Antes de entrarem na casa, Snape lançou sobre si o feitiço de Desilusão, envolvendo-se numa aura invisível que o tornava imperceptível aos olhos curiosos. Com calma, analisou atentamente o entorno, certificando-se de que não estavam sendo seguidos ou vigiados por alguém. A cautela era primordial, especialmente quando se tratava de adentrar o interior daquela residência.

Sob o manto da invisibilidade, Snape conduziu Severus, passo a passo, para que subisse as escadas lentamente. O menor ruído poderia trair sua presença, por isso cada passo precisava ser calculado, cada movimento estudado, evitando qualquer esbarrão em móveis ou objetos que pudessem denunciá-los. O silêncio era o aliado supremo da prudência em momentos de tensão.

Enquanto caminhavam pelo corredor da casa, avançando em direção ao segundo andar, ambos se mantinham absortos na tarefa que tinham diante de si. A atenção exigida era redobrada. Se Tobias ouvisse qualquer ruído, Snape sabia que seria necessário revelar-se para evitar que Severus fosse alvo de mais violência. O perigo espreitava em cada canto, a ameaça de um fim trágico pairava no ar.

Após alguns segundos de expectativa angustiante, finalmente adentraram o quarto. Snape observou com olhos atentos cada móvel velho e quebrado ao seu redor, constatando a decadência que permeava aquele ambiente. A tristeza que aquelas paredes carregavam era opressora, lembrando-o da sensação de ser um ser humano desvalorizado, indesejado, alguém que jamais se considerou digno de ter mais do que aquela miséria que o cercava.

Lembranças de tristeza e privações remontaram-se em sua mente, envolvendo-o num turbilhão de emoções dolorosas. O quarto era uma cápsula do passado, um reflexo concreto da dura realidade que enfrentara. Ao observar aquele cenário sombrio, suas cicatrizes internas se reabriram, como feridas profundas inflamadas pela memória. Era uma tortura, um lembrete constante de sua intensa solidão.

Aquele lugar representava o espaço que sempre lhe fora destinado no mundo: o lugar do resto, do impuro, da escória. Era o território daquele que tinha como único amigo um fantasminha de pano confeccionado com suas próprias mãos. Era mais uma prova cruel de que, mesmo quando se esforçava, algo invisível parecia puxá-lo para baixo, arrastando-o para o esgoto que era sua existência.

Sem proferir uma única palavra, Snape aproximou-se da janela entreaberta, cujos vidros estilhaçados permitiam um vislumbre do mundo exterior. Naquele instante, lembranças de tempos mais felizes emergiram em sua mente. Recordou-se das vezes em que ela o chamava de "Príncipe Severus" e ele a chamava de "Rainha Hermione". Eram momentos de genuína alegria, mesmo quando apenas caminhavam juntos por uma rua deserta nas horas mortas da madrugada. Tais pensamentos fizeram seus olhos perderem-se na escuridão da noite, como se buscasse uma esperança que há muito parecia ter-se dissipado.

Os primeiros pingos de chuva começaram a cair, como lágrimas do céu, emoldurando o cenário sombrio e depressivo que se desenhava no horizonte. O barulho dos pingos colidindo contra os cacos de vidro, os relâmpagos rasgando o céu, os trovões ribombando e os ventos selvagens sussurravam a sua aflição e desespero. Era como se a própria natureza ecoasse sua tormenta interior, seu mundo desabado em ruínas.

Seu semblante abatido contrastava com a expressão de êxtase estampada no rosto de Severus. O menino ainda se mantinha envolto em uma alegria infantil, alheio à magnitude do que havia acontecido. Em sua mente inocente, ele já se enxergava como o maior bruxo de todos os tempos, invencível e quase onisciente, capaz de transformar seus mais profundos sonhos em realidades palpáveis. Rompendo correntes e transpondo fronteiras, ele se via destinado a se tornar alguém respeitado e influente. Quem sabe até Ministro da Magia? Talvez fosse um objetivo audacioso demais, mas a perspectiva de roubar o lugar dos Malfoy como Conselheiro do Ministro certamente o fascinava. O céu, outrora inalcançável, não passava de um obstáculo a ser superado por seus sonhos.

No entanto, Severus ainda era um ser ingênuo e imaturo, incapaz de compreender o peso de suas ambições. Suas ideias grandiosas o conduziriam por um caminho árduo, repleto de obstáculos, angústias e tristezas. Ao mesmo tempo em que alimentava suas aspirações, ele não percebia o fardo que Snape carregava em sua mente e coração, exausto de lutar contra um mundo que parecia se voltar constantemente contra ele.

