Os dias escoavam rapidamente, como se tivessem asas e ansiassem por voar. Eram pequenas provas de que o destino e o tempo já se mostravam implacáveis em sua vingança. Cronos ainda não perdoara a tentativa de burlar suas regras inabaláveis.

Severus tornava-se cada vez mais forte e determinado em relação ao que faria. Estava focado e convicto do caminho a seguir, sem a maturidade necessária para tomar uma decisão de tamanha importância. Às vezes, questionava-se se aquela era sua única chance de ser feliz.

Aquilo se transformava em um jogo perverso, em que Severus machucava a si mesmo e ultrapassava seus próprios limites. Aprisionava-se obsessivamente na busca por aprender todos os detalhes comportamentais, os gestos mais corteses e esconder os mais rudes. Um esforço quase cego em decorar as vírgulas das frases e dominar as emoções, tudo para aprimorar suas próprias qualidades. Tudo para tentar esquecer sua verdadeira natureza.

A ânsia de sempre deixar Snape orgulhoso por seus esforços o cegava e o fazia sentir-se inútil e cada vez mais decepcionado consigo mesmo. Via-se como uma fraude, um pequeno bruxo impostor que não merecia tudo o que estava recebendo.

Insistentemente, Severus pensava que não era digno daqueles ensinamentos que lhe eram tão preciosos. Não se sentia merecedor e sempre buscava mais, muito além do que suas forças eram capazes de suportar. Desejava provar que tinha direito a tudo aquilo e ansiava por aulas mais exaustivas e desafiadoras, que o levassem à exaustão física e psicológica. Almejava transformar-se no soldado perfeito para que Snape o amasse e se orgulhasse de seu sucesso.

- Não se preocupe tanto. Você está indo bem, pequeno Viktor Frankenstein. Logo poderá criar seu próprio monstro e aterrorizar a humanidade - provocou Snape.

- Eu já tenho um e estou muito feliz com ele. O senhor sabe que o Lucas é meu melhor amigo - respondeu Severus, defendendo seu companheiro de aventuras e enfatizando toda a importância que lhe atribuía.

- Lucas não é propriamente um monstro, Severus. Ele é apenas um fantasma de pano que você criou para brincar. Agora deixe sua mente livre e pare de se envolver em tolas emoções e sentimentalismo barato - retrucou Snape, desdenhando da ligação afetiva que o menino havia criado com seu fiel amigo imaginário.

Observando Severus ainda estendido no chão, cansado demais para se levantar sozinho, Snape estendeu-lhe a mão para ajudá-lo. Ofegante e suado pelo treinamento intenso, tendo se libertado da guarda em que se mantivera até então, ele encarou o menino pensativo.

Seria válido todo aquele treinamento? Aquela defesa era apenas mais uma entre tantas outras equivocadas que Severus havia feito durante as aulas de autodefesa. Estava exausto demais para assimilar corretamente as melhores estratégias e decisões a tomar. No entanto, precisava manter o foco para não se perder daquela maneira por tão pouco. Quando chegasse o momento de enfrentar combates reais, a situação seria ainda pior.

- Não adianta tentarmos prosseguir hoje com os ensinamentos referentes ao uso de feitiços defensivos - disse Snape, recolhendo algumas coisas que estavam no chão e dando por encerradas as atividades do dia. Nada mais parecia abalar Severus daquela forma, nem o derrubaria por não se resguardar. Por mais cansado que estivesse, ele não falharia nem dependeria de seu oponente para se manter de pé.

No entanto, ainda era jovem demais para ter tanta resistência física e mental. Precisava de descanso e tranquilidade para se recompor completamente e enfrentar a batalha no dia seguinte.

- Eu quero tentar novamente. Vamos, eu sei que posso continuar e não vou desistir facilmente, senhor! - exclamou Severus, determinado.

- Ótimo, vejo que está começando a compreender que aquele que nunca comete erros, ou acredita que nunca errou, é apenas um inútil que nunca fez nada - respondeu Snape, lançando um feitiço com as próprias mãos para que ele se defendesse. Aproveitou que o menino se posicionava para o combate e demonstrava empenho em se esquivar para aumentar a carga de ataques, para observar até onde a sua força de vontade conseguiria o levar. Aquilo o animou. Era um dos primeiros momentos do dia em que o menino conseguia desviar ativamente dos feitiços ofensivos que eram disparados em sua direção.

- Nem sempre será como o senhor pensa. Viu? Agora não conseguiu me acertar - disse Severus, ofegante e sorrindo, tentando recuperar o fôlego após o esforço físico.

Snape observou o menino com uma mistura de orgulho e cautela. Por trás daquela fachada determinada, Severus ainda era um ser frágil, buscando provar seu valor e superar suas próprias limitações. Ele sabia que não podia permitir que o menino se desgastasse além do necessário, mas também entendia a importância de desafiá-lo e incentivá-lo a ir além.

- Você tem coragem e é focado, Severus, e isso é admirável. Mas lembre-se, a verdadeira força está em saber quando descansar e recuperar suas energias. Ainda há muito a aprender, e precisamos de você em plenas condições. Descanse agora, e amanhã voltaremos mais fortes - afirmou Snape, estendendo a mão para ajudar Severus a se levantar do chão novamente, após mais uma queda.

Enquanto os dois se afastavam do campo de treinamento, a sombra da incerteza pairava sobre Severus. Será que ele estava realmente preparado para enfrentar os desafios que viriam? Será que sua persistência seria suficiente para superar as adversidades e provar todo o seu valor? O futuro era incerto, mas ele sabia que não podia desistir.

Aquele era o único caminho para transformar tudo ao seu redor. Severus lutaria com bravura e jamais desistiria. Seu objetivo era trilhar novos caminhos, mergulhar cada vez mais nas Artes das Trevas, adentrar as profundezas do Necronomicon sumério e tornar-se ainda mais poderoso. Um bruxo imponente, capaz de subjugar todos aos seus pés. Ele almejava ir além de qualquer outro ser que já existira, e sua sede por conhecimento e poder o conduziria a tal êxito.

Gradualmente, Severus foi se isolando e se afundando nos livros. Preferia a solidão à companhia de Tobias, evitando a sua presença a todo custo. Qualquer coisa era melhor do que estar perto de alguém que considerava extremamente nocivo.

- Então, meu príncipe Dracul, quais são seus planos? Teremos um novo Vlad, o empalador, ou posso ficar tranquilo com relação a esse assunto? - perguntou Snape, rindo sem alegria enquanto observava Severus devorar compulsivamente mais um livro e erguer os olhos por um instante para fitá-lo. Calmamente, ele retirou o livro das mãos do menino, incitando-o a iniciar um debate e sair da reclusão em que se encontrava.

