formavam na própria mente. A promessa de um futuro distante daquele lugar impulsionava a acreditar que alcançaria a vida que sempre sonhou.

Enquanto sonhava acordado, Severus mantinha seu olhar fixo em Snape, atento a cada palavra. Ele começava a compreender a extensão de sua própria força e questionava se seus impulsos e reações poderiam ser um símbolo de coragem diante da fraqueza dos outros. Talvez, um dia, pudesse se libertar do domínio de Tobias e encontrar a felicidade. Mas também podia aprender que suas possibilidades eram limitadas e que a vida se resumia ao que sempre lhe foi mostrado. Era incerto se poderia nutrir tantas esperanças quando tudo ao seu redor era nebuloso.

- Sim, contudo, não se deixe consumir pela mágoa e pelo rancor. Isso apenas irá minar o que realmente deseja - advertiu Snape, sem enfatizar suas palavras ou expressar emoção. Não havia espaço para contestações desnecessárias. Se ele havia alcançado o impossível, então poderia ir ainda mais longe como bruxo. Não havia viajado no tempo para conversar, mas sim para mudar a si mesmo, transformar-se em sua própria fortaleza e reorganizar cada passo para evitar falhas.

Focado, Snape prosseguiria em direção aos seus objetivos, sem se deixar abalar por trivialidades. Quanto tempo havia perdido com futilidades? Por que permitia que sentimentos o enfraquecessem? Finalmente, ele se tornaria invencível, incapaz de ser ferido novamente. A força de suas convicções pulsava em seu peito, alimentando um fogo ardente que lhe concedia uma coragem inabalável. Ele seria o mestre do seu destino, não importando os obstáculos que o caminho lhe apresentasse. A cada passo que dava, a cada palavra que proferia, a sombra de sua antiga vida se dissipava lentamente, dando lugar a um futuro repleto de conquistas e triunfos.

No entanto, por trás da determinação que o impulsionava, havia um pequeno resquício de dúvida, uma semente de incerteza que brotava em seu coração. E se ele estivesse errado? E se suas ambições o conduzissem por um caminho de solidão e arrependimento? A voz da razão lutava para encontrar espaço em meio ao turbilhão de emoções e desejos que o consumiam. Mas Snape, apesar de suas inquietações internas, erguia-se acima das nuvens tempestuosas de incerteza e continuava a trilhar seu caminho com uma determinação ferrenha.

O tempo, implacável em sua marcha, abria diante dele um horizonte de possibilidades infinitas, e ele estava disposto a explorá-las todas, mesmo que isso exigisse sacrifícios dolorosos.

Seu destino se mostrava glorioso, ele compreendia que seu destino estava entrelaçado com forças sombrias. Também começava a perceber que suas escolhas eram as agentes definidoras da sua existência. O seu verdadeiro poder se encontrava no controle que deveria ter sobre si mesmo.

- Por que eu fiz isso? - perguntou Severus, demonstrando grande interesse em compreender os motivos por trás de suas ações. Havia uma motivação intensa para desvendar e controlar cada detalhe, cada nuance. Era incrível que tudo aquilo fosse real, especialmente quando sua vida até então era um amontoado de desgraças sem perspectiva de futuro.

- Você quer saber por que se tornou um bruxo das trevas? - questionou Snape, olhando para Severus sem entender exatamente qual ponto ele queria alcançar com aquela pergunta. Até onde o menino gostaria de ouvir sobre o que ele se tornara? Qual era o limite que ele buscava?

Tentando interpretar os silêncios e as entrelinhas daquele aparentemente inocente questionamento, Snape sentiu-se levemente perturbado. Sua rigidez e a capacidade de se tornar cego diante de suas próprias ideias eram suas maiores limitações. Mas como dizer isso ao menino? Como explicar que ele sempre estaria sozinho e teria que enfrentar tudo por si só?

Além disso, seria difícil explicar certos detalhes, especialmente porque não era tão versado quanto as mulheres da família Black para descrever minuciosamente todos os desdobramentos da magia das trevas, principalmente aqueles que envolviam sangue, suor e sexo. O assunto deixava Snape desconfortável ao falar abertamente sobre ele.

- Não... não é isso, senhor. Eu não fui claro. O que eu quero saber é por que eu voltei no tempo? - afirmou Severus, com seus olhos de obsidiana adquirindo um tom esperançoso e cheio de sonhos. Estava empolgado, criando grandes expectativas de que ouviria a si mesmo afirmar, com ênfase, que havia voltado para tirá-lo dali. Sua vida mudaria. Não passaria mais fome, humilhações, espancamentos e frio. Esqueceria completamente a miséria de Spinner's End e seguiria em frente. No entanto, as coisas não eram tão simples.

- Você se lembra que nos quadrinhos a Lois Lane morre em um acidente de carro? - continuou Snape, interrompendo antes que Severus pudesse completar sua pergunta.

- Quando o Superman faz a Terra girar ao contrário, sim, eu lembro. Mas não entendo o que isso tem a ver com o que está acontecendo - respondeu Severus, erguendo as sobrancelhas com dúvida.

A tensão entre pergunta e resposta pairou entre os dois. Severus olhava para Snape, repleto de dúvidas, enquanto o homem se preparava para explicar o significado daquilo tudo.

- Exato, é quando ele faz o tempo voltar para salvá-la. Quanto ao que nos diz respeito... - Snape foi interrompido por Severus, que estava extasiado e parecia não querer ouvir o restante.

- Eu também vou poder voar? É sério, senhor? - a felicidade de Severus era tão intensa que ele se segurava para não começar a pular, liberando os sentimentos eufóricos que o envolviam. Era a primeira vez que tudo parecia dar certo para ele.

