Os últimos meses daquele ano de 1976 foram, sem dúvida, uma verdadeira tormenta de confusão e estranheza para todos. O castelo de Hogwarts parecia ter abruptamente escancarado as portas do inferno, dando lugar a um cenário surreal e assombroso, em que aparentemente todos passaram a correr um inexplicável perigo ao andar pelos corredores. Horrores que se iniciaram de modo impreciso, de uma simples notícia tão banal que tomou proporções sinistras, lançando uma sombra nefasta sobre cada canto e sala do castelo.

A notícia da gravidez de Bellatrix, tão esperada por muitos como um símbolo de renovação e esperança, revelou-se um verdadeiro catalisador sombrio que desencadeou uma cadeia de eventos opressores e inquietantes para todos. Sirius, em particular, tornou-se ainda mais agressivo que o normal nesse período. Sua fúria era palpável em suas ações, criando uma atmosfera densa em seu entorno, e ele parecia à beira de explodir a qualquer momento. A negação de sua paternidade era uma ferida profunda, insuportável e sangrenta, refletida em seu temperamento colérico. Era como se um lobo selvagem estivesse enjaulado dentro dele, ansiando por escapar e liberar toda a sua fúria assassina no mundo.

A cada dia que passava, o clima em Hogwarts se tornava mais tenso, impregnado de medo e insegurança. A escuridão se espalhava como uma doença, corroendo a esperança que antes permeava o castelo com a chegada da formatura do sétimo ano. Um horror que parecia até mesmo contaminar a festa, com suas obrigações protocolares e a promessa de uma celebração vazia de sentimentos genuínos. Apertos de mão, sorrisos falsos e fotos seriam tiradas, enquanto cada um dos envolvidos carregava consigo suas próprias dúvidas e inseguranças quanto ao futuro que os aguardava. Para Severus, ao contrário dos demais, esse momento nunca parecera um verdadeiro motivo de felicidade. Ele estava ainda mais zangado do que Sirius poderia imaginar um dia ser, odiando a ideia de se afastar de Andromeda e, principalmente, de Narcissa. Havia tanto a ser dito e feito antes delas partirem. A sensação de abandono pesava sobre ele e o sufocava.

O ano de 1977, que mal havia começado, parecia ainda mais destinado a ser muito mais complicado do que qualquer um poderia imaginar em seus piores pesadelos no ano anterior. Realmente, tudo podia se agravar em níveis catastróficos de uma hora para a outra. Severus tinha a absoluta certeza de que não havia mais perspectiva que lhe interessasse além do que já possuía, essa era a triste realidade que vivenciava. Todos o renegariam, inclusive a menina que tanto amava. Ele sabia que somente Hermione estaria ao seu lado sempre, mesmo que ela fosse apenas um produto de sua mente, uma criação fictícia de memórias que começavam a ser fabricadas por um futuro irreal.

No entanto, a novidade chegou e consigo trouxe uma nova parcela de caos. Durante a madrugada daquele 30 de junho, Bellatrix foi retirada às pressas da festa de despedida de Narcissa e levada ao Saint Mungus. Em meio aos gritos e brigas com a família, ela desviou completamente a atenção de todos, proporcionando a oportunidade que Andromeda tanto precisava. Ela invadiria a casa dos tios e alteraria a árvore genealógica dos Black mais uma vez, em um ato desesperado para proteger a irmã e a criança que ela carregava.

- É, meu amorzinho, sua tia Bella fez uma grande besteira, e agora eu terei que consertar tudo. Você não faz ideia do quão difícil é trair a confiança da tia Walburga, especialmente quando ela nos amaldiçoaria sem pensar duas vezes - sussurrou Andromeda para a filha, que dormia tranquilamente em seu colo, num tom confessional.

Olhando reflexiva para a tapeçaria enquanto prosseguia seus pensamentos, ela encarou o próprio nome por alguns segundos, com o olhar distante de quem resgatava uma memória dolorosa que já deveria ter sido apagada.

- Já fiz coisas parecidas para salvar você, Nymphadora. Até hoje me questiono como tive coragem de seguir Rodolphus e fazer aquilo com o dendrograma estranho dos Lestrange.

Ela apontou sua varinha em direção à ramificação que começava a se formar, sentindo uma sensação horrível dominar seu corpo. Respirando fundo, usando de todas as suas forças, segurou as lágrimas ao máximo ao ver o nome de Bellatrix se entrelaçando com o daquele homem odioso. Sua irmã havia destruído a própria vida por tão pouco e jamais poderia voltar atrás naquela decisão. Aquela conexão já estava selada, mesmo que fosse apagada dos registros oficiais, ainda estaria ali marcada pelo sangue.

- O pior é que, com toda essa confusão, seu irmão mais uma vez não teve a chance de conhecê-la. Dora, você não faz ideia de quanto ele está ansioso por esse momento. Ele já a ama sem sequer ter tido a oportunidade de vê-la uma única vez - disse, tentando acalmar seu coração ao compartilhar aquela lembrança.

Um sorriso tranquilo iluminou seu rosto quando uma breve ideia passou por sua mente, observando o nome de Tom Marvolo Riddle desaparecer completamente da tapeçaria. Enquanto isso, em outra parte de Londres, o som alto do choro de uma recém-nascida ecoava. Andromeda, entretanto, estava surda para aquele eco longínquo e não sabia que, naquele exato instante, Delphini estava vindo ao mundo.

Era a vinda do Agoureiro, aquele que se sentaria ao lado do Lorde das Trevas e que insistiria em fazer com que o futuro obscuro do mundo bruxo se concretizasse. "Por Voldemort e Valor", aquela criança seria responsável por selar a profecia de destruição dos Black. Porém, profecias podiam ser desfeitas. Se ela fosse criada com amor, se tornaria apenas mais uma ruptura temporal irremediável para Severus.

