No Salão Comunal da Sonserina, os alunos se moviam em todas as direções, com passos lentos ou apressados, esbarrando uns nos outros e cumprimentando-se com uma animação cordial. O ambiente estava mergulhado em uma verdadeira cacofonia de vozes e conversas paralelas, criando um contexto caótico de sons sobrepostos e incompreensíveis para quem estivesse do lado de fora.
Foi nesse cenário turbulento que Severus adentrou, segurando uma pilha de livros nas mãos, bufando baixinho e murmurando reclamações inaudíveis. Sem dúvida, ele havia abandonado aquele menino que havia ingressado na escola meses antes e agora se tornava um jovem rabugento.
Enquanto olhava ao seu redor, Severus considerava um verdadeiro absurdo ter que se esquivar e praticamente se esconder em algum canto para conseguir um mínimo de tranquilidade para estudar. Ir para o dormitório era uma opção impensável, especialmente porque tinha a certeza de que Avery, Mulciber, Evan e o insuportável Godoffrey Greengrass já deveriam ter incendiado as cortinas ou estavam envolvidos em alguma brincadeira com grande potencial para terminar em desastre.
Não era o lugar onde gostaria de estar, especialmente naquele momento em que adoraria se sentar para estudar ou simplesmente ficar ao lado de Narcissa. Quem sabe passar a tarde conversando com ela sobre amenidades, ao som das ondas e com a brisa marítima acariciando seus rostos e balançando seus cabelos, como se o tempo não tivesse importância. Esses pensamentos o deixavam melancólico e quase sentimental.
Era nessas horas que sentia saudades de casa, dos passeios pelo Fort Adams e da vida tranquila que levava em Caerleon. Mas como poderia sentir essa sensação de felicidade quando, ao olhar para o lado, via que Narcissa já estava acompanhada?
Respirando fundo por alguns segundos, ele analisou todas as possibilidades que se apresentavam diante de seus olhos, até encontrar um canto próximo à janela e se afastar do que estava lhe causando mal-estar. Preferia permanecer sozinho a ter que proferir palavras das quais, certamente, se arrependeria depois.
Sozinho com seus livros e pergaminhos, ninguém o incomodaria e ele não teria que perder seu precioso tempo ouvindo todos os tipos de dramas e fracassos alheios.
- Por que você é incapaz de ver que esse barco está afundando? - perguntou a si mesmo, incomodado com os sentimentos contraditórios e opressivos que o dominavam. Ele olhou novamente para onde Narcissa estava sentada ao lado de Lucius, uma cena suficiente para desestabilizar completamente seu humor. Sentia os olhos arderem e não conseguia esconder a sensação de vazio que o consumia.
Podia estar sendo cruelmente maldoso em seus julgamentos mais ferozes, mas Severus decidiu que não se importaria mais com a teimosia e o egoísmo de Narcissa. Ele simplesmente não tinha tempo a perder. Aquela menina amava apenas a si mesma e não conseguia enxergar além de seu próprio umbigo.
- Bando de estúpidos... todos eles, sem exceção - murmurou, permitindo que seus pensamentos fluíssem livremente em voz alta. Ao se sentar na cadeira mais próxima da janela, ele secou uma lágrima sorrateira que insistiu em escorrer por seu rosto. Não diria nada. Era o melhor a ser feito.
O remédio para sua desgraça era se distanciar ainda mais de todos e se deixar dominar pelo sentimento de crescente e interminável abandono. Era uma espécie de medo e terror que ele nunca havia experimentado daquela maneira e com tanta intensidade. No entanto, aos poucos, essas emoções estavam sendo substituídas por uma inexplicável e doentia sensação de tranquilidade.
Com essas ideias em mente, Severus tentava colocar seus pensamentos em ordem e acalmar seu coração. Precisava encontrar paz consigo mesmo e parar de se desafiar tanto. Desejava desesperadamente um sopro de esperança para que novos tempos pudessem chegar e trazer as notícias que tanto aguardava e sonhava.
Parando de divagar, sentindo que seus batimentos cardíacos estavam em um ritmo aceitável, ele decidiu iniciar a leitura. Retirando alguns materiais de sua bolsa de couro de dragão, em estilo carteiro, Severus abriu cuidadosamente seu livro As Forças das Trevas: Um Guia de Autoproteção, desconectando-se do mundo ao seu redor.
