Severus caminhava perdido, atordoado com os terríveis e indescritíveis coisas que havia presenciado. Seu coração pesava como chumbo em seu peito, e cada passo era um esforço árduo. Mesmo tendo testemunhado tantas atrocidades ao longo de sua curta vida, aquela nova carga era avassaladora para sua mente, envolvendo-o em uma escuridão opressora.

Enquanto seguia em frente, ele friccionava as têmporas, tentando dissipar a perturbação que o dominava. Nada parecia fazer sentido, e sua cabeça latejava intensamente, como se mil tambores ressoassem em uníssono, martelando seus ouvidos. Era hora de refletir profundamente, com a serenidade necessária para enfrentar aquele momento obscuro.

Pouco a pouco, seus pensamentos foram se organizando, de forma lenta e precisa, como se estivessem encaixando as peças necessárias em uma engrenagem perfeita. Ele armazenava os detalhes mais importantes, quase mecanicamente, para que nenhuma lembrança se perdesse com o tempo. Cada fragmento de informação era um fio de esperança em meio à escuridão que o envolvia. Se fosse impossível fazê-lo, não havia razão para tanto esforço, mas ele estava decidido a encontrar um sentido em tudo aquilo.

Ao mesmo tempo, Snape observava-o atentamente, aguardando perguntas ou reações mais intensas. No entanto, tudo o que recebeu foi um mórbido silêncio e a extinção do fogo negro em seus olhos. Ele havia libertado todos os seus demônios, mas agora não sabia como controlá-los para evitar que incendiassem tudo ao seu redor. O desespero de Snape aumentava a cada segundo, percebendo que havia mergulhado Severus em um oceano profundo de dor e confusão.

Os demônios de Severus estavam ocultos, refletindo sobre como lutariam por sua própria sobrevivência e se livrariam da dor que sentiam. Sua alma, dilacerada por inúmeras perdas e traições, agora transbordava de angústia e luto. Aquele era um momento de escuridão profunda, onde a dor parecia insuportável.

- Severus? Não precisa se esconder nem se envergonhar do que está sentindo agora... - disse Snape, com a voz carregada de compreensão e preocupação.

- Lembre-se de que nós dois somos a mesma pessoa. Não tente negar quem você é e o que deseja, mesmo que acredite ter motivos...

No entanto, tudo o que recebeu em resposta foi um silêncio profundo e absoluto. A resiliência de Severus mostrava-se maior do que ele jamais imaginara, o que o preocupava profundamente. Aquela atitude severa e introspectiva de Severus despertava inúmeras dúvidas em Snape sobre sua própria conduta. Ele percebeu, naquele momento de introspecção, que moldar, influenciar, reeducar e doutrinar alguém era mais agressivo, selvagem e cruel do que jamais imaginara. Ele havia tratado a si mesmo como um mero objeto, um quadro em branco absoluto onde uma nova história pudesse ser escrita a seu bel-prazer. A culpa e o remorso começaram a corroer seu coração, enquanto ele refletia sobre suas ações e as consequências inevitáveis.

As lágrimas corriam pelos olhos de Snape, buscando alívio para as mágoas e a carga que pesava em sua alma. Ele desejava ardentemente que Severus compreendesse o óbvio, algo que nem mesmo ele havia considerado até então. Hermione era sua maior esperança e, ao mesmo tempo, sua maior tristeza. O luto constante que ele carregava tinha uma forma concreta, com carne, ossos, sentimentos e um nome.

A lembrança do rosto de Hermione torturava Snape pela culpa que o consumia. Ele lamentava profundamente não ter tido a oportunidade de dizer adeus e expressar o quanto sentiria saudades. A dor da perda e o peso de não ter se esforçado o suficiente para protegê-la dos horrores da guerra e, acima de tudo, da loucura de sua própria mãe o dilaceravam.

No entanto, o que via nos olhos de Severus era uma decepcionante frieza e indizível indiferença. Ali havia uma raiva que mostrava como se algo tivesse sido desfeito. Era belo e triste como lágrimas na chuva ou gotas de orvalho sob o sol da manhã. Tudo parecia estar perdido. Snape questionava a si mesmo se a exposição a certos cenários havia sido realmente necessária. Se aquele absurdo não se apagaria com o passar dos anos. Mesmo depois de tanto tempo, ele ainda persistiria nas profundezas da alma.

Teria ele se transformado em seu pior inimigo? Suas ações realmente fariam alguma diferença em sua vida se ele soubesse tão cedo o que seria capaz de fazer? Estaria ele se autodestruindo ou criando artifícios e caminhos para seu próprio crescimento? Será que ele acabara de assumir o lugar de Tobias como o responsável pela destruição completa de sua própria infância? Seria ele o vilão de sua própria história?

- Severus? Não tente ser um maldito duende de virilha. Acredito que seja muito mais esperto do que esses truques banais. Diga alguma coisa! - chamou Snape pela segunda vez, com uma voz incisiva, buscando o olhar do menino.

