Os meses transcorreram rápidos e rasteiros, fazendo com que os dias passassem ao sabor do vento. Sem que se fizesse perceber, o mês de julho se anunciara com uma manhã ensolarada, com alguns raios rompendo as nuvens, trazendo um sopro de renovação. Era o início do verão e Severus acordara animado com a luminosidade que entrava pela janela. Aquele clima ameno e morno o agradava, principalmente por lhe proporcionar uma energia extra para os estudos, os exercícios contínuos e as correções incansáveis que viriam.

Os dias mais longos o deixavam feliz e lhe faziam experimentar a sensação de esperança. Era um tempo adicional que ele poderia passar conversando com Snape e sendo instruído sobre os mais diversos assuntos. Horas preciosas em que tinha a oportunidade de simplesmente fingir que aquele homem era o seu pai e ser mais feliz do que algum dia cogitara ser.

Descendo as escadas tranquilamente, Severus teve de se abaixar para desviar de uma coruja marrom strigiforme que invadia a sala, com um pergaminho amarrado na pata. Certamente, tratava-se de boas notícias, pelo olhar cheio de expectativas com que Eileen olhava para o animal prestes a pousar. Deviam ser os documentos pelos quais ela aguardava ansiosamente havia semanas.

Na pequena carta, era informado que uma das antigas propriedades dos Prince voltaria aos herdeiros e, em três dias, receberiam as plantas e a certidão do imóvel. Era mais uma conquista à qual deveriam agradecer ao Lorde das Trevas. Como havia prometido, ele ordenara aos seus seguidores infiltrados no Ministério da Magia que revogassem o testamento dos pais dela e obtivessem o maior número de imóveis possíveis. Porém, eles conseguiram apenas um entre os tantos outros que acabaram destruídos pelo tempo. Isso já era mais do que suficiente para que se sentissem realizados.

Snape observava em silêncio toda aquela movimentação eufórica. O coração de Snape se enchia com uma mistura de emoções. Por um lado, sentia-se feliz por Eileen, por vê-la finalmente ter a chance de estar onde mais amava. Era como se visse um brilho de esperança se acender em seus olhos castanhos cansados. Por outro lado, a incerteza pairava sobre ele. Seria Caerleon realmente o lugar ideal para construir e refazer seus sonhos de paz?

Enquanto esses questionamentos ecoavam em sua mente, Snape forjava uma expressão serena em seu rosto, escondendo suas dúvidas e incertezas por trás de sua máscara de imperturbável calma. No fundo de sua alma, ele ansiava por encontrar uma terra tranquila, com ar puro, na qual Severus pudesse ser verdadeiramente livre, caminhando pelas luzes de uma nova vida e realizar seus sonhos.

- Tomou banho antes de descer? - perguntou Snape com um sorriso irônico direcionado a Severus. O menino, sentando-se calmamente à mesa para tomar o café da manhã, apenas o olhou e retribuiu o sorriso. Antes de responder qualquer coisa, preferia se servir com uma fatia de pão e uma xícara de chá com leite, para melhorar ainda mais o próprio dia.

A verdade era que, no fundo, Severus ainda não conseguia se acostumar com o fato de que alguém se preocupava com o seu bem-estar. Que aquele homem, com suas perguntas afiadas e olhar muitas vezes hostil, todos os dias estava ali, se esforçando para que nada lhe faltasse. Ou, o mais incrível, Eileen conseguira um emprego e os tempos de miséria começavam a dar largos passos para terminar. O coração de Severus se enchia de uma mistura de gratidão e incerteza, pois não conseguia deixar de se questionar se essa felicidade repentina duraria ou se seria apenas mais uma ilusão passageira.

- Sim, eu fiz exatamente o que o senhor me explicou. Usei uma esponja para me esfregar inteiro. Eu estou bem limpo e cheiroso. Quer ver? - respondeu Severus com um sorriso maroto, brincando com a ironia do momento.

- Muito bom, mas não há necessidade de ficar esticando o pescoço na minha direção. Eu acredito no que me diz, não se preocupe. - Snape respondeu com um tom seco, mas com um olhar suave que revelava sua satisfação.

- Aproveitando que você é um bruxinho inteligente, que aprende muito rápido as coisas, hoje terá aula sobre Runas. Gosta da ideia?

Snape terminou de comer a torrada e beber o último gole de suco, despreocupadamente, demonstrando um interesse mais aguçado pelo comportamento de Eileen, que parecia estar alheia ao que ocorria na cozinha. Sem tirar os olhos de cima de Severus, que o observava atentamente, esperava que o menino lhe questionasse algo ou demonstrasse algum novo interesse. Entretanto, sua ideia foi bem aceita e começou a gerar perguntas ali mesmo, no cômodo que antes era apenas mais um lugar hostil no mundo que ambos conheciam.

- Qual delas? - indagou Severus, curioso e ansioso para aprender algo novo.

- As Ramrunes e as Sigrunes, que são as mais importantes por hora. As primeiras são carregadas de poderes trazidos em rituais e protegem o bruxo que as desenhou. Apenas ele pode realizar feitiços diante delas. No caso das outras, que eu citei, são voltadas ao sucesso e à vitória. São runas destinadas às batalhas e devem ser talhadas nas armas que serão usadas no conflito. É por este motivo que elas estão presentes nas varinhas de todos os Black, na de Dumbledore e na sua.

- Interessante... eu posso fazer uma pergunta, senhor? - interrompeu Severus, ansioso por saber mais e demonstrando seu desejo de aprender. Antes de beber mais um gole de chá, percebeu que seus gestos seguiam sendo observados atentamente. Aquilo o deixou um pouco inibido, realmente não conseguia se habituar a ser o centro da atenção de alguém e tal fato o fazia sentir-se estranho e especial ao mesmo tempo. Talvez isso significasse que era considerado importante e que suas opiniões mereciam algum respeito. Talvez fosse amado.

- Já o fez... - respondeu Snape de forma ainda mais fria e insensível, mas não deixou transparecer na sua expressão o quanto apreciava a curiosidade e a sede de conhecimento de Severus.

