Os anos haviam sido implacáveis com Severus, moldando-o à medida que o tempo avançava. Aos 16 anos, sua vida havia passado por transformações significativas, e ele mesmo se sentia um estranho diante do espelho. Seus olhos negros e penetrantes refletiam a intensidade e a escuridão que o consumiam dia após dia.
Apesar das evidentes mudanças, havia algo em seu íntimo que permanecia intocado. Mesmo imerso em seus estudos e enclausurado em sua natureza melancólica, Severus não conseguia renunciar aos raros momentos de prazer e tranquilidade solitária. Caminhar pela beira do mar e contemplar o oceano, observando o vai e vem das ondas, era seu refúgio particular. Era o seu lugar no mundo. Ali, encontrava paz e a oportunidade de organizar seus pensamentos.
No entanto, desfrutar desses momentos em Caerleon se tornava impossível quando as aulas em Hogwarts começavam. Tudo se complicava ainda mais, especialmente quando se tratava da estranha relação entre ele e Bellatrix. Era um vínculo que oscilava constantemente entre silêncios absolutos, desdém e sarcasmo sem sentido, ou raros momentos em que ele se permitia ter algum gesto gentil que a satisfizesse plenamente. Uma convivência que ele só conseguia definir como uma tortura constante com a qual se via obrigado a conviver.
Maltratá-la havia se tornado uma espécie de vício permanente, uma dependência mútua que começava a se estender para além das palavras. Era como se necessitassem desse exercício doentio para manterem-se conectados, como se estivessem treinando para um futuro incerto, onde a dor e a manipulação seriam suas maiores armas.
A verdade era que não conseguiam lembrar-se de terem tido qualquer outro tipo de relação além dessa. O suposto namoro que tiveram durante o primeiro ano não passou de dois dias, e nenhum dos dois recordava-se claramente desse fato. Em outras palavras, não faziam questão de tentar retomar um assunto irrelevante que só trouxera dores de cabeça e problemas para suas vidas.
Eles eram dois complexos sistemas naturais, disputando poder e desejando obter a afeição sincera um do outro. Embora negassem, apreciavam a incerteza gerada pela tensão que os consumia silenciosamente, as batalhas pelo lugar mais alto do pódio nas artes das trevas e o senso de humor sádico que compartilhavam. Gostavam de jogar com o encanto das palavras para atrair e, em seguida, rejeitar, como se o afeto não tivesse nenhum valor real.
Era nesse contexto que Severus buscava preservar um distanciamento seguro. Algo claramente indefinido e de causas cada vez mais inconfessáveis. O que o impedia de se apaixonar por Bellatrix, de notá-la como alguém interessante, era a profunda proximidade que mantinha com Narcissa. Desde a primeira vez que se viram, algo se desencadeou, tornando-se indispensável a presença um do outro. Passavam cada vez mais tempo juntos, compartilhando momentos inesquecíveis e importantes. No entanto, Severus não podia deixar de notar o ciúme crescente que Narcissa demonstrava em relação a ele e à forma como ele lidava com Bellatrix. Era algo que o fazia desejar a expulsão definitiva de Bellatrix de sua vida e ter muito claro que jamais magoaria Narcissa por tão pouco.
Ela, sua Flor de Narciso, era e sempre seria muito mais importante do que qualquer outra coisa no mundo. Seus sentimentos transcendiam a mera adoração, cultivados nas memórias que mergulhava repetidamente na Penseira. Eram diferentes e mais fortes do que aqueles que sentia por Hermione.
Com Narcissa, as sensações eram poderosas e únicas, ultrapassavam barreiras nos momentos que passavam juntos. Talvez fosse isso que o incomodava e não sabia como expressar. Era algo profundo e livre de culpa, como uma rara flor do deserto cuidadosamente cultivada, os instantes que compartilhava ao lado dela.
Como um livro desconhecido repleto de palavras secretas, caminhos proibidos e preciosas alegrias convertidas em lágrimas de riso e felicidade. Narcissa era uma verdadeira poesia oculta e serena, com todas as suas luzes e sombras afáveis. Havia sonhos ainda a serem sonhados, sem medo de que não passassem de simples imagens criadas pela imaginação.
Sem precisar de longos diálogos filosóficos ou grandes explicações, pois ela se mostrava perspicaz em suas argumentações, Severus sentia que Narcissa sempre compreendia seus sentimentos e dúvidas. Certamente, ela já deveria ter percebido muito mais do que seus olhos poderiam ver, mas não lhe diria nada. Ela era generosa o suficiente para permitir que ele descobrisse o próprio caminho, sem que precisasse ser conduzido.
Por mais complexo e difícil que fosse como pessoa, Narcissa não o abandonava nem se prendia a críticas vazias. Sempre o apoiava e, mesmo quando suas palavras soavam duras demais, era evidente que vinham de um lugar de cuidado e desejo de vê-lo superar-se.
Mexendo em sua bolsa já surrada para organizar seus materiais, Severus decidiu que não se chatearia com os pensamentos que lhe ocorreram a respeito de tudo isso. No próximo ano letivo, não contaria mais com a companhia de Narcissa, o que era desolador, para dizer o mínimo. Era triste saber que ela estava tão perto de concluir os estudos e que seus encontros se tornariam cada vez mais raros. Por que ela tinha que ser mais velha?
Nas piores hipóteses e cenários apocalípticos que sua mente criava, Narcissa poderia ser obrigada a se casar com Lucius após a formatura e ter sua vida destruída. Todos os seus sonhos seriam abandonados e tudo teria sido em vão. Esses pensamentos o deixavam depressivo. O que poderia fazer para salvá-la desse destino tão cruel? Narcissa não merecia viver sob um céu sombrio e desesperançoso quando era uma criatura tão perfeita e ainda tinha muitos sonhos a viver. Ela tinha direito a ter mais do que estavam lhe oferecendo. No mínimo, Narcissa era digna de ter o mundo aos seus pés. Como podiam estar prestes a negar isso a ela?
O único que estava fadado à ruína era ele mesmo, com suas constantes tendências destrutivas e seus atos abomináveis que se reforçavam a cada ano que passava. A que ponto o universo chegara para não perceber algo tão óbvio?
Decidido de que o melhor a ser feito era convencê-la a permanecer por mais seis meses em Hogwarts, Severus se alegrou um pouco com a ideia de que Narcissa poderia fazer alguma especialização em uma das áreas da magia dentro da escola. Ela era muito inteligente e esperta, possuía condições para seguir a profissão que desejasse. Podia ser mais feliz do que imaginava, e esse era o único destino a ser conquistado.
Mas, naquele instante, teria que se valer do próprio egoísmo e pensar por algumas horas apenas em si mesmo. Por maiores e mais fortes que fossem seus sentimentos e desejos por Narcissa, sentia que deveria exigir de si todo o empenho necessário para que seu outro plano funcionasse. Sabia que aquele turbilhão de paixões violentas e contrastantes apenas o atrapalhavam nas outras áreas em que desejava ter sucesso e, por isso, precisava manter o foco e organizar suas ideias ao máximo.