Hermione já não era mais a primogênita de Bellatrix. Uma parte do Elo estava desfeita, uma parte do presságio desfeito, e as consequências desse rompimento ainda estavam por vir. Uma a uma, certezas desmoronariam como um frágil castelo de cartas. No entanto, nada machucaria mais do que as dúvidas e confusões tão intensas quanto uma tempestade no deserto, que desnorteavam Severus e partiam seu coração.

Foi com tais acontecimentos que as férias daquele ano iniciaram, acompanhadas pela ansiedade e pelo receio. Primeiro, devido a todas as desavenças que se acumularam entre os primos Orion e Cygnus, em relação às negativas sucessivas de Bellatrix em revelar a paternidade da filha. Por uma obviedade, aquela menina era filha de Sirius e não fazia qualquer sentido ser a primeira da família a não ter o nome do pai reconhecido pela árvore genealógica. Tal absurdo abalou completamente a família, e, por mais que investigassem as causas, não encontravam qualquer resposta lógica para tamanha restrição e segredo na tapeçaria.

O segundo problema era Narcissa e sua constante fuga do compromisso com Lucius. Ela parecia desesperada e sempre muito disposta a escapar de sua obrigação, que aos poucos se aproximava. Secretamente, ela planejava não permitir que seus medos se tornassem os maiores inimigos e assassinos mais cruéis do amor que sentia por si mesma e por Severus. Lutaria até o fim para não ser forçada a se casar contra sua vontade, principalmente quando o noivo se tratava de um porco que sempre fazia questão de machucá-la.

- Já faz um mês que eu não o vejo... onde você está, Sevie? Por que não veio me ver até agora? - suspirou baixinho, olhando para uma foto até então escondida em seu livro Uma Espiã na Casa do Amor, de Anaïs Nin.

Como se tivesse ouvido seu chamado, dias depois, numa manhã ensolarada em Paris, Narcissa prestou atenção no canto dos pássaros. Principalmente, no fato de que alguns pareciam estar bastante alterados, como se estivessem envolvidos em uma briga. Ficando na ponta dos pés para tentar ver o que ocorria, ela respirou fundo o ar do alvorecer. Ela gostava daqueles pequenos instantes de solidão em seu quarto, longe das responsabilidades, das críticas, dos tormentos. Distante dos pais e dos constantes atritos familiares que lhe eram noticiados por Andromeda e Bellatrix quase diariamente. Inegavelmente, sua vida estava melhor desde que se afastara de tudo e de todos que tornavam seus dias escuros e pesados.

Seus bons pensamentos e ponderações foram abruptamente interrompidos quando teve que desviar de Orestes, que entrava às pressas por sua janela. Ainda um pouco assustada pelo desespero da coruja, que era perseguida por uma espécie de falcão-peregrino, ela fechou rapidamente as janelas. Tentando controlar a respiração para abrandar o sobressalto e acalmar o palpitar acelerado do coração, Narcissa encarou o animal, certa de que ele havia sido o causador da confusão que escutara. O lado positivo daquela chegada tão agitada era que Severus lhe enviara uma carta. Ele não a havia esquecido desde a última vez em que se viram. Ela queria acreditar que, embora o mundo dele estivesse mudando, ainda fosse possível perceber que estavam lado a lado. Suas essências permaneceram as mesmas ao longo dos anos, e isso apenas confirmava que não podiam escapar dos laços fortes que sempre os trançaram tão intensamente.

- Por que você é tão mal-humorado, Orestes? Olha a briga em que você se envolveu! Aquele falcão arrancou várias das suas penas e por qual razão? Pode me dizer, sua coruja encrenqueira?! Eu queria entender como um animal tão bonito e fantástico pode agir assim... – comentou, acariciando as penas lentamente, enquanto olhava para a coruja com atenção.

Retirando o pergaminho da pata com cuidado, Narcissa escutou Orestes chirriar para ela, como se estivesse lhe relatando alguma coisa. Parando para prestar atenção nas queixas da coruja, foi desenrolando a carta para deixá-la sobre a mesa. Leria depois...

- Sei que você é bonzinho e que todos foram cruéis o acusando de algo que não fez. Eu te darei o biscoito, Orestes. Só tenha um pouco de paciência, pois tenho que pegar água para te dar também. Está bem? – garantiu, saindo do quarto para pegar as duas pequenas vasilhas e entregá-las à coruja.

- Pronto... querido! Agora, eu vou ler o que o seu dono me escreveu, e você se alimenta. Poderia me aguardar um pouco? Gostaria de enviar a resposta, sem depender da Berw para que isso ocorra – comentou, recebendo um novo chirriar em resposta.

Enquanto Orestes desfrutava da água e do biscoito, Narcissa abriu a carta de Severus com um misto de antecipação e inquietude. Suas mãos tremiam levemente, revelando a intensidade de suas emoções. O que ele teria a dizer dessa vez? Havia um traço de ironia em seu sorriso, como se soubesse que aquele relacionamento proibido era um verdadeiro jogo de xadrez, onde cada movimento poderia ser decisivo.

"Narcissa,

Como estão os seus estudos? A Académie de Magie Beauxbâtons aceita mulheres inteligentes ou o único interesse dos franceses é a beleza efêmera? Certamente, aberrações como eu não seriam bem-vindas entre aqueles que se dizem símbolos da perfeição. Creio que meu lugar seria algo bastante próximo ao Durmstrang Institut för Magisk, não acha? Homens cheios de parasitas na cabeça e buracos negros no lugar dos olhos... um mundo sombrio e nada bonito que eu espero que nunca conheça.