- Que seja! Mas e aquelas que o Sirius Black tem, aliás, terá pelo corpo... o que elas representam? - indagou Severus, não se importando com a rispidez da resposta. Ele queria mais informações, sua mente curiosa sempre buscando novos detalhes. Snape era obrigado a explicar cada ponto de forma detalhada, como uma forma de tentar sanar as claras expressões de dúvida com as quais era encarado.

- Aquilo segue um dos princípios básicos da magia relacionadas à palavra. Elas são chamadas de Hugrunes e servem para reforçar o poder mental do bruxo que as possui. É uma das várias invocações a um dos corvos de Odin, especificamente o Hugin da memória, e está diretamente relacionada às Malrunes. O que eu quero que compreenda, Severus, é que elas são fórmulas rúnicas faladas, escritas ou cantadas. As Malrunes eram as canções que davam coragem para os Vikings atravessarem os mares, sem medo da fúria dos deuses, e seguirem sempre em frente. Ficaram conhecidas como Galdr e são muito fortes.

O silêncio atento e contido de Severus possibilitou que Snape concluísse a explicação com calma. Observando o brilho de curiosidade nos olhos do pequeno bruxo, Snape pegou uma maçã verde do cesto e fez um gesto para que Severus o acompanhasse, adentrando em um ambiente propício para a continuação de suas explicações.

-Vou te mostrar um exemplo prático. Estenda as mãos que eu desenharei algumas runas nelas. - a voz de Snape era grave, carregada de mistério e expectativa, enquanto se sentavam em dois bancos no porão recém reformado.

- Agora, observe bem esta maçã e concentre-se. Repita mentalmente o que você deseja que aconteça com ela. Deixe que o poder das palavras flua e reverbere através do seu corpo, que elas preencham a sua mente e se conectem diretamente com a essência da maçã.

Severus sentiu um calafrio percorrer sua espinha, uma mistura de ânsia e curiosidade que o envolveu como um véu invisível. Pegando a maçã com cuidado, ele a segurou entre as mãos trêmulas, contemplando-a com intensidade. A incerteza e a expectativa se misturavam em seu interior, como um vendaval de emoções indomáveis.

Seguindo as instruções de Snape, aos poucos, o menino foi fechando os olhos, entregando-se à escuridão que se formava em sua mente. Repetindo em seus pensamentos o que desejava que ocorresse, ele imaginou uma energia invisível emanando de seu corpo, fluindo através de seus dedos e envolvendo a fruta delicadamente. Cada pensamento, cada palavra, era um chamado silencioso para a magia fria que habitava seu ser.

Por um breve momento, um frenesi sutil tomou conta de Severus, uma sensação de que algo realmente poderoso estava acontecendo além das fronteiras do que conhecia. A energia em suas mãos parecia pulsar, vibrando em harmonia com os batimentos acelerados de seu coração. A conexão entre sua mente e a maçã se fortalecia a cada instante, envolvendo-o em uma aura de mistério e fascínio.

Ao abrir os olhos, a visão que se desdobrou diante de Severus deixou-o boquiaberto. A cor da maçã havia mudado levemente, adquirindo um tom mais vibrante. Era como se um brilho sutil dançasse sobre a sua superfície, emanando uma energia mágica que parecia pulsar em sincronia com o seu próprio ser. Um sorriso de surpresa e encantamento iluminou o rosto do menino.

- Eu realmente fiz isso? - perguntou, mal conseguindo conter o entusiasmo e a incredulidade que tomavam conta de sua voz. Já havia realizado feitos notáveis, mas alterar algo daquela maneira era uma experiência completamente nova e arrebatadora. Uma centelha de confiança começava a se acender em seu interior.

- Sim, Severus, você o fez. - a voz de Snape era repleta de um orgulho genuíno, misturado com a certeza de que aquele era apenas o começo.

- Isso é parte do despertar do poder das Hugrunes desenhadas nas suas mãos. Agora, imagine o que você será capaz de fazer quando dominar completamente o poder dessas runas e todas as outras formas de magia que estão à sua disposição.

O brilho nos olhos de Severus intensificou-se, alimentando sua sede insaciável por conhecimento e aprimoramento. Ele finalmente sentia que estava descobrindo o seu verdadeiro potencial, que o mundo se revelava diante dele como um vasto e emocionante oceano de possibilidades. A insegurança e as dúvidas que antes o atormentavam começavam a se dissipar, substituídas por uma chama ardente de determinação e certezas.

Seria um longo dia. Além do intenso treinamento que o esperava, eles também teriam que auxiliar Eileen nos preparativos para a mudança de residência. Uma mudança apressada, decidida sem hesitação, deixando para trás não apenas móveis e roupas, mas também as lembranças dolorosas que assombravam aquelas paredes desgastadas.

Em poucos dias, eles abandonariam aquele imóvel, carregando apenas o peso das palavras impressas nas páginas dos livros e o vazio de uma vida marcada pelo sofrimento. Os horrores do passado ficariam ali, solitários e aprisionados, condenados a se desvanecerem junto com a poeira e a sujeira acumuladas. Seriam segredos perdidos nas ruínas, fragmentos de uma história que se dissiparia no tempo.

Enquanto isso, Severus encontrava refúgio nas alegrias simples e fugazes que a vida lhe oferecia. Seus dias de estudo eram entremeados por banhos de mar revigorantes, passeios de barco que desafiavam as ondas e a busca por pequenos peixes nas poças d'água formadas entre as rochas. Em meio a essa rotina tranquila e feliz, ele descobria uma felicidade desconhecida, uma sensação de liberdade que permeava sua alma.

Os momentos mais preciosos eram aqueles em que podia se sentar ao lado de Snape no topo da pedra, próximo ao Farol de Castle Hill. Ali, eles conversavam, compartilhavam ideias e contemplavam juntos o horizonte que se estendia infinitamente à frente. Era um processo lento, mas significativo, que gradualmente transformava o cansaço em serenidade e paz absoluta.