Concentrando-se, Severus parou no meio do corredor e fechou lentamente os olhos para encher seus pulmões de ar e acalmar seu coração. Não podia mais se dar ao luxo de perder o equilíbrio que o guiava para o sucesso. Pelo menos naquele momento, não podia agir como um idiota apaixonado. Especialmente quando esse tipo de homem se recusava a ser.
Tinha que direcionar toda sua atenção e suas forças para o que era urgente naquele instante. Se ainda ambicionasse ter o tão esperado acesso irrestrito ao laboratório de Slughorn, teria que tirar notas perfeitas em todas as provas do NOMs e realizar as tarefas de maneira impecável. Severus sabia que aquele era o caminho e que, se quisesse, não seria difícil superar o que já havia apresentado nas aulas. Com um sorriso sutil, essas ideias o faziam sentir que finalmente parte de seu esforço seria reconhecida e teria as condições necessárias para iniciar suas pesquisas para a elaboração de algumas poções curativas.
Refletindo quanto a isso e, principalmente, quanto à aula de Poções para onde se encaminhava com passos lentos, Severus viu que já se encontrava extremamente atrasado. Acelerando os seus passos pelos corredores, para que o professor não reclamasse de sua falta de responsabilidade, entrou na sala diminuindo a velocidade para não ser notado.
Com os olhos atentos, sentia o seu coração pesado e a sua mente cheia, enquanto procurava o lugar em que se achavam os seus amigos e se sentar ao lado deles. Foi algo rápido. Assim que os viu, Severus foi abrindo o seu livro Estudos Avançados no Preparo de Poções, na página referente à Poção do Morto-Vivo, antes de se reunir com Evan e Bellatrix que cochichavam algo com os semblantes bastante sérios.
- O que aconteceu? - sussurrou ele, com a respiração pesada, franzindo o cenho enquanto olhava para os dois, antes de voltar para as suas anotações e reunir os materiais necessários para a execução da tarefa.
- Você já ficou sabendo do que os maravilhosos Sirius e James fizeram com o Stephen Hardgrave? - a voz de Bellatrix carregava um misto de desgosto e indignação.
- Aquele ruivo da Corvinal com quem você estava conversando ontem, Bella? - Severus questionou, interessado na resposta.
- O próprio - Bellatrix confirmou, com uma expressão de repulsa evidente em seu rosto.
- Não faço ideia, mas eu notei que hoje ele não apareceu no café da manhã – Severus, pensativo, acabou deixando escapar uma pequena observação sobre o estranho desaparecimento do colega.
Acompanhando em silêncio a conversa dos dois, Evan sacudia a cabeça em negação e bufava baixo, tentando controlar a raiva que sentia por lembrar do que presenciou no corredor.
- Aqueles dois maníacos acharam divertido o enfeitiçar e fazer com que a cabeça dele ficasse duas vezes maior que o normal. É por isso que ele não está aqui. - Bellatrix falou, com um tom de contrariedade cada vez mais evidente em sua voz.
- E o Dumbledore nisso tudo o que fez? Duvido que o Flitwick tenha aceitado de bom grado um aluno ter sido agredido dessa maneira e não ter exigido alguma punição. - Severus expressou a sua incredulidade, enquanto terminava de colocar sobre a mesa os últimos ingredientes necessários para a poção.
Foi então que Evan decidiu se envolver na conversa dos dois, acompanhando os movimentos das mãos de Severus para separar os ingredientes. Precisava desabafar com o amigo. Precisava avisá-lo que estava notando que logo seriam eles as próximas vítimas das brincadeiras dos Marotos.
- Então, cara, o Dumbledore não fez nada. Como sempre, ele passou a mão na cabeça dos dois protegidos e deixou rolar. Você sabe, não é? Sirius é precioso demais para ser punido. - Evan desabafou, com um olhar carregado de frustração e revolta.
- Claro! Como eu pude pensar que seria diferente? Se um de nós três tivesse feito metade do que aqueles quatro já protagonizaram, certamente, estaríamos conversando de nossas celas em Azkaban. - Severus respondeu, com um sorriso torto e incomodado. Ele entendia perfeitamente a preocupação de Evan e as razões por trás dela.
Os três seguiam cochichando, com os olhos presos em seus livros. Trocavam, por vezes, olhares rápidos, discordando de alguns detalhes que eram ditos, mas não tinham como discutir o tema mais abertamente. Foi então que Severus rompeu aquela discussão tranquila e decidiu expor sua opinião, rompendo as barreiras de sua habitual reserva e revelando sua sinceridade mórbida.
- Creio que você esteja livre dessas perseguições deles, Bella.
- E por que motivo você pensa isso, cunhadinho? – ela retrucou com um olhar desdenhoso, como se o desafiasse a dizer os motivos que o levavam a afirmar aquilo com tanta tranquilidade.
- Bella, para começo de conversa, eu não sou o seu cunhado. Segundo, você é a razão da vida do idiota do Black. Terceiro, o Potter me odeia porque eu existo. Porque, mesmo que eu seja um mestiço imundo e morto de fome, como ele e o seu adorado primo vivem dizendo, sou tão bom ou até melhor do que os dois juntos em várias áreas aqui. E, o pior, sem que o Dumbledore ou alguns professores fiquem lambendo o chão por onde eu passo - respondeu Severus, com um misto de ódio e ironia em sua voz.
- Eu concordo com o Severus, Bella. No meu caso, o Sirius me odeia desde que nós éramos pequenos. Você sabe que ele nunca aceitou muito bem o fato de nós conversarmos. Na verdade, o Sirius odeia toda e qualquer pessoa com quem você converse, porque não está recebendo toda a atenção que ele se acha merecedor - acrescentou Evan, revelando sua mágoa e amargura.
- Vocês dois sabem o que eu penso do Sirius. A meu ver, ele nunca vai deixar de ser uma piada pronta e um brinquedo que, vez ou outra, eu uso para me divertir - provocou Bellatrix, dando de ombros, com um sorriso sarcástico nos lábios que tentava esconder suas verdadeiras emoções.
- Ah, conta outra, Bellatrix... - retrucou Severus, com um ceticismo irônico emoldurando as palavras.
- Conta outra, por quê? O que o grande e iluminado Severus Snape sabe que eu desconheço? - provocou Bella, curiosa e provocativa, elevando um pouco o tom de voz.
- Quer mesmo saber? - Severus respondeu, com um sorriso malicioso.
- Agora fala! - Bella exigiu, impaciente e cada vez mais nervosa.
Os dois pararam a tarefa e se encararam com expressões indignadas. Estavam prestes a brigar, principalmente depois que Severus a olhou de forma debochada e rosnando baixo feito um cachorro para irritá-la. Levando a mão ao peito, como se estivesse se sentindo mortalmente ofendido pelo olhar de raiva recebido, ele respondeu com o prazer indescritível de deixá-la ainda mais revoltada.
