Caminhando lentamente, Severus constatou que o seu coração morrera. A sensação de vazio o invadia, como se a chama da vida queimasse em brasas apagadas. Contudo, ele encarava aquilo como apenas mais um assunto irrelevante, entre tantos outros, que jogara para os confins das suas prioridades. Não havia motivos para se importar com tão pouco, quando existiam coisas bem mais urgentes, com as quais deveria se preocupar. Não permitiria que ideias ou assuntos menores atrapalhassem os seus objetivos mais imediatos.

Era impossível escolher outro destino que diferisse daquele que lhe fora traçado por Snape. Por mais que tentasse se afastar, sentia-se arrastado para o abismo de sua aliança com Voldemort. Aquilo o atormentava, principalmente pelo fato de que jamais deixaria de ser um homem de palavra. Mesmo quando sequer tinha maturidade suficiente para sê-lo, sempre se manteve firme em suas promessas. Especialmente porque lhe fora ensinado que a palavra era lei mais absoluta de todas. Agora, se via mais sobrecarregado do que nunca pelo peso avassalador das escolhas que fizera e pela imensa responsabilidade que carregava em cumprir seu papel nesse jogo perigoso.

Por mais que cruzasse todas as fronteiras do sofrimento e da cólera, nada justificaria voltar atrás. Era uma questão de honra. Severus sabia que precisava aceitar a destruição completa de si mesmo e o abandono de seus verdadeiros sonhos em zonas obscuras do esquecimento. Todos os preciosos momentos vivenciados, até aquele dia, deviam ser transformados em partículas de bálsamo lançadas ao ar, celebrando o fim da própria existência.

Sussurros inaudíveis se entrelaçavam com gemidos abafados, brados de raiva ecoavam pela mente atormentada de Severus. Seu corpo se contorcia em rastejos desesperados, enquanto súplicas profundas escapavam de seus lábios trêmulos. A dor se metamorfoseava em graves crises de ansiedade e ataques de pânico, que o deixavam à beira da imprudência. Sua cabeça doía, suas têmporas latejavam com o pulsar do sangue, e sua visão ficava cada vez mais turva com as fortes batidas de seu coração. Tudo apontava para a torturante certeza de que estava vivo, perdido e solitário.

O mundo ao seu redor parecia desprovido de esperanças, coberto por um manto de incertezas e sem espaço para os sonhos. Nada mais era que um monstro cruel que devorava a todos, abrindo espaço somente para aqueles que se ajoelhavam e aceitavam tamanhos horrores.

O pessimismo e a falta de perspectiva se apresentavam como novos quadros em sua mente, somando-se à irremediável animosidade e às inumeráveis mentiras que o cercavam. Eram apenas mais artifícios para justificar a sua necessidade de desencadear conflitos, confusões de todos os gêneros e, acima de qualquer coisa, brigas violentas com qualquer um que atravessasse o seu caminho.

A madrugada ainda não havia terminado, e a raiva crescente dominava Severus. Ele lutava para manter a máscara de frieza e indiferença diante do que tinha feito, mesmo que por dentro sentisse seu coração despedaçado. Algo se quebrara dentro dele, e um profundo ódio de si mesmo surgia enquanto o remorso crescia em seu peito. Não queria se arrepender por ter assassinado Tobias. Atordoado e lutando para acreditar firmemente que aquele homem merecia morrer, ele desejava comprovar sua teoria procurando outros semelhantes.

O silêncio, a ira, o fascínio despertado, tudo o dominava, levando-o a desejar mais daquela emoção nova. A necessidade de ar em seus pulmões e sua ambição naquele instante o conduziam a abrir espaço para o despertar de seus instintos ainda mais sombrios. A luta interna entre seu senso de justiça e seus impulsos mais cruéis estava travada.

Ele ansiava por reaver seu antigo amigo e receber seus conselhos. Desejava ardentemente que Snape voltasse a fazer parte de sua vida e lhe revelasse onde havia errado. No entanto, as únicas companhias que possuía eram as inúmeras dúvidas que o torturavam. O que fazer? Para onde ir? Como resolver e destruir seus medos?

Dobrando a esquina, Severus entrou na avenida quase deserta, fechou os olhos e resfolegou. O cinza chumbo das casas criava um cenário depressivo e assustador, aumentando sua vontade de sair dali o mais rápido possível, voar para longe, até onde seu coração ordenava que fosse. No entanto, ele não podia. Não antes de fazer alguns curativos rápidos e tentar fechar os cortes abertos pelas facadas que recebera.

Fazendo alguns pequenos feitiços, conseguiu barrar um pouco o sangramento, porém, não era suficiente. Precisava de ajuda médica se quisesse viver, mas como explicar? Não podia alegar que fora assaltado, muito menos contar que se envolvera em uma briga. Além disso, não tinha meios de chamar os medibruxos que trabalhavam para o Lorde das Trevas, pois ainda não tinha a Marca Sombria.

- Eu quero sair daqui... - sussurrou, desaparatando imediatamente, como um borrão que se perdia em meio à pouca luminosidade.

O feitiço fraco o fez aparatar em uma rua com pouca movimentação, muito longe do Spinner's End ou de Birmingham. A 200 km daquele lugar onde deixara um rastro de sangue e horror, ele respirou fundo, sentindo uma pequena sensação de alívio.

O ar quente, esfumaçado e úmido invadiu seus pulmões como um sopro de vida. Sem dizer nada, Severus analisou a beleza intensa e caótica da nebulosidade soturna de Londres. Era um lugar que o dilacerava e acolhia. Sentou-se próximo ao Tâmisa, observando mais um amanhecer que se avizinhava no horizonte, com os pensamentos muito distantes daquela realidade.

- Maldito seja você, Tobias... pode ter certeza, eu não deixarei nem o seu espírito descansar, seu desgraçado - afirmou, franzindo o cenho devido ao desconforto das lesões que voltaram a se abrir.