- Dominar o mundo e dizer a todos "este homem me pertence". O que o senhor acha? - respondeu Severus, com um olhar decidido e questionador.

Snape ponderou, consciente de que aquelas palavras poderiam ser mal interpretadas por alguns. Nem todos possuíam um intelecto adequado ou uma mente aberta o suficiente para compreender verdadeiramente o significado daquela afirmação.

- Já que gosta de algumas frases desse livro, uma que servirá para a sua vida é: "Somos parte um do outro. Pois um amor verdadeiro é mais poderoso do que o tempo e o espaço. Ele vence a morte". Saiba que Drácula, no filme, atravessou os séculos em busca de sua amada, a princesa. Isso transformou Mina, que era vítima no livro, em sua cúmplice. Um filme maravilhoso. Pena que Drácula se parece tanto com aquele pulguento - comentou Snape, reflexivo, folheando as páginas do romance de Bram Stoker. Sua cabeça estava baixa e seu olhar perdido nas frases ali escritas. Aproveitando esse breve devaneio, Severus levantou-se para pegar o livro novamente e retornar à leitura, sem permitir mais interrupções.

- Faz sentido. É assim que está descrito no relato do estranho acidente do Demeter. Aquele navio russo que partiu de Carpathia e chegou a Londres com a tripulação toda morta, sem sangue, exceto pelo cachorro preto que escapou e foi considerado o único sobrevivente. Gosto da ideia de que Drácula tenha se metamorfoseado em cachorro, quase um lobisomem, depois de sugar o sangue de todos. Era a forma dele buscar vingança contra a humanidade, senhor - acrescentou Severus, semicerrando os olhos, imerso em suas teorias sombrias.

- Justo! Você tem bons argumentos e eu tenho assuntos a tratar, portanto, continue lendo e evite se envolver em problemas. Toda fonte de conhecimento é bem-vinda. Seja mágica ou trouxa, tudo deve contribuir para expandir seus exigentes horizontes, para que você fortaleça suas próprias convicções e não caia em armadilhas.

Snape assentiu em resposta ao meio sorriso que recebeu, dando as costas para sair, com uma expressão que denotava compreensão e reforçava a necessidade que Severus tinha de aprender rapidamente. Contudo, ele esquecia que tal isolamento só serviria para agravar o problema que se criava ao seu redor. Severus era muito mais solitário e narcisista do que Snape gostaria que fosse.

A preocupação em ambicionar tanto a própria superação e transpor barreiras físicas e emocionais era inquietante. Aquilo poderia destruí-lo com extrema facilidade. Especialmente quando era evidente a criação de uma perigosa atmosfera ultrarromântica, alimentando sua sensação de vazio e insatisfação constante.

A tal ponto que Severus se tornava um estranho, um estrangeiro, no mundo que antes conhecia tão bem. Ele ansiava por ser apenas bruxo e abandonar todas as suas vivências no mundo trouxa. Queria desaprender o que o tornava especial e único, abandonar completamente sua identidade e adquirir uma nova.

Sua mente e seu coração estavam exclusivamente voltados para o insano desejo da vida que teria e de como seria. Imaginava que, se Hermione o visse como um herói, teria que agir e se comportar como tal.

O homem honrado, corajoso, capaz de enfrentar qualquer adversidade. Uma verdadeira fortaleza diante dos perigos mais assustadores que surgissem em seu caminho. Nada o deteria em sua jornada, seja ela certa ou errada, pois já havia traçado o seu percurso inabalável. Acima de tudo, nutria planos secretos para sua própria vida.

- Serei o rei e conseguirei dominar tudo. Mas será que desejo que ela seja minha rainha? - sussurrou confessionalmente, dando voz a seus constantes questionamentos. Ainda com os olhos reflexivos fixos no texto, demonstrava estar cada vez mais imerso em seus próprios objetivos, iniciando seus projetos e estabelecendo metas sobre quem protegeria e como viveria nos próximos anos.

Severus, mergulhado em seus pensamentos e anseios, afastou-se do livro, erguendo os olhos para o horizonte. Sua expressão carregada revelava a angústia que habitava seu íntimo, os tormentos que o atormentavam sem piedade. A busca por poder e conhecimento, seu caminho pelas Artes das Trevas, tudo isso parecia pálido e insuficiente diante do propósito maior que abraçara.

Estava claro, entretanto, que Snape logo o abandonaria ou retornaria à sua nova realidade, deixando para trás toda aquela situação como se fosse um mero devaneio passageiro. Mas para ele, cada instante significava uma crença inabalável no futuro. Por mais desafiador e contraditório que fosse, nada poderia desviá-lo ou minar sua esperança. Ele era Severus Snape e nada o faria deixar de ser movido por uma promessa feita a si mesmo, uma promessa de alcançar o impossível e trazer de volta a vida que gostaria de ter.

Era sua palavra que se erguia como uma torre intransponível, sua determinação forjada em ferro. Ele jamais desistiria dessa busca, não importasse o que o destino lhe reservasse. Aquilo era seu farol, sua inspiração, e ele estava disposto a enfrentar qualquer tormenta. Era uma missão grandiosa, uma honra que ele carregava nos ombros, independente das escolhas que fizesse para sua própria vida. Afinal, sabia que, ao lutar por aquele sonho inconfessável, ele também estaria lutando por sua própria redenção.

Por sua vez, Snape não encontrava um minuto de descanso, dedicando-se a ensinar Severus com zelo, buscando suprir suas necessidades e esclarecer suas dúvidas. No entanto, parecia não ser o bastante. As sombras que se infiltravam em sua mente sussurravam que ele deixava escapar detalhes, que estava cego para aquilo que poderia ser claramente observado.

Talvez preferisse ignorar que nos olhos de Severus se acendia um brilho maligno, uma cobiça desmedida. Sempre desejava mais do que poderia alcançar. Ansiava por voar alto, como Ícaro com suas asas presas com cera em direção ao sol, sem avaliar as consequências de seus atos. Não se importava que isso pudesse levá-lo à própria ruína.

A questão em torno desse problema era que o mal já estava feito. O menino, mesmo sem expressá-lo, se enxergava como um verdadeiro e único Senhor do Tempo, vislumbrando um destino sublime. Sentia-se um ser supremo e soberano, capaz de destruir tudo e todos que ousassem atravessar seu caminho.

A raiva e o ódio o consumiam de tal forma que se sentia sufocado, à beira do desespero. Seus sentimentos intensos e violentos nunca se atenuavam, queimando dentro dele e transcendendo qualquer lógica.