- Sabe qual é o seu problema com aquele doente? Você é perdidamente apaixonada por ele! - Severus disparou, provocando Bellatrix mais.
- Ah, vai à merda! - Bellatrix retrucou, visivelmente indignada ao ser confrontada daquela maneira.
- Vai você, sua estúpida! - Severus rebateu, lançando um olhar desdenhoso.
- Os dois querem calar a porra da boca? - Evan finalmente perdeu a paciência, lançando um olhar gélido que fez com que a discussão cessasse imediatamente. Ambos sabiam que ele tinha razão e que estavam agindo como dois idiotas por tão pouco. Não valia a pena brigar por isso. No futuro, cada vez mais próximo, teriam coisas bem mais importantes para debater, e aquele não era o momento nem o lugar para mencionar esse assunto delicado.
Virando o rosto para o lado, Severus decidiu ignorar os outros dois por alguns minutos, totalmente imerso em sua revisão de anotações. Ambos começaram a olhá-lo com curiosidade, tentando acompanhar e reproduzir os passos que dava na execução da tarefa, enquanto sua expressão era de intensa concentração. Era perceptível que sua única meta era a inegável urgência de alcançar a perfeição.
Severus estava quase hipnotizado. Todos os processos precisavam seguir uma lógica harmoniosa. Nada poderia sair do controle, e era fundamental atingir o nível de excelência exigido. No momento, não tinha intenção de matar ninguém envenenado; seu objetivo era apenas fazer com que a vítima escolhida dormisse profundamente.
Esticando e estalando os nós dos dedos, com uma expressão séria e confiante, Severus segurou firmemente sua adaga de prata. Era a hora de começar o que considerava um dos momentos mais importantes de sua vida.
Medindo o tamanho da Vagem Soporífera e pesando-a para garantir as proporções adequadas, iniciou os procedimentos mais importantes com uma técnica e método admiráveis. Não precisava das palavras de Libatius Borage para saber a ordem exata e as dimensões de cada um dos ingredientes. Isso já fazia parte de sua alma. A verdade era que sua carne e seu sangue estavam ali, porque era algo que amava tanto. Tinha tido o melhor professor de todos, e por isso desconsiderava aquelas instruções, para dar mais agilidade às suas ações e preparar a poção com maestria.
- Só não o chamo de tolo por respeito e consideração ao esforço que fez... - murmurou Severus, lendo rapidamente algumas alterações que fizera no livro, segurando uma folha de papel croqui. Colocando-a sobre a mesa, deitou sobre ela a vagem que seria amassada, para não perder uma gota da seiva que seria extraída. Nem mais, nem menos. A medida exata que precisava para que algo preciso se revelasse ali, desvendando a primazia ambicionada.
Limpando a adaga com um paninho embebido em bicarbonato de sódio e secando-a com outro, guardou-a cuidadosamente na mochila. Não gostaria que ficasse manchada, especialmente por ser um presente dado por alguém especial.
Mais um passo dado em direção à conclusão do trabalho perfeito e à exposição da excelência tão prematuramente desenvolvida. Severus escorreu o conteúdo no caldeirão, mexendo a substância uma vez no sentido horário a cada sete no sentido anti-horário, enumerando mentalmente cada detalhe para não cometer erros. Não admitia falhas. Seria, mais uma vez, magistral e o melhor da turma.
Envaidecendo-se um pouco com a ideia, Severus sorriu sinceramente ao ver o caldeirão começar a borbulhar à sua frente. Gostaria muito de agradecer ao seu eu mais velho por tê-lo ensinado com tanto carinho e primor a arte das poções e a não ser tão teimoso.
Mesmo quando ainda era muito pequeno e imaturo, Severus percebeu que a insolência não contribuiria para seu sucesso. Precisava confiar mais em sua própria intuição ao realizar esse tipo de trabalho. Mais do que conhecimento, inteligência e experiência, tudo se resumia a percepções e instintos apurados para distinguir as mais simples nuances.
Os vapores da água, as gotas de incenso, as fumaças mais densas e todos os detalhes que se convertiam em guias para os verdadeiros alquimistas trilharem o caminho certo. Aqueles que ousaram desafiar as fronteiras da sabedoria e atravessaram as estradas tortuosas que levavam ao Magnum Opus.
- Brilhante, senhor Snape! Continua sendo o mais talentoso entre os meus alunos, inegavelmente. E você, melhor do que ninguém, sabe que está rivalizando nesse ponto com o Damocles Belby. Mas quando eu o vejo trabalhando, sinto que estou diante de um verdadeiro Príncipe das Poções.
- Ah, professor Slughorn, seus elogios sempre tão exagerados - pensou Severus, enquanto tentava manter um sorriso contido em seus lábios. Slughorn era um dos raros professores que enxergava seu verdadeiro potencial e o reconhecia. Por isso, Severus fazia um esforço para ser gentil e atencioso nessas ocasiões.
- Obrigado, professor! Mas o Belby e eu acabamos trabalhando em áreas diferentes - respondeu Severus, com uma ponta de modéstia em sua voz.
Slughorn deu uma risadinha e continuou sua conversa em tom alto o suficiente para que todos na sala ouvissem. Severus percebeu os olhares invejosos dos demais alunos e isso lhe trouxe um prazer satisfeito e arrogante. Apenas Bellatrix e Evan compartilhavam verdadeiramente de sua conquista, compreendendo o valor de seu talento. Eles eram ótimos em outras áreas da magia e não se preocupavam com pequenas derrotas ou invejas insignificantes. Juntos, formavam um grupo forte e perspicaz. Na sua nada modesta opinião, o melhor trio de Hogwarts.
- Eu me sinto muito honrado mesmo, senhor - agradeceu Severus, com uma voz contida, enquanto lançava olhares significativos aos seus amigos. Sabia que, assim que saíssem da sala, eles o questionariam e o provocariam até enlouquecê-lo. Ou pior, espalhariam a notícia para todos que conheciam, privando-o do prazer de compartilhar a novidade em primeira mão.
- Não seja modesto! Considero uma pena que Jules Violle, que você deve conhecer como Fulcanelli, tenha falecido há dois anos. Certamente, ele adoraria saber que há um jovem tão ou mais engenhoso do que ele era, com a mesma idade.
- Ser comparado a Fulcanelli, um verdadeiro mestre alquimista... isso é um elogio que nunca esperava ouvir - pensou Severus, mantendo uma expressão séria e concentrada em seu trabalho, embora naquele momento quisesse sorrir verdadeiramente.
- Não é modéstia, é apenas o fato de que eu estou realmente agradecido, professor. Apenas estou seguindo os seus ensinamentos que me são tão valiosos.
Slughorn se aproximou novamente, o avaliando com um olhar pensativo, tentando determinar se Severus havia realmente sendo sincero em suas palavras ou se estava apenas massageando seu ego.