Deixando-se levar pelas emoções, Severus abandonou as palavras e as perguntas por alguns segundos. Finalmente, as mudanças começavam a se tornar reais, ultrapassando os textos e as frases cuidadosamente calculadas. Ele podia abandonar suas incertezas e, no futuro, dominar o mundo.

- Sim, você poderá voar! No entanto, peço que não seja idiota o suficiente para usar a letra S no peito, mesmo que nossos nomes possuam duas delas. Vestimos preto, somos maus, horríveis, desagradáveis e grosseiros. Só demonstramos o mínimo de educação para aqueles de quem gostamos. Está claro? - Snape massageava as têmporas, soltando um suspiro doloroso e cansado. Estava ficando impaciente com aquela criança que o bombardeava com perguntas sem sentido. Ele queria revelar tudo de uma vez e partir dali, pondo fim ao seu próprio sofrimento. Mas o que faria?

O coração de Severus parecia dançar em seu peito, oscilando entre a euforia e a incerteza. Aquela promessa de voar e escapar das garras do destino sombrio que o rodeava era tentadora, mas o aviso de Snape lançava uma sombra de dúvida sobre seus sonhos recém-despertados.

Severus sabia que não poderia simplesmente ignorar as palavras de Snape. A voz dele ecoava em sua mente, alertando-o sobre os perigos da arrogância e da vaidade, embora notasse que o próprio não seguisse os próprios conselhos. A verdade era que, por mais que sonhasse com um futuro brilhante, ele não poderia abandonar completamente sua natureza. A escuridão corria em suas veias, uma herança sombria que o acompanharia sempre.

Então, foi a vez de Severus ponderar sobre o que significava ser "mau" e "horrível". Será que ele estava destinado a abraçar a escuridão, a perpetuar a crueldade que conheceu em sua própria pele? Ou havia espaço para a mudança, para a redenção?

A dualidade dentro de Severus se intensificava, atraindo-o para lados opostos do espectro moral. Ele se via diante de uma encruzilhada, onde a promessa de liberdade e poder se misturava com o medo de se perder em um abismo de amargura e desumanidade.

Snape, por sua vez, sentia-se angustiado pela responsabilidade que carregava. Ele era o guia de Severus naquele momento, mas até onde poderia levá-lo? Até onde suas palavras poderiam moldar o futuro daquela criança? A incerteza o corroía, desafiando sua própria sabedoria e sagacidade.

Enquanto observava Severus, imóvel diante dele, tão entusiasmado com tudo o que havia ouvido até aquele momento, Snape sentiu-se tomado pela confusão da própria alma. Era uma sensação estranha, uma felicidade que há tempos não experimentava. Afinal, desde cedo, aprendera a viver nas sombras, a aceitar que a luz nunca o encontraria.

- À medida que avanço, sinto-me cada vez mais distante do céu - sussurrou Snape como um suspiro, quase se perdendo no eco do vento. Como negar os lampejos de esperança e a promessa de uma vida melhor? O menino mal compreendia que, além do horizonte, não havia absolutamente nada. A vida não passava de uma sucessão contínua de injustiças, dores e sofrimentos incontáveis.

O futuro de Severus permanecia como uma incógnita, envolto em dúvidas e temores. Como ele lidaria com essa nova descoberta? A resposta, misteriosa como as marés do destino, aguardava no horizonte sem fim, enquanto o tempo seguia seu curso implacável.

Os dias de luta, cruéis e incessantes, pareciam não dar trégua, sem piedade ou momentos de calmaria. A vida era uma noite eterna, distanciando-se das inúmeras expectativas que ousavam brotar no coração de Severus.

- Como se eu fosse agir como um completo imbecil - afirmou Severus, revirando os olhos com uma expressão de nojo e bufando suavemente. Encarando Snape, ele cruzou os braços, determinado a mostrar sua convicção. Não havia dedicado tanto tempo decifrando enigmas e se dedicando aos estudos para ser tratado como um tolo. Seu orgulho não permitia ser visto de forma tão ofensiva. Era um insulto à sua inteligência.

- Isso não é o que os amigos da ruiva, que você começou a observar, vão pensar de você. Aliás, eles vão te chamar de Ranhoso, pelas roupas sujas, pelo cabelo despenteado e, acima de tudo, porque você é apenas um menininho arrogante, pobre e metido - ironizou Snape, com malícia em suas palavras, permeando sua voz com rancor, mantendo sua postura inabalável enquanto falava. Detestava relembrar aquilo, especialmente quando era forçado a fazer uma autocrítica tão dura. Mas era necessário.

Severus merecia conhecer toda a verdade, por mais dolorosa que fosse. Não havia escolha nesse momento. Ele ainda era jovem demais para se iludir com tão pouco, com alguém que não merecia seu afeto.

- Eles são um bando de bostas, e não deixarei isso passar impune. Quando tiver a chance, saiba que irei atrás de cada um deles - afirmou Severus com um olhar repleto de vingança, tentando esconder os traços de frustração que se desenhavam em seus olhos. Sentindo a raiva crescer, ele socava suas próprias pernas para conter a agressividade. Permitia-se apenas deixar que o ar quente de sua respiração se manifestasse hostilmente ao seu redor, e seu núcleo mágico vibrava perigosamente.

Precisava controlar sua magia, evitando que ela explodisse a qualquer momento e causasse danos. Não poderia se revelar por causa da instabilidade de seus sentimentos, por mais intensa que fosse a raiva que consumia seu ser ao escutar aquelas palavras cruéis.