As feições do homem e seu olhar penetrante revelavam a dor profunda de sua solidão. A cada dia, ele sofria as agruras desse eterno martírio, sentindo que lhe roubaram a chance de seguir adiante ao lado de alguém que o amasse verdadeiramente. A angústia dentro de si explodia como uma avalanche descontrolada, consumindo-o por completo. Abraçando seu próprio corpo, como se buscasse proteção e contivesse as emoções que o transbordavam, Snape reconhecia o quão difícil era dominar uma culpa que ultrapassava seus limites. Viver longe de Hermione era estar imerso em um luto eterno, cometendo erros sucessivos que corroíam sua alma.

Ainda ignorando a presença de Severus, Snape soltou um suspiro pesado e enxugou as lágrimas com as costas da mão, agarrando-se à esperança de recomeçar sua vida. Ele se formaria em Oxford, mergulharia em suas pesquisas de Bioquímica, Engenharia Química e Farmácia. Talvez assim pudesse escapar da tortura de dar aulas em Hogwarts e se dedicar ao trabalho em um hospital ou se tornar professor universitário.

Ele precisava da ilusão de que não se tornaria rico, mas poderia proporcionar uma vida digna para sua esposa e filhos. Haveria tempo suficiente para planejar tudo e ter Hermione de volta em sua vida e em seu mundo. Essa era sua maior consolação, especialmente quando esperava que Severus fosse paciente e não se deixasse levar por sonhos vazios.

Preso a essas ilusões, Snape levou alguns minutos para perceber que o menino o observava com uma expressão de grande contemplação e obediência. Esperava que ele lhe dissesse algo antes de dormir, embora não soubesse exatamente o que esperar. A questão era que Severus o admirava, e seu rosto infantil escondia uma dúvida inconfessável.

Snape sentiu insegurança quanto à gravidade desse questionamento que emergia na mente de Severus. Encarando-o firmemente, era como se sua própria vida dependesse da resposta que ele receberia. A ansiedade se manifestava em sua face levemente rosada e nos batimentos acelerados de seu coração.

Observando as reações agitadas e inquietas de Severus, Snape, friamente e sem alterar seu ânimo, decidiu responder às perguntas que ainda não haviam sido formuladas. Talvez o medo e a timidez impedissem o menino de expressar-se abertamente, de colocar em palavras o que seus pensamentos quase gritavam.

- Eu o tornarei mais forte e inteligente do que sou hoje, como você me pediu. No entanto, entenda que a cada aprendizado, algo se altera de uma forma ou de outra. Também posso garantir que o Lorde das Trevas cumprirá com suas obrigações. Não se preocupe com isso.

Severus avaliava o que acabara de ouvir, atento a cada palavra que lhe era transmitida, o que arrancou um meio sorriso orgulhoso de Snape. Ele enxergava o menino como um pequeno irritante e metido a sabe-tudo, mas também extremamente inteligente e perspicaz. Como não admirar uma criança tão fascinante?

- Eu não confio no Lorde das Trevas, senhor - afirmou Severus, cruzando os braços sobre o peito e adotando uma expressão emburrada. Sussurrava palavras inaudíveis, expressando sua insatisfação. Olhando para a parede, ficou em silêncio por alguns minutos, mergulhado em pensamentos e frustração. Aquela não era exatamente a resposta que ele esperava.

Além disso, indignava-se por ter dado sua palavra a um monstro. Sentia-se traído, sobretudo porque Snape o olhava com um semblante que prometia revelar algo surpreendente e confidencial.

- E quem lhe disse que coloquei todas as minhas esperanças no que ele afirmou? Acredito apenas na questão de que o Lorde das Trevas não quererá perder um aliado forte que lhe ofereceu lealdade tão cedo - retrucou Snape, com um sorriso sarcástico e arrogante estampado em seus lábios. Isso significava que não foi por acaso que ele insistiu em fazer um voto inquebrável, um pacto de sangue para selar o acordo estabelecido. Ele não era tolo o suficiente para acreditar em promessas que poderiam ser desfeitas a qualquer momento, especialmente quando sabia com quem estava lidando.

- Ótimo. Mas e se eu me apaixonar por alguém que não está envolvido nesse acordo? O que acontecerá comigo? - perguntou Severus, enquanto começava a coçar o topo da cabeça, tentando afastar as dúvidas que o assaltavam. A mera ideia de se aproximar novamente daquele homem horrível o deixava em alerta. Havia algo maligno estampado em seu rosto, com uma constância e certeza assustadoras. O pior era perceber que existiam segredos ocultos, algo que Snape não havia lhe revelado ou não teria contado completamente.