Ele amava ler. Nada nem ninguém conseguiriam capturar sua atenção mais do que o aprimoramento contínuo de seus conhecimentos naquele campo mágico. A arte das trevas o chamava e ele não negaria seu verdadeiro afeto por ela, especialmente em momentos como aquele, em que se sentia tão solitário e, mesmo lutando para negar, necessitado de atenção.
Sem ter noção exata de quanto tempo havia passado, Severus continuava concentrado na leitura do livro, fazendo algumas anotações nos cantos das páginas. Ignorando a aproximação de Bellatrix, que silenciosamente se acomodava ao seu lado para começar sua própria leitura. Ao contrário do que muitos diziam, além de saber respeitar os momentos de silêncio alheio, ela mostrava-se cada vez mais interessada em compreender todas as possibilidades existentes nos processos de troca equivalente. Na verdade, isso se tornara sua mais nova e apaixonante obsessão, especialmente em relação aos processos e leis que abordavam as proibições em alguns ramos da Transfiguração.
Com os dois de cabeça baixa, imersos na leitura, minutos de silêncio transcorriam tranquilos e confortáveis entre eles. Embora Severus já tivesse percebido a presença silenciosa de Bellatrix ao seu lado, optou por não dizer nada. Nunca se sentira verdadeiramente incomodado com sua presença e não seria por um motivo tão banal que ele reclamaria. Passando a mão na própria testa e refletindo sobre um ponto específico que teria que retomar mais tarde, Severus decidiu que seria interessante iniciar uma breve conversa a respeito do livro que a mantinha tão imersa.
- O trapaceiro do Lucius pegou esse livro para você? - perguntou quase num sussurro, desviando os olhos do rosto dela para o conteúdo de seu próprio interesse, como se não desse muita importância. Um riso baixo escapou de seus lábios, enquanto seus olhos brilhavam com uma astúcia impiedosamente ardilosa. Bellatrix o encarou, prontamente respondendo:
- Você, melhor do que qualquer outra pessoa aqui, sabe o quão detestável ele pode ser. Mas também está bem ciente de que eu jamais deixaria de aproveitar as vantagens de ter um cunhado monitor. Especialmente, meu caro, quando ele não vê nenhum problema em me conceder acesso aos livros da seção restrita.
Severus sorriu de volta, apreciando a sagacidade dela.
- Entendo... então, depois eu posso ler também?
- Claro! Porém, em troca, eu quero que você me empreste aquele livro de capa toda preta por uma semana.
- Fechado - concordou Severus, aceitando prontamente o acordo proposto. Ambos cuspiram na palma das mãos para consolidar o trato que acabaram de selar, um gesto antigo e infantil que demonstrava a seriedade daquela promessa feita entre eles.
Após alguns minutos, enquanto enrolava o cabelo nos dedos e reconsiderava algumas ideias, Bellatrix decidiu que era o momento de expressar o que realmente desejava dizer e uma das razões que a fizeram se sentar ali. Não perderia a oportunidade de chamar a atenção de Severus e não permitiria que as chances fossem mais desperdiçadas daquela forma.
- Severus? - chamou com uma voz audivelmente incerta quanto às suas atitudes inexplicáveis, aguardando para ver como sua interrupção repentina seria recebida. Não havia nada que a impedisse de fazê-lo, pois, como ele a chamara antes, as chances de ser ignorada seriam bastante remotas. No entanto, nada poderia ser garantido com tamanha certeza.
Talvez, finalmente, obtivesse êxito em suas expectativas de ser correspondida. No fundo, ela nunca compreendera por que Severus era incapaz de gostar dela. Nunca fizera nada de mal a ele e, mesmo que parecesse sempre em vão, esforçara-se tanto para que fossem amigos.
Algumas vezes, chegou a considerar que isso se devia ao fato de que sempre se mostrara impulsiva em algumas questões e desligada em outras tantas. No entanto, estava mais do que convicta de que os motivos estavam longe de se limitar apenas a isso. Deveria existir algo mais.
Pensando bem, também não poderia ser pelo fato de Severus a considerar burra. Isso não era possível. Ela poderia ser muitas coisas na vida, inclusive impulsiva, mas não uma cabeça oca ou tola.