- Lily os apoiará e sempre o repreenderá quando você fizer qualquer objeção ao que as 'pessoas maravilhosas' estiverem fazendo. Compreenda que não haverá uma conversa entre vocês dois que não terminará com algum tipo de censura. Para ela, tudo o que você fizer ou disser será considerado um verdadeiro horror, será ofensivo ou qualquer outra bobagem que ela decida naquele momento. Lily o considerará um mentiroso, um verdadeiro nada.

As frases fluíam sem restrições, carregadas da força avassaladora que poderiam causar em quem as ouvisse. Era cruel. Era a vida real, implacável em suas manifestações mais dolorosas.

Os sentimentos de Severus se entrelaçavam em um turbilhão de emoções. A indignação frente ao tratamento injusto, a mágoa pela falta de compreensão e o fogo da vingança ardiam em seu coração. Ele não poderia simplesmente aceitar aquela situação passivamente; era preciso encontrar uma maneira de provar seu valor e reverter o jogo.

Enquanto encarava Snape, os olhos de Severus brilhavam com determinação. Não permitiria que as palavras cruéis e os julgamentos injustos o derrubassem. Era como se um fio invisível de força e coragem o impulsionasse para a frente, mesmo diante de um adversário tão poderoso e ainda com o rosto não revelado.

Diante do silêncio de Severus, Snape decidiu prosseguir com suas palavras. Ele se negava a permitir que a história se repetisse, que Severus se perdesse em um sonho sórdido e sombrio, uma ilusão de ter encontrado uma grande amizade quando, na verdade, estava sendo usado como uma escada para o benefício alheio.

- Ela demonstrará afeto enquanto considerar você útil para seus propósitos. Lily é mais ambiciosa do que você imagina, e quando perceber que você se tornou um obstáculo em seu caminho, descartará você como se fosse lixo. E o pior de tudo é que ela utilizará dos meios mais baixos para justificar sua atitude e sair impune - disse Snape, soltando a respiração cada vez mais carregada e difícil. Ele reconhecia que nunca havia se perdoado pelas coisas que aconteceram e pelos rumos que sua vida tomou. Era ainda mais difícil confrontar essa realidade quando estava próximo da pessoa que havia causado tamanha dor. Lily não era obrigada a amá-lo, mas não tinha o direito de escarnecer do amor que ele lhe oferecera e nem de participar da pior humilhação que já enfrentara em sua existência.

Severus olhou fixamente para Snape, seus olhos faiscavam com uma intensidade magnética o ódio que experimentava ao ouvir aquelas frases. Ele não conseguia conter a onda de emoções que invadiam seu ser, desafiando-o a se expressar.

- O senhor está profundamente enganado - disse ele, com uma pontada de ironia na voz.

- Posso garantir ao senhor que ela não é assim! Lily é uma menina bondosa, inteligente e bonita. Ao contrário daquela irmã horrorosa e fofoqueira que ela tem.

O ar ficou denso na sala, como se uma faísca pudesse incendiar todo o ambiente. Severus sentiu uma mistura de indignação e frustração correndo em suas veias, como um rio turbulento prestes a transbordar. Seu coração batia descompassadamente, enquanto sua mente se debatia entre a necessidade de se impor e o receio de perder a pessoa que mais lhe importava.

Snape ergueu uma sobrancelha com o sarcasmo mais evidente que o normal, desafiando Severus com um olhar cheio de desprezo.

- É mesmo, gênio? Deixe-me compartilhar mais um segredo com você. Você é especial, enquanto Lily é apenas uma menininha tola e comum. Além disso, meu jovem Kal-El, não se esqueça de que eu sou você no futuro. Portanto, sei muito bem com quem você deseja se relacionar. Lily Evans não será sua amiga, não importa o quanto você se esforce. Seus interesses estão em outro lugar e, em breve, estarão voltados para outra pessoa - afirmou Snape em tom mordaz. Ignorando o protesto de Severus, que não queria dar continuidade àquela discussão incômoda, seu olhar por alguns minutos tornou-se vago e analítico, como se estivesse buscando respostas para suas próprias indagações sem conseguir encontrá-las.

- Se não é ela, quem é a "minha Lois Lane", então? - indagou Severus, suas mãos mergulhadas nos amplos bolsos da calça enquanto caminhava de um lado para o outro, inconformado. Na verdade, estava furioso e seu peito arfava devido à intensidade do momento.

Semelhante a uma raposa aprisionada em uma armadilha, ele se sentia acuado e nervoso, ansiando por culpar a todos por sua desgraça momentânea. Ainda era jovem demais para compreender que era o único mestre de seu destino, e o sorriso malicioso que Snape lhe lançava demonstrava que aquela menina seria apenas uma trilha rumo à sua própria tragédia.

- Hermione... como a princesa filha de Menelau e Helena de Troia ou a rainha de Shakespeare. Conheci-a como Hermione Granger, mas sei que seu verdadeiro nome é Hermione Black. É uma história longa demais para ser contada agora. O que importa é como ela será lembrada daqui em diante e como tudo isso será reconstruído. Foi por causa dela que eu fiz girar o globo terrestre ao contrário, utilizando um Vira-Tempo dos Malfoy, e retornei a este maldito ano de 1967 - respondeu Snape, sua voz carregada de reflexão e dor. Era evidente que ele se considerava o único culpado por toda a desgraça que se desdobrara na vida que abandonara sem olhar para trás.

Pesando cuidadosamente todos os riscos e o alto preço que pagaria por suas mudanças, Snape franziu a testa, preocupado. Ele havia declarado abertamente guerra ao tempo, testemunhando os ponteiros desafiarem-no como um cadáver retaliando uma injúria sofrida.