- Bobagem, meu rapaz! Não precisa me agradecer por nada. Em todos esses anos, raramente encontrei um talento igual ao seu para a Alquimia. Se orgulhe disso! Já aviso que a sua solicitação não está mais vinculada à necessidade de gabaritar o NOMs. Depois de hoje, poderá utilizar o meu laboratório sempre que quiser. E reforço o convite para a reunião que estou planejando para as comemorações de final de ano.
Severus sentiu um misto de gratidão e surpresa com a oferta de Slughorn. Não esperava que seu pedido fosse atendido com tanta generosidade. O olhar determinado do professor deixou claro que não aceitaria uma recusa, o que fez Severus assentir em concordância.
- Quando estiver mais próximo da data, eu lhe enviarei uma coruja com o convite formal, mas já se sinta convidado. Até breve!
- Eu aguardarei ansiosamente e agradeço novamente a sua confiança, senhor. Até.
Severus assentiu, desviando o olhar para sua bolsa enquanto organizava calmamente seus materiais. Não havia motivo para pressa, afinal, tinha cerca de 50 minutos livres entre as aulas de Poções e Feitiços. A mente de Severus estava repleta de pensamentos e emoções, uma mistura de orgulho, incerteza e uma pitada de excitação pelo futuro que se desdobrava diante dele. O convite de Slughorn poderia abrir portas para oportunidades ainda maiores, mas também trazia consigo a responsabilidade de corresponder às expectativas que foram geradas. Severus se perguntava se estava realmente preparado para assumir esse novo papel, ao mesmo tempo em que uma chama de determinação e coragem renovada ardia dentro dele, impulsionando-o a provar seu valor a cada passo.
Entretanto, sua tranquilidade e falta de pressa se esvaíram como um relâmpago ao sentir alguém segurando seu braço. Sem se virar, seus olhos escureceram em traços de vingança e ira, enquanto apertava a varinha entre os dedos, totalmente consciente de que estava sozinho com seu oponente anônimo. Dependendo de quem fosse, não teria piedade nem daria chances de defesa.
Sem avisos, determinado a resolver a situação de uma vez por todas e prestes a atacar, Severus girou rapidamente o corpo para confrontar o provável agressor. Ainda sem ver quem era, num impulso impensado, Severus pressionou a varinha contra o pescoço da pessoa com raiva e rancor.
- Calma, Sevie! - disse Narcissa com uma expressão assustada, encarando-o e erguendo as duas mãos para que ele se afastasse e visse quem estava à sua frente.
- A Bella me disse que você estava aqui e eu vim convidá-lo para ir comigo até o lago. Mas, esqueça...
- Me desculpe. Na verdade, eu peço perdão pelo que eu fiz, Cissy. Eu achei que fosse outra pessoa. Mas, deixe-me ver se a machuquei. Posso verificar seu pescoço e seu queixo?
A pergunta veio carregada de culpa e receio de que ela estivesse realmente ofendida com sua atitude. Severus desejava fazer algo para que Narcissa se sentisse melhor e o perdoasse o mais rápido possível por sua falta de educação e por ter apresentado uma atitude tão hostil em relação a ela.
- Não há necessidade. Eu garanto que está tudo bem. Você apenas me pegou de surpresa e eu me assustei. Nada demais.
- Você me perdoou mesmo?
- Sim.
- Aceito seu convite de irmos ao lago.
- Excelente! - exclamou Narcissa com um sorriso enorme de satisfação. Certamente, havia propósitos naquele pequeno passeio que fariam, mas Severus preferiu não pensar nisso e nem questionar o fato. Ficaria muito mais feliz em ser surpreendido com o que ela pretendia dizer quando estivessem sozinhos.
- A propósito, aquela fofoqueira já deve ter contado que o professor Slughorn me autorizou a utilizar o laboratório dele. E você, Narcissa, gostaria de me ajudar a fazer uma poção específica?
- Creio que o Príncipe das Poções não necessite dos meus serviços. No entanto, Sevie, já aviso que o Belby ficou bastante incomodado por ter perdido a vaga de menino dos olhos do professor Slughorn.
A expressão de dúvidas sinceras de Severus desfez-se diante do modo como Narcissa o olhava, dando espaço a uma expressão de contrariedade. Ele sabia que precisaria argumentar com mais veemência para que ela não pudesse recusar a oferta. Desejava profundamente que Narcissa estivesse ao seu lado quando conquistasse o sucesso esperado.
- Reclamo a urgência de sua presença, senhorita Black! Admita logo que você também quer mexer naqueles materiais proibidos do laboratório. Você é muito curiosa para abdicar de uma proposta como essa. Além disso, eu sou irresistível propondo isso.
- Convencido! Vai ter que se esforçar mais para que eu comece a considerar seu caso.
- Cissy, por favor! Você sabe que posso ser muito bom em Poções, contudo, não sou perfeito. O que pretendo fazer é algo que nunca fiz antes, e necessito de alguém habilidoso na área também.
- Sei... e qual o motivo de não convidar a Bella, por exemplo?
- Quem sabe por que não quero colocar fogo no castelo antes da formatura?
- Continue. Você está me deixando interessada na sua proposta.
Narcissa expressou um entusiasmo genuíno, mas contido. Sabia que, se continuasse insistindo, acabaria sendo alvo de elogios e gentilezas por parte de Severus. Amava ter a certeza de que era considerada inteligente e capaz por alguém por quem nutria tantos sentimentos bons e profundos.
- Cissy, você é a única que pode me ajudar. Você sabe disso melhor do que eu e espero que esteja ciente de que, se persistir com essa teimosia, eu a sequestrarei até terminar minhas pesquisas.
Severus concluiu com uma pequena risada, ao notar a expressão incrédula que se esboçou no rosto dela ao ouvir aquilo. Gostava da forma como ela sempre o analisava e levava a sério.
- Se isso for um jeito de humilhar esse bando de imbecis que estudam aqui, eu concordo. Mas, prometo infernizar a sua vida, Príncipe de meio-sangue ou mestiço. Agora vamos, antes que esfrie mais.
Severus sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao ouvir aquelas palavras carregadas de desafio e aparente hostilidade, mas também percebeu a tensão excitante que as envolvia. Era como se estivessem dançando em uma corda bamba, entre a falsa rivalidade e a verdadeira atração mútua. Ele observou Narcissa segurar sua mão, num gesto que era ao mesmo tempo firme e delicado, convidando-o a acompanhá-la.
- Como sabe? - perguntou Severus casualmente, com um tom de admiração, surpreso por ela ter descoberto o pseudônimo que ele usava.
- É o sobrenome da sua mãe, e eu sei o quanto você gosta da ideia de ser o último da linhagem dos Prince.
Um sorriso irônico e satisfeito curvou os lábios de Severus, enquanto caminhavam juntos. Ele reconhecia a sagacidade de Narcissa, capaz de enxergar além das aparências e desvendar seus segredos mais íntimos.
- Você é insuportavelmente impossível, flor de Narciso.
- Eu preferia ter o nome de alguma estrela, como a maioria da minha família, para não ser tão diferente deles.