Uma sensação incômoda lhe dizia que aliar-se a Voldemort talvez não fosse a melhor alternativa. No entanto, como poderia expressar isso? Como poderia fazer algo para mudar aquele equívoco? Parecia que tudo o que havia feito até agora era irrevogável, inclusive a inevitabilidade do destino que Snape traçara para sua vida.

- Espero que você não seja tolo o suficiente para se envolver com outra pessoa e ir contra o seu destino - respondeu Snape, voltando o olhar para a rua, sentindo o amargor da rispidez e do ressentimento em sua boca. Ignorando o fato de que Severus mordia o lábio, preocupado, ou que decidiu caminhar de um lado para o outro, buscando afastar o sono e refletir sobre suas próprias dúvidas.

Eram tantas as perguntas que se acumulavam em sua mente, mas ele sabia que precisava escolher cuidadosamente as palavras que usaria. Assim, decidiu mudar de assunto, pelo menos por enquanto.

- Claro. E quando irei conhecer as meninas Black? Será no próximo ano? Elas vão gostar de mim? Terei que conversar com a Bellatrix? Será que ela já é má e louca, senhor? - indagou Severus, as perguntas fluindo como água incandescente. Seus nervos fervilhavam e suas ideias incendiavam, deixando-o ansioso e desejoso de ter todas as respostas imediatamente. Queria estar seguro de que tudo daria certo, que nada escaparia de seu controle, antes de dar qualquer passo. Se as meninas o odiassem, certamente estaria sozinho. Não desejava falhar nos detalhes. Não queria ser abandonado e exposto à rejeição.

- Sobre Bella, eu não sei ao certo. Acredito que ainda não seja má. Contudo, eu serei caso você prossiga com suas ações irritantes - respondeu Snape diante do silêncio do menino, que apenas bufava e o ignorava, magoado com a resposta áspera que havia recebido. Percebendo que não havia motivo para tratá-lo daquele jeito, especialmente quando estava recebendo carinho de sua parte, Snape decidiu explicar com mais calma. Precisava ser um pouco mais gentil.

- Bella é apenas uma menina mimada. Talvez já demonstre certa inclinação para a crueldade em algumas atitudes. Não posso te oferecer uma resposta definitiva. Mas as outras perguntas que fez têm uma resposta positiva - acrescentou Snape.

- É bom saber... - respondeu Severus, com um tom de desânimo e desafio.

- Você é um pirralho insuportável, caso também queira saber minha opinião a seu respeito - disparou Snape, massageando novamente as têmporas e respirando fundo, tentando afastar a irritação e acalmar seu temperamento. Sua cabeça latejava cada vez mais forte, as pontadas nas laterais aumentando a cada minuto. Sacudindo a cabeça negativamente, tentava afastar o mau humor que começava a se apoderar dele e a piorar a dor. Devia ser por isso que a enxaqueca se intensificava, e ele precisava evitar um ataque de fúria diante de Severus. O menino não merecia testemunhar uma cena horrenda como a que estava prestes a se desenrolar.

Refletindo sobre tudo aquilo, Snape chegou a uma conclusão. Se Hermione, foi uma criança, que o perturbava com sua capacidade inesgotável de formular infinitas perguntas, Severus era outro interrogador nato. Suas indagações pareciam não ter fim. O pior era testemunhar a crescente inquietação interna que assolava o menino. Era visível o quanto ele se preocupava com o que aconteceria em sua vida.

- Não vai dizer mais nada? - questionou Severus, sentindo-se revoltado.

- O que o senhor espera que eu diga? O senhor é que é irritante e não faz nenhum esforço para me ouvir ou compreender o que falo. Apenas me dá ordens e não me explica as coisas direito - respondeu, encarando-o com determinação. Sentia-se revoltado com aquela pergunta venenosa que o feria. Snape não lhe dera resposta alguma e isso o magoava. Firme em sua convicção de que não havia feito nada de errado para ser atacado daquela forma e, muito menos, para ser ignorado, Severus começou a arrumar lentamente seu pequeno colchão no chão frio para se deitar.

Posto em um canto próximo à janela, um fiapo de pano encardido servia como proteção para que Severus não se deitasse diretamente no piso frio. Concentrado em sua tarefa, ele não percebia que Snape, agora, o observava com extrema atenção e o coração apertado. Observando Severus estender cuidadosamente o cobertor esfarrapado, Snape sentia todo o peso que aquelas imagens representavam, como se uma faca afiada lhe atravessasse a alma, deixando cicatrizes profundas.