Cronos, mais uma vez, devoraria seu filho rebelde. O despedaçaria aos poucos, deleitando-se com seu desespero. Faria Snape sentir-se aprisionado novamente, até que se tornasse uma sombra de seus próprios desejos e solidão. Nada poderia impedi-lo de perpetrar tal barbaridade.

Snape se viu, novamente, mergulhado em um inferno ardente. Caminhava entre as brasas e saciava-se da fonte do esquecimento, optando por ignorar que sua magia o definia como um legítimo filho da Terra. Teria que ser forte. Se realmente almejasse alcançar o céu, permitiria que seu núcleo mágico se manifestasse plenamente e o protegesse contra quaisquer fissuras internas.

Ele faria o que fosse necessário, indiferente às consequências. O prêmio supremo era ter sua rainha de volta e simplesmente viver como desejava.

A dor, a vergonha e o ódio por si mesmo eram sentimentos quase palpáveis, tão intensos e nítidos. Eram culpas sufocantes que precisavam ser extintas, como uma chama no meio de uma tempestade, para que Snape pudesse se libertar. Contudo, ele desconhecia se algum dia conseguiria, quando todos ao seu redor se recusavam a encarar seus olhos.

- Dizem que os bruxos enlouquecem quando interferem com o tempo, ao menos é o que minha mãe sempre menciona - expressou Severus, demonstrando preocupação. Embora estivesse tenso e curioso com o desfecho da narrativa, decidiu não fazer muitas perguntas naquele momento. Parecia mais adequado manter-se em silêncio, permitindo que Snape pudesse se recompor. Em um momento mais oportuno, buscaria ver como era aquela moça que o levou, já mais velho, a voltar no tempo e desejar mudar tudo. Que tipo de sentimento o impelia a cometer tal loucura? Seria amor?

Em sua percepção, ainda inocente, aquilo parecia um tormento sem fim. Uma insanidade incompreensível que indicava a existência de algo mais triste e opressivo. Os impulsos de seu próprio ser eram poderosos e tortuosos, revoltando-o a ponto de enlouquecê-lo em momentos de fraqueza.

Sentimentos intensos e sufocantes começaram a inundá-lo de remorso e angústia. Um ressentimento tomou conta de sua alma, dirigido a todos aqueles estranhos, a quem prematuramente acusava por sua própria devastação. Novamente, ele precisava conter toda a ira que voltava a crescer em seu peito.

Enquanto continuava a caminhar em círculos, pensava em todas as formas de vingança futura, expondo as raízes de seu caráter obscuro e sua natureza infernal. Embora Snape negasse, aquela sabedoria contraditória e destrutiva sempre estivera presente, rondando-o, esperando uma oportunidade de se revelar.

- Eileen está correta. Mas eu tenho certeza de que você não enlouquecerá. Não há tempo para esse tipo de futilidade em sua vida. O que importa é que eu decidi mostrar tudo o que ocorreu e quem nos tornamos no futuro de onde venho - afirmou Snape, lançando um sorriso triste e fazendo um gesto para que o menino se aproximasse.

Com uma profunda saudade apertando-lhe o peito ao recordar o rosto de Hermione, Snape sentiu que, finalmente, teria a capacidade de realizar o sublime ato de colocá-la em primeiro plano. Lágrimas embaçaram seus olhos e turvaram sua visão. O sofrimento tornou tudo mais nítido. Tudo estava acontecendo devido à sua vergonha por ter falhado e sido tão egoísta. Se não tivesse sido fraco e tivesse protegido Hermione de verdade, tudo teria sido diferente.

- Penso que, uma vez que se trata da minha própria vida, ao revelar tudo a você, posso reconstrui-la. Assim, tornarei as coisas consideravelmente melhores no futuro - proferiu ele, com a afirmação repleta de tristeza por ter perdido alguém que tanto amava, sem qualquer garantia de reencontrá-la. Sentia-se exaurido. Novamente, via-se carregando o peso do mundo em seus ombros, pronto para escalar novas e desconhecidas montanhas formadas em sua alma.

Outras adversidades apenas o levavam a crer que nada seria fácil, que não teria o direito de vivenciar um breve momento de paz. Por que ainda se apegava à esperança de superar o verdadeiro purgatório que era sua existência e alcançar o Éden? Se fechasse os olhos, tudo o que vislumbraria seriam paredes lisas em chamas, desafiando-o a superá-las.

Aquilo apenas evidenciava o quanto estava mergulhado em um abismo profundo, sendo lentamente sepultado. Apenas suas artimanhas e desejos mais genuínos seriam capazes de ajudá-lo a flutuar como um morcego sobre os fogos corrosivos. Precisava lutar para sobreviver.

Parecia que jamais seria retirado de seu exílio pessoal. Nunca se livraria dos demônios que há tempos habitavam sua alma. De que adiantaria conquistar o mundo inteiro se continuasse a se sentir perdido em meio a um catálogo de erros e decepções constantes? Se já havia perdido sua essência em algum momento, o que lhe restava para resgatá-la?

- De que maneira o senhor pretende fazer isso? - indagou Severus, percebendo de forma peculiar a crescente inquietude e angústia em seu coração. Embora seus poderes ainda não estivessem plenamente desenvolvidos, já conseguia sentir os intensos sentimentos alheios como se fossem parte integrante de sua própria alma. No caso do sofrimento expresso tão abertamente no olhar de Snape, era ainda mais dilacerante.

Era algo que lhe rasgava a carne, atingindo as profundezas de seu espírito, sufocando-o a ponto de quase perder a sanidade e sentir um ímpeto avassalador de derramar lágrimas por tamanha tristeza. Percebia ali que seu único destino era crescer envolvido em aflição e em uma desgraça absoluta. Jamais seria plenamente feliz. Sempre algo importante seria abandonado, tornando-o incompleto.

