Nas últimas semanas, o tempo parecia escoar com uma lentidão sufocante, enquanto um calor opressivo pairava no ar, desencorajando qualquer tentativa de realizar até mesmo as tarefas mais simples. O ambiente abafado e úmido transformava cada atividade em um verdadeiro desafio exaustivo, tornando até as tarefas mais banais em uma jornada morosa e gradual. Em meio a esse cenário desafiador, evidenciava-se a árdua tarefa de reformar a casa em Spinner's End, buscando transformá-la em um refúgio habitável. Um tão sonhado lar onde finalmente encontraria paz e poderia organizar seu pequeno laboratório, dando início à vida que tanto ansiara após concluir seus estudos.
Eram os últimos dias de férias e ainda havia uma quantidade imensa de trabalho a ser feito. Cada passo na reforma da casa era como uma jornada em si mesma. Nem tudo poderia ser resolvido com um simples toque de magia, e essa limitação gradualmente corroía a energia de Severus. A cada martelada e pintura, ele sentia a satisfação de estar moldando seu espaço, colocando sua marca pessoal em cada detalhe. O anseio por criar um ambiente acolhedor e inspirador para si mesmo era uma motivação poderosa que o impelia a prosseguir, mesmo diante dos obstáculos e da exaustão. Ele imaginava quão gratificante seria poder, finalmente, desfrutar de momentos de descanso em seu pequeno santuário, rodeado por prateleiras repletas de livros raros e ingredientes preciosos para suas poções.
Um pensamento que o fez respirar fundo e observar o seu entorno, enquanto se sentava no chão e encarava as paredes agora pintadas de cinza que abrigavam as suas estantes repletas de livros. Seus músculos pareciam castigados pelo esforço físico, sua mente cansada pelo caos exterior e interior que, vez ou outra, se interligavam, exigiam momentos de paz e sossego para se libertar do peso pelos desafios enfrentados.
A verdade é que a solidão e o esgotamento o consumiam, tornando os sentimentos mais intensos e inexplicáveis a cada dia. Mesmo com a presença constante e acolhedora de Andromeda e Narcissa, que faziam de tudo para não o deixar sozinho por muito tempo, essa companhia não era suficiente. Havia um vazio profundo dentro de Severus, uma sensação indescritível que ele não conseguia expressar com clareza.
No íntimo, ele tinha a resposta. Aquela estranha sensação que assombrava seus pensamentos era a dura constatação de que ele jamais imaginara o quão doloroso seria assumir a responsabilidade por suas próprias escolhas. Não havia alternativa a não ser seguir em frente com aquilo que estava diante de seus olhos, enfrentando os novos desafios ocultos nas sombras de seu destino. A cada dia que passava, a hora de decidir qual caminho trilhar e realizar seus sonhos se aproximava inexoravelmente.
Sobre a mesa, um amontoado de cartas, fotografias, convites de aniversário e casamento, além da lista de material escolar para seu último ano, criavam uma pilha caótica. Ao lado, uma edição do Profeta Diário trazia estampada a manchete do mais recente escândalo protagonizado por Sirius, somando-se a tantos outros que marcaram o período desde o início do mês de junho. Contudo, os últimos dias haviam sido marcados por um caos ainda mais intenso e turbulento.
Em um intervalo de apenas duas semanas, o primogênito de Orion e Walburga Black incendiara o mundo bruxo com uma série de atos desenfreados e absurdos. Tudo começou quando ele decidiu voltar à casa dos pais por um breve período e, em um surto de fúria incontrolável, saiu pelas ruas aos berros, causando uma cena que certamente ficaria gravada na memória de todos que presenciaram. Seu alvo foi o carro de um trouxa, que foi atingido em cheio por uma pedra lançada por Sirius, em um acesso de raiva desmedido.
Naquele momento de explosão emocional, além da agressão física, ele proferiu uma série de insultos cruéis contra seus pais, ofendendo-os com palavras degradantes. Gritou com todas as forças de sua alma que desejava "vê-los queimados vivos por defenderem a supremacia dos sangues puros". Em seguida, continuou sua saga destrutiva, chutando tudo o que encontrava pela frente, até decidir retornar à frente da casa e escandalizar ainda mais os mais velhos, ao expor uma lista extensa de nascidas trouxas com quem ele havia se envolvido, causando uma vergonha avassaladora.
Após deixar para trás a casa de seus pais, Sirius deu continuidade às suas loucuras pelas ruas de Londres, na companhia inseparável de seu amigo James Potter. Os dois se envolveram em uma sucessão de incidentes, celebrando o relacionamento formal de Sirius com Bellatrix. Estavam em um estado de euforia absoluta, completamente envoltos em sua própria narrativa de sucesso. Sirius tinha a convicção de que conseguiria tudo o que desejava, ignorando por completo os desejos e necessidades dos outros. Bellatrix finalmente pertenceria a ele, e ele faria de tudo para realizar seus caprichos.
Além disso, a certeza de que Delphini era sua filha continuava a se fortalecer, crescendo dentro de seu peito como um incêndio inextinguível. Na tapeçaria em que se encontrava a "árvore genealógica maldita", algum erro havia ocorrido, ocultando a verdade mais pura. A menina era uma Black, uma herdeira do nome e do prestígio da família, e isso era tudo o que importava para Sirius. A casa, a fortuna, a prima e a criança, todo o poder lhe pertencia. Todos deveriam se curvar diante do homem que se tornaria o mais novo senhor daquela dinastia, obedecendo cegamente às suas regras.
Resumidamente, em poucas horas, os dois Marotos se embriagaram e partiram em uma jornada de motocicleta pelas ruas da cidade. Desrespeitando todas as normas de trânsito e a segurança das pessoas ao redor, James e Sirius cruzaram avenidas em alta velocidade, alheios aos perigos iminentes. Por pouco, não causaram um grave acidente, levando um carro a fazer uma manobra arriscada para desviar deles. Quase colidindo de frente com um caminhão, enquanto gargalhavam e gritavam descontroladamente. A anarquia generalizada que eles propagavam tornou-se a principal manchete daquela edição do Profeta Diário.