Severus não sabia como agir e buscava uma maneira de pedir a Snape que o ajudasse a não destruir suas próprias raízes, a não perder seu próprio senso de identidade e se tornar um estranho para si mesmo. Embora ambos não se importassem com as consequências de suas escolhas sobre os outros, foi nesse momento que a relação entre eles começou a se abalar.

O adulto, finalmente, decidiu impor limites claros e precisos sobre a criança. Não poderia permitir que as coisas continuassem fugindo de seu controle, especialmente em um momento de urgência extrema, em que tudo parecia desmoronar. Normas claras e a reafirmação dos fatos mostravam-se mais necessárias do que ele imaginava.

O menino deixara-se levar por uma mágoa profunda que não lhe pertencia. Era um risco demasiado alto. Acima de tudo, algo que poderia dilacerar sua própria alma, sem que ele tivesse dimensão disso.

- Qual é o seu problema? - indagou Snape, rompendo o silêncio que se estabelecera entre os dois há alguns dias, buscando compreender exatamente o que estava acontecendo. A pergunta, desprovida de cobranças, restrições ou ordens a serem cumpridas, abriu um novo espaço entre eles. Era uma oportunidade preciosa para modificar o abismo que os separava, para construir uma nova ponte que os interligasse.

- Eu quero ser diferente - respondeu Severus, com uma sinceridade cortante, sem demonstrar temor algum em decepcionar Snape. Desabafou sem receios, sem os prováveis ressentimentos gerados pelas expectativas projetadas e que não seriam correspondidas. Estava farto de tudo e ansiava por alternativas para decidir o rumo de sua própria vida.

- Você já difere bastante do que eu era e sou, caso ainda não tenha reparado. Isso me impede de compreender exatamente em que aspecto você deseja ser diferente de mim - confessou Snape, um tanto desconfortável com o pedido, uma expressão de desgosto estampada em seu rosto. Silenciosamente, ele ponderava o quanto aquelas palavras eram graves, sentindo-se perturbado.

Severus demonstrava sua insatisfação, o que poderia levar tudo por água abaixo. Snape não estava preparado para esse tipo de confronto.

- Liberte-me daquela promessa! Só o senhor pode fazê-lo. Estou pedindo que me liberte disso. Eu não quero mais! - exclamou Severus. A resposta veio em forma de silêncio e um olhar de profunda reprovação, o que aumentou sua decepção em relação às atitudes de Snape, especialmente a maneira como ele o tratava. Por mais que tentasse, havia fracassado mais uma vez, o que o deixava frustrado.

Ao dar alguns passos para se retirar, Severus sentia-se aprisionado diante daquela frieza e indiferença em relação a tudo o que lhe dizia respeito. Sentia-se verdadeiramente seu pior inimigo, seu juiz mais cruel. Alguém que se autocondenava e não tinha como escapar da autopunição, o que o indignava diante de tamanha crueldade.

- Volte aqui, menino insolente! Quem você pensa que é para falar comigo dessa forma e virar as costas? - Snape o agarrou pelo braço, impedindo-o de partir e exigindo que o ouvisse. Não aceitaria que Severus o deixasse falando sozinho, muito menos que o desafiasse dessa maneira. Era mais velho, o adulto naquela relação, e exigia respeito como tal.

- O senhor não manda em mim! Não é meu pai e nunca se importou com o que eu sinto. Nunca defendeu minha mãe daquele vagabundo desgraçado! - Severus constatava que Snape parecia incapaz de se incomodar com toda a violência que ele havia sofrido, tampouco com os pedidos de ajuda que lhe fazia. Era como se não se abalasse pelos horrores que enfrentara durante sua infância. Talvez fosse indiferente a tudo aquilo, considerando que os novos problemas apenas fortaleceriam ainda mais sua personalidade.

Não parecia mais sentir nada diante das feridas e desolações. Estava morto por dentro, o que agravava ainda mais a tensão da situação. Algo apontava para um rompimento irreversível. Se não pudesse confiar em si mesmo, não seria capaz de acreditar em mais nada, não teria motivos para crer em ninguém.

- O senhor não passa de um fraco! É um maldito covarde que morre de medo do Tobias. Se eu estivesse em seu lugar, se eu fosse adulto, iria matar aquele porco imundo agora mesmo por tudo o que ele fez com minha mãe. Mas o senhor só quer me obrigar a gostar de uma pessoa que eu não faço a menor ideia de quem seja. Eu o odeio! - berrou Severus, deixando sua raiva explodir e as lágrimas queimarem em seus olhos marejados. Aquelas palavras foram o suficiente para estourar os problemas e as animosidades existentes, atingindo Snape em cheio e deixando-o sem reação. Ele não sabia como proceder naquele ponto específico sem arruinar tudo.

Muito menos tinha ideia de como lidar com tantas expectativas criadas por Severus, expectativas que ele jamais poderia corresponder, o que o deixava enfurecido. Percebia que nunca soubera lidar com as birras, os protestos injustificáveis, as feições fechadas, as tristezas, as esperanças que Severus tinha de ser libertado do medo diário ao qual era submetido.

- O que você chama de covardia, eu chamo de não arruinar sua vida. Eu não posso simplesmente fazer Tobias desaparecer com o movimento da minha varinha, seu pirralho imbecil, por mais que eu queira. É justamente por causa dele que você não se tornará um abusador. No entanto, você é tão inapto que não consegue perceber isso - sussurrou Snape, confuso e irritado com as acusações que acabara de enfrentar. Recusando-se a responder a mais uma afirmação, ele sacudiu Severus pelo colarinho da camisa, para que parasse de espernear e tentar brigar com ele.

Era uma dor compartilhada, uma fúria dividida. Ambos teriam que lidar com as incertezas e a contradição de enfrentar os horrores cotidianos sempre de mãos atadas.

Deixando que Severus partisse, sem impor qualquer empecilho, Snape colocou as duas mãos na cabeça e se encostou na árvore mais próxima. As dores aumentavam dia após dia, fazendo suas veias pulsarem rapidamente. Nada o impediria de cumprir com sua palavra. Ele faria daquele menino o bruxo mais forte e poderoso de todos, muito mais do que imaginava ou pretendia ser, independentemente do que isso lhe custasse.

Sentando-se na grama, massageava incessantemente as têmporas, repensando e reanalisando em que instante falhara tão gravemente. Reconstruindo o percurso feito, procurava friamente os erros para desestruturar os equívocos e destruir toda a bagunça pela qual era o único responsável.

Ele não perderia a confiança de Severus, tampouco se tornaria um mero expectador das decisões que o menino tomaria. Quando voltara no tempo, viu-se como o único responsável pelas decisões daquela criança e não permitiria que ele se desvirtuasse. Snape via o quanto era imprescindível continuar a guiá-lo. Não toleraria que o destino o golpeasse tão impiedosamente.

