A partir daquele dia fatídico, uma guerra silenciosa se alastrou pelos corredores, esconderijos e todos os lugares onde os passos de Severus reverberavam em Hogwarts. A sensação de segurança que costumava o acompanhar desvaneceu-se como fumaça no ar. A dura constatação lhe pesava sobre os ombros, e as lembranças dos anos passados em relativa paz e tranquilidade, quando ele e os Marotos se ignoravam mutuamente, agora eram apenas um vago eco do passado.
O grupo autodenominado por Walburga como "saqueadores", "arruaceiros" e "ladrões" alimentava um desejo ardente de vingança. Especialmente um dos membros, que agora via em Severus a possibilidade de ser o verdadeiro pai de Delphini, o que acendia uma chama avassaladora de raiva e ciúme. A tensão era palpável, e o ressentimento que se alimentava de desconfiança e rancor crescia como uma sombra nefasta entre eles. Além disso, a reaproximação de Bellatrix com Severus, após semanas de afastamento inexplicável, só aumentava a sensação de ameaça iminente.
Severus, em meio a uma batalha interna, estava mergulhado em sentimentos conflitantes e incertezas. Seu estado mental era uma teia complexa de dúvidas e traços psicológicos que o empurravam para reações imprevisíveis. Ele ansiava por segurança, mas também alimentava a necessidade de defender-se, de manter suas emoções sob controle. A perspectiva de enfrentar seus adversários cara a cara o inquietava, porém também o enchia de coragem e confiança, e ele não se deixaria abater por tão pouco.
Por outro lado, Sirius, tomado por uma mistura tóxica de ciúme e fúria, tornava-se quase irreconhecível. Seus olhos faiscavam com uma fome insaciável por vingança. Ele estava obcecado por ferir Severus, e sua mente era uma encruzilhada sombria de planos engendrados em cada detalhe, nutrindo-se da ira para fazer com que cada golpe causasse o máximo de dano possível.
Enquanto meticulosamente elaborava seu plano, meses de preparação só intensificavam a tensão que pairava entre eles. Inicialmente, Peter e James se mostravam hesitantes, lutando contra a influência obscuramente sedutora de Sirius. No entanto, gradualmente, suas resistências se desfaziam, cedendo aos argumentos persuasivos do amigo. A ideia, inicialmente engendrada como "inofensiva", ganhava contornos cada vez mais obscuros e complexos, alimentada pelas mentes perturbadas dos três.
- Será apenas uma brincadeira simples para ensiná-lo a não se aproximar das meninas que são superiores a ele. Vamos dar um banho naquele porco morto de fome. Quem sabe a aparência do Ranhoso não melhore e ele deixe de ser repugnante? - questionou Sirius, com um sorriso sádico no rosto.
- Se você garante, Almofadinhas, que suas patinhas fofas não serão descobertas... nós concordamos. Principalmente porque vou me divertir muito afogando aquele encardido. Adoraria que aquele imundo deixasse de existir - comentou James, rindo do que imaginava.
- Será ótimo! Vocês sabem o quanto o seboso envenenou a Bella contra a Marlene. Sujeitinhos como ele vivem de intrigas, levantando calúnias sobre os outros. Não duvido que ele tenha sido o próprio que a atacou na aula de Transfiguração. Snape tem todo o perfil de alguém que gosta de abusar das meninas - assegurou Sirius, encarando os amigos com confiança.
- Só assim para um animal como ele ter qualquer chance... quem seria a imunda que iria querer um lixo? - perguntou Peter, rindo.
- Alguma desesperada, com certeza... como aquela... qual é mesmo o nome daquela horrorosa cheia de espinhas? - provocou James, arrancando gargalhadas ainda mais altas, preenchendo o ambiente com o som.
- Se estávamos esperando pela oportunidade certa, a sorte acabou de sorrir para nós agora mesmo - Sirius fez um gesto com o rosto, apontando em direção a Severus, que estava sozinho e desatento.
- Esse pobretão folgado vai aprender qual é o seu lugar...
Observando atentamente ao redor, os três amigos aproveitaram a oportunidade enquanto Severus parecia ser um alvo perfeito. Ele estava sentado debaixo de uma árvore, lendo um livro, indefeso diante de seus objetivos de descarregar todo o ódio e raiva que sentiam. Foi questão de segundos e tudo aconteceu rapidamente. Sirius projetava sua voz com intensidade, quase gritando, conquistando a atenção de todos ao seu redor.
- E aí, Ranhoso? Tudo bem? Já lavou os cabelos e a boca hoje? - provocou Sirius, com uma expressão de desprezo e raiva.
Antes que pudesse assimilar ou reagir, Severus se moveu como se já estivesse esperando um ataque, jogando sua mochila de lado e enfiando as mãos nas vestes para pegar sua varinha. No entanto, antes que pudesse fazer algo em sua própria defesa, sentiu como se uma força oculta o puxasse para o chão, mantendo-o impotente e paralisado. Sirius gargalhava, encarando-o com uma fúria insana nos olhos. Uma névoa cinzenta obscurecia sua visão, transformando-o em uma figura quase irreconhecível. O olhar de Severus se encheu de uma mistura de receio e raiva, enquanto ele lutava para se libertar das amarras invisíveis que o aprisionavam.
- Parece que o Ranhoso não tem coragem nem para responder. É melhor do que eu pensava! - zombou Sirius, seu sorriso sádico se ampliando.