- Esses imbecis são ainda mais estúpidos do que eu imaginava - proferiu Severus em voz alta ao iniciar a leitura, sua voz ecoando com um misto de sarcasmo e desprezo, enquanto mergulhava nas notícias.
Segundo as informações meticulosamente apuradas por Rita Skeeter - uma repórter recém-contratada pelo jornal e que já mostrava especialização em polêmicas -, policiais ficaram feridos em virtude de feitiços desconhecidos, aurores foram agredidos por uma multidão enfurecida e até uma inocente criança foi brutalmente atropelada. Para aumentar a magnitude do caos que se instalou, Comensais da Morte foram avistados sobrevoando a região, lançando uma sombra de medo e desespero sobre a população atônita. Essas notícias não apenas geraram discussões acaloradas dentro do Ministério da Magia, mas também levaram à abertura imediata de um processo judicial contra todos os envolvidos.
A situação se tornou ainda mais complexa quando as testemunhas trouxas foram submetidas ao feitiço Obliviate, que apagou suas memórias, e posteriormente tiveram suas lembranças adulteradas. O objetivo era garantir que nada comprometedor fosse revelado durante a audiência. No entanto, antes mesmo do julgamento, Dumbledore tomou a frente, defendendo ardorosamente seus "inocentes grifinórios". Ele alegou que tudo não passara de "uma simples brincadeira, um deslize juvenil motivado pelo ímpeto da puberdade e pela efervescência da juventude".
Enquanto lia aquelas palavras, Severus refletia consigo mesmo que atropelar um menino de apenas 8 anos e fugir sem prestar socorro não passava de uma gota no oceano em comparação ao vasto catálogo de ofensas, insultos e violências que ambos acumulavam em suas obscuras fichas criminais, habilmente ocultadas pelo próprio diretor de Hogwarts. Certamente, se esses registros fossem descobertos e minuciosamente analisados, revelariam inúmeras tentativas fracassadas de assassinato. Era inegável que Sirius e James eram excelentes exemplos de "cidadãos de bem".
Os efeitos devastadores daquelas ações irresponsáveis não podiam ser ignorados. O atropelamento resultou na paraplegia de uma criança, enquanto três policiais tiveram suas gargantas cortadas e um auror perdeu o braço direito. O Ministério da Magia arcou com indenizações anônimas que ultrapassaram a cifra astronômica de 1 milhão e 500 mil libras, além dos incontáveis galeões enviados à família do jovem que se viu incapacitado de trabalhar indefinidamente. A tragédia estava diante de todos, mas havia uma questão perturbadora: se qualquer outro bruxo tivesse praticado tais atos contra trouxas ou ousasse atacar um membro do Ministério, certamente seria enviado para Azkaban, sem qualquer chance de redenção. O julgamento seguiria seu curso, e o infrator enfrentaria as consequências de seus atos. No entanto, James e Sirius continuavam livres, ilesos diante das graves acusações que pairavam sobre eles. Era inevitável questionar: qual era a diferença?
A cada instante, cada frase lida e cada ponderação feita, Severus sentia um crescente sentimento de repulsa por tudo o que testemunhava. O mundo havia sido virado de cabeça para baixo, e ninguém parecia se importar verdadeiramente com os abusos e atrocidades que se desenrolavam diariamente. Em sua concepção, Sirius não passava de um parasita mimado, hipócrita, vagabundo, briguento e cafajeste.
Era um espetáculo desolador quando ele enchia o peito para proclamar, a plenos pulmões, que era contra a defesa da pureza do sangue ou que possuía um amigo considerado um traidor e outro que era mestiço. Porém, isso não o impedia de utilizar palavras e agressões que beiravam a crueldade, dignas dos mais notórios Comensais da Morte. Severus jamais esqueceria daquele dia em que escutara, oculto nas sombras, os sussurros vindos da boca daqueles dois, insinuando que ele não passava de um morto de fome com sangue impuro.
No entanto, o mais intrigante de tudo era que Sirius, autoproclamado defensor da liberdade, estava determinado a obrigar uma exímia defensora dos Sagrados Vinte e Oito a ser sua esposa. Talvez, essa atitude fosse apenas mais uma prova de que ele nunca deixara de ser um estúpido irritante, que utilizava os sentimentos como escudo e bandeira. Apresentava-se com todas as contradições de um excelente demagogo, manipulando habilmente as artimanhas que a família Black sempre utilizara em seus comunicados solenes.
Após mergulhar e refletir por horas a respeito de tais notícias, uma ironia cortante e sardônica percorria suas palavras e pensamentos. Ele não podia deixar de notar a hipocrisia da sociedade bruxa, evidente em algumas pessoas e na maneira como alguns eram protegidos por sua posição social, pelo sobrenome que carregavam ou por amizades influentes, enquanto outros menos favorecidos seriam condenados sem piedade. Isso o fazia questionar os valores e princípios que regiam o mundo bruxo, tornando-o ainda mais cético em relação àqueles que se apresentavam como "defensores da justiça".
Foi em meio ao caos que o mês de setembro chegou, trazendo consigo o anúncio de que aquele ano letivo seria ainda pior do que Severus havia imaginado. Era como se a realidade superasse em absurdos todas as obras de ficção científica que ele já havia lido. Era angustiante constatar que o anormal havia se tornado o novo normal, uma rotina diária no mundo mágico. E, nesse contexto incomum, Andromeda tomara a decisão de acompanhá-lo até a estação King's Cross.
Antes de atravessarem a parede que os levaria à Plataforma 9, ela revisava o malão várias vezes, enchendo Severus com recomendações para que ele aproveitasse ao máximo seu último ano e as oportunidades que surgiam diante dele. Nem todos os alunos haviam recebido a chance de trabalhar com Slughorn, ou melhor, de serem indicados por ele para um estágio com Flamel.
- Logo você estará no Ministério da Magia... quem sabe assumirá o posto de Pocionista Chefe no Saint Mungus? – comentava Andromeda, demonstrando atenção meticulosa aos detalhes, enquanto ajustava as vestes de Severus com delicadeza, assegurando que ele entrasse no vagão com uma aparência impecável.
- Você ficará orgulhosa de mim? – questionou, interrompendo-a no que estava fazendo e provocando um olhar sério em sua direção.