Aqueles trapos seriam sua única defesa contra o ar gélido da noite. Como o corpo de Osíris no Egito, seu coração também estava despedaçado em mil pedaços, sangrando em silêncio. A dor daquela cena era insuportável, um soco implacável no peito de Snape, que se via impotente diante da precariedade daquela criança. Naquele instante, ele tomava consciência de sua própria insignificância e da crueldade do mundo em que viviam.

Severus, um menininho magro, sujo e desnutrido, personificava toda a injustiça e dor que assolava os inocentes. Era como se todas as mazelas da sociedade se concentrassem em seu corpo frágil e indefeso. Snape sentia uma fúria ardente em seu peito, uma chama de revolta que clamava por justiça, que exigia um mundo melhor para aquela criança.

Aquela realidade era mais dura do que qualquer pesadelo que Snape pudesse ter imaginado. Como poderia uma criança enfrentar tanto sofrimento? O coração de Snape doía em compasso com o pequeno Severus, compartilhando sua angústia e incertezas. Era uma dor que não se limitava ao físico, mas que corroía a alma, deixando cicatrizes indeléveis.

Eram atrocidades demais para uma única pessoa suportar. Snape se recusava a aceitar que aquele fosse o destino de Severus, que ele estivesse condenado a uma vida de privações e tormentos. Sua determinação se inflamava como um fogo incontrolável, alimentado pelo amor e compaixão que nutria pelo menino.

Dando alguns passos decididos em direção a Severus, Snape o segurou firmemente, impedindo que ele prosseguisse com seu gesto simples de se deitar. Seus olhos brilhavam com uma mistura de dor e determinação, enquanto a voz do menino tremia levemente ao iniciar uma nova conversa.

- Estive pensando sobre a situação, e acredito que precisamos bolar um plano para que eu me livre de Bellatrix, senhor - falou, com sua voz carregada de emoção e certeza. Cada palavra era pronunciada com intensidade, como se fossem as últimas palavras que sairiam de seus lábios. Seu olhar fixava-se no homem, transmitindo uma mistura de preocupação e esperança.

Severus encontrou nos olhos de Snape uma centelha de alívio, uma chama que lhe indicava que ele não estava sozinho, que alguém estava disposto a lutar por ele. Um sorriso tímido surgiu nos lábios do menino, um vislumbre de esperança em meio à escuridão.

No entanto, a expressão de Snape se transformou em uma mescla de frustração e impaciência. Sua voz ecoou pelo quarto, carregada de uma raiva contida.

- Inferno! Se quer um conselho, tente desviar o foco dela para o que e quem trará poder. Bella se encanta com a ideia de ser poderosa e forte, mas isso não se estende à forma como ela trata as pessoas - as palavras escapavam com veemência, como se fossem lanças afiadas, prontas para ferir e proteger ao mesmo tempo.

Snape balançou a cabeça, como se estivesse desabafando com o próprio universo. Seu temperamento impulsivo começava a se descontrolar, ameaçando romper as barreiras que ele mesmo impusera para proteger Severus. Mas ele se conteve, respirando fundo e fazendo um esforço para acalmar as emoções que transbordavam em seu interior.

- O que importa para nós dois é que eu pensei muito sobre o que farei em relação a você. Decidi que aprimorarei ainda mais seus sentidos. Sua legilimência e oclumência serão aperfeiçoadas, e eu o ensinarei a voar nas sombras. - as palavras eram pronunciadas com uma mistura de determinação e ternura, revelando o zelo e a dedicação que Snape já sentia pelo menino.

Naquele momento, Snape se tornava mais do que a figura de um pai para Severus. Ele era um protetor, um guia que se dispunha a enfrentar qualquer obstáculo para garantir a segurança e o seu crescimento. E Severus, com seus olhos brilhantes e cheios de confiança, sabia que tinha encontrado alguém em quem poderia confiar, alguém que lhe ofereceria um futuro além da escuridão.

Pausando suas palavras e envolto em pensamentos profundos, Snape transfigurava os trapos em uma cama confortável, com cobertores suficientes para proteger Severus do ar gélido que poderia causar-lhe danos irreparáveis. Seu corpo frágil não suportaria uma pneumonia ou lesões nos pulmões decorrentes da umidade penetrante. Com gestos precisos, ele arrumava tudo com esmero, transformando aquele cantinho humilde em um refúgio acolhedor.