Conseguindo arrancar Severus de suas profundas reflexões, Snape finalmente obteve a atenção esperada. Embora o menino o encarasse com determinação, ainda pensava em como agir dali em diante. Sua mente ainda estava abalada com toda aquela perturbação. Sentia-se irremediavelmente arruinado, como se as cicatrizes em sua alma se tornassem cada vez mais profundas e insuperáveis.

Por mais triste e desorientado que estivesse, Severus não se permitiria mostrar fraqueza. Ele jamais cederia, não diante daquele homem que lhe inspirava medo e fascínio. E certamente não perante si mesmo. Sua determinação ardente era uma armadura que o impulsionava a seguir em frente, mesmo que tudo ao seu redor estivesse em ruínas.

Ainda sem responder, Severus continuou a encarar Snape com seriedade. Ele, compreendendo que aquele silêncio não seria quebrado por perguntas, decidiu seguir adiante com o que tinha a dizer. Precisava romper aquela perturbadora taciturnidade.

Em algum momento, Severus teria que falar, desabafar tudo o que o afligia. Teria que reagir para que os sentimentos negativos parassem de corroer e destruir tudo ao seu redor. Ou ele permitiria que isso continuasse se prolongando? Não era de sua natureza ficar calado diante de suas próprias dúvidas. E certamente não deixaria as coisas continuarem tão confusas e sem resultados.

Snape esperava ansiosamente que Severus o questionasse, como qualquer criança curiosa que não consegue mais conter as indagações que surgem em sua mente. O menino precisava apresentar alguma reação, por pior que fosse, para que tudo ficasse bem e a consciência de Snape se acalmasse. Era difícil compreender o significado real daquela quietude que o torturava.

- Como eu já avisei, vou levá-lo a um lugar. Lá, apresentarei alguém muito importante e que será útil aos nossos planos, especialmente ao que desejamos. Você está pronto? - perguntou Snape, caminhando em direção ao menino, determinado a levá-lo o mais rápido possível. Apesar de sua postura aberta e receptiva, ele não aceitaria uma negativa. Não daria espaço para que Severus desistisse e revelasse seu desejo de não ir a lugar algum. Snape estava dividido entre o dever e a transgressão, e a culpa pelo que fizera sussurrava em sua consciência.

- Vamos. Mas posso saber quem iremos encontrar, senhor? - questionou Severus com apreensão nos olhos, apertando os lábios finos num gesto hesitante. Sua necessidade de respostas estava começando a ressurgir, mas o peso das informações que havia recebido o deixava enjoado e doente. Ele precisava de tempo, algo que não possuía.

Snape nada respondeu. Encarando-o com um semblante inexpressivo, assustou Severus e deixou claro que aquela carranca soturna e vampiresca não desapareceria. Nem mesmo sua timidez, que parecia criminalmente vulgar, o abandonaria. Mesmo que mil anos se passassem, ele continuaria parecendo hostil aos outros.

- Saiba que posso ser viciosamente insensível e posso ler seus pensamentos. Portanto, desista - afirmou Snape com uma frieza cortante, aumentando ainda mais a tensão no ambiente.

Segurando firmemente o braço de Severus, Snape desaparatou com uma força determinada, levando-os em um turbilhão de movimento pelo tempo-espaço. Borboletas de luz e cores se mesclavam em um caleidoscópio desordenado, onde o mundo se transformava em uma névoa frenética. Os segundos se tornaram milésimos, e quando a aparatação finalmente cessou, eles chegaram ao lugar mencionado.

Severus, ainda tonto e desorientado, olhou rapidamente ao redor e percebeu a sinistra e ameaçadora construção e seu jardim. O local estava mergulhado em sombras, e o pensamento de como voltar para casa o assaltou. Seus sentidos aguçaram-se diante daquele cenário, e o horizonte que se revelava era mais sombrio e assustador do que tudo o que ele já havia presenciado. Por mais corajoso que fosse, suas mãos suavam frio. Sentindo-se assustado e sozinho, ele permitiu-se agarrar o braço de Snape com força, buscando segurança e conforto naquele momento de incerteza e temor.

Cada passo dado intensificava o frio cortante que percorria sua espinha. Apertando com veemência o pulso de Snape, ele o seguia, sentindo o medo pulsar em suas veias, aquecendo-se como brasas a cada batida do coração. Homens trajados de preto, encapuzados da cabeça aos pés, cercavam o local, criando uma atmosfera de seita ou grupo genocida. As intenções de Snape tornavam-se ainda mais suspeitas diante daquela sinistra presença.

Num lampejo de lucidez, Severus arregalou os olhos e tentou puxar Snape para trás. Reconheceu os temidos Cavaleiros de Walpurgis, figuras quase míticas no mundo bruxo. Pouco se sabia sobre eles, além das histórias e rumores que ecoavam nos corredores dos prédios e nas ruas. Aquela visão trouxe uma onda de pavor, pois eles eram considerados inspirações para aqueles que seguiam os ideais de Lord Voldemort. Snape, no entanto, parecia tranquilo, ignorando ou fingindo não se importar com quem estivesse lidando, saudando a todos com naturalidade.