- Embora você não acredite, seu canalha, eu sempre senti muito orgulho do seu brio, da sua inteligência e da sua dignidade – ela afirmou, com um ar de preocupação, sem desviar os olhos do rosto dele
Os olhos escuros de Severus, carregados de intensas emoções, buscaram refúgio no chão, como se o peso dos anos de autocontenção estivesse pesando em seus ombros, quase como um fardo insuportável. Ele se sentia vulnerável, exposto, como se um feitiço de revelação tivesse sido lançado sobre seu corpo, desnudando sua alma perante a amiga de infância. Era como se Andromeda tivesse o poder de ler sua essência mais profunda.
Nunca fora fácil para Severus aceitar afeto e elogios, pois sempre vivera na sombra da desconfiança e do desprezo. Desde criança, aprendera a se proteger com uma carapaça fria e desdenhosa, um escudo impenetrável que mantinha as pessoas afastadas, inclusive aqueles que poderiam se importar verdadeiramente com ele. Aprendeu cedo que a vulnerabilidade era um risco que não podia se dar ao luxo de correr, mas, ali, diante de Andromeda, tudo era diferente. Havia algo em sua amizade de longa data que o tocava profundamente, criando uma cumplicidade única, fazendo-os quase como almas gêmeas, irmãos de alma e sentimentos, apesar das diferenças de personalidade e trajetórias de vida.
Neste ponto, Severus se questionava se realmente merecia aquele apreço, principalmente após tudo o que ouvira de Eileen, antes de ser expulso de casa. Sentia o quanto aquelas palavras eram carregadas de sinceridade e bondade, e isso fazia com que as dúvidas ecoassem incessantemente em seus pensamentos. Ele se perguntava se era capaz de corresponder às expectativas que Andromeda depositava nele, se poderia estar à altura daquela amizade profunda. A responsabilidade de corresponder àquele voto de confiança parecia uma montanha íngreme e intransponível à sua frente.
Por um instante, desejou poder expressar todo o turbilhão de sentimentos que o invadia, mas as palavras teimavam em se esconder em algum recanto inacessível de sua mente. A boca permanecia cerrada, e ele apenas assentia com um gesto leve da cabeça, como se quisesse expressar sua gratidão, mas ainda não encontrava a coragem necessária para verbalizar tudo o que se passava dentro de si.
E assim, em meio ao silêncio carregado de significados, Andromeda pôde perceber o quanto suas palavras tocavam fundo em Severus. O brilho compreensivo em seus olhos, mesclado a um sorriso afetuoso, indicava que ela sabia que suas palavras haviam alcançado seu coração. Mesmo taciturno, aquele gesto era a resposta de que, pouco a pouco, ele se abria para a perspectiva de ser amado e valorizado. Se abria para a possibilidade de aceitar quem era, com todas as suas contradições, e começar a se libertar das correntes emocionais que o prendiam.
- Não faça nenhuma besteira, Severus - declarou Andromeda, sua voz carregada de rasgos de preocupação, enquanto ainda o encarava intensamente.
- Não se preocupe...
As palavras de tranquilidade eram dirigidas a ela, mas também a si mesmo. Principalmente porque, em toda sua vida, Severus havia se sentido um estranho no meio de sua própria família e, naquele momento, ao perceber que Andromeda sempre esteve ali por ele, compreendeu o verdadeiro significado de uma família. Não a família teórica, mas a real, aquela que transcende os laços de sangue. A ideia e o sentimento que moveria alguém tão jovem a assumir uma responsabilidade tão grande e dedicar tanto cuidado a ele. Aquilo o surpreendia e emocionava profundamente, mesmo que tentasse se esconder por trás de sua máscara de frieza. Sobretudo ao notar que ela permaneceria ali, junto à estação, esperando até que o Expresso de Hogwarts partisse, como se não quisesse perder nenhum momento daquele adeus. Uma atitude que Eileen só teve em seu primeiro ano e, depois, abandonou completamente.
Com um olhar trocado, eles se entenderam além das palavras, compartilhando o elo inquebrável que os unia. Naquele momento de despedida, enquanto embarcava no trem, Severus sentiu a presença reconfortante de Andromeda como um abraço invisível, uma proteção contra os desafios que ainda estavam por vir. Sabia que não estava mais sozinho; havia alguém que o compreendia e o apoiava, não importando o caminho que ele escolhesse seguir.
- Darei o meu melhor, Andie... pode ter certeza disso - sussurrou Severus, acenando da janela em um gesto de despedida recíproco.
Ele ansiava que suas palavras fossem capazes de expressar a imensidão de sua gratidão e determinação em se transformar em alguém que ela pudesse verdadeiramente se orgulhar. Era um desejo genuíno de se tornar uma versão melhor de si mesmo, mesmo que os meios para alcançar essa melhoria lhe escapassem. Contudo, acima de tudo, Severus almejava encontrar uma maneira de não mais ferir aqueles que amava.
Num último segundo, impulsionado pelo que havia escutado, viu Andromeda acenando com um brilho orgulhoso nos olhos enquanto sua visão ainda alcançava a plataforma ao se afastar. Um sorriso escapou de seus lábios, sentindo-se mais leve e fortalecido por aquela conexão que transcendia o tempo e as adversidades.
Dentro do vagão, enquanto o trem deslizava pelos trilhos, Severus compartilhava a cabine com Bellatrix e Evan. As horas se arrastavam lentamente, e entre eles reinava um silêncio carregado de significados não ditos. Cada um imerso em suas próprias reflexões e questionamentos, a tensão pairava no ar como um feitiço não verbal. Severus lia Dostoiévski em silêncio, suas palavras ecoando em seus pensamentos. Evan, com a cabeça reclinada, escondia seus dilemas e inseguranças por trás de uma fachada tranquila e sonolenta. Bellatrix, ao brincar com seu Mr. Scarecrow, tentava desviar o foco de suas próprias angústias, mas seus olhos traíam a intensidade de suas emoções. Para um observador distante, parecia que nada havia mudado desde a primeira viagem deles no Expresso de Hogwarts. No entanto, aquela cena estava longe de refletir a verdadeira complexidade do que se passava entre os três.