No entanto, em um breve instante de pausa, a lembrança de seus dois bebês, os quais ele abandonara à mercê do tempo, dilacerou sua alma. A dor daquela perda consumia-o por dentro, mas Snape sabia que não havia mais nada que pudesse fazer. Eram cicatrizes que o acompanhariam para sempre.

Enquanto observava Severus afofar os travesseiros e se abrigar sob as cobertas, abraçando seu amigo de pano, Snape vislumbrou um vislumbre do que Marte, seu filho, poderia ser. Imaginou seus cachos negros dançando ao vento. E Gaia, sua filha, traria consigo a beleza da mãe, com seus cabelos castanhos e lisos.

A Terra e a Guerra, assim batizados, seriam a ligação que os uniria e separaria, nomeando essas duas preciosidades que lhe foram tiradas. Snape ansiava que ambos tivessem uma infância diferente da sua, repleta de amor e cuidado. No futuro distante, quando a oportunidade de os ter novamente nos braços surgisse, ele os envolveria em um abraço apertado, transbordando de carinho. Se esforçaria ao máximo, mesmo não sendo habilidoso em demonstrações de afeto, para que eles soubessem o quanto eram amados.

Esses pensamentos o levaram a refletir sobre tudo o que havia feito desde sua chegada a Spinner's End. Ele ofereceu a si mesmo o afeto e a dedicação que tanto desejava ter recebido. Sem se dar conta, tornara-se o pai que sempre sonhara em ter. Naquele momento, Severus desfrutava da sorte e liberdade de crescer com menos amargura, talvez até mais amoroso do que ele próprio fora. E o ponto crucial, agora diante de seus olhos, era que o destino e o futuro lhe reservavam uma vida um pouco melhor.

Ele seria um bom pai, um irmão justo e um amigo sincero para aqueles que o merecessem. Se tornaria um homem honrado e decente, que cuidaria de seus filhos e os colocaria acima de si mesmo. Aprenderia a amar as pessoas e não apenas os sentimentos que elas despertavam. Essa transformação, esse despertar para a importância das relações humanas, era a jornada que Severus tinha a obrigação de empreender com coragem, em busca de um futuro mais brilhante e cheio de significado.

Ao imergir nessas reflexões profundas e extremamente relevantes, Snape encontrou seus olhos fixos no menino, que quase adormecido, também o encarava com um semblante cansado. A voz sonolenta de Severus ecoou no silêncio do aposento:

- Isso é tudo, senhor?

Ele se sentou na cama, espreguiçando-se desajeitadamente, enquanto aguardava a resposta. Snape sentiu o peso das palavras ecoando em sua mente, consciente de que aquela não era a questão principal. Havia mais a ser compartilhado, segredos a serem revelados.

- Não, não é tudo. Eu te ensinarei como aprimorar poções e feitiços, desvendar as profundezas da magia. Creio que assim você poderá desenvolver seus dons naturais e dominar a arte de engarrafar a morte antes de completar seu quinto ano. Além disso, vou te dar um ensinamento valioso: a maioria dos bruxos não sabe lutar, não possui habilidades para enfrentar alguém com as próprias mãos e pés. Use isso a seu favor quando se envolver em problemas. Agora, durma!

Snape apagou a vela no prato no chão, como se buscasse convencê-lo a acatar suas palavras. No entanto, as emoções não cessaram ali. Severus, lutando para permanecer acordado e continuar a conversa, esfregava os olhos e ajeitava-se na cama, resistindo ao sono.

- Eu não queria que o senhor fosse embora. Queria que ficasse aqui comigo...

Em silêncio, Snape sentiu-se surpreendido por uma revelação sincera e inesperada. Nunca imaginara que o menino pudesse nutrir por ele um afeto tão genuíno.

- Severus, não se esqueça de que eu sou você daqui a trinta anos. Eu sou uma pessoa que sequer existe no presente! Compreenda que não sou seu pai. Não se torture projetando em mim suas expectativas.

Enquanto soltava a respiração, o corpo tenso e o semblante preocupado, Snape percebia que aquele apego não era saudável. Não queria causar sofrimento desnecessário, pois o motivo principal de tudo era justamente acabar com qualquer fonte de dor.

- Eu não quero que o senhor morra, é só isso. Gosto de saber que serei uma pessoa boa, um homem forte e inteligente. Agora, eu sei que não sou como Tobias. Isso me deixa feliz - murmurou Severus timidamente, com um pequeno sorriso iluminando seu rosto.

- Não seja teimoso e oportunista, seu pigmeu metido a esperto. Já disse para dormir. E isso serve também para o Lucas.