Contudo, interrompo esse assunto estranho que iniciei para dizer que sonho todas as noites com você. Espero que essas palavras não sejam uma nova ilusão e que, neste momento, esteja lendo o que eu digo. Sinceramente, sinto sua falta desde a última vez em que conversamos.

Ainda me lembro de sua empolgação em me contar o quanto estava empenhada na criação de óleos e essências. Sua mente perfeita e brilhante estava cheia de ideias extraordinárias e muito promissoras... por isso, agora estou curioso sobre o andamento de seus projetos, especialmente para constatar que não desistiu do que planejava.

Não esqueça o quão extremamente talentosa você é, mesmo que a senhora Druella Black insista em afirmar o contrário, ao adjetivá-la como fraca ou incapaz. Você está muito além de tais definições torpes e repressoras.

Em minha nem um pouco humilde opinião, você é uma navalha afiada, uma adaga de prata banhada em veneno desconhecido, uma força da natureza inexplicável e, acima de tudo, uma menina teimosa e dedicada. Você é especial e deve seguir seus sonhos, mesmo que eles ainda te pareçam impossíveis de serem realizados. Em algum instante impreciso, tudo dará certo e você será coroada! Reconhecida por todo o seu talento inigualável.

Infelizmente, suas aptidões incontestáveis e habilidades incorrigíveis devem ter sido notadas por toda a sua família. A maioria, inclusive, deve sentir profunda inveja de sua força ao ver que você se permite ter sentimentos e, o pior, é capaz de demonstrar fragilidade perante as incertezas cotidianas. Por isso, foi você que quase se tornou uma "filha de Rowena Ravenclaw" e não eles!

Já falei que sinto saudades? Se disse, repito... se não, estou enfatizando agora.

Minha linda Flor de Narciso, não tenha medo! Você é generosa, formidável, maldosamente inspiradora, impiedosamente engraçada, carinhosa e absurdamente inteligente. Na verdade, retifico o que acabei de comentar... você é cruelmente sábia e sagaz, minha impossível e graciosa criatura!

Continue sendo uma pessoa genuína e jamais renuncie ao que tanto deseja. Eu ficaria escandalizado com o desperdício e a crueldade a qual você atribuiria a si mesma se o fizesse. Não se machuque nem se martirize desse modo tão horrendo... e sim, Andie me contou dos absurdos que seus pais disseram.

Abraços,

Severus".

As palavras de Severus dançavam diante de seus olhos, como se tomassem vida própria. A intensidade de suas emoções aumentava a cada linha lida. Ele expressava sua preocupação, seus medos e suas dúvidas, revelando uma vulnerabilidade que poucos tinham o privilégio de testemunhar. Era uma batalha interna entre o dever e o desejo, entre a fidelidade à causa e o amor que os unia. Narcissa sentia-se profundamente conectada a ele nesse momento, como se compartilhassem o peso do mundo em seus ombros.

Enquanto ela terminava de ler a carta, um turbilhão de pensamentos e emoções se agitava dentro de sua mente. O que ela poderia responder? Como poderia transmitir a força de seu amor, mesmo diante de todas as adversidades que os cercavam e os distanciavam? Seus traços psicológicos de determinação e coragem se destacavam, pois ela não se renderia ao destino que os separava. Havia uma tensão palpável no ar, uma eletricidade que alimentava o fogo de sua paixão.

Com uma pena tremendo levemente entre os dedos, Narcissa começou a escrever sua resposta. Cada palavra era cuidadosamente escolhida, cada frase carregada de significado oculto. Ela capturava a essência de seus sentimentos mais profundos e expressava sua devoção inabalável. Cada ponto final era como uma promessa selada, uma afirmação de que eles enfrentariam todas as tempestades juntos.

"Querido,

Não sei como iniciar esta carta... Sinceramente, estou extremamente feliz por ver o quanto se preocupa com minhas decisões e dúvidas. Suas palavras têm o poder de encher meu coração de esperança e força, fazendo com que eu jamais desista dos meus objetivos.

A saudade que sinto de você é imensa. Lembro-me com carinho das nossas conversas profundas, dos nossos passeios pela cidade e de como nossa presença um ao lado do outro trazia uma sensação reconfortante de estar em casa. Você sempre teve a habilidade de me fazer sentir segura e compreendida.

Sevie, não consigo encontrar as palavras certas para descrever o que há entre nós. Parece existir sempre algo secreto, intenso e proibido, uma conexão única e inexplicável. Um entendimento mútuo que se fortalece naturalmente, com uma força avassaladora. É como se houvesse um enigma que nos envolve, deixando as palavras falharem e minhas ideias não conseguirem decifrá-lo por completo.

Quanto às minhas pesquisas, acabei deixando-as de lado devido à dificuldade em encontrar alguns materiais essenciais. Sem as ferramentas e os insumos necessários, torna-se impossível dar continuidade aos meus estudos. Tenho certeza de que você compreende o quão importante isso é para uma investigação científica séria.

Será preciso esperar mais duas semanas para que a Académie de Magie Beauxbâtons consiga fornecer todos os materiais e equipamentos que solicitei. No entanto, mesmo diante dessas incertezas temporárias, tenho uma maravilhosa novidade para compartilhar com você... uma perfumaria se interessou pelo meu projeto!

Sim, acredite em mim, meu querido! A Parfumerie Belle Sorcières deseja me contratar como perfumista e pesquisadora, encarregada de criar aromas para a marca. Sinto-me verdadeiramente feliz e realizada com essa oportunidade!

Prometo, com todo o meu coração, que em breve nos reencontraremos!

Continue sendo forte e sublime em todas as suas realizações, meu amado Príncipe de meio sangue e único Príncipe das Poções. Acredito com fervor no seu futuro brilhante e tenho plena convicção de que você se destacará, superando todos aqueles que atualmente subestimam o seu valor.