A tensão no ar era quase palpável quando Severus percebeu que estava encurralado. Seu coração acelerou, e um calafrio percorreu sua espinha enquanto lutava para encontrar uma saída. Ele sabia que precisava manter a calma, mas a sensação de estar indefeso o dominava. Seu olhar se encontrou com o de Sirius, e naquele momento, ele sentiu uma onda avassaladora de repulsa e ódio vinda do outro bruxo.
Severus conhecia muito bem o significado daquela expressão, e Sirius em si não o assustava; de fato, ele via o mesmo canalha de sempre. Aquele valentão que Snape lembrava bem, aquele que buscava ferir os considerados mais fracos ou indignos, apenas pelo prazer sádico de machucar alguém. A ideia de Sirius ser definitivamente cruel e sem qualquer escrúpulo o levava a questionar até onde ele estaria disposto a ir, alimentado pelo ódio feroz que o impulsionava.
O suor escorria pela testa de Severus, e seus olhos se estreitavam em uma mistura de determinação e raiva contida. Ele não podia permitir que Sirius o quebrasse, não depois de tudo pelo qual havia passado até ali.
Por outro lado, James, apesar de tão desonesto quanto o amigo, parecia dividido entre a lealdade e a incerteza quanto às consequências do plano. Uma dúvida insidiosa sobre a retidão de suas ações começava a sussurrar em sua mente. Já haviam se envolvido em problemas suficientes durante as férias, arriscando-se com o Ministério da Magia. Talvez fosse a hora de dar um tempo, esperar que as coisas se acalmassem e agir novamente sem medo de punição. No entanto, a emoção do momento abafava as ideias que ecoavam em seus pensamentos... o brilho nos olhos de Sirius, o fervor da multidão em volta e a oportunidade de se destacar como o líder daquele grupo o mantinham ali, como um peão sendo movido em um jogo perverso.
Enquanto isso, Peter encontrava-se extasiado em tomar parte, finalmente, em algo tão sombrio. No fundo, queria ter sido o responsável pelo ferimento na criança trouxa e se orgulharia se a tivesse matado ou feito algo pior. Sua risada descontrolada expunha a felicidade de ter um momento de poder, assim como James e Sirius, e ter a oportunidade de humilhar outra pessoa para se sentir poderoso, de saborear o gosto da vingança mesmo que fosse à custa de outro.
Encarando-os, Severus, acuado e incansavelmente buscando alternativas de como enfrentar os três adversários sem poder usar sua varinha, esforçava-se para manter uma fachada de coragem e força. Mas, por dentro, a incerteza e a insegurança ameaçavam sufocá-lo a qualquer momento. Uma confusão de sentimentos conflitantes emergia em seu íntimo, como uma tempestade furiosa prestes a desencadear seus raios. A adrenalina corria desenfreada em suas veias, como uma chama ardente alimentada pelo medo do que viria a seguir e pela revolta diante da situação humilhante em que se encontrava.
Esses sentimentos contraditórios, entrelaçados como um emaranhado de fios desconexos, provocavam o desejo de vingança em seu coração e avivavam sua vontade de mostrar toda a sua força diante daqueles que o subjugavam em uma luta desleal. Os diabretes dentro dele exigiam justiça, impulsionando-o a se libertar da opressão e revelar seu verdadeiro poder.
A tensão era palpável, envolvendo todos ao redor, que rapidamente se viraram para acompanhar a confusão que se formava, carregando o ar de uma densidade tamanha que poderia ser cortada com uma faca, dada as implicações invisíveis que rondavam aquele cenário caótico. A atmosfera se impregnava de eletricidade, e as pessoas podiam sentir o arrepio percorrendo suas colunas, pois sabiam que algo incontrolável estava prestes a acontecer. Os olhares curiosos dos estudantes testemunhavam aquele embate silencioso, como se fossem espectadores de uma disputa gladiatória.
- Oh, olha só quem está se mexendo como uma minhoca presa na lama! Que nojento, não é mesmo? - acrescentou Sirius, deleitando-se com as gargalhadas da plateia e alimentando sua própria vaidade.
Severus se mantinha calado, seu rosto assumia uma expressão inabalável, ocultando a crescente tempestade de emoções e pensamentos que se desenrolavam dentro de si. Seus olhos negros, intensos como o véu da noite, eram um misto de desafio e raiva, como se dissessem, silenciosamente, que ele não se curvaria àquele deboche covarde.
A persistência quase selvagem faiscava em seus olhos, enquanto um sorriso sombrio, quase imperceptível, emoldurava em seus lábios. Era um vislumbre de sua resiliência, um indício de que não se renderia facilmente, que estava disposto a lutar até o último suspiro. Por trás da fachada de vulnerabilidade, Severus guardava uma força obscura e desconhecida, um potencial que, talvez, Sirius subestimasse. Afinal, seus verdadeiros segredos ainda permaneciam nas sombras, esperando o momento oportuno para se revelarem.
Fortificando e consolidando ainda mais o feitiço, um dos três fazia com que Severus permanecesse caído no chão, lutando com todas as forças para se libertar. Os minutos pareciam se arrastar lentamente, enquanto a crueldade aumentava a cada segundo. James e Sirius se aproximavam com passos lentos, a expressão triunfante em seus rostos, como predadores se aproximando de sua presa. As varinhas apontadas ameaçadoramente, os olhos cheios de degeneração, exibiam o prazer mórbido que encontravam naquele ato de humilhação. Um sorriso maldoso dançava em seus lábios, enquanto olhavam por cima dos ombros, exibindo-se para as meninas sentadas à beira do lago, alimentando seus egos com a audiência.
- Peter, isso não é para você... por favor, se controle um pouco antes que goze nas calças - repreendeu Sirius com nojo e desdém, fixando os olhos em seu rosto, notando que este os seguia de perto, esticando-se ao máximo para obter uma visão melhor do que estava acontecendo e soltando gritinhos excitados para encorajar os amigos a darem prosseguimento à agressão.