O paradoxo do tempo e a desordem se entrelaçaram em suas motivações, criando uma teia intricada de equívocos e inconsistências. Era como se estivessem presos em uma engrenagem complexa que unia três estranhos, aparentemente sem qualquer interesse em comum, dentro do mesmo espaço. Ou será que tinham sonhos e projetos compartilhados, mas se recusavam a admitir?
Refletindo sobre o dilema que se estendia e se aprofundava ao longo dos dias e meses, a angústia de Severus transparecia através da forma impaciente e ansiosa que prendia os cabelos. Diante das inúmeras possibilidades que se apresentavam, ele ponderava sobre a tentação de roubar o Vira-Tempo concedido a Bartemius Crouch Junior, mas a ideia de desafiar o tempo o inquietava. As ações que Snape havia realizado já representavam um peso suficiente para encher várias vidas.
Assim, Severus sentia-se profundamente dividido entre a ambição de provar seu valor e o desejo de evitar seguir o mesmo caminho obscuro que Snape havia trilhado. Consciente de que o poder e a magia poderiam ser como uma faca de dois gumes, capazes de seduzir e corromper, ele ansiava por superar os feitos do antigo possuidor do Vira-Tempo. No entanto, ao mesmo tempo, carregava o temor de perder-se no processo e de esquecer novamente de sua verdadeira identidade.
Com esses pensamentos em mente, enquanto vagava pelos corredores de Hogwarts, Severus se sentia como um verdadeiro estranho. Ele não se encaixava mais naquele contexto de jovens imaturos, conversando sobre futilidades e medos insignificantes. Era uma tarefa difícil, mas naquele momento, ele precisava refletir profundamente. Faltavam apenas alguns meses para se libertar daquele lugar que tanto detestava, e a perspectiva de nunca mais colocar os pés ali o enchia de expectativa.
A solidão e a sensação de deslocamento envolviam Severus nestes dias como uma névoa opressiva, tornando cada passo que dava pelos corredores de Hogwarts um exercício solitário e melancólico. A ausência de seus amigos, que agora pareciam ter se distanciado dele, pesava em seu coração. Mas de alguma maneira misteriosa, Bellatrix decidiu voltar a incomodá-lo com suas conversas triviais toda vez que o encontrava. Era como se ela quisesse preencher o vazio que o cercava, trazendo à tona fotos de Delphini e compartilhando todos os detalhes de seu desenvolvimento. Cada pequena conquista da criança era motivo para Bellatrix passar horas extasiada, descrevendo a genialidade e o poder que via na filha. Na visão dela, a menina era a bruxinha mais poderosa e genial do mundo, destinada a superar todos os limites.
As conversas de Bellatrix despertavam um misto de sentimentos em Severus. Por um lado, ele sentia gratidão por ter alguém com quem conversar, mesmo que fosse justamente a pessoa a quem havia prometido odiar. Apesar da natureza peculiar de sua relação, a presença dela lhe trazia certo conforto, pois, afinal, eles haviam compartilhado uma espécie de amizade estranha durante anos. Por outro lado, não podia evitar o desconforto por sentir que aquilo parecia ser uma traição a si mesmo. A dualidade de seus sentimentos o envolvia em um conflito interno, uma batalha entre a apreciação dessa companhia familiar e o peso da quebra de suas próprias convicções.
Além disso, havia Evan, que também decidira retornar à sua vida. Severus reconhecia que esse retorno se devia à relação de confiança que haviam estabelecido desde o momento em que se conheceram, aos 8 anos de idade. Ao longo do tempo, tornaram-se confidentes, compartilhando problemas e incertezas. Ele enfrentava agora uma situação complexa, tendo que lidar com o noivado com Elizabeth Burke enquanto seu coração pertencia a outra: Virginia Wolfire, uma nascida trouxa. A angústia de Evan residia na dificuldade de cortar essa relação e no receio de decepcionar sua família, pois se apaixonara por alguém que não pertencia ao mundo bruxo idealizado pelos Sagrados Vinte e Oito.
Diferente de Bellatrix, Evan possuía a habilidade de reavivar a chama da amizade mesmo em meio às sombras que envolviam Severus. Sua aura de franqueza e sinceridade era como um farol, proporcionando ao amigo uma fonte de otimismo diante das incertezas do futuro. Essa conexão especial os aproximava, porém, também os tornava conscientes das barreiras que os separavam do mundo ao redor e das incertezas que aguardavam além dos muros de Hogwarts.
A resposta para essa dupla reaproximação talvez residisse no fato de que eles não conseguiam viver longe uns dos outros. A amizade que havia se forjado entre Severus, Evan e Bellatrix era uma teia complexa de emoções e laços, difícil de ser quebrada. Apesar das divergências e desentendimentos, eles se complementavam de alguma forma, como peças de um quebra-cabeça destinadas a se encaixar.
Embora tentasse negar, Severus secretamente ansiava por passar mais tempo com eles. Nos raros momentos em que estavam juntos e não tinham preocupações, a vida parecia mais simples e leve. Riam das pequenas tragédias que os cercavam, encontrando consolo e camaradagem uns nos outros. Era como se aqueles momentos fossem um refúgio temporário da realidade sombria e complexa em que viviam, uma pausa fugaz em meio ao turbilhão de incertezas que os assolava. Evan e Bellatrix compartilhavam a mesma perplexidade, sem entenderem por que haviam se afastado abruptamente, sem qualquer justificativa clara.
Imerso em seus pensamentos e conjecturas, Severus percorreu os corredores com passos apressados em direção à aula de Transfiguração. Era apenas mais um dos muitos caminhos que o levavam ao que ele considerava um profundo, absoluto e verdadeiro inferno... aquela turma era como uma câmara de tortura para sua inteligência. Era quase uma experiência de meditação e autoconhecimento, pois exigia um esforço hercúleo conviver com uma horda de idiotas, analfabetos, cabeças ocas e ignorantes. Ele respirou fundo, encontrando consolo na certeza de que, algum dia, aquele horror o ajudaria a alcançar a maestria em seu campo de pesquisa.
