A viagem havia sido um sucesso, repleta de dias tranquilos e momentos de paz absoluta. Essa era a melhor definição para as duas semanas que passaram juntos, explorando diferentes países e desfrutando da companhia um do outro. Eram instantes preciosos em que podiam se entregar aos pequenos detalhes e se afastar temporariamente das responsabilidades que os aguardavam ao retornarem.

Severus sabia que, ao regressar a Hogwarts para concluir seus estudos, teria pela frente o estágio supervisionado com Slughorn e, posteriormente, auxiliaria Flamel em novas pesquisas que o alquimista estava desenvolvendo. Narcissa, por sua vez, sairia do posto de aprendiz e assumiria definitivamente um cargo importante na Parfumerie Belles Sorcières. Eram novos desafios que os afastariam mais uma vez por longos meses. Mas, por mais doloroso que fosse, eles compreendiam que era necessário para o crescimento profissional de ambos.

Ao ir a Paris no início de agosto, Narcissa organizou toda a papelada para o registro da fórmula que criara e preencheu as fichas pendentes para agilizar seu visto de permanência na França por mais cinco anos. No entanto, a saudade se intensificava a cada dia, transformando a separação em um árduo e constante sacrifício. Como ficariam até dezembro sem se ver? Aquilo era uma provação muito grande para suportar.

Severus, após conversar com os amigos e juntar os poucos galeões que reunira ao realizar pequenos trabalhos, obteve recursos suficientes para adquirir uma chave de portal e seguir para a cidade luz. Foi assim que, no meio do mês, eles conseguiram encontrar tempo para se reencontrarem e passar horas envolvidos pela melodia dos discos que preenchiam o ar. Embalados por esse cenário encantador que tomaram a decisão de seguir para Caerleon. Poderiam ter optado por ir a Cardiff, uma escolha mais óbvia, ou até mesmo rumar em direção a Glasgow. Contudo, era lá que Severus encontrava seu refúgio preferido, um lugar onde se sentia verdadeiramente acolhido e livre.

No meio do caminho, entretanto, as ideias mudaram ganhando novas cores e propósitos, ir a Birmingham lhes trazia uma emoção inebriante. Um final de semana não faria mal nem faria com que Narcissa perdesse o emprego. Mas, por que pensariam nisso quando a sensação de estar fazendo algo proibido e clandestino os deixava excitados diante dessa imensa aventura?

Cokeworth teria novamente o jovem Severus perambulando por suas ruas sujas. Determinado a marcar seus passos nas calçadas malcuidadas do Spinner's End, ele caminhava com a cabeça erguida, sem temer ninguém ao seu redor. Firme, segurava a mão de Narcissa enquanto atravessavam as esquinas até chegarem à casa velha e abandonada.

Se estava retornando ao inferno, abraçaria o demônio e jamais o decepcionaria. Principalmente quando, em seus pensamentos mais obscuros, a ideia de matar Tobias começava a tomar forma. Seria seu maior presente e seu único alívio, especialmente porque se certificou de que a casa permanecia desabitada desde o dia em que partiu de lá com sua mãe.

- Você quer dar um passeio pelos pubs? - perguntou, observando Narcissa se esforçar para remover a poeira acumulada pelos cantos e móveis da casa.

- Adoraria - ela respondeu rapidamente, sacudindo a varinha mais uma vez no ar para concluir o trabalho.

- Não havia motivo para fazer isso. Nós vamos para Caerleon em breve e essa casa, no que dependesse de mim, poderia incendiar. Contudo, eu quero agradecer seu esforço por deixar esse chiqueiro com um aspecto habitável - Severus deu um meio sorriso, colocando as mãos nos bolsos, deixando-se levar por uma inexplicável timidez.

- Ora, não seja bobo! Não foi nada demais... Peço que não conte a ninguém, mas eu me divirto fazendo essas coisas - disse Narcissa, olhando-o tranquilamente nos olhos.

Passeando por lojas e pubs, os dois vagavam tranquilamente, debatendo se deveriam ou não dar prosseguimento à pequena incursão. Entretanto, ao observar que a claridade findava, Severus respirou fundo e encarou o céu por alguns minutos. Ainda se encontrava estressado por ter sido expulso de um dos estabelecimentos que visitaram. E ainda mais, pelo fato de que estava apenas trocando beijos, um pouco mais entusiasmados do que o esperado, com Narcissa quando isso aconteceu.

- O que aconteceu, Sevie? Você ficou subitamente muito calado.