Com o peito ardendo e a respiração entrecortada, Snape foi se erguendo aos poucos, com a mente clara de quem chegara à conclusão de que não haveria outra saída. Não desistiria da decisão que tomara. Por mais que ela doesse e o machucasse, ele se encontrava impossibilitado de agir diante de algumas situações da forma que gostaria.

- Por que você foi gostar tanto de mim? - perguntou Snape em voz baixa, para si mesmo. Caminhando com passos lentos e cansados, afastava-se aos poucos. Daria tempo suficiente para que Severus se tranquilizasse. Mesmo que a noite fosse longa e seu corpo implorasse por descanso, ele não iria para casa. Queria evitar novos atritos desnecessários e turbulências que poderiam se desenhar mais à frente.

As ruas estavam escuras e sem direção específica, Snape vagava, sentindo o vento chicotear seus cabelos. A cada passo, suavizava um pouco os pensamentos e as ideias, tentando voltar ao foco inicial. No entanto, uma sensação estranha e inexplicável de medo se apoderou de seu peito, rompendo a tranquilidade que o guiava.

Com a tristeza dominando seus sentidos, Snape desconhecia a direção de onde viera o primeiro golpe. Uma força oculta o agredia no rosto e no estômago, impossibilitando-o de se defender do algoz invisível. Progressivamente, tudo foi escurecendo ao seu redor. Com a vista turva, Snape tateava as paredes das casas, dos pubs e das fábricas em busca de apoio.

- Tobias... - sussurrou Snape com a saliva rasgando sua garganta como terra ressequida. Essa era a terrível conclusão que surgia em sua mente, a única explicação para os sentimentos confusos e difíceis que o acometiam. O padecimento se espalhava por todo o seu corpo, consumindo-o.

Ao pular o muro e adentrar pelos fundos da casa, Snape ouviu os primeiros gritos, e seu coração deu um salto, acelerando descompassado enquanto se dirigia ao interior da residência. Sua respiração parou por alguns segundos, como se seu coração estivesse falhando, tornando tudo mais nítido. Severus decidira enfrentar o pai e estava sendo cruelmente espancado no porão.

As cenas de objetos quebrados na cozinha, o eco dos ruídos de coisas se partindo pelas paredes, os impactos de cada soco capaz de fragmentar ossos sensíveis, tudo remetia a um filme de terror, e seus sons eram aterradores. Snape sentia o seu corpo tremer diante da necessidade urgente de agir. Mas cada movimento em falso poderia ser fatal. O desespero se intensificava, enraizando-se em sua alma, enquanto tentava encontrar uma brecha para intervir nesse turbilhão de violência.

As palavras desapareceram em meio à opressão do ambiente, engolidas pela angústia que o consumia. Seu coração pulsava desordenadamente, quase como se estivesse prestes a desistir de bater. Era um duelo entre o medo paralisante e a coragem que fervia em seu íntimo.

Cada músculo do corpo de Snape parecia pesar toneladas enquanto se aproximava do porão, pronto para confrontar o pesadelo que se desdobrava ainda longe de seus olhos. Cada passo era um ato de fé, uma demonstração de sua determinação inabalável em proteger Severus, custasse o que custasse.

Tudo parecia acontecer em câmera lenta, como se o tempo estivesse suspenso, prolongando a agonia e a incerteza. Snape estendeu a mão trêmula, seus dedos roçando a maçaneta da porta do porão. O suor frio escorria por sua testa, seu corpo tenso, preparado para enfrentar o inferno que se desenrolava do outro lado.

Um grito silencioso rasgou a alma de Snape enquanto empurrava a porta e adentrava o porão, encontrando uma cena de horror indescritível. Seu coração parecia parar diante da visão de Severus, frágil e indefeso, sendo submetido à violência impiedosa de Tobias.

A expressão do menino, misturando dor e medo, ecoava como um lamento mudo. Seu rosto desfigurado era um espelho banhado em sangue pela crueldade que o cercava, ultrapassando todos os limites de selvageria que Snape conhecera em sua vida. Era uma crueldade em grau superior a todas as atrocidades que protagonizara em todos os seus anos como Comensal da Morte.

Tobias, com olhos faiscantes de ódio desenfreado, como um demônio encarnado, continuava seu ataque perverso, seus golpes carregados de uma fúria insana. Cada chute era como um golpe de foice na alma de Snape, alimentando a chama ardente de sua força e de suas certezas.

Severus estava no limite de suas forças, seus gemidos abafados pelo sopro da crueldade que o consumia. A visão do sangue escorrendo pelos lábios partidos era uma ferida aberta na consciência de Snape, uma lembrança de sua falha em protegê-lo, uma imagem forte de que deveria ter atendido aos seus pedidos de socorro.

A impotência dilacerava Snape, corroendo sua sanidade. As dúvidas assombravam sua mente: seria capaz de salvá-lo? Teria forças para enfrentar aquele monstro e proteger a si mesmo? A incerteza se entrelaçava com a coragem, moldando uma coragem férrea que o impulsionava adiante.

Um fio de esperança brilhava em meio à escuridão. Snape se aproximou silenciosamente, cada passo calculado, buscando a melhor oportunidade para agir. Seus olhos encontraram os de Severus por um breve instante, uma troca de olhares carregada de desespero e cumplicidade. Um elo invisível que os conectava, fortalecendo a vontade de sobreviver.

Snape permaneceu imóvel, fazendo um sinal para que Severus não tentasse nada para se proteger. Aproveitando que ainda não havia sido visto por Tobias, ele continuou se aproximando silenciosamente, sem medo de enfrentá-lo. Colocaria um fim àquela monstruosidade.

- Achou que eu não descobriria todo esse lixo? Você, seu moleque estúpido, não passa de uma aberração! A vagabunda da Eileen destruiu a minha vida quando você nasceu - esbravejava Tobias, ensandecido, desferindo mais alguns pontapés. Percebendo que o menino desmaiara, ele se afastou e se aproximou de Eileen, caída em outro canto do cômodo. Com um sorriso sádico nos lábios, Tobias retirou o cinto, pronto para infligir mais dor. Seu olhar maléfico denunciava suas novas intenções. Ele pretendia humilhá-la na frente do filho.

- Tobias, por favor. Você sabe que a culpa não é dele. Severus não fez nada para que o odiasse. Ele é apenas uma criança e ainda não compreende o que está acontecendo - Eileen implorou com a voz trêmula e chorosa, tocando o coração de Snape. Mesmo gravemente ferida, ela tentava fazer o possível para evitar o pior. Apressadamente, aproveitando que toda a atenção de Tobias estava voltada a ela, Snape pegou Severus nos braços.