Eram mais algumas cicatrizes profundas em seu corpo para contar a história de sua infeliz e trágica biografia. Seguramente, alguém lamentaria suas dificuldades, fraquezas e receios. Outros alegariam que, desde que nasceu, merecia ser humilhado e torturado. No entanto, de que valeria se importar com a opinião alheia? Não perderia segundos preciosos se preocupando com as considerações da maioria, quando os julgava como uma tropa de ignorantes e fracassados.

Seguiria seu próprio caminho. Sozinho, desamparado, miserável e exposto, ali, no meio do povo que transitava de um lado ao outro. Aqueles que se interessassem por sua presença veriam apenas mais um infeliz, andando com passos largos pelas vias mais tortuosas dos ventos e tempestades que assolavam a vida de tantos outros.

Os primeiros raios de sol cortaram o horizonte, escondendo-se entre as nuvens e machucando os olhos negros cansados de Severus. A perda de sangue, a luta noturna e a falta de descanso o deixavam exausto. Porém, mesmo que quisesse dormir um pouco, a chegada de seus companheiros trouxe nova energia e o impediu de repousar.

Era um indício de que as próximas horas seriam ocupadas por eventos interessantes. Com luzes, sombras, sons e matizes espetaculares de canções intensas e furiosas, os ecos de suas ponderações vibravam em suas veias. Os diabretes murmuravam ordens em sua mente, ressaltando que ele havia se tornado um dos monstros que tanto temia. Ao retornar da noite, tudo ficou mais claro ao chutar um corpo desacordado e estendido no chão.

Identificando-se como invencível e forte, ele pisou algumas vezes no homem, zombando dos demais que corriam para suas casas. Parando por um segundo para admirar seu reflexo distorcido pelas águas turvas do rio, uma imagem rápida atravessou sua alma. Foi algo que o fez desistir de continuar com tais abusos.

O universo lhe pagava o tributo devido, no crepúsculo mórbido, ao vagar sem direção ou qualquer propósito claro. Naquele momento, poderia muito bem retornar a Caerleon. No entanto, sua consciência afirmava que perdera o mais importante nesse partir e andar. A matéria essencial, independente do trajeto ao qual escolhesse se direcionar, desaparecera.

Sem dúvida, a origem dessa chama incontrolável em seu corpo era a celebração de algo semelhante à Noite de Santa Walburga. Aquele era sempre um dia em que as pessoas tendiam a se entregar à loucura. Mas, como era possível? Estavam em agosto e aquele pandemônio só acontecia em abril. O que estava acontecendo? Ainda estávamos em agosto ou eu não havia percebido que um novo ano havia começado? Por quanto tempo fiquei inconsciente ou delirando?

Com um meio sorriso, Severus ficou encarando as lápides de um cemitério distante, ao refletir que muitos temiam andar lado a lado com o demônio. Não era difícil facilitar o desespero desses condenados, enviando-os com as próprias mãos para o inferno... que todos aprendessem a abraçar e pedir passagem às próprias sombras. Não suportava ver quantas pessoas fracas viviam se escondendo por medo.

Pensando nisso, Severus se sentou em uma mureta e ficou olhando para o nada. As imagens que se formavam em sua mente justificavam que as horas que divisavam as doze badaladas e o clarear do novo alvorecer eram um instante bastante digno para que os mortos se erguessem de suas covas.

- Adoraria conversar com alguns e incentivá-los a buscar àqueles que lhe devem... cobrar dívidas eternas e perseguir desafetos são uma boa maneira de passar o tempo - murmurou Severus para si mesmo, seus olhos fixos no horizonte sombrio.

A liberdade, que flamejava e torturava suas ideias, lhe proporcionava a força que procurava. Era a escuridão que o impulsionava a querer abraçar o diabo e aceitar suas origens. As que tanto renegara por anos. A terra, o chão, as raízes, o ar e as águas sussurravam em seus ouvidos, convidando-o a pular de olhos fechados no precipício. Ele sempre seria aquele homem que atravessara a divisão entre a vida e a morte.

Definindo os detalhes, sempre tão silenciosos, soturnos, austeros e caóticos, deixou-se levar pela calmaria barulhenta de suas explosões transgressoras. A paz era a maior afronta que alguém de seu tipo poderia fazer à vida ou a qualquer noção de existência.

Deixaria que o bafejo morno jogasse seus cabelos contra o rosto. Estavam desamarrados, libertos e imunes a qualquer sensação de apreensão ou temor em relação a tudo aquilo. Sabia que sempre foi destinado àquele horror, desde que sua avó paterna previra o nevoeiro denso que o cercava. Ela estava familiarizada com o mistério, assim como seus antepassados, que ouviam os sussurros de seus entes perdidos. Fosse nas folhas de chá ou nas linhas de sua mão, tudo apontava que a serpente de olhos negros se transformaria em príncipe.

Era a realidade. Por mais dura e macabra que fosse, aos olhos inocentes, aquela velha cigana acertara com relação à sua sorte. O mal o cercava e o seduzia, sendo seu único companheiro permanente e fiel. Eventualmente, fantasiava que os fantasmas dos antigos curandeiros e bruxos conduziam seus passos. Parecia preso aos dissabores que constantemente o sufocavam.

Ao mesmo tempo, sempre lhe ofertava amigos e pessoas que o ajudariam a alcançar seus intuitos. Apenas aqueles que o afastavam da luz e daqueles a quem amava, tornando mais interessante e inusitado seu conceito de pertencimento a algo. A manutenção de uma ideia fixa que o coagia, diariamente, a seguir os ideais de juventude hitlerista misturada com a Ku Klux Klan como corretos. Um rumo para que pudesse realizar o que fosse melhor para si mesmo.