Narcissa bufou baixinho, revelando sua frustração com essa constatação que tanto a incomodava. Em resposta, Severus depositou um beijo suave no topo de sua cabeça, um gesto de afeto que transmitia apoio e compreensão. Entrelaçando os dedos aos dela, buscava transmitir um sentimento de força e tranquilidade, por perceber o que realmente existia por trás daquelas palavras aparentemente despretensiosas.
- Você é especial por ser livre das constelações. Seu nome significa a chegada da primavera e diz que é quem traz esperanças.
- É isso que eu significo para você? - questionou Narcissa, com uma mistura de ansiedade e curiosidade em sua voz.
- Talvez... - respondeu Severus, com um tom enigmático, deixando o ar repleto de expectativa e incerteza.
Ambos sabiam que havia algo mais profundo entre eles, um vínculo que transcendia as palavras e os jogos de sedução. Mas, naquele momento, preferiam manter as cartas ocultas, saboreando o sabor do mistério que envolvia sua relação
Saindo da sala, eles caminharam lentamente pelos corredores de Hogwarts, envoltos pela atmosfera gélida e pelo manto de neve que cobria tudo ao redor. Os tons cinzentos se mesclavam no cenário, proporcionando uma paisagem de inverno deslumbrante, porém, nem tudo era tão bonito e tranquilo. O vento cortante soprava incessantemente, castigando a pele dos que se aventuravam por ali, e Severus não podia deixar de se preocupar com Narcissa. Não queria que ela adoecesse por causa de um simples passeio que poderia ser feito em locais mais abrigados do castelo.
- Tem certeza de que quer ir até lá? - indagou Severus, sua voz denotando uma forte preocupação genuína.
- Sim. É o único lugar nesse inferno no qual podemos conversar com alguma tranquilidade e discrição - respondeu Narcissa, demonstrando sua contrariedade com a pergunta, revirando os olhos em desaprovação. Com os braços cruzados junto ao peito, ela buscava se proteger do frio intenso. Severus não a encarava diretamente, seus olhos fixos no gramado congelado, e suspirou baixinho. Sabia que não havia muito a discutir e não estava disposto a deixá-la irritada por uma questão tão trivial.
Puxando-a para trás de si, como uma tentativa de protegê-la da ventania absurda, Severus sentia o tempo conspirando contra ele. Os dias passavam rapidamente e a temperatura parecia desafiá-lo naquele momento específico. Olhando em seu entornou, ele semicerrou os olhos, convencido de que aquela era a melhor escolha, e analisou mentalmente o trajeto que fariam até a árvore onde se sentariam para conversar e buscar abrigo.
- Vamos - disse ele, numa mistura de convicção e ansiedade controlada.
- Você pode me contar o que faremos no laboratório, Sevie? Ou se trata de algum segredo que ainda não pode ser compartilhado? - perguntou Narcissa, ajeitando-se no colo de Severus enquanto ele a envolvia com sua capa, proporcionando-lhe algum conforto térmico. Ela se aconchegava em seu colo, aproveitando a sensação de segurança transmitida por aquele abraço.
- Estou lendo coisas muito interessantes. São livros sobre poções feitas por bruxos que se dedicaram às práticas curativas pelo mundo. Autores como Dioscórides, Paracelso, Galeno, Ascencio... e até mesmo um bruxo espanhol que se disfarçou de padre para aprofundar seus estudos. É fascinante.
Enquanto Severus explicava, Narcissa ouvia atentamente, absorvendo cada palavra com curiosidade. Ela lembrava-se de Paracelso, conhecido por suas pesquisas sobre homúnculos, e reconhecia sua brilhante contribuição para a medicina, mesmo que alguns de seus experimentos não tivessem tido o resultado esperado. O conhecimento apresentado por Severus a fascinava cada vez mais.
- Paracelso foi aquele que investigava sobre os homúnculos, não é? Ele era fascinante e muito sábio. O que mais me encanta é que as suas ideias inspiraram Mary Shelley na composição de Frankenstein.
- O próprio! Fico feliz de compartilharmos a mesma visão sobre ele. Mas, então, eu estava estudando os bezoares no livro dele até que descobri a existência de um tipo diferente encontrado na América. Ao contrário do que usamos aqui, esse bezoar é extraído de um animal curioso chamado anta.
- E você sabia que esse animal rasga o próprio peito com as unhas? Deliberadamente se suicida para evitar ser capturado? - interrompeu Narcissa, compartilhando uma informação intrigante que havia descoberto nas suas leituras de férias. Ela observou o rosto de Severus, buscando uma reação reflexiva diante daquela informação reveladora. Sabia que era algo a mais para ser estudado e analisado com calma.
- Obrigado por me contar. Ainda não cheguei a essa parte do texto sobre as antas, contudo eu acredito que isso deva ter alguma relação com o valor atribuído a esses bezoares - respondeu Severus, contemplativo. Era mais um aspecto para explorar e refletir com cuidado, mais uma peça do intricado quebra-cabeça que estava montando.
- Bem, você sabe que tenho todos os tipos de livros em minha casa, então posso dizer que não perca tempo com as onças e as caçadas dos indígenas. As onças só são relevantes quando se referem aos espíritos ancestrais e às vinganças que podem buscar. No entanto, animais como cobras, pássaros e abelhas são extremamente ricos em suas propriedades e atributos. E, é claro, preste atenção às plantas presentes na região - acrescentou Narcissa, dando um leve toque com os dedos enluvados no nariz de Severus antes de abrir um sorriso vitorioso que realçava ainda mais suas feições encantadoras. Ela sabia que cada novo conhecimento o deixava ainda mais animado do que já estava.
- Isso mesmo, bruxa inteligente! Já vi algo sobre a utilização das plantas no continente americano e as essências que podem ser extraídas de cada uma delas. Acredito que essa parte também lhe interesse. Afinal, você cria seus próprios cosméticos e eu estudo como essas poções são preparadas. Assim, podemos trocar informações valiosas durante o trabalho.
- Ah, eu já vi alguns... Mas o mais importante disso tudo é que você já tomou sua decisão quanto à profissão. Tenho certeza de que será um excelente medibruxo, e isso é maravilhoso, Sevie - disse Narcissa, encantada com a descoberta. Não era tanto pelas novas plantas que explorariam, por mais empolgada que estivesse com as possibilidades e sua curiosidade estivesse completamente aguçada pelo assunto, mas sim pela visão de Severus preocupando-se tanto com o futuro e encontrando uma paixão profissional. Era um sinal de esperança e estabilidade para ambos.
- Não, pelo contrário! Eu quero ser um engenheiro químico quando sair daqui. Pretendo ingressar no mundo dos trouxas e me formar em Oxford. É por isso que estou me esforçando tanto durante as férias - explicou Severus, sua expressão reflexiva revelando as dúvidas e incertezas que o cercavam. Pensar nas possibilidades que se apresentavam o deixava imensamente pensativo em relação ao destino que estava escolhendo para si.
- Entendo - respondeu Narcissa, com uma expressão bastante compreensiva e atenta.