Notando que Severus a olhava de forma bastante interrogativa, como se a investigasse, ela abriu um sorriso esperançoso e convencido de que suas motivações tinham chances de funcionar. Severus lhe daria atenção, a mesma que sempre dispensara a Andromeda e Narcissa sem pedir nada em troca.
- No que posso ajudar, Bella? É alguma dúvida que surgiu a respeito desse livro de Transfiguração que está lendo? Se for, acredito que não precise da minha ajuda, porque você é uma Black! Tenho quase certeza de que antes de dar os primeiros passos ou aprender a falar, você já conhecia melhor do que muitos aqui os segredos da Mão dos Mistérios. E é por isso que não consigo acreditar que haja motivos para que fique confusa em relação a esse tema específico.
- Você realmente acha que sou inteligente e capaz? - perguntou Bellatrix, esperando ansiosamente por uma resposta sincera.
- Esteja ciente de que, se eu acreditasse que você é alguma burrinha, já teria lhe dito de uma forma ou de outra - respondeu Severus, deixando claro sua opinião.
Bellatrix manteve o sorriso por conta da forma tranquila como ele expressava suas opiniões. Sempre lhe parecia enigmático e misterioso o jeito calmo com que ele falava. Era um modo calculado que a fazia gostar de estar ao seu lado e ouvir o que tinha a dizer, parecendo que aquele menino era muito mais velho e vivido do que aparentava ser.
Com um olhar imperscrutável, Severus deitou o livro sobre os joelhos e começou a guardar alguns pergaminhos já preenchidos com apontamentos sobre os trabalhos que deveria entregar. Estava decidido a prestar atenção ao que ouviria. Pela maneira como Bellatrix agia, certamente deveria ser algo muito importante.
Imperceptivelmente, Severus analisava cada uma das expressões faciais e gestuais de Bellatrix, estudando os traços que demonstravam uma clara sombra de felicidade refletindo em seu olhar. Fosse pelas palavras ouvidas ou porque a encarava com interesse, ela estava radiante. Havia algo intrigante nessa transformação, algo que despertava curiosidade e o inquietava.
Por um lado, Severus a odiava e sequer sabia mais qual era o motivo real desse sentimento. Se fosse sincero consigo mesmo, diria para seus próprios demônios internos que Bellatrix não lhe fizera absolutamente nada e que, possivelmente, no futuro, ela poderia se tornar alguém completamente diferente daquela mulher horrível sempre presente em seus piores pesadelos. Por outro lado, seus sentimentos em relação a Bellatrix não ultrapassavam as barreiras da compaixão e do desgosto. Pelo menos, era assim na maioria das vezes.
Era cada vez mais complicado. Tudo ali girava em torno do resultado de uma série de erros cometidos por "outros". Insultos e violências que haviam machucado vaidades, orgulhos e sonhos, coisas das quais ele não possuía e que não tinham o poder de construir absolutamente nada. Severus observava que ambos, ele e Bellatrix, seriam duas pessoas completamente opostas, pelo menos em alguns pontos, do que foram naquele maldito futuro agora apagado. Ou será que ele estava errado?
Independentemente do que imaginava ou do quanto se auto interrogava em relação à validade daquela vingança absurda, Severus manteria sua promessa. Mesmo que a contragosto, não voltaria atrás em nada do que dissera a si mesmo. Sua palavra valia mais do que desistir como um canalha mentiroso.
Mas quando finalmente se tornaria o único mestre de sua própria vida? Quando teria a força para decidir qual o melhor caminho a seguir e alcançar o que seu coração mais desejava?
- O mal que você me fez não me atinge mais, porém, o que eu faço me destrói dia após dia - afirmou Severus em meio a um sussurro, tentando ocultar suas verdadeiras intenções e dúvidas por trás de uma expressão vazia de sentimentos contraditórios e opressores. Era melhor esconder-se atrás dessa máscara, pelo menos por enquanto.
Aos poucos, ele sabia que teria que embarcar em uma jornada sem fim em relação a Bellatrix, presenteando-a com todo o cuidado desejado, tratando-a com bondade e carinho, como ela esperava todas as vezes em que estivessem próximos. Não lhe custaria nada tentar ser minimamente gentil. Ou será que isso significava muito mais do que ele conseguia enxergar?