Estava irremediavelmente condenado, como um náufrago lutando contra as ondas do mar tempestuoso e o prazer destruidor, e continuava a debater-se. Seus demônios, disfarçados de lobos, não o deixariam em paz. Jamais cessariam seus uivos em seus ouvidos, entoando melodias assustadoras. Não o abandonariam, pois sua maior diversão era devorá-lo por completo, consumindo-o internamente.

- Pare! Não permitirei que faça isso! Não tente se passar por inocente, seu insolente. Acha que é capaz de brincar comigo? Que pode testar livremente sua legilimência, invadindo meus pensamentos para descobrir se falo a verdade ou não? - exclamou Snape, seus olhos semicerrados encarando Severus com veneno, enquanto avançava em sua direção, deixando-o atônito.

- Eu... eu não estava agindo dessa maneira, senhor. Peço desculpas! - gaguejou Severus, sentindo-se acuado, como se estivesse encurralado em um canto sombrio.

- Quem sabe eu revele algo que você insiste tanto em ocultar dos demais? Sua maior vergonha e temor - ameaçou Snape, fazendo transparecer no semblante do menino uma expressão confusa e sem saber o que esperar. Não era assim que costumava ser. Sempre fora sensato, até mesmo além do comum para sua idade, mas tudo aquilo lhe escapava do controle.

- O quê? - balbuciou Severus, seu rosto refletindo uma crescente incredulidade. Parecia um tolo, incapaz de articular uma pergunta mais coerente. A situação deslizava por entre seus dedos.

- Que aquele inútil do Tobias tem origem cigana, assim como a maioria dos canalhas que habitam este lugar - revelou Snape, transtornado, fazendo com que Severus se encolhesse levemente. Não seria surpreendente se recebesse um tapa, e ressentia-se com a mera possibilidade.

- Infelizmente, seus olhos, cabelo e essas roupas esfarrapadas entregam quem você é aos olhares mais perspicazes. Embora você não acredite, saiba que somos muito mais do que esses detalhes. Aprenda a aceitar quem você é. Sabe de uma coisa? Torne-se o único mestre de sua própria vida - disse Snape, sem pensar, buscando acalmar-se um pouco e encontrar motivos para sua revolta com o menino. Ele não havia feito nada de errado, apenas agia de acordo com as circunstâncias e não como Snape gostaria que agisse, independentemente do humor sombrio que o dominava.

- Sua contradição é sua força, sua fonte de progresso e destino. Você é inerentemente confuso. Atrai e repele. Ama e odeia. Deixa que razão e emoção entrem em um constante conflito. Tudo isso são impulsos necessários para sua existência, especialmente quando suas feições já o denunciam como uma criatura indomada.

- Qual é a sua idade, senhor? - perguntou Severus, desviando a conversa e dando alguns passos para o lado. A pergunta surgiu insegura, quase sussurrada, como se a voz estivesse presa em sua garganta.

- Eu tenho 37 anos.

- E Hermione? Quantos anos ela tinha? Ela se importava com nossa falta de pureza de sangue? Como ela era? – prosseguiu Severus com suas dúvidas, coçando a cabeça e chutando um montinho de terra que se formara debaixo de seus pés. Ele olhava para Snape, buscando respostas mais claras, melhores do que as que haviam sido ditas até então para sanar as suas crescentes dúvidas.

Ainda não conseguia compreender por que a tristeza o consumia com tanta força, levando-o a morder os lábios para conter a angústia que ameaçava transbordar. O que o perturbava ainda mais era a sensação de desorientação, a incapacidade de saber como reagir toda vez que ouvia o nome dela ser mencionado. Não entendia o que aquilo significava e quais os motivos o levavam a se importar tanto.

Aos poucos, percebia como os sentimentos dos dois se entrelaçavam, solidificando-se com uma intensidade assustadora, como se a barreira temporal que os separava fosse inexistente.

Snape, por sua vez, compreendia o peso que todas aquelas informações representavam para uma criança. No entanto, não havia alternativa mais eficaz. Ele precisava prosseguir até o fim para que seu plano tivesse êxito.

- Hermione tinha 18 anos quando faleceu. Era uma pessoa extremamente inteligente e honesta. Embora fosse teimosa e, às vezes, uma peste na infância, era uma jovem incrivelmente doce. Nunca havia conhecido alguém assim, e em diferentes circunstâncias, poderíamos ter sido apenas amigos - confessou Snape, fazendo uma pausa. Seu olhar se voltava reflexivamente para um passado que pertencia somente a ele, mas que agora teria que compartilhar. Era um tesouro precioso sendo desvelado para que seu desejo pudesse prevalecer.

- As coisas foram acontecendo, e quando percebi, estava disposto a me ajoelhar diante dela, se assim ela quisesse. A amava mais do que tudo. Hermione pouco se importava com minha origem ou com este lugar horrível, mesmo sendo uma menina rica. Ela era minha rainha, entende? Quando a via, era como se estivesse diante da Estrela Polar, realizando meu maior sonho. Tudo parecia, finalmente, estar em seu devido lugar.

Num tom confessional e com os olhos marejados novamente, a dor se tornava insuportável de carregar. Precisava desabafar, compartilhar aquele sentimento dilacerante para reunir as forças e a coragem necessárias para seguir adiante.

