O sol, com seus raios suaves e dourados, adentrava o quarto de Severus, trazendo consigo uma sensação de renovação. Dois dias haviam se passado desde seu encontro com Narcissa, e o ar estava impregnado de um sentimento de mudança, como se um novo capítulo estivesse prestes a se desenrolar em sua vida. Enquanto murmurava pensamentos soltos, ele deixou o quarto com os cabelos ainda úmidos, exibindo um meio sorriso no rosto. Embora as respostas para suas perguntas ainda fossem obscuras, um brilho de esperança cintilava em seus olhos.
Severus carregava o fardo das promessas que fizera para si mesmo, um peso opressor que o lembrava constantemente dos horrores que testemunhara. Apesar dessas memórias sombrias, ele mantinha firme sua determinação de preservar sua própria vida e buscar seus sonhos. Era como se os raios solares, ao tocarem sua pele, reafirmassem que, apesar de tudo, ele ainda possuía a capacidade de encontrar a felicidade. Até mesmo seus diabretes pareciam compartilhar das expectativas que surgiam, como se, de alguma forma, eles intuíssem os planos que ele abrigava em seu íntimo.
Foi então que Severus tomou uma decisão inabalável: a partir daquela noite, seria o único a comandar os rumos de sua vida, abandonando tudo o que parecia ser apenas um amontoado de destroços. Respirando profundamente, deu passos decididos em direção ao Fort Adams, enquanto uma mescla de coragem e insegurança fervilhava em seus pensamentos. Era necessário esse momento de contemplação, permitindo que sua mente vagasse por lugares distantes de sua imaginação. Olhar para as ondas do mar, agitadas e imprevisíveis, refletia a própria agitação de seu coração e de sua mente. Uma força misteriosa que o impelia a retornar, uma vez mais, ao único lugar onde se sentia verdadeiramente seguro.
Naquela casa sombria, com paredes úmidas e decadentes, no Spinner's End, todas as peças do quebra-cabeça de sua mente pareciam se encaixar em um sentido lógico. Era como se o próprio lugar o chamasse incessantemente, com a habilidade de ler seus pensamentos mais profundos, reunindo os fragmentos de sua alma e dando forma a seus anseios. Às vezes, acreditava que sua própria magia a transformara em uma espécie de entidade viva capaz de entender intensamente as emoções que o consumiam. Essa convicção se fortalecia ainda mais quando seus sentimentos eram impiedosamente absorvidos pelos móveis surrados que, de alguma maneira, pareciam abraçá-lo com afeto, proporcionando-lhe uma profunda sensação de pertencimento e compreensão.
Com passos lentos, entre as sombras que o acompanhavam em silêncio, sua face mais sombria encontrava liberdade e abrigo. Havia aguardado pacientemente por tempo demais pelos momentos em que poderia emergir e viver sua vida sem restrições, sem a necessidade de usar máscaras ou mentiras. Severus encontrava-se constantemente em busca de um ponto de equilíbrio no meio do caos que o mundo exterior lhe impunha, enfrentando as decisões que se tornavam cada vez mais necessárias. Era um ciclo interminável de andar em círculos, questionando-se sobre o tipo de homem que desejava ou deveria ser. Uma jornada solitária e independente das opiniões alheias sobre o que era correto ou sensato.
Passando a mão pelos cabelos nervoso e pensativo, ele colocou o rosto na Penseira, mergulhando nas memórias que lhe foram confiadas. Ali, encontrava uma espécie de suavidade fria em meio à sua aparente indiferença. Aquele lugar envolto em vapores e com sabor amargo sustentava seus dias e noites, que pareciam eternamente iluminados pela Lua Minguante. Mesmo que lhe fizesse mal, aquele gosto acre e a cor castanha nunca o abandonaram à margem dos acontecimentos que o cercavam. A flor da Tailândia era seu refúgio, o que lhe restava, tudo o que possuía e um complexo mecanismo que o corrompia, distorcendo-o, descontrolando-o, ensinando-o... Abrandando sua constante necessidade de pertencimento, levando Severus a acreditar que tais sensações eram essenciais para sua própria existência.