Pensar dessa maneira o enojava. Criava uma bola em seu estômago, enquanto suas obrigações apenas serviam para aumentar o turbilhão de confusões íntimas. Respirando calmamente, observando o ir e vir de seu próprio tórax se enchendo de ar, Severus teve certeza de que, para moldar sua postura e a forma como deveria se apresentar, seus traços deveriam adquirir uma luminosidade forte de fera cruel. Essa seria sua estratégia, seu escudo e sua forma de proteger-se das incertezas que o assolavam.
Suas considerações transitavam entre o que ainda lhe restava de inocência e a representação do jovem vampiro. Com qual dos dois seria melhor viver? O fardo seria o mesmo de qualquer modo. Não havia mais para onde fugir.
Não gostava de lembrar do que havia visto. Não gostava de imaginar que sua vida se resumiria a ficar se esgueirando pelos cantos, admirando e vigiando os passos de todos. Talvez até mesmo invejando a liberdade de alguns. Sempre à espreita, como uma eterna sombra, à espera do momento precioso em que atacaria sem qualquer remorso.
Sem ter em conta quem quer que fosse a vítima, na sua percepção, seria ele próprio, caindo pelas sombras do desespero na noite. Ainda mais quando a tentativa e a completa destruição se misturavam, se desenvolviam e se dissolviam sob uma máscara impenetrável de prematura sobriedade e decência. Aquele homem não o treinara com tanto empenho para que fracassasse.
O jovem Frankenstein se metamorfoseava em seu próprio e único monstro. A aberração que Tobias sempre o chamara talvez o definisse verdadeiramente. Quem sabe era isso o que ele era? Quem sabe nascera apenas para servir à escuridão e jamais sairia do breu eterno que o invadia?
- Severus? Oi? Você ainda está aqui na minha frente ou já voou para algum lugar inalcançável? - provocou Bellatrix, soltando uma risada divertida ao perceber que ele a encarava com uma grande interrogação no rosto. Severus havia se desligado por alguns minutos, pensando em algo que jamais cogitaria dizer.
- Eu estou aqui mesmo. Você não está tendo nenhuma alucinação, eu garanto – ele respondeu, tentando recompor-se. Seus olhos fitavam Bellatrix com um misto de curiosidade e desconfiança. Havia algo nela que o intrigava e ao mesmo tempo o repelia.
- Fico feliz em me avisar, porque eu quero conversar com você algo importante. Preparado? - disse Bellatrix, mostrando-se ansiosa por compartilhar algo com ele.
- Diga - respondeu ele, tentando esconder sua verdadeira apreensão diante daquela conversa "importante". Seu coração batia acelerado, uma mistura de expectativa e temor tomava conta dele.
- A Andie me disse que existem muitos lugares interessantes aqui no castelo. Tem uma parte que, inclusive, os alunos eram torturados quando cometiam algum delito. Não é emocionante? - disse Bellatrix, com um brilho nos olhos que não passou despercebido por Severus.
Ele respirou fundo, tentando conter a emoção que sentia diante da perspectiva de uma pequena aventura. Bellatrix imergiu em si mesma, imersa em sua própria felicidade, sem perceber o tédio que se instalava em Severus ao ponderar cada uma daquelas ideias.
Se fosse ser honesto consigo, diria não por que já conhecia os lugares que acabara de ouvir serem mencionados. As algemas, as correntes, o clima de umidade e desespero. Tudo isso fez parte de seus passeios noturnos em outra vida. Tudo isso fez parte de seu mundo destroçado e sem esperanças, do qual ele queria manter-se distante.
- Bem, ainda está cedo e eu gostaria que você me acompanhasse no passeio, já que terminamos nossas leituras. Vamos? - propôs Bellatrix com certa ansiedade eufórica, puxando Severus para que a seguisse pelos corredores das masmorras de Hogwarts.
Ele levantou-se da cadeira rapidamente, um pouco confuso e perdido diante da impetuosidade demonstrada por Bellatrix. Não sabia como reagir ou proceder diante do ardor que ela demonstrava naquele momento. Era a hora de tomar uma decisão, de enfrentar seus medos e dúvidas.