- "É a mais pura verdade, certa e muito verdadeira. Aquilo que está embaixo é tal e qual o que está em cima. Da mesma forma, o que está em cima é idêntico ao que está embaixo. Se você conseguir imaginar, desvendará e realizará todos os milagres de uma única coisa... assim como todas as coisas vieram do Um, elas tendem a ser únicas, devido à sua adaptação. Aprenda que o Tudo e o Nada são a mesma coisa para o Universo" – começou a recitar baixinho os preceitos da Tabula Smaragdina, redigida por Hermes Trismegisto, que deu início aos preceitos da Alquimia.
- "O Sol é o pai, a Lua é a mãe, o Vento é quem o embala em seu ventre, e a Terra é aquela que o alimenta. O Pai de toda Telesma do mundo está nisso, porque o poder do agente mágico é pleno quando se é convertido em Terra. Seja sábio e separarás a Terra do Fogo, o sutil do denso, suavemente e com grande perícia. Feita a prece, sobe da Terra para o Céu, desce novamente à Terra e recolhe toda a força das coisas superiores e inferiores, para que o caminho seja completo. É desse modo que obterás toda a glória e a verdade do mundo, e todas as trevas se afastarão" - Severus prosseguiu, fechando os olhos, prestes a colocar a mão para empurrar a porta e entrar na sala.
Ao entrar na sala de aula, os olhares curiosos dos alunos se voltaram para ele, misturados com um desprezo velado. Os colegas de classe, representantes de tudo o que odiava sobre aqueles que possuíam intelecto reduzido, eram apenas uma parte do desafio que Severus enfrentava diariamente. Era como se a turma fosse uma peça teatral sem sentido, com atores medíocres interpretando papéis vazios. A ironia da situação não passava despercebida por ele, e um discreto sorriso de desdém curvou seus lábios. Ele sabia que precisava ser paciente, controlar suas emoções e manter a compostura, mesmo que por dentro estivesse fervendo de frustração e desdém.
McGonagall, com sua postura autoritária e rígida, estava à frente do quadro explicando questões que, para Severus, pareciam ter saído diretamente de um manual acadêmico sem qualquer reflexão mais séria, desprovidas de qualquer paixão ou interesse genuíno pelo tema. No entanto, ele não desmerecia o brilhantismo do intelecto da professora de Transfiguração. Ao contrário, reconhecia plenamente sua sabedoria e habilidades, tendo presenciado momentos em que ela demonstrava uma paixão ardente pelo conhecimento e uma entrega total ao ensino.
Contudo, assim como Severus, McGonagall também enfrentava desafios diante de uma turma apática e desinteressada. Ele notava em seus olhares e na linguagem corporal da professora, por vezes, o cansaço e a frustração em explicar questões relevantes para aqueles que não apreciavam verdadeiramente o valor do conhecimento. Era uma batalha diária, uma luta silenciosa para manter acesa a chama da aprendizagem em meio a uma atmosfera de indiferença e mediocridade.
Desviando o olhar para a janela, Severus ficou por alguns segundos admirando a projeção das árvores que balançavam preguiçosamente do lado de fora, ansiando pelo momento em que aquele vento o levaria para o mergulho em sua própria jornada, longe do desânimo e do desinteresse causado pela mediocridade alheia que o cercava.
- "Nisso, ó jovem sábio, consiste o poder mais poderoso de todo o poder. Vencerás todas as coisas sutis e penetrarás em tudo o que é sólido. Se compreender isso, entenderás como o mundo foi criado e a sua fonte admirável de adaptações. Por esta razão, ele foi chamado de Hermes Trismegisto, pois era aquele que possuía as três partes da filosofia universal, e tudo o que disse a respeito da Obra Solar foi completo e absoluto" – concluiu respirando fundo, como se tivesse realizado uma oração que o encheu de forças, e sorriu rapidamente ao ter uma ideia ao olhar para seus colegas.
Dando um suspiro de vencido e entediado, Severus analisou a maneira como Marlene McKinnon e Lily se portavam, desesperadas para chamar a atenção de James e Sirius a todo custo. Aquilo apenas servia para constatar que elas não diferiam muito das mulheres que perambulavam pelas ruas do Spinner's End... a distinção estava no fato de que aquelas mulheres faziam isso para sobreviver e alimentar seus filhos, o que não era o caso dessas duas.
Enquanto isso, alheios aos interesses escusos que estavam destinados a eles, acompanhados por Remus e Peter, James e Sirius dedicavam-se a importunar os alunos considerados inferiores. Seus olhares maliciosos e sorrisos de deboche revelavam a profundidade de suas más intenções, cada ação planejada meticulosamente para causar desconforto e humilhação aos alvos escolhidos.
Apesar de estarem prestando atenção na aula, assim como Severus, suas mentes inquietas e corações orgulhosos não permitiam concentração plena no aprendizado. Por trás da fachada de estudantes atentos, ocultavam-se os verdadeiros antagonistas, prontos para manipular e prejudicar aqueles que consideravam inferiores. Eles encontravam satisfação em exercer o poder que julgavam possuir sobre os demais, alimentando um ego inflado por uma falsa sensação de superioridade. Essa dualidade os tornava ainda mais perigosos, suas ações maliciosas habilmente camufladas sob a aparência de meras brincadeiras juvenis.
- Depois, eu cuspo na cara daquele arrogante do Potter, cujo antepassado pode ter criado uma maldita poção para cabelos... contudo, sou eu que conheço toda a Tabula Smaragdina e sei a Tria Prima de Paracelsus. Duvido que esses animais assimilem os princípios mais básicos da alquimia. Certamente, explodiriam toda essa merda tentando misturar Mercúrio, Enxofre e Sal – seus olhos brilharam intensamente com pensamentos sombrios que o assombravam, a escuridão intransigente que teimava em não ceder, envolvendo o chão numa noite sem estrelas.
- Para completar, ainda vou roubar o amiguinho lobisomem dele, aprimorando o Acônito do tolo do Belby e transformando-o em um autêntico Mata Cão – sorriu maldosamente, concluindo suas ideias que se somavam e se tornavam mais claras.
A professora McGonagall concluíra sua explicação, instruindo os alunos a realizarem a tarefa proposta e escreverem um breve relatório sobre as mudanças observadas durante a metamorfose do elemento. Enquanto os estudantes se esforçavam para assimilar informações aparentemente simples, ele mergulhava profundamente em seus pensamentos, buscando refúgio nas camadas mais íntimas de sua mente.