Era uma busca incessante, uma travessia cansativa, uma obsessão que o consumia. Severus ansiava ser a cópia perfeita daquele homem que conhecera em sua infância, mesmo que todo esse esforço o esgotasse e o levasse a questionar, repetidamente, se realmente valeria a pena. A verdade era que suas próprias memórias divergiam daquelas que ele via na Penseira ou das que lhe foram transmitidas durante a infância. Detalhes que sofreram mudanças profundas em sua mente.
Na verdade, a maior resposta do universo era que ele nada podia fazer para mudar as coisas e trazer aquela realidade de volta à tona. Por mais que desejasse alterar os acontecimentos, a reorganização temporal se impunha diante dele, desolando-o.
Mesmo que tudo se transformasse, ele não permitiria que o Tempo lhe roubasse as recordações que guardava de Hermione. Elas haviam sido a felicidade e segunda chance de alguém que verdadeiramente a amou. Severus as preservaria intactas, ao menos por enquanto... talvez as guardasse em algum canto do coração ou em uma sala escura e silenciosa. Um espaço reservado àqueles que não sabem lidar com a perda e que deixam seus amores adormecerem no esquecimento. No entanto, ele se questionava se era isso o que realmente desejava. Se rompesse aquele elo tão forte, o que restaria em sua vida? Quem se tornaria? Seria capaz de lutar pelo novo propósito, a nova razão que encontrara para seguir adiante? Será que o elo não o puxaria de volta?
Ainda com o rosto imerso na Penseira, as dúvidas se acumulavam e o atormentavam, obrigando Severus a dedicar longos períodos para a análise. Concentrado e sério, examinava meticulosamente cada uma daquelas memórias distantes. Passavam diante de seus olhos sorrisos, abraços, beijos e uma vida maravilhosa. Era uma sagrada geometria de oportunidades, em que cartas suspeitas e perigosas eram entregues com a promessa de felicidade.
Como espadas de um soldado, ouro para as artes das trevas, paus para se defender na guerra que se aproximava. No entanto, as copas não representavam seu coração. Aquilo tinha sido um sonho vivido por outro homem. Um valete se ajoelhando diante de uma rainha, prometendo-lhe amor. Talvez, se tudo não tivesse começado de maneira tão confusa, a ilusão não teria sido interrompida por uma violência inexplicavelmente cruel.
Por mais que revisse inúmeras vezes todos aqueles horrores, ele não conseguia compreender como Bellatrix fora capaz de torturar impiedosamente sua própria filha até a morte... ou como Sirius pôde demonstrar tamanha irresponsabilidade ao falhar em protegê-la. Sua imprudência o mostrava como um completo incapaz de defender Hermione. Ambos pareciam estar muito distantes daqueles tolos inconsequentes e não representavam em nada as pessoas que ele conhecia. Será que ainda não havia percebido que eram os mesmos monstros, movidos pela irresponsabilidade e egoísmo? Será que estava completamente enganado?
As dúvidas crescentes martelavam em suas têmporas, quase lhe causando uma enxaqueca lancinante de preocupação. Por isso, cada detalhe, traço ou pormenor mais singelo era minuciosamente examinado repetidas vezes, até a exaustão. Nada poderia escapar do alinhamento dos pontos dentro de um quadro cronológico desafiador, onde seus objetivos eram meticulosamente planejados. Com cuidado, como sopros de vento entrando pela janela ou um soldado resguardado atrás das trincheiras, as variáveis eram estudadas com afinco.
Como o desgraçado que amaldiçoa a própria sorte, Severus notava que aquelas cenas já não o abalavam mais. Era uma espécie de meditação, devido ao número de vezes que teve que revisitar, investigar e reexaminar tamanhos horrores vividos na outra realidade. Era uma forma de se convencer sobre seus propósitos e recuperar sua certeza inabalável de que faria tudo para ajudá-la e fazê-la reviver.
- Severus... pense, ainda pode escolher entre os dois caminhos. O que você decidir agora ou aquele que lhe foi mostrado há anos - sussurrou para si mesmo, como se conversasse com outra pessoa, refletindo sobre as razões que o impulsionavam.
Isso o fez divagar por horas sobre suas atitudes e as enormes incertezas. Ele estava se tornando um homem de muitas faces e logo se esconderia por trás de uma máscara de auto aversão. Entretanto, quantos realmente o conheciam? Quem eram aqueles que o julgavam com base no que não sabiam? Quando descobriria, às próprias custas, o alto preço que pagaria ao vagar perdido e sem uma direção certa? Questões cada vez mais inconfessáveis se somavam aos arrependimentos e culpas, dia após dia.