- Melhor voltarmos para casa - disse ele com a voz baixa, controlando a raiva que sentia por aquela afronta. Certamente, se ela não estivesse ao seu lado, ele retornaria àquele pub e atacaria o homem sem pensar duas vezes. Não aceitava que um trouxa o xingasse. Aquilo era um desrespeito que ia muito além de todos os limites, na sua percepção. Severus estava perdido em tais conjecturações e durante todo o trajeto de volta decidiu se manter em silêncio. Narcissa não merecia a sua estupidez, e ele não queria que ela servisse de receptáculo para sua ira.

Ela, por sua vez, falava animadamente e comentava sobre assuntos amenos. Parecia não se importar com o que havia sucedido. Na verdade, tudo não passava de uma tentativa de acalmá-lo, pois sabia o quanto Severus podia ser intratável quando estava nervoso. Na verdade, ele também era assim nos momentos em que estava calmo, sem sequer perceber. Contudo, não era algo que a afetasse.

- Veja, Sevie... Fico pensando em quanto tempo eles demoram para realizar um trabalho desses sem magia. Você também não acha isso muito interessante? - questionou, apontando para um prédio que estava sendo reformado.

- Bastante. É realmente incrível, mas isso depende da obra. Algumas demandaram dias, outras semanas e muitas delas levaram meses, ou até mesmo anos, para serem concluídas. - respondeu rapidamente, não querendo contrariá-la ou parecer alguém demasiadamente tedioso.

- Claro... uma hora podemos ir até Londres. Creio que seria ótimo assistirmos algum filme ou espetáculo. Vi que no Royal National Theatre estão em cartaz as peças State of Revolution e Bedroom Farce, de Robert Bolt e Alan Ayckbourn, respectivamente. Os títulos me pareceram muito convenientes aos nossos objetivos – Narcissa sorriu com uma expressão esperançosa.

Enquanto Severus continuava silencioso, ela optou por dar prosseguimento às suas ponderações. Pontuaria suas ideias para esclarecer o que pretendia mais à frente. Estava ficando realmente animadas com as possibilidades que surgiam diante dos seus olhos e os rumos que a sua imaginação tomava.

- Eu adoraria morar em uma daquelas casas vitorianas do Tuffnel Park. Eu sei que você vai dizer que é um bairro onde moram trouxas, contudo, eu as considero lindas! Especialmente porque me parece uma área decente para criar bebês. Penso que seria divertido levar as crianças para brincar no Hampstead Heath ou no Hyde Park - respirou profundamente, reflexiva quanto ao que acabara de argumentar.

- Pois é... – as palavras saíram automáticas e sem sentido.

- Eu detestaria ter um bebê ruivo... imagine ter uma criança que se assemelhe aos levantadores de peso soviéticos ou, pior ainda, uma prostituta de tragédia francesa?! Eu realmente odiaria ter o incômodo constante de ver, diariamente, uma réplica de Weasley e suas expressões vazias. Decididamente, não pretendo ter filhos tolos e insignificantes - comentou, ainda imersa em seus pensamentos, expressando sua preocupação sem esperar contestação.

Severus não estava realmente ouvindo o que Narcissa dizia. Sua mente estava distante, imersa em algum tipo de ambiente sombrio e desconhecido. Era tão obscuro o pensamento que o dominava que era difícil perceber o resto do mundo ao seu redor. Desatento ao que ela falava com tanta seriedade, ele respondeu de forma desanimada:

- Seria excelente. Contudo, você terá que parar com isso. Uma hora seus pais podem descobrir o que você tem feito e te prender em casa. Nós não conseguiremos mais nos falar se eles realmente o fizerem.

O comentário veio sem um propósito específico, como um fragmento de uma conversa casual que imaginava estar vagando pelo no ar. Apenas após expressar sua opinião, Severus pôde captar a profundidade do olhar que Narcissa lhe lançava, percebendo que suas palavras tinham despertado uma dúvida que ia além da necessidade de uma simples resposta. Nas entrelinhas daquele olhar, havia um segredo, uma insinuação que sussurrava os seus reais desejos, detalhes não percebidos que o desconcertavam.

Realmente, por mais que buscasse algumas frases em sua mente, não havia escutado nenhuma das palavras que ela havia dito. No entanto, a curiosidade e o entusiasmo de Narcissa muitas vezes o assustavam. Especialmente quando ela se mostrava tão convicta e assertiva em suas argumentações. Eram sentimentos e gestos tão palpáveis que conseguiam arrancar um sorriso de seu rosto sempre fechado e carrancudo.

- Se eles tentarem, eu fujo para sempre... não ousariam me perder. Sou uma joia rara entre os Black, como meu pai deixou claro para o tio Orion - afirmou confiante e erguendo o queixo de forma atrevida.

- Cissy... - murmurou ele, discordando do que ela presumia ser verdade. Estava mais do que claro o fato de que, para Cygnus e Druella, a filha não passava de uma moeda de troca.