Entre as horas dedicadas ao estudo, eles se aventuravam na língua nativa da região, o Cymraeg. Em meio às palavras ocultas e misteriosas dos galeses, eles buscavam compreender o que se escondia nas entrelinhas, desvendar segredos e expressar suas próprias ideias em uma linguagem ancestral. Cada descoberta era como uma pequena vitória, um laço que os unia ainda mais, fortalecendo sua jornada conjunta rumo ao desconhecido.

Dessa forma, o tempo passava em um ritmo próprio, tecendo laços invisíveis entre Severus e Snape, preenchendo seus dias com significado e propósito. Enquanto o mundo exterior continuava a girar em meio às incertezas e perigos, eles encontravam um refúgio, um oásis de calma e aprendizado onde as palavras ecoavam e os sentimentos se entrelaçavam em harmonia.

No entanto, nem tudo transcorreu suavemente como era esperado. Próximo ao final do ano de 1967, Snape começou a testemunhar uma transformação na personalidade de Severus. Era como se novos traços de caráter estivessem emergindo, insidiosos e impiedosos.

Havia um constante ar de ferocidade contida em Severus, uma expressão séria, fria e calculada que se escondia sob suas espessas sobrancelhas. Seus olhos, outrora profundos, agora transpareciam um resplandecente fogo negro, enigmáticos e mais sombrios do que nunca. Era como se dois diabretes estivessem confabulando secretamente seus planos indômitos e malignos.

Dia após dia, o pior lado de Severus se mostrava cada vez mais forte e voraz. Permanecia silencioso e oculto, à espreita do momento preciso para se revelar completamente, sem qualquer sombra de medo. A voz da escuridão não mais sufocaria sua maldade e raiva, especialmente quando o mundo inteiro parecia ser uma cruel testemunha dos horrores que ele vivenciara. Em diferentes momentos e por diversos motivos, a vastidão do universo o aniquilava.

- "Um dia ela existiu e eu a perdi para sempre" - sussurrou Snape, citando uma frase de Emily Brönte com reflexão e pesar. Era um desabafo, uma expressão de sua própria angústia.

Internamente, ele sentia um crescente fracasso em relação a Severus, que se mostrava cada vez mais distante. Era extremamente frustrante e exaustivo. O que mais poderia fazer por ele? Onde havia falhado? As perguntas se acumulavam, sem respostas, torturando-o incessantemente.

- Se o senhor pretende recitar O Morro dos Ventos Uivantes, a frase que melhor nos define é aquela dita por Catherine Earnshaw, quando explica o motivo de estar trocando Heathcliff por Linton - provocou Severus, mal erguendo os olhos para argumentar. Sua atenção estava completamente voltada para o livro de William Blake, o qual o fazia franzir a testa pensativo de tempos em tempos, ignorando tudo ao seu redor, principalmente a expressão séria e grave com que Snape o encarava.

- É mesmo? - indagou Snape, sem compreender exatamente o que Severus queria dizer. Ele não entendia por que o menino evitava olhá-lo, por que o ignorava ou por que estava tão disposto a responder-lhe com evidente cinismo estampado no rosto.

- Sim, quando ela diz que amava Heathcliff. Mas o amava tanto que se casaria com Linton, porque ele era rico - respondeu Severus em tom mordaz.

- "Por isso ele nunca há de saber o quanto o amo. Não porque ele seja belo, Nelly, mas por ele ser mais eu do que eu própria. Não sei de que são feitas as nossas almas, mas elas são iguais; e a de Linton é tão diferente da minha quanto um raio de lua é diferente de um relâmpago, ou o fogo da geada". É essa parte a que se refere? - completou Snape, fazendo referência à citação de Catherine Earnshaw mencionada, o observando pensativo.

- Exato, e o senhor já deve saber exatamente o que isso significa. Acredito que até já saiba a quais pessoas me refiro - provocou Severus, lançando um olhar penetrante a Snape.

- Você viu nas memórias a existência do Elo. Eu não sei o que tem em mente, entretanto, saiba que as suas escolhas podem tornar alguém a mais infeliz das criaturas. Seu evidente egoísmo pode arruinar tudo e deixar uma pessoa inocente se sentindo completamente abandonada - repreendeu Snape com veemência, enquanto se esforçava para conter ideias desproporcionais que poderiam estar surgindo na mente de Severus, temendo que ele trilhasse um caminho sem volta.

- Eu não me recordo de ter me casado com quem quer que seja. Se o senhor não lembra, eu só tenho 7 anos, não sou adulto e nem casado! Eu não posso ser obrigado a isso. Eu não quero e o senhor não pode me obrigar! - respondeu Severus, perdendo a paciência e jogando o livro com força no chão. Bufando audivelmente de raiva, ele saiu pisando duro e proferindo palavras de desprezo, expressando os conflitantes sentimentos que o oprimiam.

Snape ficou atordoado com aquela explosão de emoções. O comportamento de Severus o deixava perplexo e questionava a si mesmo. Enquanto via o menino se afastar com passos largos e determinados, suas dúvidas só aumentavam, alimentando a conflituosa turbulência em sua mente.

- O que foi isso? - indagou Snape para o vazio, sem esperar por uma resposta. Logo, ele estaria perdendo o controle sobre quase tudo, e talvez o progressivo poder de Severus se somasse aos danos que lhe foram causados. Era doloroso testemunhar como a infância do menino estava sendo roubada prematuramente. Seja pelas leituras de livros além de sua idade ou pelos traumas que ele vivenciou, Severus estava se transformando em um adulto antes do tempo.

Ouvindo o vento soprar enquanto caminhava pela baía de Cardiff, Snape contemplava o nascer do sol com a mente distante. Precisava refletir profundamente sobre as mudanças que estavam ocorrendo. Não desejava que o abuso, a negligência e o desprezo que sofreu ao longo dos anos o subjugassem. E, acima de tudo, não permitiria que essas experiências despertassem em Severus um desejo autodestrutivo, uma busca insana por vingança e escárnio contra aqueles a quem já odiava sem conhecer.

No entanto, esse não era seu maior temor. O que mais o assustava era a possibilidade de Severus se tornar alguém mal-intencionado e abusivo. Ele não estava dedicando tanto tempo e esforço àquele menino para vê-lo se transformar dessa forma.