Ele teria que retomar as rédeas da situação e voltar a agir... fechar os olhos e parar de se torturar tanto pelo fato de ter perdido a virgindade com Narcissa. Parar de se torturar por ter lhe roubado a inocência. Ela era alguém que não queria machucar ou fazer sofrer. Entretanto, como uma lei oculta de atração, ele não conseguia se afastar dela nem resistir à ideia de que estaria sempre ao seu lado.
Quando se tratava desse assunto, tudo se tornava mais complexo. Era possível que sua flor de Narciso fosse mais do que apenas uma amiga. Provavelmente, ela era seu amor e seu verdadeiro recomeço. Aquela a quem era incapaz de mentir ou fazer promessas passageiras. Especialmente diante daqueles olhos celestes, sempre tão azuis e intensos, que invadiam a sua alma e dominavam o seu coração.
- Eu deveria parar de ter ilusões... ela não é e nunca será destinada a alguém do meu nível - disse baixinho e triste, como se fizesse a mais dolorosa constatação de sua vida.
Olhando para o teto do quarto, percebeu que passaria mais uma noite em claro, acompanhado apenas pelos pensamentos que o atormentavam sobre esse assunto. Sua consciência pesava e já se considerava o pior dos crápulas. Era um dos raros momentos em que se sentia frágil, como a lágrima de uma estrela zangada... alguém que merecia nada mais que a solidão.
Gostava de Narcissa. Amava sua fidelidade, sua inteligência, sua imensa paciência, seus silêncios, sua timidez que a tornava tão lindamente retraída, suas palavras doces que o faziam refletir, sua constante elevação de caráter e, acima de tudo, sua capacidade de unir os opostos. Ela era a perfeita personificação da flor que carregava o nome e, desfrutar de sua companhia, conversar por horas sobre os mais diversos assuntos, o faziam sentir-se continuamente feliz e em paz.
O problema era que, por mais fantástica e bela que a considerasse, e mesmo que não estivesse livre de qualquer sentimento por ela, Severus acreditava que em algum momento teria que colocar um fim naquela relação estranha que desenvolveram. Como esconderia a dor? Aquilo não era apenas um arrependimento por não controlar seus impulsos sexuais. Realmente, era algo muito mais profundo. Diante de Narcissa, sentia-se inteiramente impotente, um ser inábil para lidar de maneira digna e correta com aquela criatura tão sublime a quem amava de forma respeitosa e enigmática.
- Eu devo parar com isso... esquecer! Eu nem ao menos sirvo para ser o canalha do Heathcliff! Sou um completo inútil, incapaz de atingir o nível de grandeza necessário para uma verdadeira vingança e, muito menos, oferecer tudo aquilo que a Narcissa merece – pensou alto, ainda mais atordoado do que antes, encarando as sombras que se formavam com os primeiros raios de sol ao amanhecer.
Seus olhos negros emitiam um brilho intenso de dúvida e hesitação, ao mesmo tempo em que permanecia convicto de que apenas Hermione seria capaz de amá-lo do jeito que ele era. O resto era apenas ilusão que o afastava de sua única fonte de esperança. Foi exatamente sobre isso que Snape o havia alertado, e refletir sobre essa realidade dilacerava seu coração e o deixava absolutamente devastado. Quanto mais procurava alternativas, mais distante se sentia de soluções reais.
Se obrigaria a fazer daquela menina a representação de sua alma, seu projeto de vida, seu objetivo, seu ar, sua inesgotável fonte de amor e nunca mais viveria longe dela. No entanto, temia estar renunciando à própria vida por conta de uma promessa distante. Respirando fundo, levantou-se em silêncio, naquele que parecia ser o momento mais longo e duradouro de sua existência... o momento em que decidiria se aquela ideia não era apenas um combustível que servia para incendiar e dilacerar sua alma.
Sua confusão se misturava com sua ilusão, confrontando-o e fazendo-o morrer. Entretanto, por mais difícil e doloroso que fosse, era necessário. Não teria desperdiçado cada segundo da linha temporal e testemunhado os primeiros focos de incêndio no mundo que ele mesmo havia incendiado se não fosse para cumprir sua promessa. Ele a teria novamente ao seu lado. Ele cumpriria a promessa que fez a Snape e a amaria de forma inabalável, mantendo seu compromisso com a própria palavra intacto.