Mesmo que seus ouvidos parecessem cobertos por suas ponderações distantes e confusas ou pelo aperto em seu coração, Severus nunca permitiria que Narcissa se sentisse preterida ou rejeitada. Ou pior, que ela descobrisse como muitos a enxergavam como um objeto ou uma boneca que poderia ser vendida para qualquer um. Ela era muito mais do que isso. Sem dizer uma palavra, ele simplesmente a abraçou fortemente e a beijou no meio da calçada irregular, próxima à praça deserta.

- Você é um bobo! Sabe que não precisa disso para me convencer a acreditar ou refletir sobre as coisas que me diz - sussurrou com a voz mais quente, piscando os olhos algumas vezes, olhando-o com uma expressão orgulhosa.

Naquele momento, Narcissa tentava entender o que o havia levado a um gesto tão inesperado. Mesmo que ele tivesse sido sempre muito gentil e dado alguns indícios de carinho, especialmente depois de Roma, ainda sentia que algo estava errado. Era curioso e estranho. Mas, ao mesmo tempo, era instigante e envolvente vê-lo demonstrar publicamente afeto.

- Se você está sorrindo, então eu fiz bem – Severus falou um pouco arrogante, dando de ombros, escondendo o sorriso.

- Você não passa de um maldito convencido! Eu o odeio muito - riu, dando um tapa no braço dele.

Diante do novo silêncio que se estabeleceu, Narcissa decidiu perseverar em sua decisão de questioná-lo. Quebrando toda a serenidade e reticência, rompeu aquela quietude incômoda e expressou toda sua inquietação. Mesmo que as palavras dele a machucassem profundamente, ela não desistiria de questionar o que tanto a afligia.

- Um galeão por seus pensamentos, Sevie... O que você tanto pensa? As fumaças vão sair da sua cabeça em breve, então posso ser informada? Sobrou algum mísero mistério, entre os milhares existentes em seu universo gigantesco, que possa ser compartilhado? Ou você já desvendou tudo sozinho com sua mente brilhante? - interrogou, lançando várias questões que se encadeavam, permanecendo com um sorriso agradável e decidido no rosto.

Observando as sombras profundas que cercavam os olhos escurecidos e nebulosos como ônix, Narcissa se calou e ponderou se valia a pena prosseguir. Entretanto, em pouco tempo, ao perceber que eles clareavam como duas obsidianas enquanto a encarava, viu que as feições de Severus se suavizaram. Algo em seu íntimo gritava que os pensamentos dele eram desanimadores e macabros. Se ele estivesse livre de algumas correntes invisíveis, talvez fosse feliz. Mas como expressaria isso em palavras? Como o convenceria a desabafar?

- Nada demais... apenas constato que é você que está sempre comigo. Você me apoia, me suporta e me dá conselhos, mesmo quando eu não os quero. Às vezes, presumo que, mesmo com o céu queimando e as estrelas caindo, você não irá se afastar. Isso é um verdadeiro e gigantesco problema, pois ninguém será capaz de entender o significado de sua fidelidade - respondeu com uma sinceridade mórbida.

Em dúvida sobre o que lhe foi dito, Narcissa permaneceu em silêncio, bastante reflexiva por minutos. Acompanhando Severus até entrarem na casa, seu pensamento estava carregado de ambiguidades e dúvidas profundas.

- Você está falando sério que não vai me contar o que está acontecendo? Tem certeza disso, Sevie? Vamos, diga logo! Não seja sombrio e me conte qual é o problema - parou próximo à estante, cruzando os braços sobre o peito, ansiosa.

Deixando clara sua perturbação com a obscuridade inatingível com a qual fora confrontada, Narcissa bufou baixinho. Era um dos momentos que mais detestava. Severus havia decidido se fechar e carregar todos os seus aborrecimentos sobre os próprios ombros, excluindo-a de qualquer familiaridade. Ao não compartilhar o que tanto o afligia, tornava tudo mais difícil e doloroso para ambos.

O que Severus julgava, ao olhá-la de soslaio, era que seu outro eu deveria ter vivenciado o luto e seguido em frente, sem jogar um fardo tão pesado em suas costas. Havia muito a ser feito e parecia que a nova chance que lhe fora dada havia sido completamente desperdiçada. Se não fosse pela magia do sangue, sua vida seria diferente. Seus sentimentos não seriam errados ou equivocados.

- Eu não quero te machucar, Cissy! Se você quer tanto saber, esse é o meu maior medo. É o que me perturba constantemente... eu não posso fazer isso com você. Você não merece sofrer nenhum tipo de mal - revelou entre respirações pesadas e pesarosas.