Isso deixou Severus em dúvida. Em suas memórias, Snape era um Comensal da Morte, e os Cavaleiros de Walpurgis eram apenas um símbolo, um exemplo distante e glorioso. Mas ali estavam eles, tangíveis e reais. Não podia acreditar que Snape se submeteria a algo assim.

- Senhor... - sussurrou Severus, com os olhos arregalados, puxando Snape para que lhe desse ao menos um pouco de atenção.

- Fique calmo - respondeu Snape automaticamente, sem olhar para baixo, apertando levemente a mão do menino, na tentativa de acalmá-lo.

Aguardando alguns minutos até que seu acesso fosse liberado, Severus observou atentamente os detalhes do espaço que percorreriam antes de entrarem no prédio. Era evidente que ali estavam reunidos os homens da mais alta confiança do Lorde das Trevas, aqueles que jamais abandonaram sua causa e o apoiavam incondicionalmente desde os tempos de Hogwarts. Estavam praticamente todos ali.

Com a respiração entrecortada e acelerada, Severus continuava à beira do pânico. Seu coração batia descompassado, a visão embaçada, os joelhos trêmulos, e a sensação de impotência o envolvia por completo. Ele estava prestes a ficar frente a frente com Voldemort, sem qualquer chance de se defender.

- Deixe de pensar bobagens. Posso garantir que ele não fará nada contra você - rosnou Snape impaciente, puxando-o para continuar, sem se importar com as pernas trêmulas do menino.

Mas as palavras de Snape não foram suficientes para acalmar a tormenta que se instaurava no peito de Severus. Cada passo em direção ao encontro com o Lorde das Trevas era um fardo insuportável. O suor frio escorria por sua testa e a ansiedade o consumia como chamas vorazes.

Os olhos de Severus buscaram os de Snape, suplicando por respostas que transcendessem as simples palavras. Havia um misto de medo e desespero em seu olhar, como se estivesse à beira de um abismo sem fundo.

- Por favor, senhor, eu... Eu não sei se sou capaz de enfrentá-lo - sussurrou Severus, sua voz trêmula ecoando naquele espaço impregnado de maldade.

Snape encarou o menino com intensidade, seu olhar contendo um turbilhão de emoções ocultas. Por um breve instante, uma fagulha de compaixão pareceu iluminar sua expressão gélida. No entanto, antes que pudesse responder, os olhos de Snape endureceram, dissipando qualquer sinal de vulnerabilidade.

- Severus, você precisa acreditar em sua força interior. Nós estamos juntos nessa jornada, e eu não permitirei que nada te aconteça. Você é mais corajoso do que imagina, e eu posso garantir que é capaz de enfrentar o indizível. Confie em mim, confie em si mesmo. Você já sabe muito bem quem irá se tornar - disse Snape com uma determinação que ecoava como um juramento solene.

As palavras de Snape penetraram fundo no coração de Severus, como uma centelha de esperança em meio às sombras opressoras. Ele sentiu um lampejo de coragem emergir de dentro de si, uma chama frágil, porém resiliente.

- Está bem, senhor. Não importa o que aconteça, não importa o que esteja reservado para mim, eu confio no que diz - declarou Severus, erguendo o queixo e firmando seus passos com renovada determinação.

Enquanto avançavam pelo corredor sombrio, os dois compartilhavam um olhar que transcendeu as palavras. No fundo, Snape sabia que a coragem de Severus era uma forma de tentar não lhe deixar frustrado, mas a verdade é que no fundo ele sentia uma ansiedade avassaladora. Sem ter noção do tempo que havia transcorrido durante o trajeto ou de quanto mais teriam que caminhar, ele seguiu ao lado de Snape pelos corredores sussurrantes de maldições. Um vento cortante e inexplicável tentava retardá-los, mas não conseguiu impedi-los de entrar na sala mal iluminada.

As chamas avermelhadas do fogo projetavam sombras fantasmagóricas nas paredes, tornando o ambiente ainda mais sinistro. O odor de umidade e sangue impregnava tudo, do piso às paredes e móveis, causando náuseas e tonturas em Severus. Ele sabia que aquele lugar só significava sofrimento e morte. Sua vida, a partir daquele momento, seria um verdadeiro horror.

Sem proferir uma palavra, Snape se curvou automaticamente diante da figura mórbida que emergiu da escuridão e parou à sua frente. Mantendo os olhos fixos no chão, ele permaneceu com a postura reverentemente. Voldemort, por sua vez, encarava-o com um olhar de profundo interesse e curiosidade. Seus olhos vermelhos como sangue e suas feições distorcidas pareciam iluminar-se gradualmente enquanto examinava Snape. Era uma análise quase animalesca, como a de um predador prestes a atacar, com marcas afundadas e traços retorcidos em seu rosto semelhante a uma máscara grotesca.

Não era à toa que ele se entregara às artes mais sombrias, profundas e solenes das trevas. Aquele ódio parecia alimentá-lo, e sua magia era intimidante. Parecia se deleitar com a criação de uma atmosfera opressiva ao seu redor. Certamente, aquela era sua ideia de um mundo perfeito.