Os ditos heróis jamais o quiseram por perto ou o aceitaram como igual. Sempre o julgaram como o pior tipo de escória. Para eles, os iluminados pela clareza e sabedoria inspiradora, quase divina, Severus estava impossibilitado de abandonar sua condição impura e estranha. Obviamente organizações que renascessem das cinzas nunca aceitariam alguém de estranhas condições. Quem sabe, o enxergassem como um mestiço imundo saído do lixo, o qual não merecia qualquer tipo de reconhecimento. Talvez os justos não fossem tão justos quanto aparentavam.

Por outro lado, os tão chamados vilões, dos quais sempre lhe alertaram para se manter afastado. Os seres mais horríveis, cruéis e perigosos, o acolhiam e o chamavam de irmão. Inventavam teorias para justificar sua presença entre eles. Criavam inúmeras razões, das mais diversas, que faziam com que fosse aceito como um igual e parte daquele todo.

Nada mais que a curiosa contradição do bem e do mal, das suas luzes e sombras e, elementarmente, a obviedade de como alguns são cegos em acreditar em dualidades ou maniqueísmos baratos. Nos dois lados havia humanos e suas tendências constantes a transitar por escalas de cinza mutáveis. Jamais alguém permaneceria estático ou sólido como uma rocha, especialmente quando até mesmo as pedras rolavam em meio a atritos e instabilidades na terra. Foi com tais meditações e pensamentos intensos que reapareceu em casa, após quase uma semana desaparecido.

Eileen, notando que o filho chegara lavado de sangue e com um olhar falsamente inocente, decidiu confrontá-lo. Seus gestos e a postura comprometedora denunciavam que ele entrara em um profundo processo autodestrutivo. Como mãe, não permitiria que ele se enterrasse daquele jeito. Ainda mais após uma tentativa fracassada de suicídio.

Severus estava irreconhecível. Não restava mais vestígios do menino doce e cheio de sonhos que ela conhecia. Em seu lugar, havia surgido alguém rígido, frio e desalmado, não apenas consigo mesmo, mas principalmente com os outros. Do seu ponto de vista, era um verdadeiro absurdo que um rapaz de 17 anos se visse como um peso completo para si próprio, ou já estivesse entregue a tamanha descrença quanto a uma vida melhor e ao futuro maravilhoso que sonhava encontrar mais à frente.

- O que está acontecendo, Severus? - perguntou Eileen, considerando todos os olhares e movimentos dele.

Sua inquietação era justificável. Ele queria esconder algo importante e, a cada segundo que passava, ficava mais clara a crescente fraqueza que testemunhava diante de seus olhos. Ainda era tão jovem e já estava tão despedaçado.

Pesando as palavras, Eileen decidiu que não lhe daria um sermão pelo sumiço arbitrário durante a maior parte das férias. Muito menos o interrogaria sobre suas atitudes ou o estado em que entrara em casa. Ela se aproximaria de uma outra forma. Se esforçaria ao máximo para verificar quais eram suas mais evidentes necessidades e desvendar o desespero que o corroía. Definitivamente, o ingresso na idade adulta não fora um momento afortunado para seu único filho.

- Não é nada, mãe... não está acontecendo absolutamente nada! Não existe qualquer coisa com a qual deva se incomodar ou perder seu precioso descanso - respondeu Severus com uma expressão cansada, carrancuda e pensativa.

Ele estava abatido, e tudo o que mais ansiava, naquele instante, era ficar quieto. Queria apenas se cercar com suas próprias ambiguidades e medos que surgiam. Sussurrando frases inaudíveis, como se conversasse com suas próprias reflexões e ignorasse todo o resto, Severus retirou a camisa suja e jogou-a em um canto da cozinha. Se via sem forças, se arrastando até a cadeira para se sentar.

O caminho nunca fora tão longo entre a porta e a mesa, até conseguir se ajeitar e pôr as duas mãos no rosto. Com a respiração desregulada, suportou nelas o peso de sua cabeça, como se pudesse dispersar os pensamentos e concepções de tempo, espaço e realidade daquele modo.

Esquecendo quase completamente que os pontos haviam cedido e alguns cortes estavam reabertos e sangravam, ele apenas refletia sobre o fardo de responsabilidades que o soterravam. A aflição e o calor sufocante o deixavam tonto... parecendo estar sendo enterrado dentro de um túnel tortuoso, longo e infinito. Em segundos, sua visão escureceu. A voz de Eileen começava a ficar cada vez mais distante e incompreensível, até que seus ouvidos não escutassem mais nada. De maneira imprecisa, o tempo agiu, fazendo-o não saber mais ao certo onde estava quando acordou.

Sem ter certeza do tempo em que estava ali, o sol bateu na janela da cozinha, refletindo seus raios nos olhos de Severus e devolvendo-lhe os sentidos há pouco perdidos. Ainda estava confuso e tonto. Piscando algumas vezes, ele começou a ter alguma noção de tudo o que aconteceu desde que se sentou ali.

Se não tivesse plena consciência de que ainda era agosto de 1977, ele questionaria as motivações que faziam tudo parecer mais difícil. Da mesma forma, se perguntava se não tinha ingressado em algum tipo de looping temporal, em que os dias se repetiam continuamente.

- Creio que toda a sabedoria proporcionada por aquelas memórias se tornou um fardo pesado demais para você - afirmou Eileen, sentando-se em frente a ele.

Ao examiná-lo atentamente, ela ainda não conseguia notar que Severus estava ferido, devido à posição em que se encontrava. Entretanto, via que, a cada minuto, ele ficava cada vez mais pálido e com as olheiras ainda mais proeminentes.

Evitando encará-la a todo custo, ele buscava qualquer ponto interessante no chão, olhando para baixo numa tentativa de desviar do assunto que se iniciaria. Queria evitar as perguntas e os discursos que viriam, os quais ignoraria solenemente, se esquivando do confronto.