Remus, que até então se mantivera desatento e sem saber quais eram os planos que os três haviam arquitetado e, agora, colocavam em prática, soltou um suspiro cansado, demonstrando sua desaprovação ao que estava vendo. Entretanto, evitava qualquer interferência para não desencadear uma possível reação ainda mais impulsiva e violenta dos colegas. Ele conhecia bem o temperamento dos amigos e sabia que, quando se sentiam menosprezados, podiam ser uma bomba prestes a explodir.
- Como vão os estudos, seu bosta? Os miseráveis sabem ler? Onde você encontra os livros? No lixo ou talvez no prostíbulo onde sua mãe trabalha? - debochou James, com um falso tom de seriedade e um sarcasmo ardente, expondo toda sua soberba e desprezo pelo colega. A voz dele ecoava de forma venenosa e tinha o propósito claro de menosprezar Severus diante de todos, uma demonstração pública de sua suposta superioridade.
- Olha, Pontas, que a ponta do nariz dele quase toca o chão quando ele se mexe... que nojento, não é mesmo? - acrescentou Sirius com malícia.
- Eu suspeito que, quando ele lê, as folhas ficam com marcas de gordura e seja impossível ver qualquer palavra depois.
Os olhos de James brilharam com empolgação ao ver a crescente sujeição de Severus. Ele não conseguia esconder sua satisfação em ver outra pessoa como um animal encurralado. Era como se todos os problemas desaparecessem diante daquela cena, alimentando sua necessidade de se destacar e ser adorado pelos outros.
- Vamos lá, pessoal, batam logo nesse imbecil! - incentivou Peter com um tom estridente, aplaudindo a violência.
Severus seguia se debatendo e tentando se levantar, seu corpo exibindo marcas de cansaço e pequenos ferimentos, evidenciando a intensa batalha que travava contra o feitiço impiedoso que ainda o mantinha sob seu domínio, restringindo qualquer movimento mais brusco. Parecia que sombras invisíveis, emanando pura magia das trevas, teciam novas cordas implacáveis ao redor dele, amarrando-o cada vez mais ao chão a cada luta frenética.
- Espere só um pouco! Espere e verá, seu verme, logo terá o que merece! - ofegou Severus, lançando um olhar cheio de fúria para James, experimentando uma explosão de raiva há muito tempo reprimida.
- Por que deveríamos esperar? O que você acha que vai fazer, Ranhoso? Talvez limpar o nariz em nós? Quem você pensa que é, afinal? Seu... seu bosta? - provocou Sirius com um tom gélido.
Com uma expressão de prazer evidente, ele devolvia a provocação, usando palavras como armas afiadas para o ridicularizar ainda mais. Sob aquela máscara arrogante, se sentia poderoso, como se cada insulto fosse uma vitória pessoal contra aquele que ousava desafiá-lo.
- Por que não diz o que realmente pensa, Black? Tem medo de admitir que me considera um mestiço imundo? Alguém que você acredita que deva se rebaixar para lamber o chão onde seu namorado pisa? - provocou Severus, soltando uma enxurrada de palavrões, amaldiçoando-se por não ter sua varinha para se defender do que estava por vir.
- Você só está se comportando como macho porque sabe que não posso me defender, seu doente pervertido! Acha que a Bellatrix não me conta as coisas?
- Você quer brigar, Snape? Desde o dia em que eu bati os olhos nessa sua cara de cu, eu estou esperando por isso - respondeu Sirius, rosnando as palavras com um sorriso desafiador nos lábios.
A crescente raiva tomou conta de cada parte do seu corpo ao ver que, mesmo indefeso e incapaz de se libertar do feitiço que o prendia ao chão, Severus ria de sua cara. Sem hesitar, Sirius deu um passo à frente, seus olhos faiscando com desprezo, e desferiu um soco no rosto dele, que foi atingido com violência, balançando sua cabeça para o lado. Apesar de preso, Severus permaneceu firme, mantendo sua expressão desafiadora enquanto enfrentava a agressão.
- Novamente eu pergunto: quem você pensa que é, Snape? - provocou, o ódio transbordando em suas palavras.
Severus lambeu os lábios, sentindo o gosto metálico do sangue na boca. Mas, mesmo diante da dor física, sua expressão se manteve fria e desafiadora.
- Alguém que sempre foi melhor do que você, Black! – retrucou com seu sorriso contendo o veneno do sarcasmo.
- Até a sua amada prima reconhece isso o tempo inteiro. Dói, não é? Ela é de qualquer um aqui, menos sua... você sequer foi capaz de fazer um filho nela. Todos aqui sabem que a Delphini é filha de outro e, você, é corno.
As palavras de Severus cortaram como lâminas afiadas, atingindo o ponto fraco de Sirius. Ele sentiu sua raiva se transformar em uma mistura de humilhação e fúria. A menção à paternidade de Delphini o feriu mais profundamente do que qualquer soco.
- Lave a boca, seu morto de fome! - esbravejou James, permitindo que sua aversão transbordasse.
Sentia sua raiva florescer, observando seu amigo desestabilizado, e não conseguia controlar o desejo de ferir Severus ainda mais. A máscara de superioridade escondia um profundo ressentimento, uma necessidade de provar que ele estava certo, independentemente do preço.