- Entendo... - sussurrou Severus, abaixando a cabeça e dando um leve tapa no braço de Snape, como se buscasse confortá-lo. Sentia-se perturbado pela trágica morte daquela jovem. Mesmo sem conhecê-la, era angustiante perceber que ela havia partido tão cedo. Possuía um futuro promissor pela frente e não merecia ter tudo encerrado de forma tão abrupta. O pior de tudo era que a magnitude de seu sofrimento indicava uma morte terrível. A empatia brotava em seu coração, fazendo com que uma nova chama de determinação e justiça ardesse dentro dele.

- Se quiser saber, ela apreciava nossas sobrancelhas grossas e aqueles dois pequenos diabinhos que temos em lugar dos olhos. Se eu os fechar agora, ainda posso vê-la encarando-os, fascinada. Ela sempre notava como eles se escondiam, como espreitavam desconfiados de tudo ao redor e como se agarravam, impedindo que as janelas de nossas almas se abrissem para o mundo. Minha Hermis foi a primeira a perceber isso e sempre sorria ao dizer que meus pequenos demônios voltavam para espionar cada detalhe, sem se anunciarem.

Os dois sorriram melancolicamente ao mesmo tempo, compartilhando a sincera constatação. Enquanto Severus permanecia em silêncio, atentamente ouvindo, Snape prosseguiu com seu relato, reconhecendo a importância de apresentar os detalhes relevantes antes de revelar a história completa, sem omitir nada.

- Inventei diversos apelidos para expressar todo o amor que sentia por ela. Embora nosso casamento tenha sido imposto e nossos sentimentos tenham crescido devido à convivência, eu me sentia profundamente grato por ser merecedor de seu afeto. Especialmente pelo dom que ela possuía de suavizar meus pequenos diabretes e fazê-los abandonar o mau humor.

O olhar de Snape estava perdido, envolvido em memórias íntimas enquanto compartilhava sua história. Mesmo tentando conter as lágrimas, algumas escaparam de seus olhos, revelando a intensidade de suas emoções. Ele não havia tido tempo suficiente para refletir sobre a necessidade de desabafar tudo aquilo e livrar seu coração da mágoa. Agora, naquele momento, sentiu-se compelido a falar sobre tudo que o sufocava.

- Ela era a única no mundo capaz de transformá-los em seres inocentes e confiantes... roubava a eterna carranca de um vira-lata injustiçado e obscuro. Aos olhos de Hermione, eu não era um homem malvado e indigno. Ela me enxergava como um verdadeiro príncipe e tratava-me com respeito, mesmo nos tempos em que éramos apenas estranhos um para o outro.

Com as sobrancelhas franzidas pela decepção e tristeza, Severus fitava Snape com intensidade, abaixando o rosto para encarar o chão. Sentia-se profundamente comovido, compreendendo plenamente o significado desse sentimento. Era um dos raros desejos constantes de Severus: ser amado e compreendido. Sonhava com o dia em que encontraria alguém que o visse como um ser humano e não como um indigente. Hermione era o universo a ser desvendado, e ele a perdeu. Como poderia resgatar essa promessa, seguindo por um caminho bom e justo? A incerteza o dominava, mas uma chama de esperança ainda ardia dentro de seu peito, alimentada pela memória do amor que compartilharam.

- Hermione o amava, e o que aconteceu é uma tragédia, senhor. Sinto muito.

Severus soltou a respiração que estava presa em seus pulmões e sentou-se ao lado de Snape. Com um amargo nó na garganta, segurou firme a mão de Snape para transmitir segurança, demonstrando que tudo daria certo.

Assim, os dois permaneceram em silêncio por um longo tempo, olhando para o vazio. Precisavam daquela pausa momentânea para se reequilibrarem e prosseguirem com a conversa.

Enquanto buscava confortar Snape em meio a uma dor absoluta, Severus inadvertidamente proporcionava-lhe a convicção necessária. Aquele era o momento exato para começar a narrar tudo o que o menino precisava saber. Severus merecia receber o conhecimento sem restrições, como desejava, e assim seria.

- Não sei se "amor" é a palavra certa. Era algo muito mais profundo. Reflita! Nós nos admirávamos intelectualmente. Foi Hermione quem me libertou do prazer sinistro que eu sentia ao causar repulsa nos outros. Ela acabou com minha insistência em me degenerar pelo ressentimento. Também me mostrou que não preciso ouvir os mortos nem perambular pelo inferno para estar vivo.

Snape fez uma pausa na narrativa, respirando pensativamente antes de prosseguir do modo que considerava mais adequado.

- Embora acredite que ela estivesse profundamente enganada nesse ponto específico. Eu quero e preciso ouvir os mortos. Quem, além deles, poderia dizer para onde estamos indo? Quando a natureza nos obriga a respirar o enxofre para nos mantermos motivados, não há outro caminho. A escuridão úmida das masmorras me consola e me chama constantemente. Não conheço outra forma de sobreviver. É por isso que Hermione era e sempre será tudo.

Snape reforçou suas ponderações anteriores, correspondendo ao aperto de mão recebido de Severus, enquanto seus olhos percorriam as paredes da casa. Imerso em seus próprios pensamentos sombrios, ele mergulhava em águas profundas e obscuras. Sua falta dilacerante preenchia sua vida, cegando-o para toda a luminosidade da razão, tornando-o um fantasma do que um dia fora e reduzindo-o ao nada que sempre temera ser.

- O senhor vai me mostrar tudo o que aconteceu? Tudo mesmo? Inclusive o que levou à morte de Hermione?