Severus sentiu um arrepio percorrer seu corpo ao ser alvo do escrutínio do Lorde das Trevas. O peso de seu olhar penetrante parecia desvendar cada segredo, cada fraqueza, cada medo que residia na alma do jovem bruxo. O seu coração pulsava descompassadamente, como se estivesse prestes a ser arrancado de seu peito a qualquer momento.

O silêncio na sala era torturante, apenas interrompido pelo crepitar das chamas e pela respiração entrecortada de Severus. A escuridão parecia ganhar vida, envolvendo-os em um abraço sufocante. Severus sentiu-se pequeno e insignificante diante do poder avassalador do Lorde das Trevas.

Finalmente, após uma eternidade que durou apenas segundos, Voldemort quebrou o silêncio com uma voz fria e penetrante:

- Severus Snape... Você se aproximou muito de Dumbledore, traiu seus princípios e agora volta a mim. Mas será que posso confiar plenamente em você? Será que você é realmente digno de minha confiança?

As palavras ecoaram na mente de Snape e de Severus como um trovão ensurdecedor. Snape sentiu sua lealdade sendo posta à prova, sua fidelidade balançando em uma corda tensa. A dúvida o assaltou, corroendo suas convicções e deixando-o vulnerável. No fundo, ele sabia que estava prestes a enfrentar um teste decisivo, um momento que definiria seu destino e o futuro do mundo bruxo.

Com voz trêmula, Snape respondeu, lutando para manter a compostura diante daquele olhar implacável:

- Milorde, minha lealdade é inabalável. Fui e sempre serei seu fiel servo. Estou disposto a provar meu valor e minha devoção, a enfrentar qualquer desafio que o senhor me apresentar. Confie em mim, e eu lhe mostrarei o verdadeiro significado da lealdade.

Enquanto isso, a cabeça de Severus latejava e doía como se estivesse sendo minuciosamente examinada, provocando um sorriso sádico no Lorde das Trevas. A mente do menino parecia um verdadeiro parque de diversões para aquele homem de olhar venenoso.

- Milorde... me ouça - chamou Snape, enrijecendo o corpo e fingindo ignorar o que acontecia ao seu lado, mantendo-se firme com os olhos fixos no chão. Interrompendo aquela tortura desnecessária sem dar espaço para contestação, ele sabia que estava sendo testado.

- O que exatamente você deseja? Pelas poucas coisas que pude vislumbrar na mente desse jovem rapaz, você veio do futuro e possui um vasto conhecimento sobre duas guerras. Não é verdade, meu grande amigo e meu tão fiel servo? - a pergunta, envolta em uma voz assustadoramente calma e decidida, ecoou pelas paredes. Era como se nada pudesse desviar sua atenção daquilo que, naquele momento, realmente o fascinava. Aquela visita inusitada tornava-se cada vez mais intrigante. Ele aproveitaria ao máximo a presença daqueles dois estranhos.

- Sim, milorde. Estou aqui para relatar todos os detalhes do que ocorreu para o senhor. Acima de tudo, desejo expressar meu profundo arrependimento pelos erros e desvios cometidos. Sinto muito por ter falhado... - Snape fez uma pausa estratégica na narrativa, buscando aproveitar todo o tempo possível para se favorecer antes de enfatizar qualquer coisa. Era necessário valorizar ao máximo seus conhecimentos, a fim de obter tudo o que ansiava e, em seguida, incendiar o mundo inteiro com sua fúria. A chama da vingança queimava intensamente, sem qualquer sombra de emoção ou incerteza, expondo sua indiferença em relação aos outros naquele momento.

- Sobre a primeira guerra, senhor, posso narrar a partir do momento em que me tornei um Comensal da Morte. Quanto à segunda, posso relatar todos os fatos que testemunhei e nos quais participei ativamente.

- Qual foi o preço de tamanha lealdade, Severus? Por que desistiu de Dumbledore? Vejo sinceridade nas suas afirmações de que é fiel a mim. No entanto, como bom Comensal da Morte, você certamente me pediu algo em troca, e eu concordei, não foi? - Voldemort olhou para Snape, que o encarava, e o consentimento foi selado como cúmplices de um crime, apertando as mãos com firmeza.

- Eu prometi expor todo o seu futuro, para que você soubesse o que lhe aconteceria e pudesse evitar qualquer possibilidade de derrota. Isso, é claro, se o senhor não se opuser ao meu desejo de ter minha Hermione de volta. O senhor terá seu Agoureiro com Bellatrix Black. Não permita que ela se case com Rodolphus Lestrange, e menos ainda que o pai dela invente que ela deve se casar comigo ou qualquer outra pessoa.

Pausadamente, Snape destacou aqueles detalhes, pensando em cada passo a ser dado, cada palavra a ser dita, para que nada escapasse de seu controle. Não deixaria qualquer brecha ao fazer suas exigências e observações. Tudo teria que ser claro e específico, a fim de evitar que Voldemort tirasse vantagem de seu desespero.

- Quanto a Dumbledore, meu único motivo para ter me aproximado era ser seu espião.