Não daria as costas para sua vingança tão calculada, especialmente depois de já ter dado os primeiros passos. Delphini havia nascido, Bellatrix estava entregue a Voldemort, Narcissa se casaria com outro... certamente não seria Lucius. Talvez Sirius ou Regulus, a fim de garantir a preservação da pureza da linhagem dos Black e assegurar que sua Senhora compartilhasse do mesmo sangue.
Quanto ao seu plano, já havia demorado mais do que o previsto, mas não passaria daquele ano. A condenação e a devoração de sua presa viriam como o golpe final. Depois disso, a vida não seria mais do que fragmentos das ruínas do tempo.
Como se os dias voassem em um ritmo vertiginoso, os segundos, as horas e os dias não passavam de ínfimos grãos de areia em uma imensa ampulheta invisível. Na mente de Severus, parecia que haviam transcorrido meses insanos e intensamente obscuros, mas ainda nem havia chegado perto do final de agosto. Seus pensamentos, cada vez mais raivosos, eram alimentados pela insuficiência de ferro no sangue, e pelo excesso de lírio.
A ira de Severus se dilatava, consumindo suas entranhas, esgotando suas forças a cada momento. Era o caos e o acaso estendendo os braços, acalentando sua constante busca por um porto seguro onde pudesse se esconder e se abrigar. Teria que ser forte e negar o quanto estava perdido e incerto em relação às suas atitudes e decisões. Mas não se seguraria mais, seguiria em frente e não se permitiria abater ou tentar olhar para trás. O melhor centro de treinamento para Comensais da Morte era o local onde ele havia nascido.
Olhando para o céu, o entardecer era deslumbrante, com seus rastros vermelhos desafiando o azul. Ao longe, nuvens carregadas se aproximavam, anunciando que a chuva cairia chorando. Por que ele nunca notou o desaparecimento da luz para o surgimento das trevas? Não teria acontecido o mesmo com sua alma? Será que algum dia teve uma? O que sabia era que toda aquela água lavaria as manchas deixadas no chão, mesmo que elas se aprofundassem na alma e permanecessem cravadas nas memórias da tempestade.
Severus se interrogava e pensava sobre tudo aquilo que tanto o preocupava, enquanto permanecia imóvel naquela esquina imunda, fétida e sórdida. A noite iria muito além daquela mesma noite, quando suas motivações eram bastante claras. Ao encontrar Tobias, faria o acerto final de contas para encerrar o argumento de uma vida inteira de sofrimento que aquele homem impôs a tantos inocentes.
A espera o deixava ansioso. Mordendo a ponta dos dedos, mastigava os pequenos pedaços de pele arrancados pelos dentes. Não havia outra justificativa além da violência que o limitaria. Faltava muito pouco e não demoraria para que seu pai cruzasse a rua, ao término de sua jornada de trabalho na carvoaria, desviando-se das gotas de chuva que já começavam a cair do céu.
Escondido nas sombras, Severus o seguia de longe, atento a cada passo, gesto ou sorriso trocado com seus amigos de bebedeira. Aquela era a ocasião que ele aguardara a vida inteira, e não desistiria de sua intenção, principalmente quando era um impulso para planos futuros. Ao atacar Tobias, no beco escuro e sujo, em meio à tormenta, Severus despejaria todo o ódio guardado por anos em seu peito. Não daria àquele homem uma morte digna e tranquila. Muito menos o consideraria merecedor de um fim rápido. Seria juiz e executor do seu maior carrasco, fazendo-o sofrer por toda a dor que causara.
Eram tantas vidas e sonhos destruídos por aquelas mãos sujas, hostis e criminosas que seria difícil perdoar. Deixando que o vento forte sacudisse seus cabelos e o encorajasse a dar mais alguns passos à frente, Severus só conseguia enxergar o rosto de Tobias e imaginar seus gritos de dor. Ele urraria como o monstro animalesco que sempre fora. Os golpes seriam desferidos naquele que considerava um vagabundo, canalha, covarde e miserável.
Aquela verdadeira escória da humanidade seria abatida com socos e chutes. Toda a raiva e o rancor de Severus seriam despejadas sobre ele, mesmo que não apagassem as lágrimas de Andromeda ou o sofrimento e a humilhação de Eileen. A morte era um preço muito baixo para pagar a alta conta que ele devia.