O menino estava com a respiração fraca. Certamente, um de seus pulmões estava perfurado e, devido à quantidade de sangue, seu baço devia ter se rompido. Snape sabia que teria que fazer uma escolha difícil entre os dois. Vendo que a mãe poderia sobreviver por mais alguns minutos sem sua ajuda, decidiu retirar Severus dali antes de tentar salvar Eileen.

- Foge, mãe... - Snape sussurrou sem ser ouvido, subindo rapidamente as escadas para colocar o menino em segurança.

Segurando a cabeça de Severus, ele lhe deu uma poção cicatrizante para conter os sangramentos. O menino se recuperaria, embora devesse permanecer desacordado sobre a mesa da cozinha por um bom tempo, respirando baixinho e de forma irregular. Enquanto prestava socorro, os gritos vindos do porão aumentavam, ecoando ensurdecedoramente em sua alma.

Com dúvidas sobre o que fazer e como agir, Snape optou pelo caminho mais lógico. Ele não se sentia fraco nem morrendo, o que significava que Severus estava se curando aos poucos e ficaria bem. Poderia esperar alguns muitos a mais antes de levá-lo ao hospital para que se recuperasse completamente. Essa era uma das decisões mais difíceis que já tomara em sua vida, mas não recuaria.

- Como ousa, sua puta?! Onde você escondeu aquele pirralho maldito? Quem você pensa que é para me impedir de fazer o que quiser nesta maldita casa? Eu sou o dono e mando aqui! - gritava Tobias, espancando Eileen com ódio. Agarrando-a pelo pescoço, ele bateu com seu rosto na parede, usando todo o peso de seu corpo para imobilizá-la. Estava determinado a estuprá-la e assassiná-la ali mesmo. Depois, procuraria por Severus e o espancaria até a morte. Era o seu plano perfeito. Se livraria dos dois e incendiaria a casa, para poder viver impunemente com a amante que havia arranjado no bairro vizinho.

- Tobias, para...

- Você deveria chamar o seu filhinho para que ele veja como um homem deve tratar uma vagabunda. Você diz que ele é um machinho, não é? Uma hora terá de aprender. Quem sabe eu o ensine de outro jeito? O que acha? Ele tem jeito de ser mais um viadinho com aquele cabelo comprido. Pode ser até que goste.

A voz de Tobias irrompeu pelo ambiente, carregada de ódio e desprezo, como uma tempestade que ameaçava engolir tudo ao seu redor. Cada palavra proferida perfurava o ar, ecoando como punhais de crueldade, visando dilacerar a alma de Eileen e mergulhá-la em um abismo de degradação. Seu corpo trêmulo se debatia, suas lágrimas jorravam, lutando para escapar das mãos ásperas que rasgavam suas vestes e violavam sua dignidade. Um nó de amargura e revolta crescia em sua garganta, enquanto o gosto acre da impotência a sufocava. Ela se via aprisionada em uma teia de desespero, consciente de que qualquer ato de magia seria inútil diante da fúria implacável de Tobias. Ele estava disposto a buscar vingança, a infligir um tormento indizível sobre seu próprio filho e a infligir-lhe uma punição cruel e inominável.

No silêncio que se seguiu, a voz de Snape rompeu a atmosfera sufocante, ecoando como uma sentença irrevogável. A força de suas palavras, carregadas de coragem e persistência, era como uma lança que perfurava o coração do opressor.

- Solte-a agora!

Seus olhos, um espelho da alma dilacerada, encaravam Tobias com um desafio silencioso.

Em um turbilhão vertiginoso, os minutos voavam, como se fossem breves segundos. Num gesto impetuoso, Snape desferiu um soco potente, jogando Tobias para longe de Eileen. O olhar que lançou à mãe era um misto de urgência e desespero, transmitindo-lhe a mensagem silenciosa de que era imperativo fugir. Mas o temor que a envolvia como uma névoa densa paralisou seus passos, deixando-a imóvel, fitando-o com olhos perplexos e atordoados. Era como se seu mundo tivesse sido arrancado de seus alicerces, e a compreensão dos eventos que se desenrolavam ali escapava-lhe como areia escorrendo entre os dedos.

- Senhora, está bem? - perguntou Snape, quase num misto de automatismo e inquietação, sem ousar encará-la, mantendo seus olhos fixos nos movimentos de Tobias, o algoz que ameaçava suas vidas. Eileen, com um aceno tímido de agradecimento, respondeu de forma quase inaudível, antes de se afastar, subindo as escadas a passos trêmulos, desaparecendo no interior da casa. A solidão e o silêncio engolfaram Snape, que permaneceu ali, como uma estátua obscura, enquanto seu coração pulsava com uma mistura inebriante de fúria e firmeza.

Ao ver Tobias erguendo-se do chão, Snape o atingiu com um chute impiedoso no rosto, uma manifestação visceral de todo o ódio que se acumulara ao longo dos anos. O fogo voraz da ira, adormecido por tanto tempo, acendia-se novamente diante da cena brutal que presenciara. Ansiava por vingança, uma sede insaciável de sangue que percorria suas veias. Desejava consumir cada gota vital que seu pai possuía, ansiava por uma justiça brutal e implacável.

O ambiente carregava uma tensão quase palpável, enquanto Snape encarava o homem caído com olhos inflamados pela cólera. Seus punhos cerrados tremiam com a intensidade de suas emoções. Aquele momento marcava o início de uma jornada obscura, uma trilha encharcada de sangue e redenção, onde Snape se entregaria à tempestade de seus demônios interiores. Nada seria capaz de detê-lo agora, pois a fera adormecida havia sido despertada, e sua sede de vingança exigia ser saciada.

Numa perda total de noção temporal, Snape continuava a golpear, com toda a força e magia que possuía, cego pela ira que o consumia. Não pausava para refletir sobre suas ações e, por isso, não previu o golpe traiçoeiro que Tobias lhe desferiu. Por alguns instantes, parecia ter se esquecido com quem estava lidando.

Ao tombar no chão, Snape sentiu os primeiros socos atingindo seu rosto. Tudo acontecia em uma velocidade acelerada. Mesmo que retaliasse cada golpe, Tobias ainda era superior em força. Precisava encontrar uma maneira de se defender de forma mais eficaz. Em um impulso desesperado, agarrou o objeto que há anos guardava em seu bolso e rasgou o rosto de Tobias com ele.