Sua apreensão tinha fundamentos concretos. Severus começava a manifestar gestos calculados e dissimulados, revelando o quanto havia se tornado um pequeno manipulador, ardiloso e inescrupuloso. Ele mostrava-se disposto a fazer qualquer coisa para obter o que desejava, sem medir as consequências. Não havia limites ou contenção em seu horizonte, apenas a busca incessante de benefício próprio.

Se necessário, ele usaria qualquer pessoa para alcançar seus objetivos e, em seguida, a descartaria. Infelizmente, foi isso que Snape contou a ele quando se referiu a Lily. Ela o usou como um degrau para adentrar no mundo bruxo e, depois, o tratou com desprezo, como se fosse lixo.

Outro aspecto preocupante era que Severus, aos poucos, se afastava e parecia ressentir-se cada vez mais por algo não dito. De tempos em tempos, revelava uma postura característica de alguém que se sentia negligenciado, como se estivesse se fechando em seu próprio casulo. Snape se perguntava o que mais poderia fazer para impedir que o menino se visse daquela maneira, mas as respostas escapavam de suas mãos. Elas se mostravam mais exigentes e esquivas do que as ambições do jovem Prince.

A vida se descortinava mais facilmente quando os dias eram permeados por tristezas e as noites, agitadas pelo medo. Madrugadas em que o silêncio falava mais alto do que as palavras e o coração sangravam por conta da solidão. Mantendo a cabeça erguida e fingindo ser alheio a tudo, Snape encontrara uma forma de esconder suas melhores qualidades para sobreviver.

Agora, por mais que tentasse expressar seu espanto pelas coisas que havia feito, nada parecia ser suficiente. Sua atitude hostil permitia que suas reais intenções e verdadeiros sentimentos fossem revelados apenas àqueles que merecessem.

O que fazer? Seu plano era claro e não seria alterado pelas teimosias de uma criança. Snape considerava as vontades de Severus como meros detalhes tolos. O que ele sabia da vida aos 7 anos? Ele teria que aprender, mesmo que às custas de dificuldades, a não se deixar enganar ou abandonar-se diante de trivialidades.

Sua postura impassível e altiva surgiria, após ser incansavelmente corrigida, para que tivesse a elegância de um perfeito príncipe e nunca mais se modificasse. Mesmo que sentisse um cansaço crescente e dores terríveis na cabeça, Snape faria com que Severus desenvolvesse o melhor de si mesmo e se libertasse de seus terrores infantis.

Logo, certas coisas se apagariam. Os trejeitos rústicos e grosseiros seriam completamente transformados, substituídos pelo estudo de uma dicção correta e sem tropeços, gestos gentis e compassivos, passos ensaiados e aprendidos que ocultavam seus intentos mais sombrios. O refinamento impecável chamaria a atenção daqueles que lhe interessavam.

Severus, aos poucos, refletia o comportamento duro e sério de Snape. Seus esforços incessantes contrastavam com suas frases repletas de sarcasmo e ironia. O herói e o vilão se revezavam, mesmo que ele aprendesse a abandonar o que poderia ser considerado mais gracioso e cortês.

Treinando como um pequeno soldado, diariamente, Severus moldava e manipulava sua forma de andar para se tornar lenta e silenciosa. Como um ladrão sombrio, perambulava pela madrugada como um gato, refinando ainda mais os detalhes mais preciosos ao longo dos anos. Adaptava seus passos a um movimento extremamente lúgubre e perigoso.

O menino seguia firme e pragmático, como um jovem vampiro, na expectativa de localizar sua primeira vítima. Rondava, atento e seguro, sob o manto das tempestades, prontamente preparado para dar o golpe mortal e sorver o sangue quando a oportunidade surgisse.

Seus olhos brilhavam com a certeza de que um dia se tornaria aquele homem alto e bonito. Vestido inteiramente de preto, reviveria todos os sonhos que, naquele instante, se desmoronavam, libertando-se do abismo. Ele seria mais do que um simples homem. Seria livre das amarras que o sufocavam e se transformaria em um bruxo das trevas.

Um demônio, um deus, um guru, ou qualquer força capaz de governar as leis do tempo. Severus ansiava por reverter tudo apenas para se tornar aquele a quem todos temeriam e jamais ousariam enfrentar. O fantasma sussurrando o nome dos desafortunados, aproveitando a oportunidade para saciar-se com o alimento da vida. O Comensal da Morte que Snape fingia não ser. A fera pela qual ele sentia tamanha admiração.

Semanas pareceram voar, guiadas pelos ventos litorâneos, levando para mais longe os traços da inocência valiosa e irrecuperável. Tudo o que havia sido perdido em prol das necessidades e interesses de Snape seria cobrado em algum momento, especialmente questões que, para Severus, não faziam sentido lógico. Eram apenas ordens sobre uma missão a cumprir, uma obrigação que divergia de seus próprios planos e estimulava sua hostilidade.

Uma agressividade envolta por uma aura intransponível de mistério e nebulosidade, que poucos ousariam tentar investigar. Sua fisionomia infantil e afabilidade simulada representavam uma ameaça iminente. Talvez toda aquela vibração enigmática e crítica fosse uma arma de fascínio.

Para Snape, servia para forjar os nervos do menino e transformá-los em cordas de aço, um provável artifício que conquistaria a dedicação e o apreço de algumas meninas. Seria uma sensação maravilhosa observar como as pessoas finalmente notariam sua existência e não o tratariam como um inseto. Admirariam ou temeriam, mas o respeitariam. Essa ideia o fez sorrir de satisfação ao olhar para Severus. A criança, claramente atormentada pelo descaso sofrido e pelo ódio que nutria em seu coração, se tornaria soberana e forte, como ele cogitava ser.

Esse era o combustível que alimentava seu desejo quase homicida de ser amado. Estava disposto a matar ou morrer pelo amor e dedicação de alguém. Essa era a única e absoluta verdade indiscutível que ainda os unia. Em pouco tempo, Severus conheceria as irmãs Black e faria amizade com elas, o que demonstrava o quanto tudo estava seguindo a lógica e o rumo esperado por Snape desde o início.