- Após todos esses sete anos, ainda me pergunto como isso é possível... essa turma é composta unicamente por imbecis! – murmurou consigo mesmo, enquanto terminava de organizar o material restante sobre a mesa para executar o exercício solicitado e fazer suas anotações.
De relance, ao visualizar todas as possíveis opções de dupla disponíveis, Severus optou por se manter no fundo da sala, longe do alcance dos olhares. Ele não suportava a ideia de enfrentar a sombra da maioria de seus colegas, imersos em conversas fúteis e cíclicas, que pareciam não ter um propósito ou destino definido.
Essa discrepância entre suas aspirações e a mentalidade dos outros alunos criava um sentimento de isolamento em seu coração. Ele se sentia como um observador solitário em meio a uma multidão, ansiando por alguém que compartilhasse seu desejo por aprendizado e ambição intelectual.
Naquele exato momento, um vulto apressado chegou e se acomodou ao seu lado.
- Olá, bonitinho... eu concordo com você. Eles são todos uns merdas mesmo. Agora me responda, meu amado cunhadinho, a McGonagall já iniciou a matéria ou essa palhaçada que chamam de aula recém começou? – perguntou Bellatrix, sussurrando, ainda meio ofegante por ter se apressado para não chegar ainda mais atrasada.
- Bella, eu já disse que não sou seu cunhado... por favor, pare com isso. Aliás, onde você estava? – resmungou Severus, contrariado, observando-a se ajeitar na cadeira, como se nada tivesse acontecido ali.
- Dormi mais que a cama, satisfeito? - deu de ombros com arrogância e um sorriso de satisfação estampado no rosto.
Com o livro aberto à sua frente, ela lançou um olhar rápido para a página em que o dele estava posicionado, organizando seu material de forma automática. Num sincronismo quase perfeito, ambos ergueram os olhos simultaneamente em direção à porta, que se abria mais uma vez, revelando a entrada cuidadosa de Evan e Elizabeth, que se moviam com passos silenciosos para evitar qualquer detecção indesejada.
- Não foi só você que dormiu mais que a cama pelo jeito, Bella.
- Cala a boca.
- Respondendo à sua adorável pergunta, faz pouco que iniciou, mas fique quieta... você sabe o quanto a professora McGonagall nos odeia - disse Severus, não hesitando em afastar o livro para colocar na página correta e interromper a procrastinação de Bellatrix.
Não se deixaria levar pelas artimanhas dela, afinal, sabia muito bem o quanto McGonagall era exigente, e qualquer deslize poderia resultar em consequências desagradáveis. No entanto, antes que pudessem dar os primeiros passos no trabalho solicitado, foram interrompidos pela professora.
- Esperem um momento! - McGonagall deteve os outros dois antes que pudessem se sentar próximos à dupla, lançando um olhar fuzilante ao trio, excluindo Elizabeth da conversa.
- Parece que alguns de vocês resolveram se juntar ao grupo com certo atraso hoje.
A tensão na sala de aula aumentou, e a respiração deles parecia suspensa, aguardando ansiosamente a reação da professora. De fato, mais do que nunca, mostrava-se decidida a repreendê-los devido à demora com que chegaram. Até mesmo Bellatrix, normalmente altiva, parecia desconfortável com a situação, temendo consequências para a Sonserina.
- Os senhores gostariam de compartilhar o assunto com o restante da turma? - indagou a professora, impaciente.
- Ou preferem que eu feche a boca dos três para que não falem mais nada?
- Não é necessário, professora... Eu realmente sinto muito e estávamos nos preparando para iniciar o trabalho exigido pela senhora - respondeu Severus sentindo uma pontada de apreensão, mas se esforçou para responder de forma respeitosa e cautelosa.
A verdade era que ele tentava ao máximo conter qualquer traço de ironia em suas palavras, consciente de que aquilo não passava de uma armadilha. Sabia que não podia dar espaço para jogos de palavras ou confrontos diretos com McGonagall. Seu instinto o alertava sobre as consequências que poderiam surgir caso permitisse que sua impaciência e frustração se manifestassem abertamente.
Por mais que estivesse cansado de todas aquelas injustiças sofridas, pontuações roubadas e outros abusos de autoridade, não teria um acesso de raiva. Muito menos permitiria que Bellatrix estourasse os nervos e partisse para a briga, algo que estava muito próximo de acontecer, se não a policiasse com atenção. Apertando a mão dela debaixo da carteira, ele respirou fundo, enraivecido pelos risos dos membros da Grifinória e os cochichos relacionados à repreensão que acabavam de sofrer. Nada daquilo o abalaria, ele manteria o controle, olhando nos olhos de McGonagall com o semblante mais calmo que era capaz de fazer.
- Veja, professora, nós já havíamos separado todo o material necessário para a execução do feitiço transubstancial, Tergeo Acquam. Estávamos prestes a começar quando fomos interrompidos por sua correta advertência - explicou ele, apontando para a mesa com seriedade.
- Com licença, professora McGonagall. Embora eu tenha chegado com atraso, junto com Elizabeth, posso assegurar que estudamos como essa transfiguração remove substâncias tóxicas ou indesejadas de um líquido. A partir dessa retirada, ocorre a sua purificação absoluta – complementou Evan, aproveitando para se sentar com a noiva nas cadeiras mais próximas.
Sua resposta, por mais correta que estivesse, recebeu um olhar de reprovação por parte da professora. Tal hostilidade incompreensível fez Severus recuar e não comentar mais nada. Ele previu que ela estava aguardando qualquer deslize, especialmente depois que Slughorn havia divulgado para toda a escola que ele fora aceito para um estágio de dois anos com Flamel na França.
O plano, seguramente feito por Dumbledore, era colocá-los em detenção e manchar o currículo acadêmico de Severus para que ele perdesse a oportunidade que a Grifinória alegava ser exclusivamente dos Potter. Isso o revoltava. Mesmo que tivesse que ir pessoalmente à reunião dos Sagrados Vinte e Oito para acusar cada um dos envolvidos, ele não deixaria tamanha arbitrariedade passar impune.