- Merda... filho de uma puta - sussurrou indignado, experimentando a estranha sensação de ter seu corpo ser puxado à frente, obrigando-o a ficar de quatro como um animal. A indignação tomava conta de cada centímetro do seu ser, mas também a vergonha de estar em tal posição. A humilhação o enfurecia, mas, ao mesmo tempo, ele se sentia impotente, incapaz de escapar daquele tormento.
No instante seguinte, o Ebublio foi lançado, e milhares de bolhas de sabão surgiram de sua boca. Severus se sentia sufocado, com a espuma rosa e viscosa escorrendo, cobrindo seus lábios e causando engasgos. A sensação de asfixia se intensificava, e o fazia perceber que poderia morrer ali, sem ajuda alguma. Sua magia assumia tons vermelhos de fúria, descontrolando-se a cada passo, refletindo a revolta crescente em seu interior e transbordando por seus poros.
Lutando para respirar, sua mente estava envolta em turbilhões. Sentia-se como se estivesse preso em um pesadelo, e a sanidade parecia escapar-lhe aos poucos. A raiva e o medo se mesclavam, empurrando-o para o limite de sua força emocional e mental. Todos ao seu redor riam de sua desgraça, enquanto seus amigos estavam distantes daquela cena hedionda. A multidão que o cercava era composta principalmente por apoiadores daquele grupo, incentivando a violência incessante.
- Meu velho Seboso, não chore! Estamos aqui entre amigos e só queremos ajudá-lo a tomar um banho decente. Imagino que viver no esgoto e comer lixo deva ser muito difícil – disse James, com um sorriso sarcástico, enquanto segurava Severus pelos cabelos, forçando-o a se erguer.
- Creio que seria interessante que você fizesse as honras, Potter, tirando esse bafo insuportável de esgoto – retrucou Severus, com um tom frio e desdenhoso.
Enfurecido com a provocação, James reagiu impulsivamente, enchendo a boca de saliva e cuspindo em seu rosto.
A sua atitude surpreendeu a todos, até mesmo a ele mesmo. Ele sabia que aquilo era infantil e baixo, mas a presença de Severus sempre despertava o pior lado de sua personalidade. Era como se estivessem fadados a se odiarem eternamente, sem chance de redenção.
- Acha mesmo que esse é o seu melhor golpe? – respondeu Severus, encarando-o mordaz e cínico enquanto o líquido quente e repugnante escorria por seu rosto, mas sem demonstrar abalo.
- Cuspir é o nível mais baixo na tentativa de fazer com que eu me apaixone por você, Potter? Infelizmente, eu não sou o Black que gosta de coisas escatológicas.
As palavras dele foram um contra-ataque certeiro. Cada sílaba atingiu em cheio o orgulho de James, fazendo com que se sentisse profundamente ofendido e indignado.
- Ora, seu... - esbravejou, enquanto apertava os punhos em resposta e arrancava alguns fios do cabelo de Severus.
- Você não passa de um amargurado, Snape. Sempre se escondendo atrás de seu rancor e sarcasmo para esconder o fato de que é apenas um covarde.
- Não me compare ao seu nível de gnomo frouxo...
Aquilo foi o estopim para que decidissem ir além no plano inicial. A vexação pública se tornara o objetivo principal, e eles estavam determinados a destruir a autoestima de Severus sem piedade.
Era assim que os Marotos normalmente agiam, perpetuando a violência diante dos olhos de seus seguidores. Desde o início, buscaram constantemente toda a atenção e aprovação, e agora, desferiam socos e pontapés em Severus, ansiosos por demonstrar sua força e impor o poder que acreditavam possuir. Cada ato de crueldade alimentava seu prazer, reforçando a sensação de invulnerabilidade que tanto os enalteciam.
- Quem aqui quer ver o que eu vou fazer com esse morto de fome? Esse porco imundo achou que poderia se aproximar daquilo que nos pertence. Achou que poderia tocar em nossas propriedades. Quem concorda? - questionou Sirius em voz alta, buscando a aprovação da multidão. A resposta veio em uma enxurrada de acenos positivos, incentivando-os a prosseguir com a violência.
Enquanto uma parte da multidão aplaudia com entusiasmo, outros espectadores se sentiam desconfortáveis e angustiados com a cena que se desenrolava diante de seus olhos. Aqueles que temiam retaliação permaneciam em silêncio, sufocando suas vozes em meio ao clamor ensurdecedor dos apoiadores.
Olhando ao redor, Severus percebia que a imensa maioria da multidão parecia cega pela devoção aos seus líderes, disposta a apoiá-los incondicionalmente, mesmo diante de atos violentos. Essa mentalidade de grupo, alimentada por uma mistura de lealdade cega e desejo de pertencimento, impulsionava-os a exigir o linchamento daquele que ousara ofender seus "reis".
Sem pressa, James o ergueu no ar com o Levicorpus, deixando-o de cabeça para baixo. As vestes do rapaz caíram em desalinho, revelando suas pernas magras e pálidas. Um sorriso malicioso se delineou em seu rosto, enquanto sua varinha se movia com precisão, ameaçando fazê-lo colidir com o chão a qualquer momento. Preferencialmente, desejavam que caísse e quebrasse o pescoço, eliminando uma escória do mundo.
De longe, Remus continuava observando a cena com um olhar de desaprovação, seu semblante carregado de desgosto, mas, infelizmente, ele ainda se via impotente para intervir naquela crueldade. A verdade era que o medo o paralisava, temendo as consequências de se opor aos desmandos que tanto divertiam seus amigos. Embora não quisesse admitir, a perspectiva do que eles poderiam fazer com ele em caso de resistência era aterradora o suficiente para silenciá-lo.
Enquanto isso, Peter exultava em meio aos aplausos, alimentando o entusiasmo crescente dos demais. Seu incentivo servia como combustível para ações cada vez mais despropositadas e insensíveis.