Com amor e saudades imensuráveis, sempre sua,

Flor de Narciso

PS: Peço que não exagere na dramaticidade quando tenta chamar a minha atenção. Conheço você muito bem, meu caro Severus Snape, e sei que essa postura não condiz com a pessoa doce e sensível que você é. Além disso, vale lembrar que o Durmstrang Institut för Magisk não tem histórico de aceitar indivíduos tão idiotas quanto você. Foi lá que estudou ninguém menos que Gellert Grindelwald, o maior bruxo que já existiu depois de Merlin! Ainda há muito para você aprender a fim de alcançar o mesmo nível, meu amor...".

Quando finalmente terminou, Narcissa leu novamente o que havia escrito, sentindo uma mistura de satisfação e inquietação ferver em seu peito. Ela havia revelado parte de sua alma naquelas palavras, entregando-se de corpo e alma a um amor que desafiava todas as convenções nas quais fora criada. Mas o que o futuro lhes reservava? A incerteza pairava sobre eles como uma sombra constante, alimentando sua determinação de lutar por seu amor proibido.

Com a carta pronta, Narcissa a guardou em um envelope, selando-o com um beijo antes de entregá-lo a Orestes, confiando-lhe a missão de levá-lo a Severus. Os olhos da coruja transmitiam um misto de compreensão e lealdade, como se compartilhassem seu fardo e acreditassem na força de seu amor.

Enquanto observava Orestes alçar voo pela janela, Narcissa sentiu um rasgo de esperança. O futuro estava envolto em desafios, mas ela estava disposta a enfrentá-los de cabeça erguida. Seu coração pulsava com a coragem e a força para lutar por sua felicidade, não importando as consequências.

Assim que Severus recebeu a carta, um sorriso animado surgiu em seu rosto. Narcissa estava radiante e isso bastava para que seus dias se tornassem menos conturbados. Em breve, eles se veriam quase que diariamente e tudo se tornaria ainda mais forte e intenso do que já era.

No entanto, ele já se encontrava totalmente hipnotizado e perdido em cada linha traçada. Pequenos detalhes e expressões sinceras surgiam, revelando-se abertamente no rosto daquela mulher de cabelos solares. Era como se cada nuance, cada sutileza, fosse redescoberta ou percebida com maior precisão a cada frase, revelando o quanto poderiam se complementar nas mais diversas situações e assuntos.

Era evidente que a distância os aproximara, permitindo que suas traduções não se perdessem em minúcias fúteis ou divergências. Sua relação era perceptivelmente mais estranha e clara do que qualquer obra de ficção poderia descrever. Juntos, eram uma soma de duas partes complexas e distintas, unidos como símbolos abstratos, formando um todo inabalável e duradouro.

Tanto que Severus podia quase escutar a voz de Narcissa em prece, como se os ventos sussurrassem em seus ouvidos o som das palavras. Eram doces, serenas e repletas de esperança, refletindo a essência que ela possuía, como ele sempre a enxergava em cada pensamento ou sonho.

- "Que a estrela se abra à sua frente. Que o vento sopre suavemente às suas costas. Que o sol brilhe morno e acolhedor em seu rosto. Que a chuva caia delicadamente em seus campos... E, até que nos encontremos novamente, que Deus te guarde na palma de Suas mãos". - em um instante fugaz, ela recitava baixinho uma oração celta da Lua Rosa, com uma fé inabalável, ressonando na mente de Severus.

Mabon a protegeria, como já fizera no dia de seu nascimento, guiando-a pelo caminho mais correto em direção ao destino tão sonhado. Somente na sabedoria dessa deusa ela poderia confiar, pois era a única capaz de lhe abrir os olhos quando a oportunidade tão almejada surgisse.

O sangue de Narcissa fervia docemente, assim como o de Severus, ao perceber que um de seus desejos mais profundos estava prestes a se realizar. Ela aproveitaria cada chance, por menor que fosse, para vê-lo e abraçá-lo novamente.

Faltavam apenas três dias. Na verdade, menos de três dias para que o único motivo que a levava de volta para casa se concretizasse. Estar perto dele a fazia considerar qualquer cenário como válido e aceitável. Por mais duro ou cruel que fosse, ela o amava e suportaria todos os obstáculos que surgissem em seu caminho.

Com o dinheiro que recebeu da Parfumerie Belles Sorcières, ela teria a liberdade de sair, viajar e conhecer o mundo. Iria aonde quisesse. A aparatação e as chaves de portal seriam os veículos para se sentir livre, o meio que a conduziria em direção aos seus sonhos.

Chegando ao tão aguardado momento, assim que deixou as malas, Narcissa sentiu-se imersa no tempo e no espaço. Soberana como o vento, ela se percebia livre das amarras que a prendiam e das obrigações que a sufocavam. Encontrar Severus era tudo o que desejava para alcançar a felicidade.

Decidida a passar o dia ao lado dele, não importava onde estivessem no mundo, ela queria se divertir, sorrir e viver intensamente os preciosos segundos que passariam juntos. Essa era a vida que tanto sonhara.

Com essas ilusões em mente, seus pés tocaram o chão com entusiasmo. Seus passos eram ansiosos e rápidos ao se dirigir para o local marcado. Queria saber o que Severus pensaria da proposta que lhe seria feita.

Refletindo e escolhendo cuidadosamente as palavras, Narcissa respirou fundo, enchendo-se de coragem ao avistá-lo. Acelerou ainda mais seus passos e se jogou nos braços dele, abraçando-o com todas as suas forças. Naquele gesto, tentava expressar toda a falta e a mágoa que havia experimentado durante o tempo de separação.