O profundo silêncio dele e a vigilância atenta de Eileen contrastavam e se chocavam como forças conflitantes, deixando-a mais convicta de que identificaria o que o incomodava. Se fosse necessário, ela o forçaria a contar tudo detalhadamente. Estava ciente de que o controle, a reprimenda e sua insistência em ser informada do que sucedia acarretariam uma briga, o conflito que Severus vinha evitando há meses.

- Diga, em que briga se envolveu dessa vez, Severus? - perguntou ela, sem receber qualquer resposta.

- Ora, deixe-me fechar esses cortes antes que infeccionem - prosseguiu, quase em estado de choque, ao ver a poça que se formava no chão da cozinha e a camiseta lavada de sangue na região do abdômen.

Pouco a pouco, atingindo um aspecto quase cadavérico pelos ferimentos, Severus novamente não viu mais nada. Era como se suas últimas forças tivessem se esvaído, sugadas por forças ocultas. Desmaiou mais uma vez, caindo de lado no chão com os olhos abertos. Parecia estar morto, com o olhar fixo e vazio para o nada.

- Severus? Severus?! - a voz de Eileen soava mais alta, e o cheiro do álcool, mais forte.

Sentia seu corpo sendo sacudido pelos ombros por duas mãos ou recebendo pequenos tapas no rosto. Ela poderia usar algum feitiço para fazer com que o filho recobrasse a consciência, contudo, era perigoso em uma situação como aquela. Qualquer erro poderia agravar a situação, colocando Severus em um coma profundo.

As lágrimas desesperadas escorriam pelo rosto de Eileen, revelando sua frustração e raiva. Por mais esforço e dedicação que ela tivesse colocado, nada parecia trazer Severus de volta à consciência. Uma sensação de impotência e culpa avassaladora a consumia, permeando cada célula de seu corpo. Ela se martirizava por não ter sido uma mãe melhor, sentindo que deveria ter sido mais presente em sua vida. No entanto, de que adiantava se cobrar tanto quando nem mesmo conseguia deixar de ser indiferente aos sentimentos tão evidentes nele? Talvez ela nunca tenha sido a mãe que ele realmente merecia. Talvez sua incapacidade de o amar verdadeiramente tenha sido a raiz de todos aqueles problemas.

Minutos, que pareceram horas, se arrastaram até que ele finalmente a encarasse e visse as feições dela transparecendo o mais profundo temor e agonia. Aquilo foi o suficiente para entristecê-lo até o fundo de sua alma, pois não gostava de ser o motivo de sua infelicidade.

Intimamente, Severus sentia um receio crescente de que, ao relatar seus vícios e distúrbios, assustaria Eileen. Ele não desejava que ela descobrisse o nível de depravação a que havia chegado. A ideia de ser um bruxo envolvido em brigas de gangues ou conflitos em bares trouxas ia contra todas as normas de conduta que os sangues puros deveriam seguir em público, mesmo que ele não pertencesse a essa linhagem. Era visto como uma afronta a tudo o que ele aprendera sobre bom senso e costumes nobres quando fora criado entre eles.

Fatalmente, imaginava que Eileen se enojaria ao reconhecer que o filho estava cada vez mais parecido com os antigos vizinhos. Ou pior, que ele era uma incômoda cópia do pai, envolvendo-se em confrontos e consumindo a alma dos outros. Sentia-se um maldito indigno, rastejando mais baixo do que a rés do chão em que pisava. Definitivamente, ele sentia que não havia nascido como alguém digno de ter Eileen como mãe. Ressentia-se profundamente por não ser o filho perfeito que ela esperava que ele fosse.

- O quê? Como? Onde exatamente eu estou? – Severus indagou ao recobrar um pouco mais de lucidez.

Ainda estonteado, ele tentou se levantar, fixando o olhar no rosto dela. Buscava compreensão, que talvez jamais viesse. Eileen, possivelmente, já estava ciente de tudo o que havia acontecido e esperava apenas a confirmação de seus inúmeros crimes. Talvez alguém tivesse lhe informado sobre a morte de Tobias. Talvez ela já o odiasse por isso.

- Está tudo bem, Severus? Isso foi algum treinamento do Lorde das Trevas? Eu... eu não consigo acreditar que se rebaixariam a esse nível e lhe dessem quatro facadas. Eu vou levá-lo ao Saint Mungus e você me conta quem fez isso – falou, enquanto se arrumava para saírem de lá com urgência.

- Eu estou bem, e isso não é nada – respondeu sem forças, apoiando o braço no tampo da mesa para se erguer.

- Eu o conheço bem o suficiente para saber que, quando você diz que não é nada, significa que há muita coisa ocorrendo. Me diga o que aconteceu, Severus! Desabafe logo... eu preciso de respostas. Quem foi o canalha que fez isso com você? – questionou, segurando-o para atravessarem a porta, rumo à lareira.

- Eu não quero ir... uma poção cicatrizante vai fechar esses ferimentos de dentro para fora. Essa maldita ferida só não foi costurada direito, mas eu já me certifiquei de que nenhum órgão foi atingido – afirmou, desvencilhando-se da mãe com uma certa brutalidade.

- Foi o seu marido... ex-marido. Aquele porco do Tobias é o responsável por isso – disse sem olhar para trás, assustando Eileen.

- Como ele te encontrou? – perguntou, abalada.

Mesmo fingindo serenidade, diante dessa revelação, as mãos dela tremiam. Tentando focar sua atenção nos frascos de poções, que mexia apressadamente, ela esperava uma resposta. Temia que todo aquele pesadelo retornasse à vida dos dois.