Com essas imagens se formando em sua cabeça, Severus acelerou os passos, quase correndo para alcançá-lo. Sem dar tempo de reação, emparelhou com Tobias e iniciou a agressão a socos, sem pensar ao certo no que estava fazendo. Só sentia a ira crescendo em suas veias, seu sangue fervilhando. Uma pancada atrás da outra, todas guiadas pela fúria insana que o cegava. Seu corpo começava a mostrar sinais de cansaço, pois nunca havia lutado dessa maneira e não sabia até onde conseguiria suportar.
Ao puxar a navalha de seu bolso traseiro e rasgar o rosto do pai, deixando claro que havia renunciado à sua postura de bruxo e que não recorreria a feitiços para matá-lo. Aquele ser não lhe daria a passagem de ida para Azkaban. Faria melhor, pior do que tudo o que sofrera, e não se arrependeria de experimentar a sensação de sangue respingando em seu rosto.
Rindo do gosto ferroso que penetrava em sua boca, suas feições transpareciam o mais puro sadismo e crueldade. Sua mente perdera a noção do tempo, e seu único pensamento, quase fixo, era a crescente felicidade que lhe aquecia o peito a cada nova agressão. Foi então que, em meio ao seu transe, refletiu sobre todos os ensinamentos que recebera de Voldemort.
Ele, um dia, lhe dissera que os assassinatos nunca eram doces. Porém, com muito empenho, tinham grandes possibilidades de se transformarem em momentos divertidos para aqueles que os executavam. Era essa a resposta. O ardil ia o levando, sem que percebesse, envolvido em um vai e vem sem fim. O impulsionava a viver o que nunca pensara seriamente. Quem nascera no lixo, como era o seu caso, tinha entranhado o conhecimento de que crimes contra os marginalizados não geravam comoção. Investigações sequer eram cogitadas. Era apenas mais um corpo estendido no chão.
No caso de Birmingham, a única preocupação era sobreviver em meio à violência, às apostas e à mais absoluta pobreza. Fosse financeira ou a de espírito, a miséria era quem ditava as regras. Por que se preocupar com o outro? Todas as histórias sempre se cercavam de segredos. Muitos se perdiam pela estrada ou pelo canal, quando a fuga era a única alternativa. Se meditasse um pouco, a crônica de seus dias naquela área já havia sido carregada pelo vento para lugares remotos onde as vidas eram esvaziadas e esquecidas.
- Saudades de mim, papai? - perguntou com a voz mais ríspida e grossa do que imaginara.
Era como um sonho ou uma viagem psicodélica, o modo como as cores e as luzes gravitavam diante de seus olhos. Seria tudo aquilo real? Tratava-se de uma ilusão? Ou, quem sabe, o efeito de alguma droga alucinógena que experimentara antes de chegar ali?
Para todos os efeitos, não beberia mais chá de lírio antes de espairecer as suas ideias. Muito menos para entorpecer os seus sentidos e aliviar as suas dores. Aquela flor era, definitivamente, algo que só ampliava os sentimentos ruins e incentivava às péssimas ações. O próprio nome já denunciava as suas pretensões soturnas. Roubaria a alma, ao se alimentar das lágrimas e do remorso alheio. Era a perdição, a entrada exclusiva para uma temporada sem fim no inferno.
Entretanto, agora pouco importava para Severus as verdadeiras motivações que o levavam a ter intensas náuseas e vertigens. A flor da Tailândia seria usada depois, para comemorar o seu êxito na sua primeira grande tarefa, a qual atribuíra a si próprio.
Ainda observando o sangue brilhar cintilante, piscou os olhos algumas vezes, tentando retomar o foco. Naquele momento, tudo o que queria era continuar torturando Tobias e testemunhar a vida se esvaindo pelos cortes. Porém, parecia muito mais difícil do que pensava. Algo o incomodava, porém ele não conseguia precisar exatamente o que era.
- O que está fazendo aqui, maldita aberração? Está ficando louco? Eu posso esquartejar você com as minhas próprias mãos, se eu quiser... moleque magricelo de merda! Você pensa que é quem para brigar comigo?! - gritou, dando um murro no queixo de Severus, que havia se ajoelhado para encará-lo.