Severus estava confuso. Seu peito ardia pela imprecisão com que as coisas se desenvolviam e se desenrolavam. Não queria magoá-la com suas adversidades e imperfeições. Acima de tudo, quando era ao lado dela que encontrava todo o carinho e cuidado, mesmo quando se sentia perdido em dilemas e vícios cada vez mais complexos de resolver. Narcissa era sua luz em meio à sua vida de completa escuridão.

O silêncio retornou mais forte, envolvendo-os em uma quietude densa e carregada de tensão. Seus olhares se encontraram mais uma vez, penetrando profundamente na alma um do outro. Naquele instante, as palavras eram desnecessárias, pois as emoções transbordavam de seus olhos, revelando um brilho intenso que refletia a paixão não revelada como um todo que os consumia. O álcool das cervejas roubadas nos pubs que visitaram mal tinha efeito comparado à fervura dos sentimentos que os envolvia.

A medida em que se aproximavam lentamente, seus corpos pareciam dançar uma melodia invisível, movidos por uma atração magnética. Os lábios finalmente se encontraram em um beijo carregado de desejo e ternura. Cada toque era cuidadosamente calculado, como se soubessem que aquele momento era único e especial.

Enquanto se entregavam àquele encontro cada vez mais íntimo, suas respirações se entrelaçavam em um compasso acelerado, revelando a profunda sinfonia de sentimentos intensos que os envolvia. Os corações batiam descompassados, como tambores que seguiam um ritmo próprio, alheios ao mundo ao redor. A realidade desvanecia-se e, naquele momento, existiam apenas eles, envoltos em uma aura de paixão e desejo mútuo.

Embora já tivessem compartilhado momentos de intimidade antes, algo os fazia perceber que aquilo era diferente, que a trajetória daquela noite tomava um rumo imprevisível. Severus segurava Narcissa com delicadeza pelo queixo, explorando seus lábios com ardor e paixão. Cada nova carícia era um mergulho profundo em uma conexão que ia além do físico, transcendo para uma dimensão onde as emoções e os sentimentos falavam mais alto.

Em um impulso de rendição e desejo, eles caíram sobre o sofá desgastado pelo tempo e pelo abandono. Suas respirações pesadas e os corpos ofegantes revelavam a urgência daquele momento, enquanto se abraçavam, como se estivessem sendo arrastados por uma correnteza irresistível. Os olhares trocados eram repletos de significados indescritíveis, palavras não ditas que ecoavam com intensidade entre eles.

No entanto, por mais que a paixão e o desejo os envolvessem, ainda havia dúvidas que os assombravam. Severus, esbaforido e perdido em meio a um turbilhão de sentimentos contraditórios, afastou-se momentaneamente, buscando uma pausa para sua mente atribulada.

- Narcissa... eu não posso. Eu me recuso a fazer algo que você possa se arrepender depois. Você sabe o quanto me custa dizer isso, mas eu sei o que é melhor... – disse, sua voz esbaforida, carregada de hesitação e temor.

Severus estava mergulhado em um estado de conflito interno, com a batalha entre seus desejos avassaladores e o medo de causar uma dor profunda a Narcissa. Ele temia que o fogo ardente que queimava em seu âmago pudesse, de alguma forma, feri-la e destruir a relação única que compartilhavam. Era um ato de autocontrole. Era um ato de renúncia aos seus próprios impulsos em nome da proteção de quem amava tão intensamente, mas sem ter a possibilidade de se entregar completamente ao amor.

Sentia-se frustrado. Infinitamente decepcionado com os seus próprios medos. A cobiçava para si, ansiando por ela a todo momento, sonhando com a satisfação de seus desejos mais libidinosos. Contudo, aquele não poderia ser o momento precioso em que os concretizaria, pelo menos era o que lutava para crer cegamente.

- Você não me quer, Severus? Eu... eu não sou suficientemente atraente para você? É isso? - questionou Narcissa, ofendida, arrumando a saia enquanto se preparava para levantar-se e partir.

Com lágrimas prestes a escapar de seus olhos, ela se recompunha ao máximo, desamassando a roupa. Sua revolta pela rejeição recém-sofrida fazia com que sua magia vibrasse de forma pujante e ardente. Percebendo o que havia acontecido e sentindo a tensão rigorosa se espalhar pelo ambiente, Severus se levantou e tentou abraçá-la novamente, numa tentativa vã de acalmá-la. Entretanto, seu gesto apenas serviu para deixar Narcissa ainda mais abatida, resultando em um empurrão forte que os separou.

Sem perceber, aquela negativa havia acendido uma chama oculta, despertando traumas profundos que remontavam à sua infância, assombrando o coração de Narcissa. Sempre comparada às suas duas irmãs, ela era considerada a mais fraca, a menos apta para adquirir ou conquistar qualquer coisa. Nem mesmo tinha o direito de escolher com quem gostaria de se casar... seu compromisso com Lucius não envolvia sentimentos. Era apenas um acordo absurdo para renovar laços entre as famílias e uma lucrativa jogada financeira.