Sem prestar atenção nos gritos e nos palavrões que Severus soltava devido à dor, à medida que a poção era jogada nos cortes, Eileen parecia estar em outra dimensão. Seu semblante estava lívido, sem demonstrar qualquer sentimento, enquanto controlava a própria respiração. Precisava, mais do que nunca, manter a calma. Enquanto observava a condição em que o filho se encontrava, vez ou outra, ela o analisava e reconsiderava se o melhor não era levá-lo ao hospital para uma revisão.

A conduta inquieta e confusa, com a qual Severus parecia lidar com a situação, a afligia e consternava. Havia algo muito mais profundo e sério o desestabilizando, mortificando seu ponto de equilíbrio e o deixando próximo à explosão de ira.

- Poderia, por gentileza, me contar exatamente o que aconteceu?

- Eu acabei brigando com um daqueles imbecis do Spinner's End. Nada que você deva se desesperar... aquele vagabundo apareceu e isso aconteceu. Certamente, eles planejavam invadir minha casa – mentiu, colocando as mãos nos bolsos para conter a ansiedade.

- Compreendo - retrucou Eileen, franzindo o cenho e encarando-o fixamente, sua expressão refletindo total incredulidade diante das palavras que ouvia.

- Mãe, o que nos interessa é minha rápida ascensão e o fato de que logo atingirei meu lugar de honra ao lado do Lorde das Trevas. Sei que ele ficará muito feliz quando souber que fui responsável por eliminar mais um trouxa do mundo – continuou, sem prestar muita atenção no que dizia, apertando as cicatrizes recentes.

- Que ótimo, não é mesmo... - ela sussurrou com um tom de ironia, enquanto o encarava atentamente, sem desviar os olhos.

- O melhor de tudo é que parte do meu acordo com ele já foi cumprida – sorriu ao concluir suas ponderações.

Ele ansiava desesperadamente por um momento de felicidade, uma fuga temporária das preocupações que o consumiam, como se estivesse deitado em uma cama de espinhos. Precisava encontrar um refúgio onde pudesse deixar de lado as memórias cruéis e angustiantes que o assombravam, aquelas que o levavam a se sentir como se estivesse atravessando trincheiras profundas, que obscureciam sua compreensão sobre o verdadeiro significado da vida. Necessitava apagar essas lembranças insuportáveis, pois elas minavam sua esperança e obscureciam o valor precioso de cada inspiração vital.

Crendo que estava prestes a medir as marcas de sua natureza errante de maneira equivocada, Severus se limitou a dar continuidade ao que estava relatando. Não perderia o prumo, mesmo que prematuramente os tambores da solidão e das trevas retumbassem, fazendo com que, mais do que nunca, sua alma se distanciasse das estrelas de ouro que lhe foram prometidas.

- Entendo... como eu disse, isso é maravilhoso - Eileen murmurou, perplexa ao ouvir as palavras absurdas fluírem dos lábios dele com uma naturalidade perturbadora.

- Eu estava convicto de que você entenderia. Bellatrix teve aquela menina estranha em junho, e nosso mestre está satisfeito com isso... ainda mais porque aquela pequena criatura parece utilizar legilimência o tempo inteiro, enquanto nos observa – comentou, resumindo, na tentativa de mudar o foco do assunto.

Evitaria entrar em detalhes e toda a exposição que começava a pressioná-lo negativamente. Usar o nascimento de Delphini como um desvio significativo em sua argumentação poderia ser a melhor saída para amenizar a inquietação que começava a reinar em seu âmago.

Severus analisava minuciosamente todas as possibilidades e perspectivas imediatas que pudessem lhe conceder o precioso tempo necessário para forjar qualquer desculpa convincente e escapar da cozinha. Seu único desejo era encontrar um refúgio no silêncio. Tudo se resumia a isso, à sua imperiosa necessidade de calma e solidão.

- Aquela criança é o Agoureiro que ele tanto desejava? - questionou Eileen, sentindo um arrepio percorrer-lhe a espinha ao cogitar tal possibilidade, franzindo o cenho com repugnância ao supor o que acabara de ouvir.

Cada palavra ecoava em sua mente, trazendo consigo um sentimento de apreensão e inquietude, como se estivesse à beira de desvendar um segredo sombrio e perturbador. Seus olhos gélidos fitavam Severus, carregando uma reprovação contida, aguardando pela resposta. Ela testemunhava o descaso com que ele tratava a gravidade daquela profecia, ignorando completamente o quão prejudicial seria a existência de um ser nefasto destinado a trazer desgraça à vida dos outros.

A tragédia e a desintegração das fundações mais sólidas dos Sagrados Vinte e Oito, a aniquilação completa da linhagem dos Black... eram os termos mais marcantes do reinado do demônio alado, concebido e arquitetado por Voldemort. Se essa informação se confirmasse, seria o prenúncio de dias sombrios que antecederiam um destino inevitável. Era como se um véu de tristeza se estendesse sobre sua existência, tingindo cada pensamento com a sombra da ruína iminente. O futuro se apresentava como um campo minado, repleto de obstáculos intransponíveis e dores insuperáveis. A realidade se fragmentava diante de seus olhos, revelando uma perspectiva desoladora que ameaçava engolfar tudo o que ela conhecia e amava.

- O que a senhora supõe? Delphini o encherá de orgulho e glória, isso basta! "Por Voldemort e Valor", ou seja lá qual for o lema, eu espero que o mundo queime e carregue a maioria desses animais... eu não me importo - enfatizou ele, quase sussurrando, sem mover-se, perturbado pelo questionamento.

Severus cravou seu olhar no chão, evitando perder o controle de seu gênio furioso e o desgosto profundo que sentia por tudo e por todos. Desde que compreendera a clara divisão do mundo entre aqueles que manipulavam e aqueles que persistiam em se iludir, tornara-se cético. Nada mais tinha o prestígio satisfatório que merecesse sua atenção ou tivesse algum significado de importância. Um desinteresse evidente em sua conduta e na maneira como conduzia suas decisões, claramente desrespeitando muitos dos padrões que lhe foram impostos.