Snape colocou as duas mãos sobre os ombros do menino, tentando fazê-lo deitar-se, mas então viu que o sorriso de Severus se desvanecera, dando lugar a uma contração dos ombros e um olhar assustado. A reação de encolher-se o abalou profundamente. Não esperava que o menino se ressentisse de maneira tão evidente, muito menos que assumisse tal atitude, deixando Snape sem reação.

- Eu não vou te machucar. Não há motivo para reagir assim - sussurrou Snape, percebendo os músculos do menino tensos e a sombra do medo atravessando seus olhos negros. A tristeza tomou conta dele ao constatar um pequeno rasgo de decepção no rosto de Severus.

- O senhor não precisa morrer. Eu sei que não. Eu mexi nos livros da minha mãe e está tudo lá! Tem um capítulo inteiro falando sobre a questão do tempo - exclamou Severus, o rubor tomando conta de suas bochechas, evidenciando sua fúria e o seu anseio em ver a sua vontade sendo feita. Ele se levantou com determinação, quase apontando o dedo acusadoramente. Libertando-se do toque de Snape em seu braço, sentiu-se livre para prosseguir sem interrupções.

- Eu não entendi muito bem o que está lá. Mas nós somos a mesma pessoa, e o senhor só teria que voltar ao ponto de onde veio - disse mais calmo, aproximando-se da porta.

Observando o olhar interrogativo de Snape, Severus se calou, posicionado próximo à porta do quarto, prestes a partir. Ele compreendia que aquele era um assunto que exigia reflexão e ponderação, na busca pelo seu verdadeiro significado. Daria o tempo necessário para chegar a uma conclusão.

- A que livro você se refere? - indagou Snape, indo em sua direção e o segurando pelo braço, fazendo-o retornar à cama. Nesse momento, era Snape quem se preparava para descer ao primeiro andar. Após ponderar por alguns segundos, incomodado com os pensamentos que invadiam sua mente, ele abriu a porta do quarto para buscar o livro no antigo esconderijo de Eileen na casa.

- É o Segredo das Artes das Trevas. Ele está debaixo de um sobre Transfiguração e de outro que trata a respeito de Teoria Elemental - respondeu Severus, coçando os olhos cansados com as costas das mãos. Cada palavra parecia pesar em seu coração, revelando a complexidade e a perigosa herança que carregava.

- Aquela mulher ardilosa e terrível sempre deixou todo tipo de livros destinados ao ensino da Arte das Trevas ao alcance de uma criança inocente. Eu sinceramente queria compreender por qual razão ela nunca usou o que sabia para matar aquele porco imundo. Também me pergunto por que finjo esquecer de como a Eileen era como mãe. Foi graças a ela que a escuridão invadiu os nossos planos - argumentou Snape sussurrando, quase saindo do quarto. A angústia em sua voz revelava a amargura e a dor que carregava há tantos anos. Observando o menino voltar a coçar os olhos e dar um longo bocejo, enquanto o encarava sair do quarto e desaparecer por completo no corredor, Snape sentia uma mistura de preocupação e urgência.

- Não durma até eu voltar! Quero que me mostre onde você leu essas informações - disse ele, com um tom firme e determinado. A busca por respostas se tornava cada vez mais intensa, e a necessidade de compreender a verdade por trás daquelas palavras era quase insuportável.

Mergulhado no breu da noite, que se espalhava por toda a casa, Snape andava com passos vagarosos. Atravessando a sala e rumando até o porão abandonado, seus sentidos estavam alertas a qualquer barulho ou movimento alheio. Não temia por sua própria segurança. Seu medo era do que Tobias poderia fazer com Severus e Eileen se o encontrasse ali.

Longos minutos se arrastaram enquanto procurava o livro. Não podia fazer qualquer ruído que chamasse a atenção. Era uma busca minuciosa que exigia todo o seu empenho. Nada poderia dar errado. Com cuidado, desviou pergaminhos, livros e fotografias, até finalmente encontrar o que tanto desejava.

Já estava prestes a sair quando ouviu um ruído suspeito vindo da cozinha, acompanhado por um pequeno foco de luz em movimento. Permaneceria em silêncio, aguardando até que a pessoa se retirasse antes de subir novamente e entregar o livro nas mãos de Severus.

A espera demorou mais do que calculava, e sem saber por quanto tempo ficara ali, rapidamente subiu os degraus para atingir o andar superior e entregar o livro ao menino. Desejava que ele folheasse e lhe mostrasse onde estavam as respostas.