- "Minha alquimia agora atinge o seu ponto crítico. Não falham os meus experimentos, obedecem-me os meus espíritos, e o Tempo traz em sua carruagem o minuto exato" - disse Snape, apontando para o livro que Severus lia naquela tarde chuvosa à beira-mar. Seu sorriso era sincero. Estava orgulhoso de como aquele menino se tornara educado e como sempre o observava com tanta atenção.

- Gosta do livro A Tempestade, de Shakespeare, senhor? - perguntou Severus.

- Acho todas as histórias do Bardo interessantes. Elas são realmente muito boas, mas eu aprecio mais O Conto de Inverno.

- Ah, claro, a narrativa do amor do rei Leontes pela rainha Hermione, seu ciúme e sua perda. Como não imaginei isso? - respondeu Severus irônico, bufando baixinho e revirando os olhos entediado. Estava cansado da frequência com que aquele assunto sempre era retomado. Direta ou indiretamente, menções surgiam, somavam-se e amontoavam-se por todos os cantos. Parecia que sempre havia algum motivo para relembrar daquele tema.

- Pelo fato de que sua mente está distante do que realmente importa, eu não me sinto no dever de esquecer os motivos que me fizeram vir até aqui. Além disso, aprecio que adquira esse tipo de cultura literária. Você será um catedrático futuramente, não deve agir como um tolo inútil e ignorante. E, aproveitando todo o seu bom humor, jovem Padawan, aviso que amanhã eu estarei partindo - disse Snape, com um tom ácido, enquanto erguia uma das sobrancelhas e encarava Severus.

- Ainda falta um mês para terminar o prazo de um ano... - respondeu Severus, buscando argumentos para convencer Snape a ficar.

- Tenho algumas questões para resolver diretamente com o Lorde das Trevas. Antes de retornar ao ano de 1997, eu devo deixar determinadas coisas que devem ser solucionadas aqui e sigo com a minha vida. Satisfeito? - interrompeu Snape. Era doloroso, mas ele sabia que era necessário admitir para si mesmo que não havia motivos que o levassem a deixar qualquer margem para que Severus pudesse dizer ou fazer algo que mudasse sua opinião. As lágrimas que começavam a se formar nos olhos do menino não seriam suficientes para fazê-lo desistir.

Severus sentiu uma mistura de tristeza e frustração preencher seu peito. Sabia que as palavras de Snape eram duras, mas não conseguia evitar sentir-se abandonado. Ele queria ser valorizado, ter a chance de demonstrar seu potencial e conquistar o respeito daquele a quem tanto admirava. As dúvidas e incertezas sobre seu futuro se intensificavam, e a partida iminente de Snape só aumentava a confusão em sua mente.

Enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto de Severus, ele lutava para conter suas emoções imersas em um abismo de solidão e desamparo. Snape observou de longe o sofrimento de Severus com um misto de compaixão e dureza. Embora fosse difícil para ele admitir, sabia que seu afastamento afetaria profundamente o menino. No entanto, era uma escolha que precisava ser feita, uma missão que ele não poderia deixar de cumprir.

Snape partiu, sem abraços ou um adeus, e essa ausência deixou Severus andando cabisbaixo e triste. A separação daquele homem, a quem ele amava como se fosse seu próprio pai, abalou-o profundamente. Embora relutasse em admitir e tentasse ser forte, a incômoda sensação de abandono e saudade o acompanhava diariamente sem piedade ou restrição.

O Tempo, como Senhor dos Enganos, parecia mover-se morosamente. Quanto mais se prolongava, maior era a perturbação diante daquela ausência e mais o coração de Severus se despedaçava. As horas e os dias pareciam esticar-se em comprimento, arrastando-se de forma torturante. O menino não nutria grandes expectativas ou esperanças, mergulhado em uma tristeza tão profunda que não conseguia encontrar ânimo em seus passeios por Newport ou em suas explorações pela fortaleza abandonada de Caerleon. Ansiava pela presença de Snape ao seu lado, por uma palavra de conforto ou um gesto de atenção. A perda do seu pai afetivo havia sido mais cruel e dolorosa do que imaginava.

Observando a crescente tristeza nos olhos do filho, Eileen decidiu levá-lo até a casa de Cygnus Black. Era hora de Severus conhecer outras crianças e conviver com elas. Talvez fosse a única forma de fazê-lo abandonar a postura de miniadulto. Quem sabe, ao se divertir com novas amizades, ele conseguisse esquecer um pouco das preocupações que o assolavam.

Ao mesmo tempo, Eileen planejava garantir algumas regalias dentro do círculo interno dos Cavaleiros de Walpurgis, após tantos anos afastada. Era benéfico que os rumores sobre Severus ser filho ilegítimo de Rosier continuassem circulando, especialmente quando essa mentira poderia lhe proporcionar vantagens em meio a um grupo que valorizava a pureza do sangue.

Eileen interpretava os sinais de que aquilo era um jogo de interesses e uma luta constante por posições de destaque. Sob diversos ângulos e vertentes, os seguidores do Lorde das Trevas estavam dispostos a fazer qualquer coisa para obter o posto de braço direito, a função de general das tropas que se formariam.

- Filho, iremos para a Black Manor, em Ben Nevis. Prepare-se para estar apresentável quando chegarmos lá - anunciou Eileen. O aviso tinha o objetivo de impedi-lo de sair para mais um passeio. Ela sabia que ele passaria o dia inteiro perambulando pelas ruas. Consciente de que essa era a melhor alternativa e que traria resultados positivos, Severus esquivou-se das mãos de Eileen, que tentava segurá-lo para dar mais algumas recomendações. O menino, a ignorando, deu meia-volta e retornou ao quarto para vestir as roupas novas.

Prontos para o que estava por vir, cerca de duas horas depois, Eileen e Severus caminhavam pelo terreno. O menino seguia ao lado da mãe, olhando para todos os lados e prestando atenção em cada detalhe. Seus passos eram apressados e urgentes, enquanto tentava manter-se arrumado e com uma aparência simpática para os demais. Porém, a ansiedade o dominava. Suas mãos geladas e escorregadias roçavam nas pernas das calças para retirar o suor. Seu coração pulsava teimosamente e o ar parecia rarefeito dentro daquelas roupas tão formais. Nunca se sentira tão estranho e inadequado como naquele momento.