- Severus... quanto tempo! Eu... eu estou realmente feliz que você esteja aqui. – disse sorrindo abertamente, com os olhos um pouco marejados pela emoção.

- Foi o que combinamos... eu jamais deixaria você esperando aqui ou desistiria de vê-la. – a resposta sincera saiu espontânea, beijando-a carinhosamente na testa, igualmente animado com o reencontro.

- O que você acha de viajarmos na próxima semana? - Narcissa perguntou inesperadamente, com um tom animado e provocante, deixando-o surpreso.

- Claro... ótimo! Eu adoraria. Mas para onde iremos?

- Roma, querido! - ela afirmou, seu rosto iluminado pela alegria, contrastando com o dele que se mantinha franzido e pensativo.

- Certo... se todos os caminhos ao seu lado me levarem às ruas de Roma, eu arrumarei uma pequena mala. Farei tudo para melhor servir à minha duquesa Black. – Severus comentou, segurando o riso diante da expressão de incômodo e descontentamento que ela mostrava ao ouvir aquele apelido.

- Você sabe que eu detesto quando me chama assim... – Instintivamente Narcissa cruzou os braços, afastando-se um pouco, soltando um pequeno bufar inconformado.

- Cissy, eu não consigo ser muito agradável... é meu defeito, confesso. Contudo, prometo não brincar mais assim, se isso te deixa tão chateada. – falou com um tom preocupado, puxando-a delicadamente pela mão, notando que ela o encarava de soslaio.

- Está perdoado.

Assim, passaram a manhã e a tarde imersos em conversas diversas, abordando também assuntos mais sérios. Tinham muito a compartilhar e o tempo parecia passar mais rápido do que os ponteiros permitiriam normalmente. Ou talvez o que sentissem fosse a sensação primorosa e ambígua que se experimenta ao estar com alguém tão especial?

Os dias foram passando, parecendo cada vez mais tranquilos e cheios de sonhos. O universo parecia conspirar a favor de suas ambições e desejos mais profundos. Afinal, não era assim que deveria ser sempre?

A vida, agora, principiava um curioso estabelecimento de perspectivas leves naquela semana tão aguardada. Com a impossibilidade do uso dos feitiços de Desaparatação e Aparatação para uma distância tão longa, eles decidiram comprar uma Chave de Portal para chegar a Roma o mais rápido possível. Seria um processo rápido e indolor, após serem sugados por aquele estranho cano luminoso e caleidoscópico. Em questão de segundos, encontravam-se nas proximidades da Via Appia Antica, envolvidos pela energia vibrante da cidade eterna.

- Daqui será mais fácil chegarmos na Lungotevere Raffaelo Sanzio, onde meus pais têm uma casa. Não é nada muito luxuoso, mas é um bairro tradicional e muito bonito. Além disso, há uma bela vista do Rio Tibre. - Narcissa comentou, segurando a mão de Severus com um misto de empolgação e ansiedade, como se a paisagem que os aguardava fosse um tesouro a ser descoberto.

Olhando para a paisagem do Trastevere, Severus confirmou que era um lugar encantador e tranquilo. Ruas de paralelepípedos, casas coloridas e ruelas estreitas davam ao bairro um ar boêmio e acolhedor. Bares, lojas de artesanato, cafés e trattorias se espalhavam pela região, criando uma atmosfera animada e convidativa. Era como se a vida pulsasse em cada canto, trazendo consigo um senso de pertencimento e tranquilidade. Ele sentiu-se em paz, como há muito não se sentia. A serenidade que o envolvia era um bálsamo para sua alma cansada e atormentada. Era como se, naquele momento, a cidade eterna abraçasse sua essência com benevolência.

Certamente, a alegria de Narcissa o contagiava, com suas ondas e mensagens de amor indecifráveis. Ela parecia conhecer cada recanto da cidade, cada história gravada nas ruas e nas paredes antigas. Talvez estivesse manipulando seus sentidos, dada a proximidade com a água do Rio Tibre, que refletia a luz do sol como uma sinfonia de cores. Quanto mais próximo do rio, mais a magia dela reverberava, como se vibrasse diante da proximidade de seu elemento regente. Era uma dança sutil entre os dois, um equilíbrio delicado entre a força da água e a firmeza de suas almas.

- Cissy, qual é o nome daquela ponte? - Severus questionou, apontando com o queixo para a elegante estrutura de pedra que se erguia sobre o rio.

Ela olhou na direção indicada e sorriu, revelando um brilho nos olhos que capturava a essência daquele lugar como um todo.

- Aquela é a Ponte Garibaldi e, mais adiante, você encontra a Ponte Cestio. Aqui temos muitos lugares lindos para conhecer, muitos que remetem ao Antigo Império, como você sabe. Acredito que deve ter existido algum senador com o seu nome. Inclusive, pode ter auxiliado no incêndio de Roma... - Narcissa riu abertamente, dando um pequeno empurrão em Severus, que revirou os olhos, mas não conseguiu conter um sorriso leve que se formou em seus lábios.

- Bem, podemos deixar nossas bagagens em casa para visitarmos o Gianicolo. Ainda está cedo e será interessante. É uma colina fantástica! Embora não esteja entre as sete principais, tem uma vista fascinante. – comentou o olhando com os olhos brilhantes de expectativa, transmitindo a ele uma sensação de entusiasmo contagiante.

- Se você diz, eu acredito... podemos ir sim. - Severus respondeu, dando de ombros com um falso desinteresse, enquanto seu coração pulsava com uma antecipação oculta, ansioso para explorar cada pedacinho da cidade ao lado daquela mulher enigmática que havia despertado emoções que havia deixado por meses adormecidas em seu ser.