- Tanto faz... Contudo, se quer tanto, vamos - concordou Severus a contragosto, cedendo à insistência de Bellatrix. Embora estivesse relutante, sentia a necessidade de tomar a iniciativa e definir o rumo dos acontecimentos. Mesmo que a situação lhe trouxesse uma estranha sensação de déjà-vu, ele se conteve, convencido do que ocorreria assim que cruzassem a porta juntos. Agarraria a oportunidade que estava surgindo, mesmo sabendo que se arrependeria posteriormente e se consideraria um ser repulsivo por dias.
Cada segundo que passava tornava seu caminho mais difícil, mas Severus estava determinado a não desistir, não importasse o quão ruim pudesse parecer. Inspirando o ar gélido dos corredores intermináveis de Hogwarts, encheu seu espírito de coragem e certeza, analisando todas as alternativas diante de seus olhos. Talvez houvesse uma saída, uma possibilidade de escapar das tramas que a vida lhe tecia.
A vida era um teatro de suas proezas, passadas e futuras, e aquela situação seria a cena mais perfeita, uma atuação impecável. Uma máscara para esconder seus verdadeiros desejos, uma representação elaborada como uma teia de acromântulas.
Severus havia visto em suas memórias preservadas na Penseira a suposta ideia de Bellatrix: beijá-lo contra a parede próxima ao corredor dos calabouços. Mas como ele poderia saber se ela estava realmente pensando nisso? A única certeza era que tal atitude acarretaria inúmeras inseguranças e perturbações, deixando-o paralisado e sem saber como reagir diante do aparentemente inesperado.
Determinado a tomar o protagonismo do plano e manter o controle absoluto, Severus inverteu as circunstâncias a seu favor ao atravessarem mais uma porta que separava os corredores. Nada o impediria de fazer o que planejara.
Encostando os lábios no rosto de Bellatrix, deu-lhe um beijo rápido, deixando-a perplexa. Ela fechou os olhos, sacudiu a cabeça como se estivesse negando o que acabara de acontecer, demonstrando confusão.
- Mas, o que... Severus, eu... - Bellatrix tentou falar, mas estava claramente desnorteada.
- Está tudo bem com você? - perguntou Severus, preocupado com sua reação.
- Sei lá... - respondeu ela em um tom confuso.
Um silêncio tenso caiu entre eles, como uma bomba prestes a explodir. Aquilo não era o que Bellatrix imaginava, e a surpresa a incomodava. Não gostava de ser surpreendida, de sentir-se desorientada.
Sentindo-se uma tola miserável, ela detestava a crescente sensação de dependência. Precisava de ajuda, precisava que Severus explicasse o que se passava em sua mente para agir daquela forma. Ela precisava de respostas para evitar o colapso que já se anunciava com a culpa que a assombrava.
Severus segurava a mão de Bellatrix, observando-a com o cenho franzido e olhar perdido, com um grande sentimento ruim apertando seu peito. Considerava tudo aquilo patético, e pela forma como Bellatrix se portava, era capaz de afirmar que ela estava à beira de uma crise nervosa. A tensão densa e caótica no ar o preocupava. Se ela chorasse, como explicaria a alguém o que tinha acontecido ali? Afinal, não era segredo para ninguém que Bellatrix nunca chorava. Ela poderia gritar, berrar, quebrar coisas, explodir em fúria, agredir ou até mesmo matar alguém. Mas nunca, sob qualquer hipótese, derramaria uma lágrima sequer.
Além disso, desencadear uma reação tão violenta e inesperada traria uma briga certa com Sirius. Poderia não ser imediata, mas era evidente que ocorreria assim que ele recebesse a notícia. Severus, naquele momento, já começava a se julgar como um completo bastardo por insistir tanto naquela vingança. Não fazia muito sentido fazer com que Bellatrix se apaixonasse por ele de forma tão intensa. Não havia motivos minimamente razoáveis para que estivesse tão revoltado a ponto de machucar Narcissa daquela maneira tão baixa.
Passo a passo, ele se via avançando na execução do projeto imperfeito e perigoso que lhe fora traçado. Nenhum suspiro seria emitido imediatamente, algumas coisas sequer seriam ditas quando ele enterrasse seu coração, mesmo que os silêncios perturbadores o estivessem corroendo por dentro.