A atitude de Severus apenas confirmava que ela era inferior às outras e digna de pena. Nunca seria amada como deveria, e nenhum homem se aproximaria dela se não fosse por compaixão. Esses pensamentos lhe apertaram a garganta, gerando uma vontade imensa de gritar, chorar com todas as suas forças e sair dali imediatamente para nunca mais voltar.

- Não, Cissy... o que nos verdes campos de Salazar a faz ter essas ideias tão absurdas? Não seja obtusa e teimosa, mulher! Eu só disse que não quero forçá-la a nada - argumentou Severus, puxando-a para si.

Apertando-a entre os braços o mais forte que podia, ele recebia pequenos socos em seu peito. Derramando algumas lágrimas de raiva, aos poucos, ela foi se tranquilizando e sentindo-se protegida. Era um abraço que sempre a deixava confortável, confiante e em paz.

Severus estava assustado. Não conseguia sequer imaginar a possibilidade de que Narcissa pudesse se sentir coagida a ceder aos desejos alheios. Que se julgasse insignificante. Ou, pior ainda, que estivesse ponderando ceder aos planos que ele cogitara para aquele momento. Esperava que ela fizesse apenas o que fosse de sua própria vontade. Seu estado mental estava em revolto, cheio de hesitações e medos. A dualidade de suas emoções o consumia, enquanto tentava equilibrar-se cada vez mais entre o que queria e o que achava ser o correto. A tensão no ar era palpável, e ambos se encontravam em um momento de fragilidade e vulnerabilidade, em que a linha tênue entre o desejo e a razão se tornava ainda mais fina e mais frágil.

- Eu não estou sendo forçada a nada. É o que eu quero agora! Eu desejo que você continue me tocando, assim como eu espero acariciar você muitas vezes - sussurrou afirmativamente, com o rosto reclinado no ombro dele.

Encostando os lábios nos de Severus e o apertando, como se sua vida dependesse da permanência nos braços dele, Narcissa se recusava a soltá-lo até que provasse o quanto estava sendo sincera em suas declarações... a convicção absoluta de sua própria libido.

- Ora, se você soubesse o que eu fantasio, jamais diria que eu não a considero atraente aos meus olhos. Só que não será desse modo, Cissy. Você bebeu, não está em seu juízo perfeito e eu não estou aberto a esse tipo de discussão - asseverou, impondo sua opinião, ao se afastar um pouco.

Determinado a não abrir precedentes para sucumbir às vontades e ao calor que emanava do corpo dela, ele a deixou calada, a contragosto, com o rosto novamente encostado em seu peito.

- Eu sinto muito medo, normalmente, mas ele some quando estou com você. Ao seu lado, sou mais corajosa do que o normal, sabe? Eu não estou bêbada e tenho total consciência do que pretendo fazer neste exato instante. Desde aquela festa, eu quero ser sua - murmurou, com as frases sendo abafadas pela proximidade de sua boca e o tecido da camisa.

Subindo aos poucos, Narcissa se encheu de coragem e o beijou mais uma vez. Suas mãos suavam frio, na expectativa do que aconteceria ali, convicta de que, a partir daquele momento, tudo viria com mais intensidade e desejo do que anteriormente.

- Tem certeza mesmo? Absoluta? - seus nervos, músculos, fibras e células incendiavam a cada ideia que cortava sua imaginação.

Percepções que se chocavam furiosamente no debate interno e profundo sobre como proporcionar a ela toda a gentileza merecida. Narcissa deveria se sentir respeitada e cortejada o tempo todo. Algo o que o deixava mais nervoso, à medida que a angústia de fazer o necessário se reclinava à dominação de seus instintos.

Seus impulsos e intentos, sempre selvagens, possivelmente acabariam por ofendê-la de alguma maneira. Ele teria que evitar a todo custo que seus costumes se apresentassem demasiadamente primitivos ou sádicos, nos instantes em que só o afeto e o carinho teriam de ser entregues.

Ao mesmo tempo, outras dúvidas permeavam a mente de Severus, evidenciando o claro distanciamento entre a teoria e a prática. Ele sabia o que deveria fazer, tinha plena consciência do caminho a seguir, porém se sentia incapaz de realizar algo que jamais consumara.

- Muita... eu estou segura do que eu quero - revelou, atiçando-o ao morder o lóbulo de sua orelha.

A expressão de Narcissa denotava uma confiança inabalável, uma determinação que o instigava e o fazia duvidar de suas próprias convicções. Ela parecia ter encontrado a força necessária para romper com as amarras que a prendiam e se entregar àquilo que verdadeiramente ansiava.