- Desça-o imediatamente, Potter! O que o Snape fez para vocês? Deixem-no em paz! - gritou uma voz feminina, tentando acalmar a situação cada vez mais tensa e absurda.
James e Sirius lançaram olhares perspicazes ao redor, curiosos para identificar quem ousara interromper seu espetáculo degradante. A mão livre de James imediatamente subiu para mexer em seu cabelo com uma vaidade exagerada, exibindo-se ainda mais ao reconhecer a presença dos observadores e, principalmente, de quem se tratava. Ali estavam elas, aquelas que tanto eles ansiavam que surgissem para aplaudir e reverenciar suas ações.
Lily segurava Marlene pelo braço, sendo a única a demonstrar claramente toda a desaprovação e desconforto com a cena repugnante à sua frente. Determinada a pôr fim ao ataque moral e físico injustificável que seu colega estava sofrendo, ela sentia-se impelida a mostrar coragem e empatia. No entanto, algo mais profundo a impulsionava.
Apesar de seu coração acelerar diante do desafio, sabia que havia algo ainda mais complexo a ser considerado. Ao tomar aquela atitude, estava ciente de que sua ação contrária poderia chamar a atenção não apenas dos que a repugnavam, mas também daqueles por quem secretamente nutria sentimentos. Ansiava, no fundo de sua alma, impressionar aqueles cujo respeito e admiração significavam muito para ela.
- Tudo bem, Evans? Estamos nos divertindo aqui! Por que não podemos ajudar um miserável a tomar banho? Nós, que somos ricos e poderosos, devemos ser solidários com aqueles que vêm das camadas mais baixas e com os desprezíveis bastardos! Ser benevolente se tornou crime? - provocou James, imbuindo suas palavras de um tom mais maduro, profundo e agradável, enquanto mantinha uma expressão falsamente abatida para acentuar sua ironia.
- Eu já disse para deixá-lo em paz! O que ele fez contra você? - retrucou Lily, encarando James com uma mistura de antipatia e repulsa.
- Bem... é mais uma questão de sua própria existência, se é que me entende. Eu enxergo nele apenas um animal que ousa se passar por humano, um insignificante que acredita que pode se misturar com aqueles que nasceram para governar - respondeu, aparentemente refletindo sobre o assunto, deixando clara sua crença profundamente enraizada.
Enquanto as palavras ofensivas ecoavam e muitos começavam a rir, gargalhando alto, Sirius, Marlene e Peter pareciam encontrar humor na situação. Porém, Remus e Lily, em contraste, mantiveram-se sérios, seus olhares denotando uma mistura de asco e decepção.
- Você acha isso engraçado? Acha que é superior a ele? - disparou, sua voz cortante como uma lâmina.
A tensão no ambiente era palpável enquanto Lily enfrentava James, seus olhos verde esmeralda faiscavam de indignação. A raiva contida em sua voz denotava a profundidade de suas emoções, e ela não hesitou em expressar, com um tom ainda mais desafiador:
- Tenho algo a lhe contar... você não passa de um idiota, arrogante, valentão e presunçoso, Potter. Deixe Snape em paz! Estou ordenando que pare com isso!
A resposta de James, longe de demonstrar arrependimento, apenas agravou a situação.
- Eu obedeço se você sair comigo. É só você começar a fazer o que eu quero, que eu não encostarei minha varinha novamente no Ranhoso - disse, com um sorriso convencido estampado em seu rosto.
Aquelas palavras a atingiram como um soco no estômago. Ela percebeu que James ainda não entendia a gravidade de seus atos e a falta de respeito que tinha pelos outros. O silêncio que se seguiu foi carregado de tensão, e o olhar de Lily era uma mistura intensa de decepção e nojo. Ela sabia que não podia ceder a esse tipo de chantagem emocional. Sua decisão era clara: preferia estar ao lado daqueles que demonstravam compaixão e respeito, em vez de se submeter a alguém que tentava exercer controle através de pressão emocional.
Enquanto a tensão se intensificava, Severus lutava para se recuperar do feitiço que o aprisionava. Rastejando em direção à sua varinha caída, ele se contorcia e tentava limpar a espuma que ainda se formava em sua boca, embora em menor escala. A situação o revoltava profundamente, deixando-o com uma sensação de sujeira e violação jamais experimentada antes. Entretanto, uma frase ecoou em seus ouvidos, como um lembrete de uma entre várias cenas que vira na Penseira e que, estranhamente, parecia destinada a se repetir.
- Prefiro sair com uma Lula Gigante do que com você. Pelo menos ela não tentaria me manipular com chantagens baratas e não faria mal a ninguém apenas para se sentir superior.
A assertividade e a raiva com que aquelas palavras foram ditas por Lily se comparavam a uma lança atravessando o orgulho de James impiedosamente. Sua expressão arrogante deu lugar a uma mistura de surpresa e fúria. Por um momento, ele ficou sem resposta, incapaz de acreditar no que acabara de ouvir.
- Não foi dessa vez, Pontas! Acho que ela o considera metido... quem sabe dando um presente, ela amoleça? Sempre funciona - brincou Sirius, voltando sua atenção para Severus.
Severus apontou sua varinha em direção a James, desencadeando uma explosão de luz, cujas razões permaneceram obscuras. Sirius, ágil como uma sombra, esquivou-se ao se jogar no chão, formando um escudo rudimentar para sua proteção. Em contraste, James foi surpreendido pela investida, sentindo o sangue respingar sobre suas vestes e uma ardência dolorosa em seu rosto por conta de um pequeno corte.