Aproveitando-se do momento de desequilíbrio do homem, Snape o empurrou com as pernas, afastando-o. Erguendo-se rapidamente, sabia que poderia recorrer à sua varinha e aniquilá-lo com um simples feitiço, mas era uma questão de honra despedaçá-lo com as próprias mãos.

- Você deve ser o amante daquela vagabunda. O porquinho é idêntico a você! Você sabe, não é, seu canalha, que aqui somos criados com o rosto retalhado? Acha que um insignificante magricela vai me amedrontar?! - vociferou Tobias, limpando o sangue do rosto e gargalhando de maneira doentia, ao conceder a si mesmo um tempo antes de avançar novamente. Foi rápido. Sua voz e acusações silenciaram-se com o murro que Snape lhe desferiu na boca. Ouvir aquelas palavras, presenciar tamanha covardia, deixaram-no transtornado.

Cada vez mais cego pela fúria, puxando do seu íntimo e de seu ódio todas as forças possíveis e imagináveis, Snape imobilizou Tobias no chão com uma das mãos. Ainda consumido pelo ódio, empunhou a navalha e a posicionou perigosamente próxima à jugular do homem. O mataria ali mesmo se ele ousasse respirar. Daria um fim àquele horror interminável.

- Eu tenho dentes quebrados e cicatrizes graças a essas ruas. Já enfrentei uma guerra na qual tive de confrontar homens e mulheres muito mais fortes e inteligentes do que você. Não será um trouxa imundo e insignificante como você que me colocará medo - sibilou Snape, emitindo uma aura perigosa que deixou Tobias aturdido. O olhar maligno dele permanecia fixo no rosto de seu algoz. Era o rosto que aprendera, desde tenra idade, a odiar. Fingindo se acalmar e decidido a não mais lutar contra aquele desconhecido, pelo menos enquanto ele ainda estivesse armado, Tobias fez um gesto silencioso de trégua e exaustão.

No ímpeto de um instante, os segundos em que se encararam e se analisaram com hostilidade foram rompidos, como num piscar de olhos, pela explosão dos sentidos quando Tobias aproveitou a guarda baixa de Snape para desferir-lhe uma cotovelada nas costelas. Aquilo foi suficiente para fazê-lo recuar, porém não o impediu de agir por instinto. Abrindo o queixo de Tobias com a navalha, provocando seu corpo a retroceder, Snape o agarrou pelo pescoço, atravessando o piso da cozinha em sua fúria.

Esforçando-se para se proteger, Tobias percebia que era em vão. Snape o expulsava de casa, como se estivesse em todos os cantos, agredindo-o violentamente. Trataria aquele ser desprezível como o animal peçonhento que ele era, um canalha que espancava o próprio filho e violentava a esposa.

- Se você não desaparecer da minha vista em dez segundos, eu juro que irei desmembrá-lo vivo e espalhar seus pedaços no meio da rua. Tobias, ainda o caçarei até o inferno, pode esperar! - vociferou Snape. Desejava que aquele monstro experimentasse o medo de ser morto a qualquer momento. Já não podia conter todo o ódio que prestes a explodir. Sua magia pulsava em suas veias, exigindo cada vez mais sangue, e as ameaças fluíam de sua boca como água.

Como um covarde, que não ousaria retornar àquele bairro, Tobias cambaleou, afastando-se. Correndo desesperadamente pela calçada, intimidado pelas ameaças que ecoavam em seus ouvidos, sua expressão fez com que Snape abrisse um leve sorriso malicioso. Torcendo o lábio para o lado esquerdo, com os olhos semicerrados por conta das ideias terríveis que invadiam sua mente, Snape fez com que um galho de árvore caísse próximo a Tobias.

Muito provavelmente, aquele homem não ressurgiria em sua vida tão cedo. O mais importante era perceber que não mais seria assombrado por monstros e demônios prontos para invadir o quarto durante a noite. Snape não mais correria o risco de morrer sob uma surra brutal, e sua pele seria menos marcada por cicatrizes. Um nariz quebrado e uma semana no hospital não significavam nada diante dos horrores que poderia ter enfrentado.

Caminhando com passos lentos, Snape refletia que nunca mais seria chamado de aberração pelo homem que deveria amá-lo. Matar o próprio pai, mesmo que simbolicamente, representava liberdade e esperança. Arrancava de si sentimentos que o consumiam internamente. Percebia-se mais leve, mais vivo.

Sem humilhações, tristeza ou aversão a si mesmo, sem a constante sensação de impotência, tudo parecia se dissipar. Adentrando cada vez mais profundamente nesse dilema, não mais temeria construir uma família e falhar. Não seria um homem tão odioso quanto Tobias. Tornara-se seu próprio herói e pai. Por mais estranho e confuso que isso pudesse parecer, essa era a verdade.

Numa nova realidade, regozijava-se por ser o único responsável pelo rompimento de todos os laços que o aprisionavam à única criatura que o aterrorizara. Sentia-se feliz por ter se livrado dele. Era uma nova vida em que tal ato teria consequências futuras, consequências que não poderia mensurar.

- "Quem bebe do enigmático sopro dos espíritos tem os pensamentos curtos e nublados. Quem não nasceu admirado pelos deuses não sonha. Mas pior é aquele que teme a morte, pois se torna alguém que não vive" - sussurrava Snape para si mesmo, enquanto colocava as mãos nos bolsos e contemplava o céu.

Tomando coragem, Snape adentrou a casa novamente, movendo-se com passos silenciosos. Não tinha pressa em chegar à cozinha e confrontar sua mãe. Era difícil encarar a realidade e saber que seria obrigado a revelar toda a verdade. Atravessando o corredor lentamente, entrou no cômodo como se relutasse em estar ali, enfrentando a nova situação. Caminhando furtivamente, seus dedos percorriam a superfície da mesa, enquanto seu olhar preocupado se fixava em Eileen, que segurava Severus em uma postura defensiva. Era evidente que ela sentia medo e o protegia.

- Você deu a ele as outras poções? Não seria melhor levá-lo ao médico? - questionou Snape, sua voz carregada de apreensão.

- Eu vi que ele bebeu uma poção cicatrizante e lhe dei algumas poções de reposição de sangue. Consegui curar os ferimentos internos... Severus apenas terá algumas dores nas costelas que foram quebradas. Você sabe que, mesmo após o restabelecimento, elas ficam doloridas por alguns dias - respondeu Eileen, inspirando profundamente para reunir coragem, permanecendo em posição defensiva e desconfiada diante da presença daquele homem à sua frente. O desespero e o horror diário muitas vezes minavam sua força e poder.

Foi com ela que Snape aprendeu o quanto o sexo feminino, por mais inteligente e sagaz que fosse, muitas vezes era subjugado por homens medíocres. Violadas, espancadas, humilhadas de todas as formas possíveis. Era um ciclo de violência que ele havia testemunhado se repetir inúmeras vezes.