Ao entrarem na imensa casa, Severus estava ainda mais agitado, incapaz de imaginar o que esperar daquela visita. Ele desviava de alguns seguidores que já se encontravam na sala, cumprimentando-os imediatamente e seguindo seu caminho. Eileen os acompanharia até a biblioteca, onde ocorreria a reunião dos Cavaleiros de Walpurgis com Voldemort, e deixaria Severus no cômodo, aguardando.

Antes da breve despedida, Eileen encheu Severus de recomendações, argumentando sobre a importância de seguir minuciosamente as regras da casa. Era o momento em que ele colocaria em prática todo o seu árduo aprendizado, não apenas em relação à forma como deveria agir, mas também como se comportar em um ambiente como aquele. Principalmente, ela enfatizou que em hipótese alguma ele deveria sair daquela sala ou da mansão. Após essas orientações, um silêncio pairou entre os dois, e Severus apenas assentiu enquanto observava sua mãe se afastar.

Coçando o topo da orelha com a ponta dos dedos, Severus olhava ao seu redor, procurando algo para fazer com urgência. No entanto, sem encontrar uma ocupação imediata, ele se sentou em uma poltrona e aguardou com a mão no rosto entediado.

Sem ter ideia do tempo que passara ali, sem fazer nada além de balançar os pés no ar, Severus observava a chegada de outras pessoas que também se dirigiam à biblioteca. Alguns pareciam ignorá-lo de maneira grosseira e pouco receptiva, o que o fazia franzir o cenho contrariado. Outros o cumprimentavam com um breve aceno antes de desaparecerem no corredor. Era estranho e curioso como um grupo tão homogêneo podia se comportar de formas tão distintas.

Pelo que havia compreendido do que estava acontecendo, o encontro se assemelhava muito a uma confraternização entre iguais. Certamente, dentro da biblioteca, todos estariam discutindo os novos planos para a dominação do mundo bruxo e a ascensão dos Sagrados Vinte e Oito nos anos futuros.

Numa ocasião em que apenas um grupo seleto estava disposto a pôr em prática um projeto ousado de rápidas ofensivas violentas, outros optaram por escrever artigos anônimos para o Profeta Diário. Os textos planejados e já esboçados carregavam um tom apocalíptico, necessário para que a sociedade se sentisse completamente ameaçada e acuada por um inimigo oculto.

Conforme desenvolviam seus argumentos, enfatizavam que os trouxas estavam à espreita, ansiando por executar novas perseguições e retomar o protagonismo da Inquisição. Descreviam cenas de estupro, espancamento e morte de mulheres, tortura de crianças e castração de homens. Denúncias de que famílias inteiras começavam a ser expostas e perseguidas, graças à permissão de que sangues ruins as conhecessem e tivessem algum tipo de conexão com membros da sociedade bruxa. Eles eram vistos como espiões, sonhando em ver os verdadeiros bruxos sendo dizimados como vermes.

A cultura do medo se infiltraria e muitos começariam a duvidar da validade de sua própria liberdade e de outros direitos fundamentais, diante da falsa promessa de segurança. Ao confundir os discursos oficiais do Ministério da Magia com a recriação de antigos horrores, eles alimentariam antigas rivalidades e fortaleceriam ainda mais os preconceitos já existentes. Isso aconteceria especialmente se adotassem a política de fazer certos desafetos desaparecerem.

Na sala, Severus respirou fundo, sentindo-se ainda mais entediado e pensativo, como se um vazio imenso crescesse em seu peito. Seu olhar se fixou nos próprios pés, enquanto passava a mão pelos cabelos e a usava como apoio para o queixo mais uma vez. Ele não sabia mais por quanto tempo teria que ficar ali, sem fazer absolutamente nada, e se soubesse o quão demorado tudo aquilo seria, teria levado um livro para passar o tempo. Como se a leitura fosse capaz de fazer os minutos correrem mais rápido e amenizasse seu aborrecimento.

Observando a formação de três sombras à sua frente com atenção redobrada, Severus semicerrou os olhos e ergueu a cabeça para identificar a origem daquelas figuras. Foi então que se deparou com as meninas o avaliando dos pés à cabeça, demonstrando um misto de interesse e curiosidade. Era evidente que o interesse havia sido despertado pelo fato de ele representar uma novidade em seu pequeno círculo de conhecidos. Enquanto se questionava sobre as razões por trás do silêncio que permeava o ambiente, Severus venceu a timidez que surgia e decidiu se apresentar formalmente, acreditando que seria a melhor forma de romper qualquer barreira ainda existente entre eles.

- Boa tarde, senhoritas! Eu sou Severus Snape e é um prazer conhecê-las.

Ele se levantou rapidamente, estendendo a mão para cumprimentá-las uma a uma, com um sorriso amistoso e tranquilo. Percebia que, com certa formalidade, seu gesto era retribuído de maneira recíproca. Até que uma das meninas tomou a frente nas apresentações e, assim como ele, decidiu quebrar completamente o distanciamento que ainda os impedia de conversar mais livremente.

- Boa tarde! Eu me chamo Andromeda Rosier Black e estas duas são minhas irmãs, Narcissa e Bellatrix. Também é um prazer conhecê-lo.

Andromeda fez um sinal para as outras duas, que sorriram de forma menos arrogante e mais gentil do que antes, indicando que estavam dispostas a se aproximar. Ela estava entusiasmada em saber quem era aquele estranho que havia surgido em sua casa, especialmente quando ele não demonstrava pressa em conversar com elas.

- Snape, então me diga, o que faz aqui sozinho?

- Pode me chamar de Severus. Eu não vejo necessidade de ser tratado com tais convenções, senhorita. Respondendo à sua pergunta, estou aqui aguardando minha mãe voltar.

Andromeda continuava a encará-lo com um olhar observador, suavizando um pouco a expressão, mostrando-se receptiva ao que ouviria. Na verdade, ela estava disposta a iniciar uma amizade, se assim ele quisesse, pois não eram muitas as pessoas que lhes davam atenção sem esperar algo em troca.