- Infelizmente, sua mente brilhante não se preocupa com isso no momento, não é, Severus? Você também não se abala com o fato de ter sido esfaqueado por seu próprio pai e, muito menos, com as demais coisas que estão acontecendo. Estou convicta de que deve existir algo mais sério corroendo-o aos poucos, e você não se digna a me dizer nada... recusa minha ajuda - explicou ela, tentando atingir o ponto que o abalava e fazê-lo abrir-se, mesmo que minimamente.

Eileen sabia do esforço que seria necessário para que ele expressasse seus medos, especialmente quais eram as causas que o impulsionavam a tornar-se cada vez mais rebelde e revoltado. As razões de sua ira não poderiam estar relacionadas às agressões que ambos sofreram de Tobias. Se fossem, Severus não seria tão indiferente a isso. Para ela, aquilo era página virada. A miséria era um tema superado... eles não eram ricos, mas tinham uma vida bastante confortável, em que nada faltava, e estavam livres da fome. Tudo isso fazia parte do passado, assim como as muitas humilhações sofridas.

Isso a forçava a abandonar todas as suposições previamente consideradas, em uma busca incansável para desvendar a verdade por trás dos acontecimentos. Era uma tarefa árdua, quase insuperável, compreender os tormentos que o consumiam de forma tão doentia e sombria. Quais eram as motivações profundas que levavam seu filho a se tornar tão implacável e desprovido de compaixão?

- O que mais a senhora quer ser informada? Se quer saber, eu não desisti da minha vingança... ainda falta uma parte. Aquela que vai destruir o coração daquela idiota. Eu sempre vejo as memórias na Penseira, e o que me revolta é que eu não a odeio o suficiente para conseguir cumprir a promessa que fiz a ele. A promessa que fiz ao único homem que reconheço como pai... – desabafou, abrindo um fragmento de suas incertezas, com uma sinceridade cortante. Suas palavras eram como uma lâmina afiada que desvendava o véu do desconhecido, trazendo consigo um peso inegável. Cada sílaba proferida parecia ser uma pedra que repousava pesadamente sobre os ombros de Severus.

Era evidente que, mesmo relutando em considerar a ideia de se aproximar do perdão e pôr fim àquele sofrimento, havia uma sensação libertadora em apontar para aquela desgraça. A cada frase pronunciada, era como se despejasse toneladas de concreto que pesavam implacavelmente sobre seus ombros, esmagando-o com a carga do passado.

Percebendo que estava mais leve e tranquilo, Severus recuou do iminente ataque de fúria e do esquecimento dos reais motivos que o conduziam diariamente ao abismo e à destruição. Passando as mãos compulsivamente pelos cabelos, encarou Eileen como se procurasse a solução para as perguntas que se recusava a expressar.

- Ora, deixe isso para trás! Aquele homem era verdadeiramente perverso. Você não é ele, e aquilo que sempre observa não existe mais... é algo simples de compreender. Bellatrix ainda é uma menina, com pouquíssimo juízo, mas está muito distante de ser a mulher sádica que aquelas memórias retratam. Isso torna suas justificativas completamente sem sentido. Sinceramente, não vejo motivo algum para prosseguir - Eileen afirmou com determinação, fixando ainda mais seu olhar nas expressões dele.

- A senhora não compreende, mãe... - retrucou Severus, devolvendo o olhar com uma expressão de segurança inabalável.

- Ah, ao contrário do que você pensa, Severus, agora compreendo muito bem... - respondeu ela, emitindo uma ênfase notável, enquanto suas palavras endureciam.

- É por isso que te vejo agindo como um moleque vil e canalha com aquelas meninas. Não foi apenas uma vez, mas em diversas situações.

Eileen queria chocá-lo com o que estava ouvindo, queria que ele entendesse em que ponto estava chegando com tamanha cegueira. Aquela era uma barreira que, uma vez atravessada, não haveria como voltar atrás. Severus, por sua vez, queria seu apoio e compreensão, mas só recebeu uma grande repreensão por parte dela.

Agora, não adianta mais pensar em uma alternativa. Mesmo ciente do quanto estava sendo implacável com o filho, Eileen prosseguiria. Diante do modo como ele a observava, ela seguiu firme em suas determinações. Era imprescindível fazê-lo desistir, obrigá-lo a recobrar a razão e reconhecer o óbvio. Com essa postura firme, Eileen supunha que era preferível que Severus sofresse um baque do que continuasse tendo atitudes desprezíveis e vergonhosas com todos os que o cercavam.

- Eu vou lhe fazer um aviso... - iniciou ela, com uma expressão séria.

- Pare de cercar as meninas Black! Isso já ultrapassou todos os limites. Você se mostra incapaz de amar quem quer que seja. Insiste em uma vingança sem sentido e em um romance com alguém que nem sequer existe - sua voz carregava indignação, enquanto ela se esforçava para mantê-la calma e tranquila.

A forma paciente com que ela expressava suas considerações atingia Severus como flechas em chamas, infligindo feridas profundas em seu âmago. Ele se sentia impotente, sem saber como se proteger. Estava atordoado, perdido em suas emoções. Naquele instante crucial, Eileen percebia que estava diante de uma encruzilhada onde poderia perder por completo a confiança do filho ou, quem sabe, reavivar a chama da lucidez que se esvaía a cada minuto que passava.

- Nunca mais se atreva a dizer que devo descumprir minha promessa. Eu disse ao meu pai que o vingaria, que traria sua rainha de volta... aquela que o fez atravessar os oceanos do tempo para tê-la novamente! - Severus esbravejou, socando a mesa com força.