Sentado ali, Severus encarava Snape com profunda atenção e temor, piscando lentamente os olhos. Havia muito mais escondido nas palavras do que estava sendo revelado. Ele previa que uma estranha tempestade se aproximava, deixando um rastro de folhas e destruição antes de partir, abandonando-o imerso no caos e na insegurança, sem saber como reagir. O coração de Severus estava tomado por uma mescla de medo e curiosidade, uma ânsia incontrolável de conhecer a verdade que, ao mesmo tempo, lhe causava uma angústia indescritível. Sabia que, uma vez desvendados os segredos obscuros, sua vida nunca mais seria a mesma.

- Sim, farei isso.

- Há coisas terríveis? Quero dizer, coisas realmente horríveis, além da morte dela?

Os olhos de Severus brilhavam com uma mistura de inocência e crescente medo, ansiosos por descobrir o que estava por vir. Ele não se importava com a resposta seca de Snape; havia muito a ser ouvido e nada o faria desistir de obter a verdade completa. Era uma necessidade premente.

- Como somos a mesma pessoa, com idades diferentes, eu sei que você já testemunhou coisas que deixariam homens de 60 anos horrorizados. Portanto, você verá tudo, sem restrições. Mas deixe-me avisar, há coisas extremamente pesadas. Não se engane pensando que se tornou um ser celestial, porque isso nunca aconteceu e, creio eu, jamais será possível. Nunca tive vocação para ser herói.

Levantando-se para se sentar de frente para Severus, Snape fitou-o intensamente nos olhos. Era crucial estudar e compreender cada uma das reações do menino ao ser encarado dessa maneira. Torcendo a boca em sinal de desconforto, aproximou-se um pouco mais. Sabia que seria muito mais difícil do que imaginava, mas não desistiria. No final, tudo daria certo.

- Como vamos proceder?

- Use a varinha. Aponte para minha cabeça e diga "Legilimens". Sei que ainda não domina completamente sua legilimência para acessar minha mente sem o uso de feitiços. No entanto, tome cuidado!

Os olhos de Severus permaneceram fixos em Snape, que desviava o olhar, incerto sobre o que fazer. Ele tinha dúvidas e inseguranças. Aquela seria a primeira vez que empunharia uma varinha. Não tinha certeza se seria capaz de executar um feitiço tão complexo. Eram muitas coisas para pensar ao mesmo tempo, muitos detalhes para assimilar de uma só vez.

- Posso garantir que, com o tempo, você não precisará mais da varinha para realizar essa tarefa. Você se tornará muito habilidoso nisso.

Cada vez mais ansioso, Severus esfregava as mãos, tentando aliviar a tensão que o consumia. A cada minuto que passava, era ainda mais difícil se concentrar, pois o nervosismo aumentava, tomando conta de seu ser. Ele sabia que estava prestes a enfrentar uma situação crucial, uma encruzilhada em sua vida. O peso do destino pesava em seus ombros, ameaçando derrubá-lo a qualquer momento. Era uma batalha interior intensa, uma guerra entre o dever e a paixão, entre a razão e a emoção.

Os sentimentos contraditórios o assolavam, formando uma tempestade em sua alma. A incerteza martelava em sua mente, como um corvo negro bicando incessantemente seus pensamentos. Ele se perguntava se estava tomando a decisão certa, se estava seguindo o caminho correto.

- Antes de prosseguirmos, senhor, há mais uma coisa que preciso que responda. - disse Severus com uma expressão de dúvida, interrompendo o fluxo esperado da conversa. Era como se o tempo se distorcesse, criando uma tensão palpável no ar. Snape, por sua vez, ergueu uma sobrancelha, mantendo-se em silêncio, à espera de uma explicação.

Severus hesitou por um momento, sentindo o peso da incerteza pesar sobre seus ombros. Ele sabia que a resposta poderia mudar tudo, poderia desencadear uma série de eventos incontroláveis. A dúvida pairava em sua mente como uma sombra ameaçadora, trazendo à tona todos os seus medos mais profundos.

- Diga - falou, fazendo um gesto com a cabeça para encorajar Severus a expressar suas preocupações. Incerto e com o coração acelerado, ele sentia o temor sufocá-lo, enquanto seus instintos alertavam para algo terrível que se aproximava. Seu núcleo mágico parecia sinalizar o que estava por enfrentar em breve.

Com um suspiro nervoso, saindo do fundo do seu ser, Severus reuniu toda a coragem necessária para formular a pergunta que tanto o atormentava. Sua voz, embora firme e decidida, revelava uma fragilidade oculta, um misto de fantasia e temor.

- O que acontecerá depois que me contar? O que será de nós, de tudo o que conhecemos? – indagou, com os olhos arregalados e brilhantes pela inquietação. Nunca imaginara sentir tamanha angústia por causa de alguém, muito menos, sentir o seu peito arder na fogueira da indecisão que surgia em seu peito.

Se pensasse em todas as pessoas que algum dia se importou, o único nome que lhe surgia era o de Eileen, mas por ela, os seus sentimentos eram voltados principalmente à revolta, à frustração constante e uma profunda sensação de impotência. No entanto, por Snape, ele sentia medo, não pelo que era, mas pelo que pretendia ser.

Snape deu de ombros, impassível às reações de Severus e indiferente ao próprio destino. Estava insensível diante do que teria que fazer em seguida. Já se condenara e não enxergava outro caminho além daquele. Partiria de si mesmo honrosamente, sem deixar rastros de sua passagem.

Com os seus olhos fixos em Severus, como se lessem cada pensamento e temor que atormentavam sua mente. O silêncio que se seguiu foi carregado de tensão, como um fio prestes a se romper.

- Severus, a resposta para essa pergunta é tão imprevisível quanto o próprio destino - respondeu Snape, com uma pitada de ironia em sua voz. Era como se ele soubesse de algo que não estava disposto a revelar.