Com o coração pulsando forte, batendo descompassado como um tambor sem ritmo certo, Severus e Narcissa chegaram à residência. Ao contrário do que ela havia relatado, o local simples se tratava de uma mansão com 10 quartos e um exército de elfos à disposição para atender aos seus desejos. Isso era algo que o deixava confuso. Por mais que a conhecesse, jamais assimilava as suas perspectivas quanto aos espaços que a cercavam. Tampouco, o que diferia a simplicidade do luxo. Quanto mais convivia com Narcissa, mais enigmática e singular se transformava. Nada era exato. Às vezes, Severus desconfiava que ela fazia isso intencionalmente para deixá-lo perdido. Entretanto, como afirmar com exatidão os seus pensamentos sempre secretos?

Após se alimentarem e deixarem os pertences sob os cuidados dos elfos, os dois saíram pelas ruas sem uma direção exata. Apenas caminhavam de mãos dadas, observando as vitrines e os transeuntes que circulavam por ali. Era um dia ameno, ensolarado, em que o vento fresco convidava para um passeio. As construções históricas, praças, igrejas, vias, os silêncios sendo rompidos por vozes altas e alegres, as crianças correndo livremente... tudo os deixava interessados e guiava os seus passos, como se os sons os regessem.

Olhando para Narcissa, Severus pensou nos antigos romanos, que corajosamente cruzavam mares e enfrentavam tempestades em nome de deuses e deusas. Abandonando suas vidas e seus sonhos, entregando-se à água escura do mar para ampliar os limites do seu império. Guerreiros orgulhosos que, junto aos inigualáveis pensadores gregos, nunca deixaram de dominar o mundo e deixar os seus rastros em todos os lugares.

Observando tudo e prestando atenção a cada frase dita por ela, apenas atestava que a destruição de tamanha supremacia se deu pelo próprio brio e pretensão. Uma história bela e trágica, de ascensão e declínio, iniciada por Romulus e Remus ao serem alimentados pela loba. Uma narrativa épica sobre a potência que serviu de estrutura para as bases do catolicismo... por aceitar todos os deuses em seu Panteão.

- Dizem que aqui foi onde São Pedro foi martirizado e crucificado de ponta cabeça... pobre homem - apontou Narcissa para a Chiesa di San Pietro in Montorio, nas proximidades do Giancolo, chamando-lhe a atenção.

- Não foi essa que você me disse que ocorriam muitos casamentos? Esses trouxas só podem ser loucos ao decidirem se casar em um lugar como este! Um homem foi torturado aqui e as pessoas julgam que serão felizes em cima de desgraça?! Depois, nós somos os estranhos... - comentou Severus com uma expressão de asco no rosto.

- Ora, Sevie... se pararmos de frequentar cada região, local, casa ou praia em que alguém foi morto, nós teríamos de deixar de existir. Caso tenha esquecido, a Europa já foi cenário de duas guerras horrendas! Bruxos e trouxas lutaram lado a lado, houve mortes em todos os cantos e todos sofreram - repreendeu-o seriamente.

- Se você não distingue as obviedades que estão diante de seus olhos, eu te explico que as pessoas são movidas pela fé. Seja para o bem ou para o mal, é o que as faz seguir em frente, por pior que as coisas estejam ao seu redor. Eu creio, sinceramente, que elas acreditam que estarão abençoadas aqui e é isso o que as deixam mais fortes – Narcissa continuou olhando para a construção de forma reflexiva.

- Sei... - bufou baixinho em discordância, mas não iria discutir com ela por tão pouco.

- Eu me casaria aqui. Deixaria a minha família completamente escandalizada com a afronta. Apesar de que, eu não seria a primeira bruxa a transgredir às regras ao entrar em uma igreja. - Narcissa disse com um sorriso sonhador avivando o seu rosto.

- Realmente, uma igreja parece um lugar bastante cômodo e pacífico para uma bruxa. Se você não derretesse igual a Bruxa Má do Oeste para sanas as expectativas deles, em segundos, uma horda apareceria com tochas e a amarrariam no primeiro tronco que encontrassem... em qualquer parte do mundo, esses animais a queimariam viva! - Severus ironizou.

- Você é muito grosso! Nem todos são ignorantes como os anormais com quem conviveu. A maioria não é igual ao seu pai! E, agora, eu entendo com clareza toda a predileção do Lorde das Trevas por você - disse indignada, empurrando-o para que se afastasse dela.

- Narcissa, você confia demais nessa gente! - ele afirmou com segurança olhando-a nos olhos.

- O seu problema é levar tudo sempre muito a sério! Eu posso ter acabado de fazer um comentário infeliz, mas essa é a mais pura verdade. Você, realmente, crê que se os trouxas soubessem da nossa existência não armariam planos de genocídio em massa? Podem ter lutado ao nosso lado nas guerras mundiais, porque não passam de interesseiros e oportunistas. Contudo, Narcissa, nós somos aqueles que continuam tendo de viver escondidos e só são lembrados quando eles querem alguma diversão ou necessitam de favores - reiterou, vendo Narcissa andando a passos largos à frente dele.

- Você sempre se enche de orgulho para se proclamar o homem mais inteligente e sábio do mundo inteiro, mas não passa de um idiota que sempre arruma um modo de rir do que eu digo. Eu acho isso estúpido e desnecessário! Nunca eu ri dos seus planos ou desmereci os seus desejos - esbravejou se virando e apontando o dedo em direção a ele.

- Vamos recomeçar, certo? Você se casaria nessa igreja e, certamente, entraria com uma coroa dourada sobre a cabeça. Não apenas porque isso significa a realeza à qual os Black pertencem, como também a ideia de halo. Você ingressaria ali ainda mais iluminada do que já é, desafiando a tudo como Morgana fez. Embora, eu acredito sinceramente que você nasceu para ser a Senhora do Lago - comentou, seriamente, sem qualquer traço de ironia ou sarcasmo em sua voz.