- Você é a minha flor de Narciso. A mulher mais bonita que existe no mundo inteiro. Não esqueça disso... jamais - desabafou, com um ar sôfrego, como se a própria existência estivesse suspensa à espera da revelação daquelas palavras.

O mar de chamas que rompeu o corpo de Severus o obrigou a agarrá-la com firmeza pela cintura. Não havia mais escapatória, não havia como resistir. No exato momento em que a colocou em seu colo, seus lábios se encontraram em um beijo febril, impetuoso e arrebatador.

Ao fundo, o rádio tocava "Love is a drug" da Roxy Music, como se quisesse guiar o agitar de pernas, braços e quadris. Os movimentos eram demorados, calmos, vagarosos, enquanto exploravam um novo território desconhecido até então.

Uma batalha acontecia no interior de Severus, enquanto lambia lentamente o pescoço de Narcissa e ouvia seus gemidos baixinhos. Suas mãos acariciavam seus cabelos lisos, enquanto ela o forçava a levantar o rosto para que suas bocas voltassem a se encontrar.

Suas línguas famintas se acariciavam, envolvendo-se e circulando, levando-os à beira da loucura. Cada roçar dos lábios acendia um fogo intenso, deixando Narcissa completamente corada e entorpecida por um estranho ar de romantismo não declarado.

Severus perdeu-se na profunda exploração do corpo feminino, colocando-a de pé contra a parede próxima à escada. Suas mãos buscavam-se em uma dança sincrônica, desvendando botões, zíperes e laços. A medida em que subiam pelos degraus, deixavam um rastro de roupas e sapatos jogados ao acaso.

O desejo entre eles era incandescente, descomedido e avassalador. Severus tinha a intenção de desnudá-la por completo, de tornar Narcissa sua e de mais ninguém a partir daquele dia. E, ao atingir seu objetivo com êxito, se dedicaria a admirar cada um dos contornos delicadamente curvilíneos, sem pressa, como um verdadeiro apreciador da obra de arte que ela representava.

Contemplativamente, Severus tocou Narcissa com a ponta dos dedos, deitando-a na cama. Admirando os fios dourados se esparramando pelo lençol, ele ficou a admirá-la em silêncio. A achava linda... o jeito como se movia era sensualmente revelador quando era beijada mansamente. Aos poucos, os olhos dela se abriram e o encaravam. Os olhares fulgurantes e negros contrastavam com os azuis e seus traços cinzentos, revelando uma dor inexplicável e entranhada.

Narcissa estava enfeitiçada e se entregava completamente àquele precipício que tanto desejava chamar de seu. Era o momento... Severus se aconchegou ao lado dela e prosseguiu com a troca de beijos e abraços, nada muito rápido ou voraz. Era um processo tranquilo, lento e gradual.

Enquanto acariciava Narcissa, tocando seus ombros com os lábios, Severus focava sem pressa nos milímetros revelados de pele que se expunham ao toque. Colo, seios, barriga... não existia nenhum ponto abandonado ou ignorado por seu tato tempestuoso e insinuante. Suas mãos eram calejadas e ásperas pelo trabalho que realizava, o que o deixava inseguro quanto ao fato de estar ou não a ferindo com sua rusticidade.

Notando que Severus lutava para ser cauteloso em seus gestos, gentil em seus atos e delicado durante os toques, Narcissa sorriu encantada. Seriam um só e ele lhe devotava um cuidado absurdo. Ele nada dizia, movendo-se como um predador enquanto beijava seus pés e a ponta dos dedos. Era como se estivesse, constantemente, lidando com a flor mais rara do deserto.

Ainda tentando disfarçar sua aspereza, Severus trilhou o caminho tortuoso da panturrilha aos joelhos, encostando com cautela. Parecia continuar temendo a possibilidade de lesionar a pele branca como porcelana se ousasse usar o mínimo de força. Foi assim que se esqueceu de si mesmo. Envolto em longos afagos destinados aos ligamentos e músculos dos membros inferiores, ele se perdeu em seu desejo e veneração.

A energia harmônica de Narcissa, o agitar de seus dedos delicados, enlaçava os cabelos pretos de Severus. Com certa firmeza, ela os puxava como se buscasse detê-lo, deixando claro que também não sabia, com efeito, como reagir as novas sensações que experimentava. Ele, com um meio sorriso no rosto, subiu aos beijos à região das coxas, distribuindo leves apertões que a faziam suspirar cada vez mais alto.

Respirando fundo o cheiro de jasmim com rosas, que exalava dela a cada movimento, Severus baixou novamente a face, direcionando-a para a parte íntima. Roçando os lábios na calcinha, seu sangue fervilhava, como um mar de lava incandescente percorrendo suas veias. Tanto que se sentia vibrar, impulsionando-o a querer mais...