- Perfeito. Então, Severus, acredito que você possa nos chamar pelos nossos primeiros nomes, sem qualquer restrição. Quer ir até o jardim? Estamos brincando com nossos primos e você está convidado a participar, caso queira. Acredito que eles vão gostar muito de conhecê-lo também.

- Eu adoraria.

Um sorriso se formou no rosto de Andromeda ao receber o gesto de concordância de Severus, pois algo lhe dizia que ele tinha boas intenções e estava disposto a sair com elas dali. Respirando fundo, tentando afastar a timidez que retornava e ameaçava paralisá-lo a todo custo, Severus pensava no quanto não sabia como conversar com crianças da sua idade. Principalmente, porque ele as havia visto já adultas nas memórias que Snape havia mostrado. Era extraordinário relacionar-se com alguém cujo destino já estava em parte traçado. Ao mesmo tempo, era extremamente triste, considerando o quão cruel a vida havia sido com cada uma delas.

- Você é o filho da senhora Eileen Prince, não é? - Narcissa questionou, com uma expressão insegura e tímida, como se não soubesse ao certo como iniciar aquele assunto.

- Sim, por quê? - Severus respondeu de forma mais ríspida do que gostaria. Isso o deixou chateado e envergonhado, especialmente quando viu Narcissa baixar os olhos com uma expressão triste. Ele não a considerava merecedora daquela abordagem hostil e imediatamente se arrependeu de sua atitude tão grosseira.

- Me desculpe por ter sido invasiva... eu sinto muito.

- Eu não queria ser estúpido com você, Narcissa. Eu peço que me perdoe por ter sido tão ignorante. Sinto muito.

- Está tudo bem, Severus... não tem problema. Você deve estar nervoso.

Segurando sua mão com delicadeza, Severus percebeu que Narcissa ponderou seu pedido com um sorriso constrangido no rosto, sem saber se era por causa de suas palavras ou pelo gesto impulsivo que ele havia feito. Severus sentia-se extremamente confuso e péssimo.

Sem soltar a mão, aos poucos, Narcissa não percebeu que suas bochechas começavam a adquirir uma coloração vermelha intensa. A inibição fazia seu rosto queimar, substituindo a palidez de sua pele pelas cores do constrangimento. Severus, da mesma forma, estava corado e sem reação após o que havia acontecido.

Era como se o tempo tivesse parado, ou que ambos estivessem congelados ali por alguma força oculta. Ficaram se encarando em silêncio, próximos à porta, imóveis na posição em que se encontravam. O suspense pairava no ar, criando uma tensão palpável entre os dois.

- Ora, o Evan vai adorar saber que você está aqui! - Bellatrix intrometeu-se e puxou o menino pelo braço, passando rapidamente do braço para a mão e continuando a puxá-lo de forma decidida. Não desistiria até que ele a seguisse para a área externa da casa, mesmo que precisasse obrigá-lo e arrastá-lo. Severus, assim como todos os outros que se esforçavam para agradá-la, faria o que ela quisesse.

- Como? Por que o Evan gostaria de me conhecer? - seu semblante fechou-se com a afirmação que acabara de ouvir. As palavras de Bellatrix não faziam sentido algum. Na verdade, seria melhor alguém começar a lhe explicar exatamente o que estava acontecendo.

- Não fique preocupado. Ouvimos nossos pais conversando sobre o fato de que você pode ser filho do nosso tio Jules. Por isso, Evan está ansioso para vê-lo, e para ser sincera, nós também estamos. Se essa notícia for verdadeira, ele deixará de ser filho único e nós ganharemos um novo primo e amigo - Narcissa esclareceu calmamente, como se estivesse falando sobre um assunto trivial, para superar o embaraço inicial. Ela passou a mão nos cabelos e os jogou para trás disfarçando o pequeno embaraço. Severus, incrédulo e sem compreender as razões por trás daquilo, tentava encontrar as palavras certas para desfazer o equívoco.

- Obrigado por me contar, mas... - ele começou a dizer.

- Severus, isso realmente não importa, vamos! - Andromeda interrompeu-o, como se quisesse censurar sua verdade e encerrar aquele assunto. Ela foi ao encontro de Bellatrix para ajudá-la a puxar o menino para fora da casa, e com muito esforço, conseguiram fazê-lo sair dali. Ele parecia ser muito mais teimoso e decidido do que haviam percebido.

Andromeda olhou para ele novamente, usando a mesma expressão que usara quando o interrompeu. Ela fez um gesto para que ele parasse de relutar tanto e fosse junto com elas. Não havia motivos para tanta teimosia quando ele já havia aceitado o convite. A tensão seguia pairando no ar, deixando um rastro de curiosidade e incerteza sobre o que estava por vir.

Passeando com as três pelo jardim, Severus dirigiu-se às árvores, onde dois meninos estavam sentados conversando e rindo animadamente. Enquanto isso, um terceiro, com um sorriso travesso no rosto, estava de ponta-cabeça em um galho, atirando pequenos pedaços de madeira para chamar a atenção dos outros dois. Bellatrix apontou para cada um deles e os apresentou a Severus com um semblante levemente entusiasmado.

- Estes são Evan Rosier e Regulus Arcturus Black. Já o macaco exibido se chama Sirius Black III e é o irmão de Regulus, obviamente.

Após novos apertos de mão, a rigidez dos ombros de Severus suavizou um pouco. Mesmo tendo esbarrado em Sirius e a antipatia ter sido imediata, tudo parecia estar correndo bem. Evan e Regulus mostraram-se receptivos à sua presença e logo o incluíram na conversa que já estavam tendo.

Os dois meninos eram engraçados e visivelmente animados com a ideia de terem mais um membro na família, especialmente alguém com uma idade tão próxima à deles e gostos semelhantes. Para eles, nada poderia ser visto como uma notícia melhor e não contestariam o que era ou não era fato. A felicidade do momento estava acima dos detalhes.