Atordoado pelo ocorrido, Severus sentiu uma onda de irritação dominá-lo ao perceber que falhara em seu feitiço. Neste momento, a sede de vingança tomou conta de seus pensamentos, almejando a visão de seus adversários com o sangue jorrando, como uma espécie de purificação no gramado, para que sentissem o peso de suas ações.
Tomado pela ira e dominado pelo ódio, James respondeu com retaliação, convocando um feixe de luz mágica que suspendeu novamente Severus, agora de cabeça para baixo no ar. No entanto, simplesmente vê-lo em posição vulnerável não era mais suficiente para aplacar a sua fúria; ele ansiava por infligir mais dor, por provocar uma humilhação que o dilacerasse por completo. Olhou para Sirius, que, com um sorriso sombrio, concordou silenciosamente com a ideia que brotava em sua mente.
Em um ato cruel, James lançou outro feitiço, que arrancou as vestes de Severus, deixando-o exposto apenas em sua cueca cinza. Era o ápice da degradação, um momento de profunda sujeição que expunha a vulnerabilidade e fragilidade do outro, destruindo qualquer resquício de sua dignidade.
A multidão explodiu em aplausos, enquanto James, Sirius e Peter riam alto, imersos no êxtase do momento. Em contraste, Remus permanecia impassível, cruzando os braços e balançando a cabeça em negação e repúdio pelo que estava testemunhando.
O rosto de Lily, inicialmente contorcido em repugnância, cedeu por um instante, forçando-a a morder as bochechas para conter o riso que ameaçava escapar. Por mais que ela negasse, havia uma certa apreciação em presenciar aquilo, pois era uma oportunidade de mostrar o quão difícil era para aqueles que a interessavam.
- Qual é o seu problema?! Eu já mandei que você o descesse - repreendeu Lily, impondo firmeza em suas palavras, mesmo que sua voz traísse um leve tremor de incerteza.
- Certamente, minha ruiva - respondeu, erguendo a varinha de forma imponente, assumindo o papel de um juiz autoritário.
Em um segundo, James lançou Severus ao chão, humilhando-o ainda mais ao pisar em seu rosto. Seus olhos negros ardiam de raiva enquanto pegava suas próprias roupas com exasperação, levantando-se com determinação para revidar.
- Petrificus Corpus - murmurou Sirius rapidamente, imobilizando Severus novamente, como uma estátua.
- Chega disso! - berrou Lily, apontando sua varinha para James e Sirius, que se entreolharam com cautela, percebendo a seriedade do momento.
- Olha, eu tenho interesse em você, entende? Mas, por favor, não me obrigue a te enfrentar também - disse James com uma calma quase irritante, como se estivesse explicando uma coisa óbvia para alguém de inteligência inferior.
- Retire a maldição - exigiu, mantendo-se séria, ignorando momentaneamente o que acabara de ouvir.
- Se quiser, faça você mesma... – James deu de ombros.
- Evans, você é bem bonita, mas não se meta com a gente. Pode ser? Não fazemos diferença de gênero quando precisamos nos defender - comentou Sirius, com um ar displicente.
Suspirando profundamente, demonstrando seu desconforto, ela sussurrou a contra maldição. No entanto, não estava preparada para a reação de Severus. Ele quase assoviou as palavras enquanto conjurava o Sectumsempra novamente. O grito de dor agonizante de James ecoou no ar, e Lily sentiu o ódio transbordar em seu coração ao presenciar a cena, vendo-o segurar o rosto em agonia.
O sangue jorrava dos cortes profundos, e nada parecia ser capaz de estancar aquela hemorragia. Severus ansiava secretamente que ele definhasse diante de todos. Finalmente, aquele feitiço que imitava lâminas de navalha encontrava uma utilidade, e ele não hesitaria em usá-lo contra qualquer um que se colocasse em seu caminho.
- Aqui está o que eu recebo em agradecimento! Você tem sorte de ela estar aqui, Ranhoso... senão, eu o mataria agora mesmo - exclamou James, cambaleando ao mesmo tempo que seu adversário, esforçando-se para manter-se de pé.
- Eu não preciso do auxílio de malditos sangues-ruins, como a Evans, para me defender! É você quem precisa dessa insignificante ao seu lado para se sentir alguém - declarou Severus com rancor e desprezo impregnados em suas palavras.
- Mas como? O que você fez com James? Me diga o que fez com ele, seu maldito Comensal da Morte! Eu exijo que desfaça isso - gritou Lily, correndo para socorrer o pretenso futuro namorado, que berrava de dor e se debatia em agonia.
- Quem você é para me exigir alguma coisa?
Ainda atordoada com o que testemunhara e ouvira, Lily mal assimilava o que fora dito e não compreendia como e quando James fora atingido. Parecia que mil facas rasgassem o seu rosto e nada que dissesse fazia parar aquele sangramento abundante. A angústia a sufocava, queimando em seu peito a cada segundo que passava.
Em meio àquela cena caótica e cheia de dor, ela sentia-se perdida e impotente. Suas emoções estavam em conflito, oscilando entre a raiva e o desespero. Lily lutava para processar o que estava acontecendo e encontrar uma forma de ajudar James. Cada momento parecia arrastar-se dolorosamente, como se o tempo tivesse congelado ao redor deles.
Foi então que, com passos lentos, Severus se aproximou dela. Ao mesmo tempo, encarava Sirius e Peter, que pareciam indecisos sobre como reagir ou se deveriam ajudar o amigo.