- Interessante. Como bons amigos que somos, selaremos esse acordo sem qualquer problema, não é mesmo? - o Lorde das Trevas deu alguns passos ao redor de Snape, estudando atentamente sua postura impassível e ereta. Havia algo não dito, um impulso secreto em meio aos argumentos sobre os pontos mais importantes do acordo que estava prestes a ser fechado.

- Milorde, o senhor mesmo me garantiu que, para evitar qualquer ruptura em nosso acordo, faríamos não apenas o Voto Perpétuo, mas também um Pacto de Sangue - disse Snape, com determinação em suas ações, disposto a ir além. Ele seguiria firme em seus propósitos de aliança, como o verdadeiro general que era. Sua arrogância, coragem, imponência e confiança deixavam Severus admirado com o homem que um dia ele se tornaria.

- Penso que sua proposta de troca é bastante justa. Rosier será nosso avalista, e sei que nosso acordo será firmado através do menino. Ele se tornará meu líder mais jovem e meu servo mais fiel. O que acha? Posso dizer que tenho um braço direito que será treinado para me representar na nova posição que adotarei daqui em diante - afirmou Voldemort, virando-se para Severus e o analisando atentamente. Ele enxergava naquela criança um excelente agente que desestruturaria a população bruxa. Embora, naquele momento, Severus não passasse de um menino assustado, ele tinha um futuro.

O Lorde das Trevas podia sentir a força do núcleo mágico de Severus vibrando. Era uma magia fria, trepidante e intensa. A presença dele, em breve, acabaria com qualquer resistência à ascensão de seus planos. Com palavras de ordem e postura de comando, Severus imporia a ideia de que o perigo estava sempre à espreita. A culpa seria atribuída a todos aqueles que se opunham às sábias ideias que estavam sendo propostas.

- Vejo que você é um rapaz muito ambicioso, inteligente e sagaz. Tenho certeza de que punirá severamente aqueles que ousarem nos criticar. No futuro, você se tornará um homem sábio, e eu lhe darei tudo o que desejar. Basta me dizer quais presentes deseja, e eu os entregarei de bom grado, exigindo apenas seu conhecimento em troca - continuou Voldemort, demonstrando que ainda havia muito a ser estudado e treinado ali, para que o menino se tornasse aquilo que ele começava a projetar. Ele precisaria se tornar mais forte e invulnerável para suportar o peso das obrigações que teria.

- Olho para você, meu jovem e novo amigo, e vislumbro um futuro brilhante entre nós. Pense bem, daremos segurança aos sangues puros, e ao meu lado, você será grandioso. Não é isso que todos desejam? O que você tem a temer? Apenas poder e sucesso estão em seu caminho - disse Voldemort, sorrindo maleficamente, estendendo sua mão gélida para que Severus a apertasse.

Com um sorriso cada vez mais aterrorizante nos lábios, ele contemplava todo o cenário de horror que aguardava aqueles que o desafiavam. Cabeças rolariam. O medo os paralisaria, matando suas individualidades aos poucos. A melhor arma seria não atacar os adversários diretamente. Sempre havia pontos fracos a serem explorados, e era exatamente essa perspectiva que o fascinava naquela promessa. A capacidade de identificar as vulnerabilidades alheias, de sondar as brechas ocultas nas personalidades e usá-las a seu favor, era um verdadeiro deleite para Voldemort que Severus possuía.

Isolaria e torturaria cada um de seus oponentes, perseguindo suas famílias e todos aqueles que amassem. Por mais que as esperanças se multiplicassem e se espalhassem como a grama, ele encontraria um método para destruí-las uma a uma, e seria através de Severus que ele teria todas as armas para uma completa dominação. Armas que ele utilizaria até ter certeza de que todos estariam ajoelhados, implorando por sua misericórdia.

Uma densa atmosfera de silêncio envolvia a sala, enquanto Jules Rosier adentrava com desconfiança. Seu olhar inquiridor buscava respostas para os motivos que justificavam tamanha urgência naquela convocação. No fundo de sua mente, pairava a sensação perturbadora de que algo sinistro estava sendo planejado ali, algo que o envolvia diretamente. Uma conspiração em que havia sido arrolado para participar de forma ativa, mas cujos contornos permaneciam ocultos.

Percebendo a ambiguidade na postura de seu aliado tão próximo, Voldemort, com sua sagacidade habitual, decidiu romper o véu do segredo e expor o acordo que estava prestes a ser firmado. O líder sombrio, constantemente sob alerta, ansiava por resguardar-se ainda mais antes de o colocar como o avaliador. Para garantir que nada do que viesse a ouvir fosse revelado a terceiros indesejados, solicitou que lhe fosse obrigatória a concordância quanto ao Fidelius, uma salvaguarda mágica capaz de ocultar as palavras compartilhadas naquela sala dos ouvidos alheios. Afinal, o destino que almejavam construir não podia ser posto em risco por futilidades e deslealdades tolas.