- Muito bem, senhor Rosier. Eu agradeço por me fazer recordar de um feitiço que ensino há anos. Decerto, o senhor deva ter mais conhecimento do que eu em relação a este tema – afirmou McGonagall, com os olhos cravados em Evan, que arrumava algumas coisas para também iniciar o trabalho.
- Eu, certamente, não sei... Mas o meu irmão, inegavelmente, sabe muito mais – murmurou, sem virar o rosto, fazendo com que Severus fizesse um gesto de negação com a cabeça.
Sua sagacidade o impedia de dar uma brecha que fosse para ser prejudicado. Ele era inteligente demais para cair em artimanhas tão malfeitas e frágeis, principalmente as que serviam como programa de proteção aos marginais prediletos do diretor.
- Me diz uma coisa... Qual é o seu problema, sua velha louca? Ninguém aqui fez nada de errado! Evan lhe deu a resposta certa e recebeu um coice em vez de incentivo. Que bosta de escola é essa que persegue alunos? É inveja daquele porco de quatro olhos, por que ele não tem capacidade nem para trabalhar como limpador de bosta de trasgo? – Bellatrix esbravejou, afrontando McGonagall, quase dando um soco na mesa ao apontar para James.
- Cala a boca, sua doida – gritou James de uma das fileiras da frente.
- Ah, cala a boca você, seu filho da puta! - retrucou Bellatrix, sua raiva transparecendo em cada palavra.
- Olha quem fala? Você não passa de um cofre de rola - zombou James, tentando provocá-la ainda mais.
Severus, sentado ao lado de Bellatrix, apertou o braço dela em sinal de alerta, tentando evitar que a situação escalasse ainda mais.
- Eu é que pergunto quem você pensa que é para falar comigo assim, seu vesgo do caralho?! Vai se foder! - xingou Bellatrix, já se levantando e demonstrando sua disposição para brigar.
Com o aumento dos xingamentos e da tensão, Severus sentiu a necessidade de intervir. Era evidente que Sirius não fazia nada para impedir o amigo de ofender sua prima e namorada. Com sua habitual frieza, ele segurou-a pelo braço com firmeza, buscando evitar qualquer confronto desnecessário. Consciente da impulsividade dela, sabia que ceder à raiva só resultaria em problemas ainda maiores, e não era isso que desejava para aquele momento.
- Calma, Bella. Não vale a pena cair na provocação dele - sussurrou em seu ouvido, tentando acalmá-la.
- Ele merece um soco na cara! - esbravejou Bellatrix, enquanto lutava para se libertar, completamente cega de raiva.
- Eu sei, mas não é assim que vamos resolver as coisas. Vamos apenas ignorá-lo e focar no trabalho. Não queremos dar a ela mais motivos para nos prejudicar – Severus disse com cautela, usando um tom de voz firme, porém, tranquilo.
Bellatrix olhou para ele por um momento, ainda cheia de raiva, mas finalmente assentiu e sentou-se novamente. Apesar de seu temperamento explosivo, sabia que Severus estava certo. Não podiam dar o gostinho a McGonagall de vê-los brigando em sala de aula e fornecendo mais razões para serem punidos.
- Senhor Potter, por favor, mantenha a compostura e silêncio! – afirmou a professora com autoridade em suas palavras.
Com um meio sorriso, James percebeu que seu jogo de provocações havia falhado. Sua expressão continuava confiante e despreocupada, e, em vez disso, ele decidiu desviar a atenção para o trabalho à sua frente, ignorando os dois à sua frente e as palavras de Sirius.
Aquilo foi o limite para a paciência de Severus. Ele não aguentaria mais nem meio segundo daquele teatro armado para prejudicá-los. Se a professora queria briga, a guerra estava declarada, diante dos absurdos que antecederam sua explosão de raiva.
- Eu vou descontar 50 pontos de cada um, mais 20 pontos da senhorita Black pelo vocabulário utilizado em sala de aula... E já aviso que os três estão em detenção por um mês. A senhorita está satisfeita? – perguntou McGonagall, obtendo um sorriso sarcástico e indecifrável como resposta, como se ela estivesse planejando algo mais adiante.
- Estou me sentindo ótima! E a senhora? - respondeu com um sorriso irônico.
No entanto, McGonagall não prosseguiu, dando as costas para os quatro e explicando as últimas considerações sobre o feitiço. Elizabeth olhava para Evan e para os outros dois, sem entender nada... principalmente, a injustiça que fora cometida contra eles.
- Fica tranquila, Lilibeth... A velha vai se arrepender do que fez. Não imediatamente, porque agora eu estou ocupada, mas daqui a pouco – Bellatrix sussurrou, piscando para a outra.
Em uma disputa acirrada e silenciosa, todos se empenharam em realizar com muito cuidado aquela tarefa de nível tão elevado. Qualquer pequeno deslize, por mais insignificante que fosse, poderia resultar em um acidente grave, dependendo do erro. O quarteto de sonserinos no fundo da sala desejava competir até o último segundo, tudo para ver quem terminaria primeiro e obter o sucesso almejado.
Bellatrix, prestes a encerrar o trabalho e vendo que Severus já havia finalizado, olhou fixamente para ele, dando um sorriso zombeteiro. Com um olhar maléfico e travessamente malicioso, girou a varinha debaixo da mesa de forma displicente e preguiçosa. Em segundos, foi como se uma bomba explodisse duas fileiras à frente. Um grito desesperado ecoou, e o tampo da bancada saiu voando, acertando Marlene em cheio no rosto.
Erguendo os olhos com um ar inocente e tranquilo para ver o estrago que causara, Bellatrix torceu o lábio para o lado esquerdo, dando um meio sorriso. Sua intenção estava mais do que clara. Ela não se importava com a dor ou com os ferimentos causados à outra, que certamente havia perdido alguns dentes. O mais importante era dar continuidade à atividade e encerrá-la o quanto antes.
Na verdade, não se lembrava da última vez em que se sensibilizou com o sofrimento alheio... Talvez quando Delphini resmungava por qualquer coisa, seu coração se partisse. Entretanto, aquela pessoa tão pequena era um caso à parte. Era seu amor e sua vida desde o dia em que a viu pela primeira vez.