- Exato! Fico feliz que comece a reconhecer isso. Todas as mulheres com o sangue dos Black se casam como rainhas, por isso, eu o faria sem refletir muito - enfatizou, ainda um pouco contrariada, sem o olhar.

- Eu li algo a respeito da existência de uma estátua de Giuseppe Garibaldi no alto da colina, e dizem que se tem uma visão esplêndida de diversos bairros e da Basílica Sancti Petri... mais exatamente, da cúpula - falou rapidamente, desviando o assunto para que Narcissa melhorasse o humor abalado e levemente hostil.

- Veja só! Então, o príncipe decidiu tocar o céu com as mãos? Aproveite que tem o nome de um romano e ataque a cidade, mate a todos os trouxas, jovem imperador! Ou o grande futuro general tem medo dos canhões? - indagou com um sorriso maldoso e sarcástico no rosto.

- Quem sabe, pode ser que eu inicie as minhas novas contravenções aqui, flor de Narciso - riu baixinho, notando que ela já estava um pouco mais tranquila, ao permitir que novamente segurasse a sua mão.

- Segure firme... assim chegamos ao lugar certo - disse, puxando-o para que fossem rapidamente em direção à estátua mencionada.

Realmente, a vista panorâmica era muito bonita e entregava uma atmosfera romântica, que o momento tanto exigia. Era mágico estar ali, tão próximos às nuvens sem tirar os pés do chão... com as mãos em volta da cintura de Narcissa, ele a abraçava apertado, parecendo ter medo de perdê-la a qualquer instante ou que tudo aquilo não passasse de um sonho.

Sem o medo de punição ou olhares de reprovação, Severus identificava o quanto estava feliz ao lado dela, mesmo que lutasse para que essa sensação não fosse tão clara. Faria qualquer coisa para que aquilo nunca terminasse... para que dias, iguais àquele, cercados pelo azul profundo e a imponência de todas as religiões, não findassem. Mas como se estava preso às promessas e, quem sabe, feitiços de sangue? Sua vida estaria arruinada se nada pudesse ser rompido.

O tempo parou... no exato instante em que Narcissa se virou para beijá-lo. Com os dedos entrelaçados em seus cabelos, a maneira como movimentava os lábios o enlouquecia, levando-o a apertá-la ainda mais contra o seu corpo. Ela era doce e suspirava baixinho, à medida que o seu corpo se aquecia pelo desejo, o acariciando com uma crescente voracidade.

Após se soltarem do beijo, mantendo os braços ao redor do pescoço dele, ela ficou por longos minutos o olhando sem dizer nada. O silêncio se tornou ainda mais tranquilo e confortável quando Narcissa encostou o rosto em seu peito, permitindo-se fechar os olhos e aproveitar o som das batidas do coração do seu coração. Estar com ela, definitivamente, era ficar em paz.

- Creio que nós temos que almoçar – comentou um pouco tímida devido à exposição pública de afeto.

- Sua barriga fofa já está reclamando de fome? – Severus perguntou, erguendo a sobrancelha direita, dando um sorriso aberto e honesto.

- Um pouco... – respondeu, olhando em direção ao restaurante para o qual iriam.

- Está pensando em algum lugar específico ou vamos voltar para casa?

- Vamos naquele restaurante ali. O que acha? Está disposto a conhecer o cardápio?

- Eu estou aberto às novidades que você quer me apresentar.

Para o almoço, escolheram um charmoso restaurante localizado em uma rua estreita e pitoresca. O lugar tinha uma fachada de pedra com janelas ornamentadas, trazendo um toque de autenticidade e história à sua arquitetura. Ao entrarem, foram recebidos por um ambiente acolhedor, com uma decoração que mesclava elementos rústicos e sofisticados. Mesas de madeira escura com toalhas de linho branco, talheres reluzentes e velas acesas criavam uma atmosfera romântica e intimista.

Sentaram-se em uma mesa próxima à janela, de onde era possível apreciar a movimentação das ruas e a beleza da paisagem ao redor. As paredes de pedra, decoradas com quadros de artistas locais, contribuíam para um ambiente formidável e elegante que os abraçava. O garçom de voz amigável trouxe o cardápio, e eles escolheram como pratos o Cacio e Pepe, uma tradicional massa italiana com queijo pecorino e pimenta preta, e uma Bistecca alla fiorentina, um suculento bife de Florença grelhado na brasa.

Enquanto saboreavam a deliciosa refeição, apreciando em vários níveis a culinária local, conversavam amenidades. Cada garfada e gole de vinho um pretexto para prolongar aquele momento único, para aproveitar a companhia um do outro. Pairava entre eles uma crescente cumplicidade, uma conexão silenciosa que transcendia as palavras, através da troca de olhares. Entre silêncios e meias palavras, compartilhavam sorrisos tímidos e olhares cheios de significado, buscando nas entrelinhas das conversas a confirmação dos sentimentos que habitavam seus corações.

Um véu denso, em meio aos aromas e sabores da comida, onde a poesia do lugar e a magia do encontro escondia a existência de um turbilhão de emoções compartilhadas e ocultas. Mascarava o medo de admitir a profundidade dos sentimentos que nutriam um pelo outro, naqueles instantes em que se permitiam sonhar com uma vida juntos, sem preocupações ou restrições. O mundo ao redor parecia desaparecer, restando apenas eles, o restaurante e o laço invisível que os unia.

No silêncio que se seguiu, após o término da refeição, Narcissa o abraçou, buscando consolo e segurança em seus braços. O som das batidas do coração dele pulsando junto ao dela era um cântico suave que acalmava sua alma inquieta. Estar com ele, ali, naquele momento, era como encontrar um refúgio, um abrigo onde poderia se permitir ser apenas ela mesma.