- Cala a sua maldita boca, sangue-ruim! Você não passa de uma sujeitinha de sangue imundo! Ninguém a chamou aqui... e eu espero que gente da sua laia não ouse mais me dirigir a palavra - sibilou, agarrando-a pelo braço com uma força que revelava sua raiva incontrolável, e jogando-a para longe.
- Eu só não meto a mão na sua cara, porque você é um imundo e eu não quero me sujar com a sua podridão! - declarou Lily, com um olhar de desdém que deixava claro sua profunda aversão.
- Que corajosa... parabéns! Contudo, se eu sou um Comensal da Morte, Evans, você deveria começar a tomar cuidado por onde anda, não acha? – Severus disse, com uma expressão fria e irônica, aproximando-se perigosamente.
- Tudo bem, então... eu não vou mais me preocupar com um vagabundo, morto de fome, como você. Aliás, eu lavaria essa cueca suja, Ranhoso - respondeu Lily com frieza, revelando uma indiferença calculada.
Os olhos negros de Severus estavam encobertos por uma nuvem de nojo e desinteresse, não se importando com quais eram as verdadeiras intenções que a levaram a intervir em sua defesa. A única coisa que a afetava eram os sentimentos de ódio profundo que a atormentavam.
Ao encarar Lily, Severus via uma menina falsa, fútil e interesseira, que se aproveitava de uma situação horrível para zombar dele e se aproximar de James. Isso apenas reforçava sua convicção de que ela era desprezível em vários níveis, alguém que usava as pessoas como degraus para subir na hierarquia social. Essa crença alimentava ainda mais o ódio de Severus, reforçando a ideia de que Lily não passava de alguém digno de pena e nojo, nada mais. Talvez a morte fosse realmente o melhor destino planejado por Voldemort para ela.
Antes que pudesse argumentar ou reagir de alguma forma, Severus foi covardemente atacado por trás. Sirius, acompanhado por Peter, desferia socos impiedosos sem dar trégua, até que James se juntasse ao linchamento. Para eles, Severus não passava de uma ameaça, um animal perigoso que precisava ser abatido diante de todos.
Lily e os outros estudantes presentes riam e proferiam xingamentos, instigando o espancamento sem misericórdia. O ambiente estava impregnado por um sentimento doentio de escárnio e deboche, refletindo a atmosfera de sadismo que envolvia aquela situação, onde a empatia e a compaixão pareciam ter sido esquecidas. A verdade era cruel: ele já estava julgado, condenado, e agora, faltava muito pouco para a execução final. O fato de pertencer à Sonserina o privava de qualquer direito à defesa ou apelação, deixando-o irremediavelmente destinado à morte.
- Agora, a parte mais emocionante do espetáculo... todos prontos? Vamos tirar as roupas do Ranhoso, que ele ousou colocar novamente sem a nossa permissão! Afinal, não basta apenas ver o quanto ele é descuidado! Querem ver mais? Aposto que esse sujeito não tem muito para se orgulhar! Eu diria que esse lixo tem o pau pequeno! - bradava Sirius, elevando sua voz para ter a atenção de todos, que se deliciavam com o espetáculo macabro que protagonizavam.
Nesse ponto, Remus, atordoado com o que presenciava, debatia-se entre os demais para alcançá-los e interromper aquela exibição grotesca. Estava chocado com a fúria desmedida nos rostos de seus amigos, questionando até onde eles seriam capazes de chegar, além de provocar desorientação e pânico em alguém que consideravam mais fraco e inferior.
Os comentários dos alunos da Lufa-Lufa sobre os acontecimentos e o quanto estavam horrorizados ecoavam nos ouvidos de Bellatrix, penetrando fundo em sua mente e coração. Cada palavra era como uma farpa aguda, ferindo sua alma e alimentando uma indignação crescente a cada passo que dava. Seu coração batia acelerado, parecendo querer escapar de seu peito, pulsando com uma mistura explosiva de emoções: animosidade, revolta, tristeza e, principalmente, uma sede avassaladora por revanche.
Enquanto apressava os passos pelo corredor, a mente de Bellatrix era um caos de pensamentos turbulentos. Ela se debatia internamente, lutando para conter a fúria que ameaçava transbordar de suas entranhas obscuras. Ao mesmo tempo, uma dúvida assolava sua mente perturbada. Questionava-se sobre a natureza humana e a essência da crueldade que emergia em Sirius nos momentos mais inoportunos, sem qualquer motivo aparente. Essa inquietação a envolvia em um redemoinho de questionamentos, desafiando suas crenças e fazendo-a questionar se também carregava uma parcela daquela maldade oculta em seu ser.
Ao chegar ao pátio, foi confrontada com uma cena chocante que a fez estremecer na alma. Seu olhar percorreu cada detalhe, como se tentasse desvendar o enigma por trás daquela brutalidade e covardia. Era como se a atmosfera estivesse impregnada com a injustiça, e cada sombra ali presente parecia ecoar as vozes daqueles que se banhavam na sensação de impunidade.
Sem hesitar, Bellatrix lançou um Impedimenta contra os quatro agressores e, em seguida, um Protego em direção a Severus. Seu gesto era determinado, refletindo seu repúdio diante daquela situação. Para ela, não importava quem havia iniciado a briga; o que via ali era uma clara manifestação de crueldade e uma completa falta de humanidade.
Enquanto Bellatrix tomava medidas para interromper a violência, Regulus acelerou o passo, empurrando grifinórios à sua frente. Ele ignorou a presença do irmão, bloqueando qualquer tentativa de justificativa que Sirius pudesse oferecer. Seu rosto era uma máscara de indignação, os olhos faiscando com uma ira assassina. Abaixou-se, erguendo Severus do chão, consciente de que seu amigo estava semiconsciente e nu. A visão era devastadora, despertando uma vontade avassaladora de vingança e destruição em ambos.