Quanto ao que acabara de fazer com Marlene, ela estava tão orgulhosa de si mesma que, discretamente, apertou a mão de Severus e olhou na direção de Evan e Elizabeth, que disfarçavam sorrisos satisfeitos. Sabiam que ela era a única responsável por aquele suposto acidente e pelos berros. No entanto, se iriam para a detenção por um mês, os três teriam uma recordação bastante divertida para animá-los e ajudá-los a passar os dias.
Com Bellatrix, Evan, Elizabeth e Severus tendo concluído o exercício antes dos demais, especialmente pela perfeição com que o executaram, cada um recebeu 20 pontos para a Sonserina. Esse reconhecimento os impulsionou ainda mais a se empenharem meticulosamente na próxima tarefa: transmutar um líquido em outro. Ser capaz de realizar o Transforminous Obecterum era um feito que os colocava quase à categoria dos Mestres da Vida ou dos Inomináveis. Poucos bruxos alcançavam tal excelência em transformar qualquer ser humano em objeto, e menos ainda conseguiam lançar o feitiço sobre si mesmos e voltar ao normal sem ajuda. Os sucessos relativos que experimentaram nas primeiras tentativas encheram-nos de orgulho, indicando que estavam se aproximando do êxito tão sonhado.
No entanto, a alegria foi efêmera. Hogwarts parecia repleta de adversidades que testavam sua perseverança. Ao saírem da aula, animados e conversando sobre Poções, foram misteriosamente atacados ao ingressarem no corredor. De forma repentina, Severus tropeçou nos próprios pés e caiu desajeitadamente no chão, fazendo ecoar o barulho de seu corpo tombando e do material se espalhando pelas pedras frias, enquanto gargalhadas zombeteiras preenchiam o ambiente.
A humilhação diante do ataque enfureceu Severus, acendendo uma chama ardente em seu interior. Sabia de onde vinha o ataque e quem estava por trás disso. Era uma afronta à sua dignidade e honra, e ele não aceitaria ser ridicularizado publicamente com um feitiço tão degradante como o Locomotor Mortis.
Sem hesitar, iniciou-se um duelo ferrenho. Feitiços foram lançados de ambos os lados, acompanhados por xingamentos e palavrões. O ambiente ficou tenso e vibrante com a energia das varinhas em confronto. Severus estava decidido a defender sua honra e não permitir que fosse ridicularizado diante de todos.
No calor da batalha, algumas varinhas foram perdidas ou quebradas. A luta física se intensificou, com socos e pontapés sendo desferidos em uma desesperada busca por vingança. Enquanto isso, Elizabeth correu em busca de ajuda, encontrando alguns colegas da Sonserina e da Corvinal. Num relato rápido, explicou o que estava acontecendo, e eles se uniram à briga, enfrentando os grifinórios que se opunham ao grupo.
O caos logo atraiu a atenção dos professores, que se apressaram para apartar a revolta. Com feitiços como Diffindo e Impedimenta, eles conseguiram separar os mais exaltados. O confronto foi controlado, mas deixou feridos no seu rastro. Alguns alunos foram levados para a enfermaria, com ossos quebrados e dentes partidos, enquanto os demais foram conduzidos por Argus Filch até a sala de Dumbledore.
Como era de se esperar, o diretor ponderou sobre as responsabilidades de cada grupo, destacando os grifinórios como vítimas diante da barbárie coletiva. Eles provavelmente haviam se oposto às ideias agressivas e eugenistas dos sonserinos. Os grifinórios eram considerados seres brilhantes, excepcionais e maravilhosos, e seus leões lutariam contra a inveja proveniente dos sonserinos.
Nos apontamentos feitos, Evan, Bellatrix e, principalmente, Severus foram identificados como líderes de uma gangue cruel e sanguinária, responsável por tamanha hostilidade. A confusão se intensificou quando os corvinos foram acusados de auxiliar no planejamento do ataque, sendo considerados os prováveis mentores intelectuais de todo o plano sórdido.
Aproveitando-se do caos, Sirius puxou Bellatrix pelo braço, desejando ter sua atenção e afastá-la do centro da confusão. No entanto, esse gesto só a deixou ainda mais indignada. Ela lutava para se desvencilhar dele, debatendo-se e dando tapas para que a soltasse. Sentindo raiva por ter perdido a varinha e quebrado o nariz, e por não ter outra forma de se defender contra Lily, ela desejava amaldiçoá-lo, mas estava restrita a mordê-lo com força para afastá-lo.
Sirius não se dava por vencido. Agarrando-a pela cintura e pressionando-a contra a parede, ele tentava acalmá-la de todas as formas possíveis. Queria aproveitar aqueles breves momentos com Bellatrix, mas o que conseguia era deixá-la ainda mais nervosa e perigosa em suas ações. Beijos e carinhos foram retribuídos com uma sequência de bofetadas, um chute entre as pernas e um empurrão que o fez cair de joelhos no chão.
Com uma das mãos nos testículos, Sirius afirmou, com calma apesar da dor:
- Por Merlin, bruxa... nunca mais faça isso.
Ele apreciava o jeito selvagem e complexo de Bellatrix, como ela dominava todos os seus sentidos quando ficava brava. Sem pudores ou vergonha por ter apanhado, ele não esperou que ela lhe dissesse nada e a beijou novamente, entrelaçando os dedos nos cachos desgrenhados, tentando ter algum controle naquela situação.
- Você não presta e sequer serviu para me defender - provocou ela.
- Até parece que você precisa que alguém a proteja.
A sensação de ter as pernas de Bellatrix envolvendo sua cintura era intensa. Aquilo era apenas mais um capítulo do tempestuoso e violento relacionamento que mantinham há tantos anos, e seguiria sendo daquele modo ou até pior. A atração e a repulsa, o amor e o ódio, tudo se misturava em uma dança perigosa, fazendo com que eles se entregassem à paixão desenfreada e autodestrutiva que compartilhavam.
Era difícil resistir a algo tão intenso e avassalador como o amor insano que nutriam um pelo outro, mesmo que esse sentimento estivesse envolto em escuridão e caos.