Com tranquilidade sonolenta, Severus mexia nas páginas não numeradas, vagando pelo manuscrito original com seus versos e reversos característicos. Por vezes, a dificuldade da pesquisa se impunha. Após tanto silêncio, o menino apontou para que Snape lesse e se acomodou ao seu lado.

Snape também se sentou, recostando-se na cabeceira da cama, e iniciou a leitura. No capítulo em questão, uma longa narrativa relacionada à viagem no tempo se desdobrava, detalhando a criação de fendas temporais e novas realidades. Aquilo o cativou, levando-o a ler e analisar cada frase atentamente.

Voltando em alguns pontos para melhor assimilar o que estava sendo afirmado, Snape franziu o cenho, completamente imerso no texto. Precisava absorver o máximo daquelas palavras, compreender as possíveis falhas em seu planejamento.

Sem se dar conta, ele ergueu um pouco o braço esquerdo, permitindo que Severus deitasse a cabeça em seu colo. O menino estava tão cansado que não resistiu ao sono, adormecendo rapidamente, com um dos braços segurando Snape. Era um gesto ingênuo, como se pudesse impedir que ele fosse embora apenas pelo contato.

Ao concluir a leitura e se deparar com aquela cena, Snape perdeu totalmente a coragem de se levantar. Não moveria um músculo para não acordar Severus. Não queria interromper seu sono tranquilo, não depois de tudo o que tinha feito.

Vagarosamente, Snape se acomodou melhor na cabeceira da cama. Sentia seu próprio corpo igualmente cansado. Precisava descansar um pouco também, especialmente porque o dia seguinte já se mostrava extremamente longo e intenso em relação ao que estava prestes a terminar.

O sol se escondia no horizonte, tingindo o amanhecer chuvoso com tons sombrios. Snape contemplava o céu, relembrando como os dias ensolarados pareciam uma utopia em meio à poluição que pairava sobre sua vida. Em breves instantes, sua mãe subiria as escadas para chamá-lo, despertando nele uma sensação mista de expectativa e melancolia. Mesmo ciente de que o café da manhã seria uma mera ilusão de sustento, composto por chá aguado e pão velho, uma chama de esperança tímida ardia em seu peito. No entanto, a presença tirânica de Tobias tornava cada momento um desafio insuportável.

Todos os dias, ele desaparecia sob a desculpa de procurar emprego, retornando somente à noite para desferir sua revolta e raiva em explosões de violência. Embriagado, seus olhos injetados em fúria buscavam qualquer pretexto para gritar, humilhar e agredir qualquer um que cruzasse seu caminho. Essa figura ameaçadora transformava a vida de Snape em um tormento constante, uma realidade que beirava a insanidade.

Era uma batalha interna para ele, pois sabia que seria difícil permanecer indiferente e ocultar sua existência. A mera ideia de se abster de intervir o enchia de uma raiva profunda, alimentando sua frustração e gerando um peso agonizante em sua mente atormentada. Como proceder diante desse dilema cruel? Qual seria o caminho certo a seguir?

A vontade que pulsava em seu âmago era a de descer junto com Severus e revelar à mãe tudo o que estava oculto. O vazio causado pela ausência de Eileen em sua vida era uma dor constante, dilacerando seu coração em cada momento de solidão. A angústia aumentava ao imaginar como seria tê-la longe desse ambiente tóxico. Quem sabe, ao tirá-la dali, poderia finalmente desvendar o mistério por trás do seu sorriso oculto, encontrar a verdadeira essência de sua mãe.

Eileen era sempre distante, triste e fria. Seus olhos, embaçados de desesperança, transmitiam uma sensação de estranheza até mesmo quando o abraçava e lhe proferia palavras de consolo. Será que ela o amava sinceramente? Snape se questionava, mergulhando na dúvida e na amargura. A quem ela tentava enganar com suas lembranças fabricadas, uma imagem idealizada que contrastava com a realidade fria e desoladora?

Talvez, quando seus olhos se encontrassem, ela apenas enxergasse o resultado do trabalho imposto por Lord Voldemort. Não havia nada que superasse a importância de gerar um servo leal aos planos do Lorde das Trevas, o último dos Prince. Mas quem realmente se importava com o que ele poderia oferecer? Snape permitia-se sonhar que, ao conhecer os netos, Eileen pudesse encontrar uma fagulha de alegria em seu coração amargurado, uma centelha de felicidade que romperia as amarras do seu destino sombrio.

Suas ponderações, que o atormentavam, foram abruptamente interrompidas pelo som das batidas na porta e pela voz que ecoava há mais de duas décadas nas suas mais profundas memórias. Agora, apenas uma porta de madeira os separava, criando um abismo temporal que parecia intransponível.