Cambaleando, Tobias conseguiu erguer-se por completo do chão. Passando a mão pelo rosto, constatou o quanto estava ferido, sorrindo em uma clara demonstração de indiferença. Era apenas mais uma marca, uma cicatriz irrelevante para a sua coleção... e ele não permitiria que seu filho encontrasse qualquer satisfação por ser o responsável, especialmente quando o afrontava, sentindo apenas aversão ao vê-lo.
Severus, com o sangue escorrendo pelo canto da boca, ergueu o olhar, encarando o pai com um misto de desprezo e desafio. Suas feições revelavam uma determinação feroz, como se o fogo que ardia dentro dele fosse inextinguível. Um sorriso sádico se desenhava em seus lábios, transmitindo e envolvendo-o numa aura sombria e sinistra. Era como uma imagem emoldurada de morte, com os dentes manchados de sangue e saliva, prenunciando o que estava por vir.
- Louco? Talvez esteja mesmo, querido papai. Louco de raiva, de ódio acumulado ao longo dos anos, de todas as vezes em que você me fez me sentir pequeno, insignificante. Louco de ódio por todas as vezes em que você espancou e violentou minha mãe diante dos meus olhos. Mas, você sabe, dizem que a loucura tem suas vantagens...
Os olhos de Severus brilhavam com uma intensidade quase sobrenatural, enquanto sua postura se erguia, como se estivesse se transformando em algo além de um simples homem. Seu peito ardia em perfeita sintonia com o cosmos, irradiando uma força arrebatadora capaz de desencadear transformações profundas em seu próprio núcleo magico, que vibrava com uma intensidade avassaladora. Sua voz, carregada de uma energia sombria, ecoava no ar, reverberando e entrelaçando-se com a sua magia que continuava pulsando, prestes a explodir em sintonia com os seus objetivos de moldar e transcender os limites do próprio corpo e da própria consciência.
- Eu sou quem para brigar com você? A resposta é simples, pai... Eu sou o resultado do seu próprio veneno. Eu sou a vingança que você tanto merece. Não se iluda, você não me conhece verdadeiramente. E agora... agora é a sua vez de provar um pouco da sua própria perversidade - as palavras saíam de seus lábios como punhais, cortantes e afiadas.
Tobias, atônito e surpreso com a mudança repentina em seu filho, recuou alguns passos, sentindo a própria fraqueza. Um misto de medo e uma pontada de orgulho ferido se misturavam em seus olhos. Ele se recusaria a admitir uma possível derrota, especialmente perante alguém que sempre julgara inferior.
- Você não tem coragem de me matar, seu moleque insolente! Você é fraco como a sua mãe... um porquinho perdedor! - disparou, tentando recuperar a postura de superioridade.
Uma risada amarga e carregada de desprezo escapou dos lábios de Severus, ao perceber que Tobias ainda se agarrava à insana ilusão de superioridade, alimentando sua teimosia incansável e cega na busca por destruí-lo. Ele não era mais uma criança frágil e indefesa. Já estava muito longe de ser a vítima ideal, subjugada sem qualquer chance de defesa.
- Fraco? Talvez. Mas não mais. Eu aprendi com os melhores, papai. Aprendi a ser mais do que aquilo que você chama de um mero perdedor. Agora eu sou um Comensal da Morte. Você sabe o que isso significa? Você compreende o verdadeiro significado desse título? Certamente, não tem conhecimento do que isso quer dizer. Por isso, você... você será o exemplo de que ninguém escapa impune das consequências de suas ações, principalmente por ser sido alguém covarde e desprezível que um dia ousou me atacar - sua voz ecoava no beco, carregada de um poder ameaçador.
Avançando contra ele, Severus o fez rir alto como um louco, fazendo gestos para chamá-lo para a briga. Seus olhos faiscavam com uma mistura insana de ódio e desejo de vingança. Ele queria mais do que uma simples briga; ele desejava um confronto mortal, onde apenas um sairia daquele lugar vivo. Ansiava em ferir e destroçar ainda mais aquele homem que, por um engano do destino, era seu próprio pai. Almejava ver Tobias estrebuchando no chão, enquanto seu sangue lavava aquela calçada imunda.