Severus sentiu um arrepio percorrer sua espinha, suas mãos tremendo ligeiramente. As palavras de Snape apenas alimentavam suas dúvidas e inseguranças, deixando-o ainda mais perdido em um mar de possibilidades assustadoras.

Enquanto ambos permaneciam em silêncio, o peso do desconhecido pendia sobre eles, como uma espada de Dâmocles prestes a cair. Eles sabiam que estavam diante de uma encruzilhada, onde cada escolha poderia trazer consequências inimagináveis.

Os olhos de Severus procuraram respostas nos de Snape, desejando desvendar os segredos escondidos por trás daquela expressão imperturbável. Cada gesto, cada movimento, tornou-se uma pista para decifrar o enigma que os envolvia.

No entanto, Snape permaneceu calado, mantendo suas emoções escondidas, como um jogo de xadrez onde cada movimento era calculado. A tensão no ar era quase palpável.

- O senhor vai morrer? É isso? - indagou Severus, com os olhos arregalados, tomado pelo completo nervosismo. A recusa em aceitar aquela decisão o dominava, e ele faria o possível para convencer Snape a recuar daquele destino horripilante. Jamais seria covarde a ponto de desistir de uma batalha, mesmo sabendo que já estava perdida antes mesmo de começar. Não se rebaixaria ao ponto de se entregar de forma tão vil e baixa. Como poderia se render quando era o praticamente o senhor do tempo?

- Não pode haver dois Severus Snape no mundo, e nessa nova realidade seria absurdo. Certamente, não voltarei no tempo aos 37 anos. Estarei feliz ao lado de Hermione e dos meus dois filhos. Sinceramente, não me importo se minhas ações incendiarão o mundo bruxo! Pois, não tenho qualquer consideração pela maioria das pessoas que nele habitam. Entenda, não existe vida nem felicidade sem Hermione ao meu lado. Não consigo me imaginar sem a possibilidade de abraçá-la e sentir seu cheiro de baunilha e morango. Repito, ela é a única razão pela qual estou fazendo isso - explicou Snape, revelando seus planos e aspirações com clareza. Instintivamente, ele passou a mão no rosto de Severus e o abraçou com força. Um gesto que representava o que sempre desejara receber de seu pai, mas Tobias nunca fora capaz de ter qualquer atitude minimamente carinhosa.

Naquele abraço, um mar de sentimentos se encontrava. A necessidade de afeto, a carência de uma figura paterna, a dor de uma infância desprovida de gentileza. O ódio por Tobias Snape era mais forte do que qualquer outro sentimento, e, se todas as coisas se modificassem para sempre, começaria a partir daquela demonstração de afeto. Severus era pequeno demais para não ser tratado com algum tipo de consideração e gentileza. O aperto do abraço transmitia o quanto ele se sentia necessitado de um pouco de carinho.

- Não existirá ninguém além dela? - perguntou Severus abafadamente, confortado pelo abraço, mas ainda intrigado com aquele gesto e com a vida miserável que o aguardava. Como era desgraçado viver tão solitário e desesperado por amor? Sentia pena de si mesmo por ser tão solitário e depressivo.

- Você verá. Há pessoas extremamente importantes que você amará muito. Sei que também as protegerá e fará de tudo para que sejam felizes. Preste atenção aos detalhes, aos sinais, àqueles que estarão dispostos a ajudá-lo sem pedir nada em troca. Por mais difícil que seja, confie - respondeu Snape, soltando Severus e dando-lhe um leve tapa no ombro, transmitindo segurança em relação ao que viria a seguir. Seu olhar era determinado, mostrando que havia feito sua afirmação e tomado sua decisão.

- O destino estará em suas mãos. Como eu já disse, seja o único e verdadeiro mestre de sua vida, Severus. Então, vá atrás de quem possa ajudá-lo e de quem demonstre gostar de conversar com você. Isso é o que eu aconselho. Antes de partir, quero levá-lo a um lugar para que conheça alguém. Está de acordo?

Na verdade, depois de terminar de falar, Snape não queria ter que levar Severus à força para encontrar um estranho. Isso poderia gerar ainda mais traumas do que os que ele já possuía, e não queria ser responsável por mais perturbações em seu inconsciente no futuro, nem por uma quebra de confiança em seus próprios atos.

- Sim, eu irei com o senhor e estou pronto. O senhor também está?

Embora ainda estivesse pensativo, Severus não estava disposto a demonstrar qualquer traço de incerteza em relação ao convite estranho que acabara de receber. Não deixaria Snape decepcionado ao recusar aquela oferta, mesmo que algo nela lhe trouxesse uma estranha sensação de perigo. Não queria que o visse como um covarde, especialmente quando apenas estava confuso e tentando decifrar os poucos sinais que, vez ou outra, apareciam diante dele.

- De fato, estou preparado. Prossiga - afirmou Snape.

- Legilimens! - sussurrou Severus em um tom carregado de significado e determinação.

A vida inteira de Snape girou diante de seus olhos. Cada lágrima e cada sorriso, suas inúmeras decepções e algumas conquistas. A violência, as mortes, as perseguições, o sexo, os amores e os raros momentos de felicidade. A partir daqueles intensos minutos, tudo se alterava indefinidamente e não havia mais retorno.

Isso fez com que, aos poucos, os olhos de Severus, antes de obsidiana, se tornassem ônix, perdendo o brilho intenso e puro. A inocência estava morrendo em seus olhos, apagando-se como os vagalumes desorientados pela fumaça e toxinas das fábricas. Nunca mais voltaria a ser quem fora um dia.

Uma parte essencial de sua identidade havia morrido ali.