- Cissy, eu quero salvar vidas e estou dedicando meu tempo livre para expandir meus conhecimentos nessa área. Estou cada vez mais interessado em bioquímica. Se possível, gostaria de me formar em ambos os cursos e, no futuro, abrir uma botica. A melhor de todas! Vou vender tudo o que produzir e ajudar no Saint Mungus - afirmou Severus, um sorriso esperançoso se formando em seus lábios enquanto Narcissa o beijava, orgulhosa do que ouvia. Naquele momento, ambos compartilhavam uma felicidade única e indescritível.
- Você será maravilhoso e terá sucesso em tudo o que se empenhar, tenho certeza. Saiba que pode contar comigo sempre. Mas agora é a minha vez! Tenho algo para te perguntar, por isso te chamei aqui - disse Narcissa, seu semblante astuto denotando a importância da questão que estava prestes a abordar. Severus percebeu que havia algo mais nas entrelinhas, algo que ela premeditava, e isso o deixava desconfiado de suas reais intenções. Sabia que Narcissa era capaz de ser mais engenhosa do que ele quando queria, e isso o preocupava.
- Diga... – ele respondeu, cauteloso.
- Não é nada com que deva se preocupar, querido - as palavras de Narcissa foram carregadas de segredos.
- Sevie, eu quero que estude o Livro dos Condenados comigo.
- É um livro interessante e muito rico, muito mesmo. Contudo, Cissy, creio que não seja uma boa ideia o pesquisarmos. Não será bom para nenhum de nós ter em mente algo desse gênero.
- Tudo bem, então... – ela concordou desgostosa, sentindo que aos poucos aquela negativa foi apagando o brilho confiante de seus olhos e de suas palavras. Uma mágoa crescente transparecia em seu peito e se revelava em suas feições.
- Você pode desistir dessa ideia e... - tentou sugerir Severus, mas foi interrompido.
- Não, Severus, eu não vou mudar de ideia! Já está decidido. Eu vou investigar esse assunto sozinha - afirmou Narcissa com determinação.
- Certo. Você é adulta e deve saber o que está fazendo - concedeu Severus, percebendo que não conseguiria dissuadi-la. Havia uma decepção subjacente em suas palavras, mas ele também estava ciente de que não poderia controlar as escolhas dela.
- É bom que saiba disso - respondeu Narcissa, seu tom demonstrando o ressentimento crescente que abrigava em seu peito.
- Mudando de assunto, minha adorável criatura teimosa e birrenta, gostaria de saber se gostaria de me acompanhar à reunião do Slughorn? - perguntou Severus, com um sorriso travesso. Sabia que aquelas palavras alegrariam Narcissa e a fariam abandonar a expressão enraivecida que mantinha ao encarar o lago.
- Talvez. Se você me revelar suas intenções com esse convite, pode ser que eu aceite. Ou será que também não é uma boa ideia? - respondeu Narcissa, com um toque de ironia em sua voz.
- Ter a sua companhia e passarmos uma noite agradável, quem sabe seja a minha ideia inicial? Se não quiser, eu não vejo problema, posso me levantar daqui e ir convidar a Evans... ela aceitaria sem pensar duas vezes.
Severus percebeu que havia ido longe demais e mordeu o lábio inferior, preocupado com a reação de Narcissa. Suas últimas palavras pareciam ter piorado a situação, deixando-a furiosa.
- Pode ir convidar aquela imunda, então.
- Eu estava brincando! Como vou ter interesse por alguém com quem nunca troquei duas palavras na vida, Narcissa? Por que tanto ciúme? Já não é suficiente ficar nervosa quando me vê com Bella? - disse Severus, tentando acalmar um pouco a situação crítica que provocara.
- Eu não tenho ciúme de você conversando com Bella... - retrucou Narcissa, sua voz carregada de frustração e inquietude.
- Tem sim, e eu não entendo – ele insistiu, confuso com a reação dela.
- Você não entende? Qual parte você não consegue entender? Ela praticamente se joga em cima de você! - exclamou Narcissa, sua raiva transparecendo em suas palavras.
- Se não percebeu, sua irmã faz isso apenas porque sabe que você fica brava e, na maioria das vezes, só para fazer uma cena na frente de Sirius.
- E por que você não para com isso? - questionou Narcissa, sua voz carregada de dor e receio.
- Porque não me importo! Não sinto absolutamente nada por Bellatrix, e tanto faz o que ela está pretendendo. Se isso está afetando seus nervos a ponto de termos essa discussão sem fundamento, eu sinto muito. Sinto muito mesmo, Narcissa! Especialmente ao ver que você é incapaz de perceber que, se tivesse qualquer interesse por ela, seria a sua irmã que estaria aqui e não você - declarou Severus, sua voz carregada de tristeza e desapontamento.
Narcissa não deu nenhuma resposta, mantendo-se em silêncio com um olhar enigmático para o horizonte, sem se afastar de Severus. Ele olhava para cima, pensativo, observando os galhos secos se movendo sem folhas. A falta de comunicação entre eles o incomodava, fazendo-o duvidar das decisões que estava prestes a tomar.
- Eu aceito o convite. Porém, Severus, quero deixar bem claro que ainda o considero um insuportável e um bobo. Não pelas coisas que me disse, mas porque você se negou a aceitar a minha maravilhosa proposta - disse Narcissa, sua voz carregada de ironia e um brilho travesso nos olhos. Com um pequeno sorriso nos lábios, deu um tapa desajeitado no ombro de Severus, instigando-o a se levantar juntamente com ela, para que pudessem retornar ao castelo antes das aulas que ainda precisavam comparecer durante o restante do dia.
Severus levantou-se do chão, também com um sorriso leve surgindo em seus lábios. Ele sabia que, apesar das palavras de Narcissa, havia conquistado uma pequena vitória ao vê-la aceitar seu convite para a reunião do Slughorn. Era um passo em direção à reconciliação e à retomada da harmonia em seu relacionamento.
Os dois caminharam lado a lado em direção ao castelo, os raios de sol filtrando-se pelas árvores, criando um jogo de sombras no cinzento e gélido espaço ao seu redor. Severus sentia-se aliviado por ter superado o impasse anterior, mas também inquieto com as indecisões que permeavam sua mente. Ele se questionava se Narcissa realmente o perdoara completamente e se estava disposta a abandonar os desentendimentos recentes.
Por outro lado, Narcissa não conseguia negar a atração que sentia por Severus, mesmo que o considerasse um tanto insuportável em alguns momentos. Seus gestos brincalhões e a forma como ele a desafiava despertavam nela uma mistura de raiva e desejo. Ela se pegava pensando se seria capaz de superar suas diferenças e se entregar a esse sentimento complexo que os envolvia.
Enquanto percorriam os corredores do castelo, os olhares furtivos que trocavam expressavam uma tensão carregada de emoções não confessadas. Ambos estavam cientes de que havia muito mais em jogo do que apenas um convite para uma confraternização. Eles estavam vagando em uma linha tênue entre o amor e o orgulho, entre a entrega e a autodefesa.