Encarando o rosto de Narcissa, atento à agitação de sua respiração, Severus ficou maravilhado, admirando como os seios dela subiam e desciam ao inspirar o ar em seus pulmões. O ritmo descompassado e intenso não era mais do que um dos muitos resultados da impetuosidade e do calor do contato... do quanto ambos ansiavam por aqueles instantes de profundo entusiasmo e proximidade.

Sem aviso ou justificativa aparente, Severus segurou Narcissa pelas pernas, erguendo-se e colocando os joelhos entre elas. Fazendo com que se separassem, inclinou o corpo para a frente, arqueando um pouco as costas para aspirar o perfume novamente. Estava viciado e seduzido por aquele cheiro. Precisava dar mais atenção aos pormenores de suas reações.

Cada linha daquele rosto parecia planejada para enlouquecê-lo por completo. Narcissa mal conhecia o poder que tinha ao ser tão doce, tão absurdamente diferente das outras mulheres, com os olhos fechados e lábios entreabertos de expectativa.

Sua expressão de prazer e entorpecimento inflamava ainda mais o ambiente já arrebatadoramente apaixonante. Ia muito além da temperatura externa, era o calor e o fogo que se estabeleciam entre eles. A luxúria se modificava, reduzindo todo o ardor a pequenas gotas de suor, transbordando o erotismo compartilhado.

Isso foi o fator fundamental para que Severus a beijasse com voracidade e urgência. Impulsionado pelo desejo, deixou que seus corpos se tocassem levemente, enquanto mordia o lábio inferior de Narcissa, provocando-a esticando a carne macia com os dentes e sentindo suas unhas curtas o arranharem.

Antes que a respiração falhasse e os pensamentos fossem interrompidos, deixando a lógica de lado para dar vazão aos instintos, Severus prendeu Narcissa pelos pulsos com uma das mãos, deixando-a com os braços sobre a cabeça. Apreciou as claras manifestações e olhares de curiosidade quanto ao que faria.

Com a mão livre, usou a ponta dos dedos para iniciar uma jornada de investigação e prazeres, explorando sensações indescritíveis proporcionadas pelos atributos que tanto o atiçavam. Inquieta, ela se mexeu, roçando o quadril contra o dele, fazendo com que, involuntariamente, seus sexos se atritassem e as sensações se intensificassem.

Gemidos baixos e sussurros escapavam de ambos, mas nada precisava ser dito. Narcissa o queria tanto que era difícil assimilar os motivos que o faziam negar-se a libertá-la. Descobriria com Severus quais eram as emoções e percepções, tantas vezes descritas a ela por Andromeda e Bellatrix com empolgação, quanto ao instante em que o amor fazia o corpo cantar.

Sem revelar o quanto a cobiçava e que seu desejo apenas crescia a cada segundo, os olhos de Severus brilharam intensamente, estimulados pela chance de prolongar aquela tortura deliciosa. Não se tratava somente de sexo com a mais pura penetração e obtenção de diversão para si. Se pensasse assim, teria muitas mulheres à disposição para satisfazê-lo em troca de dinheiro. Mas com Narcissa era diferente, e por isso sempre a desejou mais do que qualquer outra. Talvez sempre seria assim.

Passando a língua pelo pescoço mais uma vez, Severus fez um caminho de beijos pelos ombros até chegar aos seios, aflorando sua sensibilidade. Ele se dedicou a chupar e lamber cada um, oscilando os movimentos dos lábios com os das mãos.

Abrindo os olhos novamente, Narcissa o observava ainda mais interessada do que antes, analisando como sua própria pele era marcada. Com palavras desconexas e roucas, cada vez mais abafadas pela ausência de sentido no que queriam significar, sentia que seu ventre queimava e pulsava levemente. Em outras definições ocultas, aquela cena era mais do que suficiente para deixá-la ainda mais excitada e entregue.

- Sev... Severus, por favor... - pediu com o fio de voz que lhe restava.

Ainda era um pouco estranha a sensação do corpo dele tão intimamente próximo ao seu. Principalmente quando o preenchimento esperado parecia demorar mais do que o necessário. Não conseguia entender o porquê Severus esperava tanto para tomá-la para si e reivindicá-la como sua imediatamente.

A boca e a língua voltaram a percorrer linhas imaginárias, retas ou circulares, entre a clavícula e a barriga. Deixando vestígios da veemência com que empregava cada chupão ou mordida, a cada vez que se aproximava da linha do baixo ventre.