Enquanto conversava com os dois, Severus ocasionalmente voltava os olhos para onde Narcissa havia decidido se sentar. Concentrada, em um canto mais afastado e reservado, ela parecia querer se distanciar um pouco de toda aquela confusão de vozes. Com uma postura tranquila e silenciosa, na sombra de uma árvore, lia um livro com extrema atenção e cuidado.

- A Cissy é bonita, não é mesmo? - Evan comentou, percebendo a atenção de Severus voltada para a prima. Ele acompanhou o olhar do novo amigo até Narcissa, notando toda a atenção que ela recebia. Sem tirar os olhos de onde ela estava, Severus apenas fez um gesto positivo para responder antes de expressar seus verdadeiros pensamentos sobre a menina.

- Sim, você tem razão. Ela é bonita e parece ser muito inteligente. Seu olhar revelava algo além do que suas palavras transmitiam, uma mistura de admiração e incerteza.

- Ao que parece, a Cissy gostou de você, senão, você teria sido vítima da pior expressão de todas que ela faz. Ela o olharia da cabeça aos pés, torcendo o nariz, com nojo. Ela sempre faz isso quando desaprova alguma coisa ou alguém. Tenha certeza de que é horrível quando a Cissy faz isso! Qualquer um se sente um lixo.

O comentário de Regulus soou como uma velha música conhecida. Severus deu de ombros com um sorriso aberto, como alguém que sabia mais do que estava falando. Sussurrou para si mesmo as certezas de que começava a ter. Ao se voltar para os dois, de modo tranquilo e confortável com os rumos daquela conversa, seus lábios não desfizeram o sorriso e seus olhos permaneceram fixos na presença de Narcissa.

- Eu sei. Ela é uma menina extremamente impossível, e tenho certeza de que é mais forte do que os dois juntos.

Diferente de Narcissa, que preferiu se afastar e observar de longe, Bellatrix mostrava-se bastante interessada na presença de Severus. Mesmo que Sirius estivesse disposto a chamar sua atenção de todas as formas possíveis e imagináveis, Bellatrix estava curiosa sobre o novo integrante do grupo de amigos. Tudo porque Severus era diferente daqueles com quem ela convivera até então. Ele era soturno, bonito e tinha cabelos tão negros quanto seus olhos. Era um enigma a ser decifrado, com um ar selvagem.

Assim, os primeiros traços mais fortes de como se desenvolveria a dinâmica da relação entre eles começaram a se desenhar. Para quem estava de fora, essa dinâmica parecia estranha, com proximidades e distanciamentos se tornando mais claros.

Enciumado e com raiva, Sirius decidiu se excluir definitivamente daquilo tudo. Seus sentimentos contraditórios se transformavam em uma chama ardente dentro de seu peito. Sentia-se excluído, traído por Bellatrix, a pessoa que nascera para estar sempre ao seu lado. O ressentimento tomava conta de suas emoções, alimentando um ódio violento e incontrolável. Ele estava disposto a desfazer até mesmo a sólida amizade com Regulus, tudo porque não suportava ver a atenção de Bellatrix sendo direcionada a Severus.

Regulus, por sua vez, não conseguia entender a fúria irracional de seu irmão mais velho. Para ele, não havia problema algum em ser gentil com Severus. No entanto, Sirius se sentia cada vez mais ameaçado, como se estivesse perdendo o controle sobre tudo o que sempre considerou seu. O rancor e a inveja cresciam dentro dele, corroendo sua mente e coração.

- Aquele sujeito ensebado e morto de fome, acredita que pode roubar tudo o que me pertence. Eu sou o primogênito dessa família, tenho direitos e ele não tem o direito de interferir em minha vida! - Sirius esbravejava em pensamentos, se distanciando de todos com passos duros pelo jardim.

O passado ecoava em sua mente, lembranças das palavras de seu pai, que sempre afirmara que Bellatrix era sua, que ela seria sua futura esposa, perpetuando a linhagem dos Black ao seu lado. Porém, agora, tudo o que ele via era uma deslealdade iminente, seu desejo de fortuna e poder desmoronando diante de seus olhos. A presença de Severus representava uma ameaça, um obstáculo em seu caminho.

Enquanto isso, Severus, observando a turbulência emocional de Sirius, percebia que cada gesto e escolha relacionados a Bellatrix teriam consequências. A revolta intensa de Sirius era apenas uma delas, mas quem sabia se não seria a principal? Um inimigo declarado para o resto da vida, antes mesmo de colocar seus planos em prática. Essa realidade o assombrava, porém, também lhe retirava qualquer propósito.

Pensando em tudo o que Snape lhe dissera, Severus sentia que aquele fardo pesava cada vez mais sobre seus ombros. Era danoso brincar com as dimensões do tempo e se deixar cegar pela cobiça. Estava se destruindo por uma ideia de que era capaz de conquistar o impossível.

A partir desses pequenos detalhes e incidentes, que iam se somando exponencialmente, a vida se transformava em um verdadeiro jogo. Os deuses já deveriam ter atirado os dados para o alto e, possuindo todas as peças fundamentais do tabuleiro, Severus se via ditando as regras. Decidiria os objetivos finais e pensar dessa forma parecia tornar tudo mais fácil de lidar.

Em pouco tempo, faria tudo o que Snape havia lhe solicitado e se vingaria de Bellatrix. A convenceria a se entregar, futuramente, às garras de Voldemort e deixaria que se destruísse aos poucos. Ela não merecia ser amada e deveria sofrer por tudo o que havia feito. Mesmo que aquele futuro horroroso não existisse mais, ele não conseguia esquecer o quanto ela fez seu eu mais velho, agora inexistente, penar.

Aproveitaria sua liberdade e desfrutaria plenamente de todos os seus direitos. Participaria das reuniões e festas na condição de filho de um dos seguidores mais leais do Lorde das Trevas. Rosier não se oporia. Muito pelo contrário, ele aproveitaria a fama que adquiriria ao considerar aquilo conveniente.

Treinado e adorado como um novo general, Severus seria o novo comandante das tropas futuras. O capitão de vários exércitos, o braço direito tão desejado, sendo o mais jovem entre aqueles que se intitulavam Comensais da Morte.

Um novo grupo se formava e uma nova história se escrevia. Isso era o suficiente para que o menino seguisse em frente.