Rosier, consciente do perigo que representava contestar as ordens de um maníaco genocida, concordou tacitamente com tudo o que lhe estava sendo proposto, descendo seu olhar de maneira furtiva. Não seria insensato a ponto de desafiar as vontades do seu líder, pois sabia que a vida de seus entes queridos dependia da sua obediência cega. Acima de tudo, angustiava-se com a possibilidade de aquela criança, cujo sequestro o atormentava, estar presa nas garras perversas dessa trama macabra.

Atentos a cada palavra e gesto, Rosier fez com que Severus e Lord Voldemort, numa ação solene, entrelaçassem firmemente os pulsos um do outro. Enquanto o faziam, contemplaram com olhos penetrantes os fios flamejantes que se formavam a cada promessa proferida, vínculos de fogo que os uniam com inabalável força, confirmando assim o Voto Perpétuo que selava seus destinos. Por breves segundos, que pareciam esticar-se até o infinito, permaneceram ligados por essas chamas ardentes, até que, finalmente, se libertaram, e os fios do juramento se desfizeram, um a um. O primeiro passo havia sido dado, abrindo caminho para o próximo estágio dessa empreitada obscura.

Chegara o momento de fortalecer ainda mais os laços, agora selados não apenas pela palavra, mas também pelo sangue que corria em suas veias, por meio do Pacto de Sangue. Nada era mais poderoso do que um pacto sancionado pela vida, especialmente quando celebrado entre bruxos. Sangue, saliva e sexo, elementos que conduziam aos mais profundos e proibidos feitiços, eram os pilares dessa cerimônia macabra. Eram raros aqueles capazes de desfazer tais vínculos, lançados com tamanha intensidade. Observando as figuras sinistras reunidas na sala, Rosier, num gesto enigmático, fechou os cortes, sentindo uma onda de arrepios percorrer sua espinha. Aquele ritual o deixara ainda mais perturbado do que quando adentrara aquele antro de sombras. Com um passo hesitante, afastou-se, mergulhado em dúvidas sobre o que o aguardava no horizonte incerto, enquanto as engrenagens da trama cinzenta continuavam a girar, enredando a todos em sua teia sinistra

Ainda próximo à porta, fez uma reverência antes de se retirar completamente e seguir com o trabalho que estava realizando anteriormente. Estava chocado. Não imaginava que crianças já estavam sendo convocadas. Aquilo ia além dos limites aceitáveis.

Enquanto isso, Snape, ao ver que tudo se encerrara, já estava prestes a partir. Não havia mais para onde ir ou o que fazer. Seu destino já estava selado. Porém, antes de dar o primeiro passo em direção à porta, foi chamado pelo Lorde das Trevas.

- Eu quero que passe a noite aqui me contando sobre a sua viagem no tempo, e não aceito recusas ao meu convite - Voldemort informou, sem desviar os olhos da lareira. Mesmo que o convite não tivesse sido acompanhado pelo aviso mais direto, Snape acataria. O preço de uma desobediência poderia ser alto demais e reverberar em Severus. Aquilo o preocupava profundamente. Mesmo que pensasse apenas na própria morte, não queria que o menino sofresse com suas rebeldias.

Ao mesmo tempo, Snape via ali uma oportunidade de colocar outros planos em prática. Fingindo refletir quanto à proposta, aceitou e informou que teria de levar Severus para casa. Não queria que notassem sua ausência e fizessem algum tipo de escândalo. Se é que fariam. Na verdade, estava convicto de que sequer haviam reparado no desaparecimento da criança.

Observando a atentamente a toda aquela cena que o cercava, o Lorde das Trevas pensava e repensava na oportunidade de conversar com alguém que quebrara as regras do tempo e do espaço. Que tipo de bruxo das trevas conseguiria uma façanha daquele porte e estar ali, ileso e são? Era impressionante. Devia ter pensado em fazer isso antes e encurtar seu próprio caminho de ascensão.

Snape era um homem misterioso que estabelecera modificações irrevogáveis no mundo bruxo. Em troca, pedia muito pouco, e por isso despertara a sua curiosidade. O Lorde das Trevas teria de descobrir qual era o verdadeiro segredo de Snape. Para tanto, não negaria uma saída rápida. Teria uma madrugada inteira pela frente para obter todos os esclarecimentos que desejava. Quem sabe, sairia daquela conversa ainda mais forte e poderoso?

Ao sair da sala com passos largos, carregando Severus consigo, Snape sentiu um breve alívio. Aqueles instantes serviriam para respirar um pouco mais tranquilo e, tão logo resolvesse a situação, poderia retornar ao seu posto. No entanto, a calmaria momentânea não o enganava. Ele sabia que teria que responder tudo o que Voldemort quisesse ouvir, e aquilo já o deixava cansado e farto. A perspectiva de uma longa e exaustiva noite se estendia diante dele, repleta de incertezas e sem grandes alternativas.

Enquanto caminhava novamente pelos corredores sombrios, Snape não conseguia conter os pensamentos que o assaltavam. A angústia crescia em seu peito, pois estava ciente de que precisava omitir certos detalhes cruciais durante a conversa. Havia segredos que ele preferia levar consigo para o túmulo, segredos que poderiam mudar o rumo dos acontecimentos de modo catastrófico, mas que também o atormentavam.