Cada segundo que se arrastava só aumentava os sórdidos impulsos de Severus. Sem pensar nas consequências dos seus atos, ele avançou sobre Tobias com a navalha em punho. Tudo aconteceu em um piscar de olhos, a sensação cortante da faca atravessando a sua barriga repetidas vezes. A velocidade e a força dos golpes criaram uma harmonia macabra, acompanhada de um turbilhão de emoções que tomava conta de Severus a cada corte.
As lágrimas embaçaram a sua visão. Em meio à dor e à desilusão, ele percebeu que sua vingança e seu mais íntimo desejo de justiça não se realizariam. Antes de se tornar um mero cadáver, ele se recusaria a se entregar e lutaria até o último suspiro. Levaria Tobias consigo, não importa para onde fosse. Era uma questão de honra.
Em um movimento rápido, impulsivo e completamente instintivo, como se a dor fosse apenas um detalhe, Severus permitiu que a navalha rasgasse a jugular de Tobias. No segundo seguinte, arrancou os olhos do pai com uma ferocidade assassina, uma sequência de atos brutais. Em seguida, ajoelhou-se e continuou socando o rosto inerte até que suas forças se esgotassem.
Tobias já não respirava mais, e o tempo parecia ter parado depois da sentença ser executada. Sentado no chão, Severus fitava o vazio, sem demonstrar qualquer reação. Parecia estar em estado de choque, em um limbo entre a realidade e a consciência. Ele ainda não conseguia assimilar completamente o quanto seu ódio o havia levado ao limite. Sua humanidade havia sido abandonada no momento em que ele cometeu aqueles atos cruéis. Como ele havia se transformado naquela criatura abominável?
O silêncio e a lucidez recém-recuperada em relação às próprias ações tornaram tudo ainda mais estranho e contraditório. Parecia que o tempo voltara a correr em passos largos, acelerados.
Como um verdadeiro selvagem descrito nos relatos dos exploradores, Severus reconhecia a si mesmo como um ser guiado por instintos primordiais. A dor e a angústia se transformavam em uma corrida desenfreada e sem rumo. Ele ansiava voar para longe, o mais distante possível, e esquecer de tudo. No entanto, os espasmos do seu corpo e a falta desesperada de ar o impediam de escapar.
Severus sentia-se desorientado, com o coração descompassado e oprimido pela culpa. Era uma mistura estranha, intensa e enlouquecedora, assemelhando-se à emoção que havia compartilhado com Narcissa ao fazer amor pela primeira vez. Seus pensamentos e sentimentos estavam em conflito constante. O medo de estar sendo seguido o obrigava a acelerar ainda mais os passos. O desespero funcionava como um propulsor, uma droga que injetava lampejos de vida nas oportunidades mais inesperadas e repentinas.
Ele parou por um instante, deixando seus pensamentos fluírem e se acomodarem em sua mente turbulenta. Era uma batalha ininterrupta entre suas aspirações sombrias e o peso dos remorsos que teimavam em assombrá-lo. Se realmente desejasse ser reconhecido como o general do Lorde das Trevas, teria que enterrar todas as dúvidas e culpas bem fundo em sua essência. Seria preciso abraçar o orgulho de sua ação, de como executara aquele ato de forma implacável e desumana.
Um crime que traumatizaria as almas mais sensíveis e até os aurores mais experientes, cuja ausência de testemunhas era essencial para a sua ambição. Ele almejava ser agraciado com a Marca Sombria, uma marca de prestígio e poder que adornaria seu antebraço esquerdo. Ser o mais jovem a recebê-la seria um sinal incontestável de sua sede de ascensão, de sua determinação em transcender a mera posição inicial de simples Comensal da Morte.
Ele sabia que esse caminho não era isento de consequências. O elixir do poder, a respiração dos vapores nefastos, não deixavam os iniciados ilesos. Era uma jornada que cobrava um preço alto, dilacerando as almas daqueles que se aventuravam a beber dessa fonte perversa.
Mas para Severus, a partir daquele momento, ao cruzar a fronteira entre a vida e a morte, ele se sentia verdadeiramente livre. Cada dia seria um renascimento, uma oportunidade de avançar sem temores ou compaixão por aqueles que ousassem atravessar seu caminho ou desafiar seus planos sombrios. Nada mais o feriria ou o faria recuar do tortuoso caminho em direção ao seu destino manifesto. A escuridão o aguardava de braços abertos, e ele se entregaria a ela sem hesitação, ansioso para desvendar os segredos ocultos e os mistérios insondáveis que a envolviam.