Os dias voaram e, com a mesma velocidade, chegou a noite da pequena e restrita festa do Clube do Slugh. O vento gelado do inverno escocês ainda soprava, agitando as árvores e irritando a Salgueiro Lutador. A neve se acumulava pelos cantos, transformando o ambiente em uma paisagem monótona e silenciosa. Até mesmo a Floresta Proibida parecia ter se rendido ao silêncio sepulcral.
Dentro do dormitório feminino da Sonserina, Narcissa observava o fundo do Grande Lago pela janela enquanto se vestia. De vez em quando, ela acompanhava os sereianos nadando em suas rotinas diárias. Alguns ainda ocupados, outros começando a recolher-se para descansar antes do próximo amanhecer. A natureza seguia seu curso em todos os lugares, e isso não passava despercebido por ela.
- Oh, deuses... vejamos o que eu posso fazer - murmurou Narcissa consigo mesma.
- Não vou usar o Glamour no meu rosto, pois não tenho motivo para querer ficar ainda mais encantadora, e o Severus notaria imediatamente o feitiço. Venusto resolverá tudo hoje, me deixando mais linda do que o normal, com uma maquiagem leve e sutil, perfeita!
Enquanto pensava em voz alta, ela se virou para se admirar uma vez mais no espelho, focando sua atenção em sua própria imagem. Os detalhes prateados que contornavam seu vestido preto arrancaram um suspiro de satisfação. Nunca ela havia usado uma seda tão habilmente ajustada ao seu corpo, realçando seus traços marcantes e suas curvas.
Aquele vestido a incomodava um pouco, mas também a excitava com os pensamentos que surgiam em sua mente. Seus olhos azuis profundos, agora meditativos, pareciam dois faróis, incapazes de ocultar toda a felicidade que transbordava de sua alma naquele instante.
Com o coração acelerado, Narcissa sentia vontade de abraçar a todos que cruzassem seu caminho e compartilhar as razões de sua animação. Era uma sensação avassaladora que a impelia a extravasar a realização que sentia. A perspectiva de que, naquela noite, Severus finalmente a pediria em namoro preenchia seu mundo de uma forma completa, enchendo-o de vida. Ela estava prestes a dar os primeiros passos rumo a uma vida inteira ao lado da pessoa que realmente amava.
Enquanto isso, no andar inferior, Severus caminhava de um lado para o outro, sentindo a ansiedade crescer a cada minuto que se passava sem que Narcissa descesse as escadas. Ela havia desaparecido, e isso o deixava confuso. Esfregando as mãos, ele decidiu verificar as horas novamente em seu relógio. Se Narcissa demorasse mais um segundo, ele encontraria uma maneira de invadir o dormitório feminino do sétimo ano para descobrir o que estava acontecendo. Bellatrix e Andromeda já haviam partido com seus respectivos acompanhantes, tornando a situação ainda mais intrigante e desesperadora.
- Vamos ao Clube do Slugh? – ela perguntou tranquilamente, segurando o corrimão enquanto descia as escadas em direção a Severus, que permanecia parado, com os olhos fixos nela. Seu sorriso aberto e vitorioso irradiava um ar de perigo e sensualidade, realçado pelo batom vermelho sangue que ela usava.
Severus estava sem palavras para descrever o quanto seu peito queimava ao vê-la tão deslumbrante. Seus olhos transbordavam uma intensidade magnética, algo que ele nunca havia visto antes. A reação dela não poderia ser diferente ao analisá-lo de terno e gravata estilo ascot. Inevitavelmente, eles formariam um casal impecável, trajando roupas negras como a noite durante toda a festa, e essa conexão a agradava profundamente.
- Claro, senhorita Black - respondeu Severus, estendendo o braço para que ela o segurasse, e ambos sentiram que, mesmo sem dizerem uma palavra, uma chama ardente havia sido acesa entre eles naqueles segundos.
- Sinceramente, eu consideraria bem mais prático se eu pudesse segurar sua mão - comentou Narcissa, olhando-o de soslaio, enquanto acompanhava os movimentos dos lábios dele que esboçava um sorriso. Seus pensamentos não eram inocentes, e seu coração pulsava com intensidade, seus músculos pareciam querer lhe dizer algo, enquanto ele a puxava para mais perto.
- Não tenho culpa de você ser baixinha e gostar de usar esses instrumentos de tortura nos pés - Severus brincou, abraçando-a pela cintura e balançando a cabeça em negação, fingindo não entender o significado do olhar que ela lhe lançava.
- Pare de ser bobo! Para sua informação, eu tenho 1,75cm, ou seja, nesse momento, devido ao salto, estou pelo menos 5cm mais alta do que você.
Severus sorriu abertamente e a abraçou ainda mais, sentindo a proximidade entre eles. Era como se voltassem a ter a mesma diferença de altura que tinham quando crianças.
- Isso faz diferença para você, Sevie? - ela provocou.
- Não, também não me impediu de absolutamente nada.
- Sei... o que quer que esteja pensando, meu caro, podemos resolver depois da nossa adorável festinha. Mas, como você prometeu, não podemos mais nos atrasar.
O jantar transcorreu tranquilamente. Conversas paralelas, risadas, alguns comentários impertinentes e nada que fugisse ao habitual. Slughorn comentava sobre sua coleção de nomes influentes entre seus ex-alunos, com os quais ainda mantinha contato, aproveitando para incentivar alguns alunos presentes a procurarem pessoas que pudessem ajudá-los em suas futuras carreiras. Ele estava disposto a fazer as pontes entre os dois lados para garantir o sucesso pretendido.
De vez em quando, Severus segurava discretamente a mão de Narcissa por debaixo da mesa, dando leves apertões nas nós dos dedos. Ela permanecia com um semblante impassível, movendo-se de forma calma e aristocrática em sua postura e gestos, como se nada a abalasse no mundo. No entanto, ela constatava que a felicidade não deveria ser compartilhada abertamente. Queria evitar a inveja e os comentários maldosos que surgiriam caso descobrissem toda a verdade, especialmente de algumas pessoas presentes.
As carícias tímidas que trocavam prosseguiram até o final da reunião, quando se despediram dos demais. De mãos dadas, caminhavam preguiçosamente pelos corredores vazios em direção ao Salão Comunal da Sonserina, fazendo pequenas pausas pelo caminho. Com sorrisos maliciosos, eles se olhavam, até que Narcissa ficou de frente para ele, a apenas centímetros de distância.
Brincando com a ponta dos dedos nos lábios de Severus, enquanto os umedecia lentamente, ela se ofereceu para o inevitável beijo. Suas bocas se encontraram com urgência, com fome, num encontro avassalador repleto de desejo e promessas. As mãos dele deslizavam pelas costas de Narcissa, causando um arrepio que percorria a pele, um tremor compartilhado que intensificava ainda mais a intimidade existente entre eles.
Recuperando o fôlego ao interromperem o beijo, Severus sussurrou próximo ao ouvido de Narcissa, deixando-a ainda mais arrepiada.