- Preste atenção nas suas próprias palavras! No fundo, você mesmo sabe que aquele homem era você... em outra realidade, resultado de uma vida que desconhece. Ele nunca foi seu pai de verdade! Sua presença entre nós só serviu para revelar o quão egoísta e vil você pode ser, ao plantar tais ideias na mente de um inocente. Como eu disse anteriormente, aquele homem era maligno, era perverso! Você, Severus, já deveria ter deixado tudo isso para trás e seguido em frente! - Eileen perdeu a paciência, seus gritos refletindo todo o aborrecimento que transbordava dentro dela.

Severus estava revoltado diante daquelas frases assertivas e justificativas tão certeiras que o cortavam internamente. Assimilava que havia dado muitos passos equivocados e que somente mais um decretaria o fim de qualquer possibilidade de que seus sonhos de ascensão e sua promessa virassem realidade. Era apenas mais uma constatação dura, entre inúmeras, que só serviam para confundi-lo e matá-lo aos poucos por dentro.

Antes daquela discussão, enquanto estava longe de casa, ele era feliz e vivia bem. Mesmo que, para isso, tivesse que fingir que nada acontecera e enfrentar todos os contratempos que surgiam, como um soberano, sem se abalar. Agora, com todas as críticas recebidas, sentia-se um miserável.

- O que mais me impressiona é que chegamos na questão! Se você julga que tudo vale a pena pela promessa que fez, ou que não está se divertindo às custas de ninguém, dê um fim nessa história. Pare de tratar Bellatrix ou Narcissa como duas prostitutas que estão à sua disposição. Eu venho repetindo isso há anos e você sempre ignorou meus conselhos. Agora, vejo que sua consciência está pesando e que o desespero já o afeta - repreendeu, se aproximando e o sacudindo pelo braço, com tanta força que o deixou assustado com a agressividade que a mãe demonstrava.

Eileen estava tomada pelo desespero, e sua conduta violenta refletia seus medos mais profundos. Sentia-se compelida a expressar sua indignação intensa diante da teimosia, soberba e falta de empatia de Severus. Seu objetivo era fazer com que ele percebesse que não era detentor da verdade absoluta, especialmente quanto aos erros presentes em suas determinações e ações em relação aos outros. Ela estava determinada a lutar para que seu filho resgatasse sua capacidade de amar e, mesmo que apenas um pouco, voltasse a ser aquele menino sonhador e cheio de vida que havia chegado em Caerleon tantos anos atrás.

- Não encoste mais em mim... – Severus afirmou, afastando-se com um olhar raivoso.

- Eu não vou sofrer, um segundo que seja, sem ter vingança. Eu vou destruir um a um... Todos os que foram responsáveis por isso. Tobias já está morto, se quer saber. Logo, haverá outros. Eu não admito que se meta nas minhas escolhas ou na minha vida! Entendeu? - cuspiu as palavras furioso, segurando-se para não destruir os móveis da casa e descontar todo seu ódio.

Suas entranhas queimavam, deixando-o cego pela crescente ira que se apoderava de todas as suas células. Não aceitava se ver tão insultado e hostilizado por aquela que deveria protegê-lo e lhe dar apoio. Naquele instante, observava a mãe como apenas mais uma a atacá-lo moralmente. E não a perdoaria.

- Ah, claro... agora está ofendido! Entretanto, você vai me ouvir, seu estúpido - Eileen foi atrás dele, agarrando-o pelo braço.

- Sai da minha frente... - disse ele, afastando-se e tentando libertar-se da mão que o segurava com firmeza, enquanto se preparava para partir.

- Bellatrix, que não existe mais, tirou o amor da vida daquele a quem você se refere como pai. E você, que não está nem perto de ser aquela pessoa que invadiu nossa casa, decidiu roubar todos os sonhos dela. Ou realmente acredita que aquela menina está feliz com o que tem? Ela finge que não ama o próprio primo! Mesmo que Sirius seja tudo na vida dela, foram tantos anos com você colocando ideias erradas e afirmando que o melhor era o poder, que ela renunciou ao que importava - Eileen acusou, apertando o braço de Severus com mais força.

- Quanto a Narcissa, o que ela lhe fez para que a trate como uma vagabunda? Está tão obstinado que sequer é capaz de perceber o que está debaixo do seu nariz - continuou, agora com o dedo em riste.

O espancaria, se fosse necessário, até que confessasse todos os problemas que causara ao longo dos anos. Com os nervos à flor da pele, gritava a plenos pulmões e decidiu estapeá-lo ao receber como resposta uma espécie de rosnado. Uma atitude que foi a gota que faltava para esgotar o pouco de paciência que ainda lhe restava.

Não havia outra solução além de uma surra para que Severus voltasse a se comportar como uma pessoa decente. O que mais a deixava possessa era a falta de respeito. Ainda mais quando o via como um rapaz sábio e digno, porém que se deixava guiar por uma ânsia estúpida de condenar o mundo inteiro por horrores que não vivenciara.

- A senhora é louca! Bella ama o Lorde das Trevas e é fiel, unicamente, a ele... e Cissy, nunca me fez nada. Eu não aceito que fale que eu não tenho qualquer consideração por ela. Jamais a trataria como uma puta ou como uma obtusa. Cissy é uma pessoa doce e sensível, eu só quero que se afaste daquele crápula do Lucius Malfoy e não se case com ele – argumentou contrariado pelos tapas que recebia.

Estava irritado pelo modo ardiloso com o qual o assunto fora abordado. Não admitiria sequer uma mera alusão, rude e afrontosa, de que tratava as irmãs Black como prostitutas da Travessa do Tranco. Aquilo o enojava, ao pensar no quanto as afirmações de Eileen eram censuráveis em muitos níveis, o ofendendo diretamente. Especialmente pelo fato de que o nome de Narcissa havia sido citado em meio àquela podridão.