Severus, com seu olhar penetrante e expressão contida, mantinha-se atento aos gestos de Narcissa, observando cada movimento, cada sorriso, cada olhar que ela lhe lançava. Sentia-se vivo ao lado daquela moça de beleza serena e olhos azuis profundos, como se todo o peso do mundo desaparecesse e todas as barreiras emocionais que havia construído para proteger-se desabassem. Mas temia que essa felicidade fugaz pudesse ser arrancada de suas mãos a qualquer momento. A insegurança e a vulnerabilidade pairavam sobre ele, mesmo que seu desejo fosse que aquele momento nunca acabasse.

Foi nesse instante de serenidade que a timidez tomou conta de Narcissa, quebrando o silêncio e trazendo-os de volta à realidade.

Ainda encantados com o cenário maravilhoso que os cercava, ouviram os tiros de canhão que marcavam o meio-dia, vendo a fumaça se perder no ar. A vida deveria ser assim... poética e sem preocupações.

Ideias que foram confirmadas após optarem por passar o restante da tarde visitando o Parco Savanello. Teriam outras oportunidades de ver o Coliseu e outros pontos turísticos... andando pelos jardins, com o frescor proporcionado pelas árvores, sentiam-se em um verdadeiro oásis de calmaria.

Com os olfatos seduzidos pelos odores das laranjeiras, esqueceram das horas e de outros temas importantes. O universo poderia aguardar mais um pouco e deixar as suas urgências para outra ocasião. Principalmente, quando sentados em um dos bancos, apreciavam o local e Narcissa deitava a cabeça em seu colo para olhar os raios solares que atravessavam insolentes o verde soberano da copa das árvores.

- Seus pais sabem que nós estamos aqui? – perguntou Severus, alisando os cabelos de Narcissa.

- Não... eu só contei para a Andie. Eu teria dito à Bella também, porém ela está muito envolvida com os cuidados da pequena Delphi. Além de ocupar outra parte de seu tempo brigando com o Sirius, que quer registrar a menina – ponderou, tentando esconder a preocupação que a dominou.

- Compreendo.

- Sinceramente, eu não julgava que a minha irmã fosse se apegar tanto a um bebê. Embora, eu ache estranho o fato de que ela trata a filha como se fosse uma boneca viva – Narcissa comentou despretensiosamente, fechando os olhos ainda meditativa.

- Bella é surpreendente quando quer, Cissy. Contudo, se me permite dizer, creio que se sairá muito melhor do que ela como mãe. Essa é a minha mais sincera opinião – afirmou, olhando para o nada, com seus pensamentos distantes formando a imagem de um menininho loiro com os olhos iguais aos dela.

- Obrigada! – disse alegremente, o encarando, sem compreender exatamente por que Severus havia se distanciado tanto após aquela frase.

- Não há o que agradecer. Essa é a mais pura verdade.

Nos dias seguintes, optaram por seguir viagem, explorando destinos como Habsburgo, Paris, Glasgow e Amsterdam. Cada lugar trazia consigo uma atmosfera única, e a cada nova aventura, Narcissa se encantava ainda mais com a companhia de Severus. A cada passo dado ao lado dele, ela descobria um mundo totalmente diferente, uma espécie de ilusão repleta de possibilidades e novidades inenarráveis. Como resistir à chamada do abismo que a atraía incessantemente?

Por sua vez, Severus se maravilhava ao observar Narcissa realizando as tarefas mais simples. Seu semblante sempre tranquilo e constantemente iluminado por raios solares deixava-o sem palavras. Ao contrário do que muitos pensavam, ela era amável e paciente quando se tratava das pessoas que amava. Seu maior mistério era esconder toda a sua docilidade e bondade por trás de uma máscara de arrogância e presunção. Na verdade, ela era uma pessoa extremamente tímida e reservada, especialmente com estranhos ou com aqueles que não se mostravam agradáveis a seus gostos delicados iguais aos seus.

Diferente de suas irmãs, Narcissa era alta, magra e traços mais refinados e afáveis. Seus longos cabelos loiros cintilavam como raios dourados de sol, revelando sua feminilidade em seus modos doces e corteses. Era uma presença brilhante, como uma luz ardente que, sem ter total domínio sobre sua força, definia o centro da vida. Sempre indecisa, calma e serena, seus gestos eram suaves, dando sentido ao seu nome de flor. Ela era a única com o dom de tocas as coisas como dedilhava a mais bela melodia nas teclas de um piano.

Ao contrário das paixões lascivas e cruéis das Black, Narcissa parecia ter sido esculpida a partir da estátua de alguma deusa grega. Mas qual deusa seria? Ela revelava uma coragem terrível e uma humanidade extrema em sua fragilidade, encontrando força em lugares desconhecidos para seguir em frente. Aquela que aparentava a maior vulnerabilidade era, na prática, uma gigante em suas certezas.

Sua beleza talvez fosse comparável apenas à de Afrodite, atribuindo a ela um encanto irresistível e uma ternura sensual. Narcissa era capaz de conquistar o coração daqueles que a conheciam e a observavam com atenção, mas isso era um desafio destinado apenas aos mais destemidos.

Essa era a verdade: Narcissa era avassaladoramente graciosa, bonita e elegante. A flor delicadamente frágil era a estrela mais brilhante naquela constelação e galáxia infernal. Ela era única, profunda e incomparável, o que levava Severus a debater-se em dilemas e questionar sua própria consciência e motivações.

Se dependesse de sua vontade, ele a manteria exatamente como a contemplava o tempo todo. Com seus traços inocentes e comportamento incorruptível, ela continuaria sendo uma menina, mesmo que já tivesse 18 anos e seus desejos estivessem mais do que evidentes.