Tudo deveria continuar sendo milimetricamente calculado para vivenciar aquele sonho que não lhe pertencia. A sensação de completude e felicidade estava direcionada exclusivamente para desenrolar uma vingança lenta, dolorosa e gradual. A verdade era que Severus aprendera a duras penas que as grandes tragédias sempre foram aquelas que desencadeavam sofrimentos contínuos. As catástrofes nunca eram permanentes, no máximo causavam danos momentâneos para depois serem completamente esquecidas. Por mais que sua consciência pesasse, ele ensinaria a Bellatrix o quanto o mundo machucava, cortava e marcava o espírito com cicatrizes profundas.
Quando o paraíso perfeito em que vivia desabasse e seu coração fosse quebrado, só lhe restaria a escuridão e os anseios por um novo dia. Algo que jamais vislumbraria novamente, especialmente quando ela caísse nas garras de Voldemort.
Na realidade, Severus estava profundamente perturbado com aquilo, embora tentasse não demonstrar. Ele reconhecia que cometera um erro terrível e que definitivamente não era mais o jovem doce e inteligente, embora por vezes rude, que adentrara a Sonserina. Sentia-se enojado ao refletir que poderia estar se transformando em uma versão quase idêntica a Tobias, um ser grosseiro, violento, desagradável, cruel e agressivo. Por mais cedo que percebesse a corrupção irreparável de sua alma, Severus se recusava a carregar um coração demoníaco, a aceitar o fardo que teria de suportar diariamente.
Com um tom enigmático e vazio, Severus questionou:
- Bella? Eu... você quer voltar ou quer fazer mais alguma coisa?
Observando a ausência completa de reações visíveis, sentia-se cada vez mais testado em seu senso de justiça. Era crucial manter as feições indecifráveis e os gestos contidos, evitando pensar novamente na gravidade do que acabara de acontecer. Não permitiria que a seriedade de seus atos o perturbasse, tampouco lamentaria o que o aguardava. No entanto, precisava de alguma atitude para sondar as motivações que levavam Bellatrix a se manter tão pensativa.
- Você me escutou? - perguntou Severus, buscando confirmar se sua presença era realmente notada.
- Sim, completamente e com perfeição. É que, bem, isso foi interessante. Melhor que... Severus, pensando bem, eu ainda não quero voltar antes de perguntar algo - respondeu Bellatrix com altivez sonora e olhar semicerrado, acentuado por suas pálpebras caídas. Lutando secretamente para transmitir o máximo de segurança em sua voz, ela o encarava com a firmeza típica de sua arrogante e inabalável determinação.
No fundo, detestava o fato de que Severus a havia desestabilizado e destruído todo o plano que ela havia elaborado durante dias. Queria apenas ser sua amiga, mas tudo havia sido arruinado em questão de segundos. Contudo, a ideia de tê-lo como namorado também lhe parecia bastante agradável, finalmente tendo toda a atenção dele voltada para si. Era uma maneira de retomar o controle urgente da situação. Ela era uma Black e precisava ter o completo domínio do que estava por vir. Sempre conseguiu que as coisas acontecessem do jeito que desejava, e com ele não seria diferente. Sob nenhuma circunstância seu coração sangraria por aquele rapaz. Por isso, comandaria aquela relação com punhos de ferro até que estivesse satisfeita, sendo ela quem decidiria o momento em que tudo estaria terminado.
- Sim, claro! Por que eu não desejaria isso? - respondeu Severus com um olhar sonso, forçando-a a dar um meio sorriso.
- Por causa da Cissy, talvez... Eu vejo que vocês parecem muito próximos. Algumas vezes, eu suponho que são até demais - Bellatrix provocou, atingindo um ponto vulnerável. Ela sentia a tensão e o desconforto que emanavam dele ao ter sua intimidade invadida. Embora Severus não tivesse percebido, aquela negação expôs uma sinceridade muito maior do que ele gostaria de demonstrar. Animada com a ideia e com a revelação que acabara de obter, Bellatrix sorriu, ciente do que poderia usar a seu favor.