Roçando o rosto na parte interna e externa das coxas, ele chegou ao ponto desejado, dando pequenos beijos. Por um minuto, parou, como se analisasse o que fazer naquele vale úmido e quente entre as duas. Decidindo, por fim, simplesmente soprar contra a vulva e causar um arrepio em Narcissa.

Ela se contorceu nos lençóis, demonstrando nitidamente sua aprovação ao gesto e o quanto se encontrava em um estado deplorável de furor pela volúpia. Calmamente, Severus puxou a última peça de roupa que os separava e a tocou, movendo os dedos levemente, indo e vindo. Mexendo a língua circularmente, os olhos tempestuosos de Narcissa nublaram. O desejo lhe retirara totalmente o foco, sua mente escureceu e suas costas arquearam.

- Severus... - sua voz saiu mais alta e forte do que ela conseguira constatar ao gemer o nome daquele que se transformava ali em seu homem.

Tão quente, excitada e absorta, era difícil controlar sua busca por libertação. Principalmente quando ele a agarrava pelas coxas, colocando suas pernas sobre os ombros. Usando uma certa força para segurá-la e intensificar a velocidade com que agitava seu rosto e língua na intimidade, agora latejante. Lambendo e sondando cada pedacinho dos grandes lábios e clitóris, Severus a deixava rendida aos prazeres que lhe eram proporcionados.

Definitivamente, os pensamentos de Narcissa estavam perdidos. Era como se não compreendesse qualquer coisa que estivesse distante de seus sentimentos ou das reações de seu corpo. Qualquer rasgo de juízo estava abandonado no meio daqueles braços, imersa naquele mundo de prazer e desejo. Toda a sua atenção se concentrava no toque habilidoso de Severus, na forma como ele a chupava e esfregava o nariz no seu sexo. Era como se estivesse embriagado pelo gosto de sua excitação, um deleite que a levava a limites desconhecidos.

- Ainda está com vontade? - questionou ele antes de beijá-la.

- Sim - sussurrou com um tom sutilmente provocador, mantendo os olhos semicerrados, revelando o fogo que queimava dentro dela.

Saboreando o próprio gosto, enquanto Severus a beijava com avidez, Narcissa sentiu-o se ajustar entre suas pernas. Os olhos castanhos escuros dele eram profundos e intensos, como se pudessem anatomizar completamente sua alma, despertando questionamentos silenciosos que logo teriam suas respostas.

Sem precisar dizer uma palavra, Narcissa deu a permissão que lhe fora pedida. Dobrou os joelhos, permitindo que ele a penetrasse lentamente. Ao morder os lábios, soltou um gemido baixo e franziu o cenho devido ao desconforto inicial. Na verdade, sentia um incômodo e uma leve ardência em suas paredes internas, como se não houvesse espaço suficiente para que ele a preenchesse por completo.

- Cissy, você quer que eu pare? Eu vejo que está ficando tensa e... - sussurrou, próximo ao seu ouvido, preocupado.

Sem mover um músculo sequer, com medo de machucá-la ainda mais do que já imaginava estar fazendo, Severus a encarou. Seu maior medo era ter sido bruto com ela ou ter ido rápido demais. Ainda mordendo o lábio inferior, Narcissa o envolveu com as pernas e sacudiu a cabeça em negação.

- Eu quero continuar... – disse baixinho, movendo o quadril para que ele prosseguisse com as vagarosas investidas.

Severus, um pouco mais calmo, soltou uma respiração pesada que sequer se recordava de ter segurado, como se o imenso receio de ser o causador de algum sofrimento estivesse se dissipando. Narcissa sentia que aquela experiência um tanto desagradável era momentânea. Provavelmente, seu nervosismo a impedia de aproveitar a transformação de sua pequena dor em um prazer cúmplice.

Suavemente, ele imprimia toda a intensidade e força de seus sentimentos em cada estocada lenta e profunda. Na dança dos corpos, o tempo passou, abandonando o incômodo e as hesitações iniciais. O ventre de Narcissa pulsava no instante em que ela decidiu se deixar levar. Aumentando o volume e o ritmo das penetrações, ela o mordeu para abafar os gemidos de gozo. O seu primeiro. O que revelava uma jornada de autodescoberta, traduzida e identificada pelos sentimentos.

Severus a penetrou ainda mais fundo e com um pouco mais de intensidade, levando-a ao ápice com o auxílio dos dedos. Ele passou a gostar da ideia de que ambos derramariam seus fluídos orgásticos ali, garantindo que Narcissa desfrutasse primeiro antes de permitir-se o mesmo prazer.

Mantendo os movimentos até que os gemidos se tornassem mais controlados, eles se fundiram em apenas um, sem feitiços ou ligações de sangue. Já não acreditando mais em grandes promessas, ambos se pertenciam até o final dos tempos, e isso era suficiente.