Primeiro a mãe, depois Narcissa... Assim como tantas outras mulheres desconhecidas, silenciadas e talvez até mortas após sofrerem nas mãos de porcos covardes e fracos. Era um destino cruel demais para qualquer pessoa.

Ao olhar para sua mãe, Snape sorriu simplesmente por vê-la ali, viva. Sentia-se feliz e seu único desejo era abraçá-la, enquanto refletia sobre sua obrigação moral de responder a uma série de perguntas que seriam feitas. Não se tratava de um assunto simples, e não poderia ser resolvido com respostas curtas para explicar o todo.

À medida que o tempo passava, tornava-se cada vez mais difícil para Snape discernir suas próprias motivações para tais atitudes. Não possuía mais certezas, e não adiantava tentar mentir ou omitir informações, pois Eileen era exímia em detectar qualquer tentativa de engano.

Seu rosto exibia uma expressão abismada e contemplativa, com um brilho curioso nos olhos. Ela percebia que aquele homem sofrido e amargurado era sua própria criança suja e faminta. Seus olhos escuros irradiavam uma luminosidade sombria, repleta de raiva e ressentimento.

Snape, por mais forte e corajoso que fosse, jamais conseguira deixar de ser alguém que fora duramente atormentado pela vida. Era uma pessoa que havia sido injustiçada e violentada inúmeras vezes em prol dos outros. Carregava consigo uma dor imensa, estampada em suas feições rígidas, que demonstravam o quão implacável o futuro havia sido com ele.

No meio de toda aquela confusão de sentimentos conflitantes e parcialidades, ele havia sido ferido incessantemente de uma maneira que não conseguia expressar. Sentia-se sempre preterido, sem entender as razões para que isso ocorresse de forma constante.

Em silêncio, Eileen e Snape se encaravam, mergulhados em seus pensamentos. Enquanto examinavam atentamente as expressões um do outro, Severus os observava com expectativa, ansioso para descobrir o teor daquela conversa muda. Ao mesmo tempo, tentava soltar-se dos braços de sua mãe para agradecer ao seu salvador.

- Não precisa ser grato... - sussurrou Snape, abaixando o olhar para encontrar os olhos de Severus. Ele concedia a Eileen o espaço necessário para começar seu interrogatório. Teria suas dúvidas esclarecidas. Enquanto isso, avaliava todos os passos dados até aquele momento, evitando causar mais danos ao futuro que havia modificado. Mais uma alteração e tudo estaria perdido. Se é que já não estava. Se é que não acabara de romper a última barreira que faltava.

- Filho? - chamou Eileen com uma voz incerta, repleta de dúvidas. Ela colocou Severus sentado em uma cadeira mais confortável e lhe entregou um pano úmido, com uma poção para desinchar os olhos. Ao encarar novamente Snape, desejava ouvir a explicação para tudo o que ele havia feito, buscando compreender como haviam chegado até aquele ponto.

- Diga logo o que a senhora quer saber, mãe... - respondeu Snape, olhando atentamente para os próprios pés, disfarçando sua preocupação. Enquanto isso, ele ponderava sobre a urgência de omitir a existência do Vira-Tempo de ouro, pertencente aos Malfoy e ainda em sua posse. Aquela era uma informação poderosa e perigosa, especialmente quando envolvia Eileen. Era um segredo que não poderia ser revelado de forma alguma.

- Como fez isso? - questionou Eileen, precisando assimilar rapidamente tudo o que ouviria para compreender os detalhes daquela situação. Caso contrário, seria extremamente difícil entender a magnitude do que estava acontecendo. Principalmente quando reconhecia que, por mais surpreendentes que fossem os poderes de Severus, jamais imaginara que ele seria capaz de desafiar o tempo, muito menos realizar algo de tamanha magnitude.

- É simples, o mundo deixou de fazer sentido e a vida perdeu a graça. Então, decidi que o obrigaria a finalmente começar a fazer o que eu quero - respondeu Snape, com uma voz carregada de mistério, revelando apenas um vislumbre das razões ocultas que o impeliam a agir daquela forma.

- Eu estou falando sério, Severus! - exclamou Eileen, com firmeza na voz, tentando transmitir a gravidade da situação.

Snape baixou a cabeça por um instante, sentindo a intensidade das palavras da mãe penetrarem em sua consciência. Ele compreendia a seriedade do momento e a necessidade de explicar suas ações de modo mais honesto.

- Me desculpe. Eu decidi recomeçar minha vida e ter minha Hermione de volta. Foi apenas isso o que aconteceu e, caso a senhora ainda não tenha entendido, essas são minhas únicas motivações - respondeu Snape, sincero, deixando de lado suas habituais nuances irônicas.

A resposta franca de Snape acalmou as dúvidas e indignações, mas também trouxe à tona os detalhes mais obscuros e absurdos por trás daquela frase. Ele se preparava para justificar suas ações e enumerar as questões que permeavam seus planos.

Os olhos de Severus brilhavam intensamente enquanto ouvia cada palavra, refletindo seus próprios desejos e anseios. Ele se animava com o relato e estava ansioso para girar o globo terrestre com as próprias mãos, sem se importar com as consequências. Devoraria o mundo antes que ele mesmo fosse dizimado.

Uma estranha sensação de poder renovado reverberava em suas células. O menino sentia uma convicção inabalável de que seus sonhos nunca mais seriam roubados por ninguém. Seria o único protagonista, controlando todos ao seu redor. Afinal, não era isso que Snape sempre lhe falava?

- Eu entendi muito bem. Você, por causa de uma Black, decidiu se tornar um Senhor do Tempo. Ou pior, você se transformou em seu verdadeiro dono e mestre, é isso? - acusou Eileen, sem se importar com a diferença de idade entre eles. Severus podia ser até mais velho, mas ainda era seu filho. Independentemente do que havia ocorrido ou do que estava por vir, ela apontaria seus defeitos e inúmeros erros com veemência, principalmente quando suas ações impactavam a vida de outras pessoas.

Bruxos extremamente poderosos já haviam sucumbido diante de Cronos. A loucura e a morte eram o único destino daqueles que desafiavam o tempo, mexendo com a ordem dos fatos.

- Não, eu não sou e não tenho pretensões de ser. Apenas quero ter novamente o que me foi tirado. É uma questão forte e básica de justiça - respondeu Snape, firme em sua convicção.