- Eu quero colocar uma condição para o nosso namoro. É algo irrevogável - afirmou Severus, enquanto se aproximava sorrateiramente, como um pequeno morcego. Ele recuperou o controle de seus gestos e olhares, dissimulando habilmente o esconderijo profundo de seus pensamentos. Os pequenos demônios e medos ocultos em sua alma se tornaram seus melhores amigos e conselheiros. Observadores atentos e astutamente analíticos, eles examinavam os movimentos de Bellatrix à sua frente, atestando o quanto ela se sentia vitoriosa em meio a tudo aquilo.
- Ora, qual? Pode dizer - respondeu Bellatrix com um tom cortês e cismado, como se algo a perturbasse. Severus baixou os olhos, com um semblante reflexivo, e colocou as mãos nos bolsos, como se uma enorme aflição o atormentasse quanto ao que poderia acontecer e às opiniões que surgiriam sobre eles. Seu rosto ficava cada vez mais sério.
- Você quer mesmo ouvir isso?
- Vai logo! - Bellatrix, sem saber ao certo o que dizer, sentiu-se agoniada e igualmente pensativa. Precisava refletir sobre o que havia acabado de ouvir e formar uma opinião sobre todos os fatos que os cercavam com a máxima urgência. Uma sensação estranha a alertava para não confiar tanto em suas primeiras impressões e para sair dali e deixá-lo sozinho. A culpa sempre foi uma conselheira ruim.
Bellatrix olhou fixamente para Severus, ponderando suas palavras e tentando decifrar suas verdadeiras intenções. A tensão pairava no ar enquanto eles trocavam olhares penetrantes. Ela sentia-se presa em um jogo perigoso, sem saber ao certo se estava pronta para mergulhar nesse relacionamento complicado e sem futuro.
- Veja tudo o que já inventaram em relação às suas irmãs! Andie é motivo de comentários maldosos, por aqueles vagabundos que se aglomeram na Grifinória, simplesmente por estar noiva do Rodolphus. Cissy é julgada o tempo todo, por estar prestes a noivar com o Lucius. Como se qualquer uma dessas coisas as desqualificasse - Severus desabafou com um misto de indignação e ressentimento.
- Enfim, não preciso ir mais além para que entenda onde eu quero chegar.
Severus deu de ombros de maneira um tanto arrogante, soltando um longo e doloroso suspiro angustiado. Ele estava satisfeito com sua atuação, pois seu fingimento havia superado suas expectativas. Decidindo manter o controle da situação, ele fez um gesto para demonstrar sua inconformidade, mas sem exagerar, pois não queria que seu plano fosse posto em risco.
Andando de um lado para o outro com passos lentos e observando Bellatrix com o canto dos olhos, Severus buscava detectar qualquer sinal sutil em sua expressão e comportamento. Ele sabia que estava lidando com alguém inteligente e perspicaz, alguém que não seria facilmente enganado. Por isso, era essencial ser cauteloso e cuidadoso em suas ações.
- Tudo bem? - perguntou Severus, encarando Bellatrix com firmeza.
- Confesso que você apresentou um bom argumento, mas eu exijo segurar sua mão quando sairmos daqui.
- Me daria a honra?
A resposta veio imediata quando ele estendeu a mão, sem retirar a expressão perseverante de seu rosto. Bellatrix, mesmo sentindo-se insegura, não se deixaria vencer. Ela nunca se curvaria a ninguém.
Olhando para Severus enquanto caminhavam juntos, Bellatrix sentia como se estivesse vagando em um terreno pantanoso e hostil. Era impossível adiantar os passos ou descobrir o que ele realmente pensava. Ele mantinha sua mente fechada e protegida. O nome de Narcissa poderia ser uma rachadura nas paredes de sua alma sempre nebulosa e confusa, mas por quanto tempo isso duraria?
A cada passo, a desconfiança de Bellatrix crescia, envolvendo-a em uma sensação de estranhamento inexplicável. Ela começava a questionar se havia tomado a melhor decisão. Seria mais sensato esquecer aquele equívoco e simplesmente fingir que nada havia acontecido? Talvez fosse mais justo obrigá-lo a revelar seus verdadeiros planos com tudo isso.
Enquanto a dúvida se instalava em sua mente, Bellatrix seguia em frente, consciente de que sua vida estava prestes a se entrelaçar com a escuridão que habitava Severus. Era uma escolha perigosa, mas ela estava disposta a enfrentar as consequências, custasse o que custasse.