- Severus? Seu pai já saiu. Você pode descer agora - ressoou a voz com um tom de desgosto, indício de que ela havia sido acordada por agressões físicas e morais perpetradas por aquele ser repulsivo. O ódio por Tobias consumia Snape, assim como a raiva fervente em relação àquele homem que deveria proteger as duas pessoas que mais amava.

- Já estou indo, mãe! - respondeu Severus, levantando-se apressadamente da cama, seus olhos transbordando apreensão, voltando-se para Snape. Ele ansiava por orientações, buscava respostas sobre como agir naquela emergência. A dúvida pairava no ar, mostrando o quanto ele se mostrava incerto quanto ao fato de revelar a presença de Snape ali ou não.

- E agora? - sussurrou em tom defensivo, lançando a pergunta enquanto observava atentamente a porta. Certificando-se de que não poderia ser ouvido, ele elevou ligeiramente a voz, mesmo temeroso de que Snape fosse descoberto e obrigado a partir imediatamente. Severus faria de tudo para evitar tal desfecho. Rindo com um toque de melancolia diante do leve desespero do menino, Snape apenas abanou a cabeça em negação.

- O que li é bastante intrigante, sabe? Teremos um ano inteiro para estudar e refletir profundamente sobre esse assunto. Vou treiná-lo, meu jovem Padawan. Quanto a Eileen, ela não deve e não pode ter qualquer indício de que estou aqui. Essa decisão cabe somente a mim, e quero ponderar antes de tomar qualquer medida a respeito. Compreende? - pronunciou Snape, ainda sorrindo em relação a Severus, fazendo um gesto com a mão para incentivá-lo a sair do quarto e se alimentar. Não queria que o menino desmaiasse de fome novamente.

- Não se preocupe, senhor. Mas o que significa o que disse? Sou um jovem o quê? - questionou Severus, franzindo a testa, ainda sem compreender as palavras proferidas, olhando para Snape com uma expressão interrogativa. Aquele homem parecia se deleitar em sempre deixá-lo confuso, como se considerasse aquilo uma forma de entretenimento.

- Esqueça! Levará pelo menos uns dez anos até que entenda o que eu disse. Agora, desça logo, estou apenas brincando com você. Não precisa levar tudo tão a sério - argumentou Snape, dando leves empurrões para que Severus saísse do quarto, mesmo que ele ainda estivesse trocando de camisa.

- O senhor não vai comer nada? - indagou Severus.

- Não, preciso meditar sobre o que aconteceu ontem. Também tenho que refletir sobre nossos próximos passos e falar com o Lorde das Trevas. Desça e me espere perto da árvore em que se esconde. No começo da tarde, partiremos.

Vendo o menino sumir no corredor, os passos de Severus ecoando nos degraus da escada, Snape ficou imerso no som daqueles pés se chocando com a madeira, como um presságio do que estava por vir. Era apenas o começo de uma jornada repleta de lutas e esforços que os aguardava naquele ano de ensinamentos.

O som das pisadas reverberava em sua mente como um eco das batalhas que teriam que travar juntos. Cada passo era um lembrete constante da importância daquela missão, do peso que recaía sobre seus ombros. Os sons refletiam pela casa, misturando-se ao silêncio pesado que envolvia cada cômodo.

Snape sabia que não seria fácil. Ele tinha consciência de que aquele ano seria um desafio constante, tanto para ele quanto para Severus. O menino carregava consigo uma bagagem de dor e sofrimento, e Snape estava determinado a ser o farol em meio à escuridão que o cercava.

Havia muito a ensinar, muito a compartilhar. Era preciso moldar a mente e o coração de Severus, lapidar suas habilidades e transformá-lo em um instrumento poderoso. Mas, além disso, Snape queria ensinar-lhe valores, a importância do amor e da compaixão em um mundo cada vez mais sombrio.

Enquanto observava o vazio deixado pela partida de Severus, Snape sentia a tensão crescer em seu peito. As dúvidas e incertezas o assaltavam. Seria capaz de guiar o menino pelo caminho certo? Conseguiria protegê-lo dos perigos que se aproximavam?

Ainda que os desafios se apresentassem como uma tempestade iminente, Snape estava disposto a enfrentá-los de frente. Sua determinação era uma força poderosa, uma chama ardente que queimava em seu interior. Ele não permitiria que Severus fosse consumido pelas trevas.

Enquanto se preparava para a próxima etapa da jornada, Snape recordou-se das palavras de Tolstoi: "A felicidade só pode ser alcançada através da dor e do esforço".