- Sua atitude foi irresponsável e egocêntrica! Você por acaso pensou, por um segundo sequer, que está brincando com a vida de todos ao seu redor? A vida das pessoas não é algo irrelevante ou uma bobagem! O que você tem no lugar do cérebro, Severus? - disse Eileen, com contrariedade e revolta estampadas em seu rosto. Snape encarava o piso da cozinha, buscando se esconder e ignorar a expressão de desaprovação e consternação de sua mãe. Tentando amenizar o clima tenso que se instalara no ambiente, e desejando conhecer a verdade nua e crua, ela decidiu que era melhor tentar ponderar.

- Severus, você me disse que era amigo da Narcissa, filha de Cygnus Black. No entanto, sua completa falta de sensibilidade o impediu de perceber o quanto ela o amava, a ponto de sacrificar sua própria felicidade. Segundo sua explicação, Narcissa renunciou aos seus próprios sonhos para que você pudesse perseguir os seus. Como você pode ser tão egoísta?

Eileen colocou ambas as mãos no rosto de Snape, obrigando-o a encará-la. Um sorriso se formou em seus lábios ao observar a confusão estampada em seu rosto, desestabilizando as certezas que ele tanto cultivava.

- Meu querido menino, tão perspicaz e engenhoso em muitos aspectos, mas tão fraco em outros. Uma mulher não realiza um gesto tão grandioso e absurdo, ou abandona algo de valor, se for indiferente a você e aos seus sentimentos. É possível que ela própria não tenha se dado conta do quanto estava apaixonada, mas é tão óbvio o amor que Narcissa sentia por você. É risível que os dois nunca tenham percebido isso.

Respirando fundo diante do silêncio de Snape, Eileen deu pequenos tapas em seu rosto. Nos olhos dele, ela podia enxergar a vergonha decorrente dessa situação, e continuou sorrindo. A timidez se tornava mais evidente pelo fato de o assunto estar sendo tratado na presença de Severus, que acompanhava tudo atentamente.

- Cissy é apenas uma grande amiga! Não tente plantar ideias na minha cabeça. Principalmente, não tente convencê-lo das suas ideias, ele ainda é muito jovem para se defender.

- Estou fazendo isso? Quem veio do futuro e encheu a cabeça de uma criança com absurdos foi você, seu irresponsável.

- Ah, claro! A culpa é minha. A senhora deve estar muito ocupada planejando meu casamento com Bellatrix Black ou Elizabeth Burke. Eu sou terrível por mostrar a ele que o futuro pode ser diferente?

- Quem garante que é isso que vai acontecer? Apenas porque você deseja, o mundo se curvará aos seus pés? Não seja tolo, Severus! Você é muito mais inteligente do que isso.

Eileen retrucou, apontando o dedo para ele com um ar acusatório. Suspirando profundamente, Snape soltou o ar que não havia percebido estar segurando por tanto tempo. Cruzando os dedos sobre a cabeça, sentia uma dor avassaladora, muito maior do que imaginava ser capaz de suportar.

Por mais que tivesse 37 anos, Severus sentia-se um inútil, incapaz de debater e esclarecer para Eileen o quanto ela estava equivocada. Era impotente diante das perguntas e afirmações dela, que sempre o atingiam de forma avassaladora.

- Oh, sim, claro. Você não quer se casar com Bellatrix ou Elizabeth. Mas, no caso da primeira, você não vê problema algum em se apaixonar pela filha dela. Além disso, essa mesma menina lembra muito a mãe em suas feições, como você mesmo disse. E agora, após viajar no tempo e virar o mundo de cabeça para baixo, acha que pode fazer o que bem entender, e eu estou errada nessa história? É isso?

Evitando encarar Eileen, Snape fixava os olhos no chão, preferindo o silêncio a iniciar uma discussão sem fim. Enquanto isso, Severus, perplexo, os observava sem compreender os motivos que haviam transformado o ambiente em um campo de batalha verbal.

Apesar de que poderia ser rotulado como egoísta, Severus encontrava certa satisfação nas palavras que ouvia. Seu caminho já não era mais solitário; agora havia uma alternativa, uma escolha que desejava fazer. Essa possibilidade começava a ofuscar todo o novo conflito e divergência que surgiam. Nada mais importava.

- Segundo o que me consta, meu único objetivo é casar meu único filho com uma das herdeiras da realeza bruxa. Alguém de sua idade! Você sabe o quanto eles relutam em casar uma filha com um mestiço? Entretanto, ao contrário do que você pensa, continuei insistindo e não desisti! Faço isso para que você não continue vivendo no meio de toda essa merda! O problema, Severus, é que você age de forma obtusa e grosseira. É tão teimoso que se recusa a enxergar o óbvio e insiste em tolices!

Bufando indignado, com as mãos nos bolsos para conter a raiva e a revolta, Snape olhou para Severus, que se distraía com seus próprios pensamentos, deixando-o desconfortável. Sabia que dali não surgiriam boas palavras e boas ideias. Mas, naquele momento, isso não importava.

- É mesmo? Apenas por isso? Que abnegação e justiça a sua, mãe! Seguindo suas próprias palavras, fui gerado apenas para ser um dos generais do Lorde das Trevas e unir-me a uma Black é essencial para proporcionar ao Agoureiro o parceiro perfeito! Essa é a mais pura verdade, e você deveria tê-la dito a essa criança tola diante de você. Não o engane com suas falsas promessas!

- Veja só, você está fazendo exatamente isso. Seguindo o plano perfeitamente, sem qualquer pudor ou peso na consciência. Não é maravilhoso?

A discussão acalorada, repleta de recriminações, alimentava o fogo hostil em ambos os lados. Eileen gritou ao vê-lo virar as costas e sair da residência. Snape não queria cometer nenhum erro ou proferir palavras das quais se arrependeria depois. Era melhor se afastar por alguns dias, encontrar clareza em suas ideias e permitir que o tempo curasse as feridas.

Snape permaneceu uma semana imerso em profunda reflexão sobre tudo o que havia feito e escutado. Era o mesmo período em que Severus se recuperava em um leito do Hospital Saint Mungus. Seus pensamentos lhe diziam que sua mãe estava certa em muitos aspectos e críticas feitas. Ele reconhecia que não deveria ter brincado com a vida de todos de forma tão imprudente, sem pensar nas consequências que viriam a seguir.

Após dias perambulando pelas ruas, mergulhado em elocubrações profundas, buscando abrigo em casas abandonadas, Snape finalmente retornou ao Spinner's End. Ali, pretendia treinar e moldar Severus em alguém mais contido e digno. Sabia que teria que se esforçar para retirar as sementes de ideias que, provavelmente, já estavam brotando na mente do menino. Mas a dúvida persistia: seria capaz de reverter o estrago causado, ou o dano era irreparável?