O peso da responsabilidade o esmagava, e a dúvida sobre qual seria o desfecho dessa noite se insinuava em sua mente. Por um lado, sabia que precisava manter a fachada, seguindo atento ao jogo de interesses em que estava imerso havia décadas. Por outro, temia as consequências de revelar demais ou, pior ainda, de não satisfazer as expectativas do Lorde das Trevas.

Enquanto acalentava esses pensamentos, Snape sentia o cansaço se instalar em seu corpo, resultado de anos de servidão e traição. Ainda assim, não poderia permitir que a exaustão abalasse sua determinação. Ele era um jogador habilidoso nesse tabuleiro minado por aparências e intrigas, um mestre dos disfarces e das meias-verdades.

Por fim, chegaram a um local isolado, onde Snape poderia ter um momento de privacidade com Severus para desaparatarem com calma.

Ao regressarem ao Spinner's End, o cenário sinistro parecia se intensificar. Severus, com suas pernas frágeis fraquejando, teve um colapso nervoso incontrolável. As mãos trêmulas se apoiaram nos joelhos enquanto o estômago revolto expulsava o pouco alimento que o sustentava. A exaustão o dominava, e sua visão turva anunciava a iminência do desmaio.

Num gesto rápido, Snape o segurou com firmeza, erguendo-o nos braços. O semblante carregado de preocupação contrastava com a severidade costumeira. Severus sentia o ar lhe faltar nos pulmões, seu corpo trêmulo clamava por um alívio que não parecia chegar. A sensação de fragilidade e impotência o dominava, as lágrimas brotavam em seus olhos, testemunhas da sua angústia.

- O que está acontecendo com você? - indagou Snape, com voz carregada de aflição. Era a última frase que Severus ouvia antes da escuridão envolvê-lo completamente.

Longos segundos se passaram até que, finalmente, Severus abrisse os olhos novamente. Desorientado e desnorteado, ele encontrou uma sensação de segurança que há muito tempo lhe era desconhecida. Não fora jogado em algum canto como um objeto sem valor, mas estava protegido, envolto nos braços acolhedores de Snape.

Por instinto, Severus se agarrou a ele, despejando suas lágrimas de angústia e medo acumulados. O peso da ansiedade e da aversão que o consumiam se misturava à fome e sede que corroíam seu corpo debilitado. Naquele momento, ele implorava por ajuda, temendo ser abandonado novamente.

- Me ajuda. Não me deixe aqui sozinho, pai - sussurrou Severus, com voz trêmula e cheia de vulnerabilidade.

Com uma expressão carregada de compaixão, Snape afirmou sua presença, buscando se desvencilhar delicadamente do abraço apertado do menino. Por mais que a proximidade o incomodasse, Snape sabia que era o único porto seguro naquele mar revolto de suas vidas solitárias. Ele não permitiria que Severus se perdesse novamente nas sombras.

- Eu sei que você não está acostumado com demonstrações de carinho, mas obrigado por tudo! Eu gostei muito de conhecê-lo, senhor - murmurou Severus, tentando expressar sua gratidão mesmo que de forma tímida.

Aquele gesto de afeto exagerado e agradecimento sincero revelavam que, para Severus, Snape havia se tornado algo mais do que uma mera figura autoritária. Apesar da estranheza e do desconhecimento sobre determinados sentimentos humanos, ele encontrava em Snape uma conexão que preenchia o vazio em sua alma e o fazia sentir-se completo, mesmo nas trevas mais densas.

- Eu quero que fique com a minha varinha, entendeu? Obviamente, ela já é sua e pode usá-la quando precisar se defender. Também desejo que fique com isso.

Entregando solenemente a varinha e uma corrente com duas alianças a Severus, Snape cruzou os braços e observou atentamente suas reações. Seus pensamentos estavam distantes, imersos nas obrigações que o aguardavam.

Piscando os olhos várias vezes, o menino segurava os presentes com um misto de incredulidade e assombro. Não compreendia totalmente o significado daquele gesto, mas era plenamente consciente de sua importância.

- Não perca ou permita que te roubem essas coisas. Elas são importantes - ressaltou Snape.

- São alianças de casamento? - questionou Severus, examinando cada detalhe minuciosamente, com o intuito de gravar na memória. Naqueles pequenos objetos, vislumbrava um vislumbre de transformação em sua vida, uma possibilidade de felicidade e um destino mais ameno. Ansiava por algo bom, por um raio de luz em sua existência.

- Sim. Eu espero que você nunca perca a esperança de ter Hermione ao seu lado um dia. Seja forte e resista a tudo que terá que enfrentar. Lembre-se de que você não precisa de proteção. Os astutos tiram vantagem do que lhes convém, enquanto os fracos buscam refúgio - Snape argumentou, enfatizando cada palavra, abaixando-se para ficar na altura de Severus.

- O que lhe é de direito são as escolhas de qual caminho seguir. Mas não esqueça que o seu destino está entrelaçado ao de Hermione. Juntos, vocês serão imbatíveis e desafiarão tudo e todos.