As palavras vindas de sua mãe desconsideravam, quase em sua totalidade, que a relação dos dois era de confiança e amizade desde a infância. O que fazia com que o sexo tivesse se transformado em uma consequência do carinho que compartilhavam. De qualquer forma, e independente do que sentisse, não concordaria com qualquer afirmação que depreciasse a honra das duas. Principalmente, a honra de Narcissa deveria ser reverenciada como algo sagrado.

- Muito bem, Don Juan! Deixe-me ver se eu sou capaz de atingir o seu mais alto grau de sabedoria... você afirma que ama ou vai amar, isso pouco importa, uma menina que nascerá em 1979. Estou certa? No entanto, o tão nobre sentimento não o impede de ser moralmente sujo e se envolver com a tia e a mãe dela – Eileen o recriminou sem mais rodeios.

- Eu já disse que não tive merda nenhuma com a Bellatrix! Pare de me acusar por coisas que eu não fiz – sua raiva explodiu, o fazendo quebrar a mesa ao meio.

- Ah, então admite que está envolvido com a Narcissa! Sabe o que você é? No meu ponto de vista, Severus, você não passa de um cafajeste do pior tipo e é digno de nojo. Você pode ter matado seu pai e metade de Birmingham, mas nunca vai deixar de ser um vagabundo igual a eles – berrou, empurrando-o ao constatar que não estava sendo ouvida.

Agarrando Severus pelo queixo, para que a encarasse, Eileen conseguiu que todo o ódio dele viesse ainda mais à tona. Sentindo o chão e os vidros trepidarem, dado o descontrole do núcleo mágico do filho, ela continuou firme e segura. Não declinaria, mesmo que a temperatura caísse até chegar às escalas mais negativas. Não permitiria que ele a confrontasse ou teimasse novamente. Teria de obedecê-la e se separar daquelas jovens definitivamente.

- Eu não tenho culpa de que a senhora se casou com aquele estuprador para dar o mestiço perfeito que tanto o Lorde das Trevas desejava como general. Eu também não sou o responsável pelo seu romance com o Rosier... ou acha que eu não sabia disso? Além do mais, me agradeça, porque se dependesse da sua burrice e dos seus enormes esforços em agir como uma fraca, já estaria morta – gritou, impulsionado por toda a raiva que corria em seu sangue, não medindo o peso ou a gravidade do que acabara de falar.

Sem ter tempo de reação, foi esbofeteado, quase se desequilibrando na tentativa de segurá-la para que parasse de o agredir. Surpreendido pela fúria assassina que em tempo algum Eileen havia apresentado, procurou se esgueirar. Contudo, foi jogado contra a parede por uma espécie de golpe de vento.

- Quem você acha que é para me insultar? Eu não tenho medo de uma criança boba, birrenta, mimada e que se julga um grande general. Você não passa de um bostinha, supervalorizado graças ao Lorde das Trevas! – sibilou, perigosamente, se aproximando de onde o prendera.

Estava injuriada com tamanho desrespeito e a postura hostil adotada por ele ao enfrentá-la. Não toleraria que o filho a atacasse verbalmente ou desafiasse a sua autoridade com tanta veemência. Muito menos, esqueceria a tamanha desconsideração... aquele era o ponto final.

- Cale a boca, Severus! – disse, silenciando-o com um feitiço.

- Você teve inúmeras oportunidades para construir uma vida linda e jogou tudo fora. Essa é a verdade! Como insiste em se portar como um maldito bastardo, esteja ciente de que, a partir de hoje, você não mora mais nessa casa – afirmou, dando-lhe as costas e deixando-o sozinho na cozinha, sem olhar para trás.

Severus, finalmente liberto do feitiço, permanecia encostado na parede, sentindo o peso opressivo das palavras proferidas e das verdades cruas expostas. A voz de sua mãe ecoava incessantemente em sua mente, ressoando como um sino triste que anunciava suas feridas mais profundas. Internamente, ele se debatia em meio a uma tempestade de emoções, tentando desesperadamente encontrar uma saída desse labirinto tortuoso. A dor lancinante da rejeição e a sensação avassaladora de abandono lhe causavam uma angústia que parecia rasgar sua alma. Ao mesmo tempo, a consciência implacável de suas próprias falhas e erros o atormentava como um fardo insuportável. Contudo, mesmo diante de toda essa tormenta, não havia mais retorno possível. Severus estava irrevogavelmente marcado pelas escolhas que fizera.

Por sua vez, Eileen, agora distante da cozinha, encontrava-se sentada na beira da cama em seu quarto, consumida pela agitação emocional que a invadia. Seu coração apertado doía diante dos questionamentos que tumultuavam sua mente. As certezas que antes a guiavam agora eram obscurecidas pela dúvida. Será que havia agido corretamente? Será que suas palavras haviam sido excessivamente duras?

Severus ainda era um menino, um jovem de apenas 17 anos, perdido e atordoado por questões que não eram de sua responsabilidade. Essa reflexão a envolvia com culpa e tristeza, parecendo sufocá-la. Sentia o impulso irrefreável de se levantar e ir até ele, buscando uma reconciliação, um consolo. No entanto, sabia que precisava se manter firme em sua decisão. Era talvez a única forma de o proteger verdadeiramente e fazê-lo reconsiderar seu caminho. Era talvez a única maneira de trazer de volta aquele menininho de olhos brilhantes que ela tanto amava, preservando ao menos algum resquício de dignidade. Com um suspiro pesaroso, Eileen se resignou àquela difícil escolha, seu olhar fixo na janela do quarto, refletindo a mágoa que a consumia.

Aquele momento representava uma virada crucial nas vidas de ambos. O que inicialmente seria apenas uma discussão acalorada havia se transformado em um rompimento profundo entre eles. Nada mais seria como antes, isso estava claro. Era o instante em que as últimas estruturas e amarras desmoronavam. Os antigos parâmetros que ainda o sustentavam ruíam, deixando Severus em um vazio desconcertante.