- Nós temos que entrar, senão o Filch nos pega aqui e estamos encrencados.
Sorrindo um para o outro, em uma cumplicidade silenciosa e intensa, eles sabiam que essas pequenas preocupações poderiam ser deixadas para depois. Mas ao mesmo tempo, estavam conscientes de que não deveriam ser esquecidas.
- E o que ele faria exatamente? Ele nos puniria? Ele não pode! Eu sou monitora e temos autorização do diretor da nossa casa para andarmos pelo castelo até chegarmos aos nossos aposentos. Então, estamos agindo dentro das regras e corretamente.
- Depende muito do que estivermos fazendo quando o Filch chegar. Acredito que existam coisas para as quais o diretor não nos daria autorização.
As palavras dele soaram com toques de sarcasmo e segundas intenções, fazendo com que as bochechas de Narcissa queimassem e ela sorrisse timidamente.
- Você é terrível, Severus Snape! Se você fosse um ótimo rapaz e tivesse um bom coração, agora me levaria no colo, pois eu não tenho condições de caminhar pelos próximos dois corredores. Estou com dor nos pés e meus dedos estão queimando.
Fazendo um beicinho choroso e dramático, Narcissa o encarava, observando como ele semicerrava os olhos, pensativo.
- Suba nas minhas costas, então. Estou impedido pela moral e pelos bons costumes de carregá-la de ponta-cabeça até lá.
- Ridículo!
- Até parece que você não gosta.
- Vai pensando assim que você vai ver.
Dando um tapa na nuca dele, Narcissa rapidamente se apoiou em seus ombros, para que ele a erguesse do chão.
Faltava pouco, e eles caminharam pelos corredores restantes, logo entrando no Salão Comunal e se sentando no sofá próximo à lareira. Narcissa retirou os sapatos, massageando os próprios pés com uma expressão de dor, esticando os dedos um a um. Enquanto isso, Severus ficava pensativo e desfazia a gravata.
O ambiente foi tomado pelo mais completo silêncio, enquanto ambos mergulhavam em suas próprias mentes, perdidos em pensamentos inconfessáveis. Nada além das suas respirações inquietas e constantes que expunham a urgência de seus corações preenchia o ar.
Deixando os sapatos de lado e se aproximando lentamente, Narcissa iniciou uma série de novas carícias em Severus, fazendo-o fechar os olhos em contemplação muda. Ele adorava sentir o toque daquelas mãos macias em seu rosto. Narcissa era a única que possuía o poder de tranquilizá-lo e transmitir uma sensação de profunda esperança. Mesmo que fosse por meio de gestos sutis, aquilo o fascinava cada vez mais.
Abrindo os olhos e fixando-os nos dela, de forma impulsiva, ele a beijou. O beijo começou lentamente, mas logo se tornou quente e molhado, os lábios de Severus explorando suavemente os de Narcissa em um encaixe perfeito que os deixava sem fôlego. Cada toque, cada movimento de seus corpos, trazia uma explosão de sensações que os envolviam em um abraço emocional.
O beijo se intensificava e aprofundava, suas línguas dançando em uma sinfonia apaixonada, como se estivessem em um laboratório, experimentando todas as emoções e sentimentos que eram capazes de proporcionar um ao outro. Severus se deliciava com o sabor daqueles lábios carnudos de Narcissa, saboreando-os como se fossem a fonte de toda a sua felicidade.
O aroma de pergaminhos, livros, rosas e jasmins impregnava o ar ao redor de Narcissa, uma mistura irresistível que o seduzia profundamente. Ao tocá-la com a ponta dos dedos, explorando cada curva e relevo de seu corpo, Severus sabia que deixava um rastro de fogo e êxtase. Era uma química inegável que os levava a compartilhar momentos raros de entrega, prestes a levar a um limiar de prazer mútuo.
Sentindo a fragrância de Severus sendo gravada em seu corpo, Narcissa soltou um suspiro trêmulo e fechou os olhos. Era como se estivesse inalando o cheiro de terra molhada após a chuva, algo que o representava perfeitamente. Aquilo significava o vestígio que se espalhava pelo ar, expondo o quanto a natureza estava repleta de vida e lutava bravamente por sua própria sobrevivência.
Os momentos compartilhados entre eles eram como uma conjunção íntima, cheia de tensão e desejo reprimido, em que cada detalhe trazia à tona suas emoções mais profundas. Era um jogo de poder e vulnerabilidade, em que ambos se entregavam ao proibido com uma intensidade avassaladora. E, naquele instante, o tempo parecia parar, enquanto eles se perdiam naquele universo de prazer e conexão única, agarrando-se a cada instante como se fosse o último.
A realidade e a fantasia se entrelaçavam em um turbilhão de emoções. Rendendo-se por completo ao momento de luxúria, seus sentidos se aguçavam. Mais do que terra, Narcissa sentia um cheiro amadeirado, resultado da queima da seiva em meio às ervas e da fumaça que saía da canela torrada, perfumando tudo ao seu redor. Estar nos braços de Severus fazia com que o mundo ao seu redor desaparecesse, era como passear em meio a uma tempestade.
Os dois já não conseguiam mais se conter. Eles agiam puramente por instinto, guiados pelas sensações da pele se roçando. Os sussurros e os gemidos começaram a ecoar entre eles, enquanto desejavam ardentemente retirar as roupas e se entregarem a confusão de sensações que compartilhariam ao explorar mais o corpo um do outro.
Severus envolveu Narcissa em seus braços com firmeza, encarando-a intensamente, permitindo que o calor de seus corpos ardentes fosse compartilhado e que o fogo dominasse seus sentidos. Ansiavam por isso, ao se perderem nos toques e na dança apaixonada que começavam a executar, à beira da completa rendição, ultrapassando os últimos muros que antecediam a barreira que ainda os impedia.
- Não, ainda não, Cissy. Eu não quero machucar você - disse Severus, segurando gentilmente as mãos dela para impedi-la de abrir suas calças.
- Desculpe por frustrá-lo dessa forma, Sevie - a voz de Narcissa saiu ofegante e insegura. Ela sabia por que ele havia decidido parar. Suas mãos estavam geladas, seu coração pulsava furiosamente, tomada pela insegurança ao sentir a ereção dele entre suas coxas.
- Não há nada para ser perdoado aqui. Eu sei que você não está pronta para isso e ainda há muito pela frente - afirmou Severus.
- Tem certeza?
- Eu não tenho dúvidas sobre tudo aquilo que você merece - comentou Severus, afastando-a de seu colo e a envolvendo em um abraço forte e seguro, transmitindo confiança. Narcissa o olhou por alguns instantes, ainda incerta se havia feito a coisa certa ao não insistir mais e se render às indecisões que a dominavam. Ela deitou a cabeça em seu ombro, pensativa. Talvez ele estivesse certo. Talvez aquele não fosse o momento mais adequado. Ainda viveriam muitas coisas juntos, e uma negativa não o faria considerar abandoná-la.