Um rastro de tristeza se fez presente nos olhos de Snape, deixando claro que aquela era o começo de uma despedida inevitável. Pouco ou nada restava que o prendesse ali, após cumprir sua missão autoimposta.

Encarando o menino, com um gesto sutil, Snape fez com que Severus guardasse rapidamente os objetos antes de adentrarem no pub.

- Que lixo! Olhe só para a eterna sujeira deste lugar - sussurrou Snape, enquanto uma expressão de repulsa se manifestava em suas feições. Era uma sensação estranha, cuja verdadeira natureza ele ainda não conseguia definir.

A última vez em que ele estivera ali foi com Tobias, no ano anterior, para assistir à final da Copa do Mundo. Foi um dia feliz, talvez por a Inglaterra ter se consagrado campeã, ou quem sabe por ter sido a única vez em que seu pai não o agrediu. Por que os dias seguintes não seguiram da mesma forma?

Absorto em pensamentos, assim como Snape, Severus parecia alheio às conversas ao seu redor. No entanto, ao contrário do menino, Snape mantinha-se vigilante, observando todos os movimentos e as pessoas que frequentavam o estabelecimento.

Com o semblante fechado, ele encarou dois bêbados que vociferavam obscenidades enquanto pagava pelos sanduíches e bebidas. Mais uma vez, sentia o ódio que nutria por aquele lugar. O cheiro, a pobreza e, acima de tudo, a mediocridade das pessoas lhe provocava asco. Sentia nojo e raiva em relação a todos ali presentes.

Tomando nas mãos as compras feitas, Snape saiu carregando Severus para fora do estabelecimento, em direção à calçada, onde encontrariam um ambiente mais limpo e seguro para que o menino pudesse se alimentar tranquilamente. Os passos eram apressados, mas cada movimento carregava um peso emocional que os envolvia. Uma mistura de ansiedade, medo e esperança permeava o ar, transformando aquele momento em algo crucial.

- Guarde isso até o momento em que se casarem - disse Snape, sua voz carregada de um tom penetrante, retomando o fluxo do diálogo anterior. Dando aquele último aviso, sua postura rígida e seu olhar enigmático refletiam a complexidade de sua mente, repleta de sombras e intrigas, revelando apenas um vislumbre do turbilhão de pensamentos e planos que o guiavam.

Enquanto as palavras de Snape pairavam no ar, um sentimento de desespero e urgência tomou conta de Severus. Ele se levantou abruptamente do meio-fio em que se sentara, quase gritando, e correu desesperado em direção a Snape, determinado a impedir que fosse abandonado. Seus passos eram desajeitados, mas o fervor em seu coração era inegável.

- Fique! Nem que seja por um ano - suplicou Severus com ardor, seu olhar fixo nos olhos de Snape, transbordando com uma intensidade de emoções que só um coração jovem e cheio de sonhos inocentes poderia expressar. Aquele pedido era um grito de esperança, um desejo fervoroso de se tornar alguém melhor, alguém capaz de enfrentar o mundo ao lado daquele que decidira que seria o seu pai. A certeza de que, juntos, eles seriam imbatíveis.

Os olhos de Severus, outrora embaçados pela amargura e desilusão, agora brilhavam com rastros de pureza e ilusões renovadas. Era como se uma fagulha de luz penetrasse a escuridão que o cercava, revelando um caminho promissor que até então parecia inalcançável. Os dois diabretes de seus olhos, unidos em um pacto de confiança e determinação, transpareciam ardentes aguardando ansiosamente por uma resposta positiva para a sua proposta.

- Um ano e nada mais. Esse é o tempo máximo que eu posso ficar - respondeu Snape, sua voz carregada de seriedade e cautela. Ele tinha consciência dos perigos que pairavam sobre sua própria existência, dos riscos que corria ao estender sua proteção por mais tempo. Era um acordo perigoso, um equilíbrio delicado entre treinamento e sobrevivência. A vida de Snape estava em jogo, mas ele estava disposto a arriscar tudo para ajudar Severus a se tornar o bruxo que sempre sonhou ser.

Enquanto o menino absorvia as palavras de Snape, um pequeno sorriso vitorioso brotou em seus lábios, como se estivesse vencendo uma batalha interior. Sabia que havia conquistado algo valioso, uma oportunidade única de crescimento e aprendizado ao lado dele. Sentia-se grato por ter tanta coragem para lutar pelo que desejava e pela certeza de que Snape estaria ali.

Contendo ao máximo sua vontade de pular de felicidade, Severus assentiu com uma falsa indiferença. Aprendera desde muito cedo a controlar seus sentimentos mais efusivos, a esconder sua alegria para evitar críticas e ataques cruéis. Era uma forma de autopreservação, uma defesa contra as dores da vida. Era doloroso desaprender a sentir, mas ele sabia que essa era a maneira de evitar mais sofrimentos.

Em meio àquela encruzilhada entre a verdade e a mentira, entre a felicidade e a desilusão, uma pergunta ecoava na mente de Severus: a mentira seria sua única fonte de salvação? Seria possível encontrar a verdadeira felicidade em meio a tantos sonhos fugazes?