Bellatrix, após garantir a segurança de Severus, dirigiu-se a Sirius com uma expressão intensa. Ela avançou, dando um empurrão forte no peito dele, colocando a varinha ameaçadoramente em seu pescoço. Seus olhos brilhavam com uma chama incandescente de raiva, transmitindo sua determinação em enfrentar o responsável por tamanha atrocidade.
-Pode me dizer o que aconteceu aqui? - indagou Bellatrix, sua voz repleta de desdém e violência.
Sirius sentiu o impacto do empurrão, mas manteve-se firme, a encarando com ousadia.
- Não foi culpa minha, Bella. Aquele bastardo provocou a briga e... - tentou justificar-se, mas foi interrompido pela voz irada dela.
- Não quero saber de desculpas! O que eu vejo aqui é uma completa covardia! – esbravejou ela, com indignação evidente em sua voz, apertando ainda mais a varinha contra a pele de Sirius.
- O Remus não fez nada... e...
- Qual a parte que você não entendeu que eu não quero ouvir uma palavra sua? Você espera que eu dê a ele um prêmio porque foi o único que lembrou de não se comportar como um animal? Que ele é o único aqui a se lembrar que é um bruxo? – Bellatrix retrucou com sarcasmo, deixando claro seu descontentamento com a situação, tentando controlar a fúria que ameaçava explodir. Seus sentimentos por Sirius eram complexos, mas naquele momento, a irritação e o ressentimento dominavam suas emoções.
- Sirius... eu sentiria vergonha se estivesse no seu lugar! Vergonha! - proferiu, com um tom de reprovação firme em suas palavras.
Não era apenas pelo fato de namorarem, ou porque ele era sua primeira grande missão dada pelo Lorde das Trevas, que Bellatrix se proibiria de amaldiçoá-lo naquele momento. Desde suas memórias mais remotas de infância, Sirius sempre a irritara, e essa era sua oportunidade de liberar toda a fúria acumulada. No entanto, algo a segurava, uma voz interior que sussurrava que aquele não era o momento adequado para agir por impulso. Ela reprimiu suas emoções mais violentas, guardando sua fúria para uma ocasião mais oportuna, em que pudesse causar um dano ainda maior.
A sua respiração estava acelerada, seu peito subia e descia com cada respiração profunda. Bellatrix sabia que precisava manter o controle, afinal, o objetivo era defender Severus e evitar que a situação se agravasse ainda mais. Apesar de toda a raiva que sentia por Sirius, ela sabia que agir imprudentemente poderia comprometer o plano que o Lorde das Trevas havia traçado para os dois.
Fechando os olhos, com um esforço enorme, Bellatrix conseguiu acalmar-se o suficiente para falar com firmeza:
- Agora não é o momento para conversarmos, nem para você me dar explicações... sinceramente, não quero ouvir a sua voz.
- Mas você tem que me escutar, Bella! Qual é o seu problema? Por que o defende tanto? Esse idiota chamou a namorada do Pontas de sangue ruim... ele também fica cercando você o tempo inteiro! – gritou Sirius, segurando-a pelos braços e sacudindo-a, com um olhar desesperado.
Ele esperava que suas motivações fossem compreendidas e apoiadas em meio àquela selvageria. No entanto, antes que pudesse terminar de expor suas razões, Bellatrix o encarou, sua voz soando fria e desdenhosa.
- Não me diga que o seu amiguinho chupa-bolas está namorando essa vadia?! Que interessante! O que eu não entendi é qual a razão da sua revolta? Essa cadela é o que exatamente? Por que você está tão incomodado com a realidade? Aposto que essa vagabunda já deve ter transado com você.
- Aliás, para o seu aviso, eu converso com ele quantas vezes eu quiser e quando eu quiser. Você não manda em mim, Sirius. Nem que eu me case com você, terá o direito de pensar que pode impor alguma coisa ou decidir sobre qualquer assunto que me diga respeito - prosseguiu Bellatrix, seu tom afrontoso revelando sua profunda despreocupação em feri-lo com suas palavras mordazes. Seus olhos violeta brilhavam com uma intensidade fria, enquanto ela desafiava Sirius com cada palavra pronunciada.
Nada fundamentava uma situação como aquela. Ele poderia ter conquistado sua admiração e respeito se tivesse atitudes condizentes com sua postura corajosa e destemida. No entanto, agora era evidente para Bellatrix que Sirius não passava de um covarde, alguém que necessitava agir em bando para conquistar uma vitória em meio à briga. Ela se sentia suja, com nojo de si mesma, por ser obrigada a permanecer envolvida com alguém tão desprezível. Sua decepção era profunda, abalando as bases de qualquer sentimento que pudesse ter nutrido por ele.
- É sempre assim... você, a Cissy ou a Andie sempre defendendo esse ranhoso de merda! Esse filho da puta que dá para o Rosier - gritou Sirius, cruzando os braços com fúria, enquanto a observava se afastar. Seu rosto contorcido refletia a revolta que sentia em relação àquela situação.
- Ah, vai se foder! Deve ser porque ele não age como um demente e cria situações em sua própria cabeça, espalhando cada uma delas como se fossem reais – Bellatrix respondeu com sarcasmo.
Seus olhos, geralmente brilhantes e cheios de malícia, estavam agora tomados por uma escuridão profunda, como a noite mais sombria. O encarando Sirius com ódio, ela despejou suas palavras com um misto de desprezo e fúria contida.
- Sinceramente, por melhor que você seja para o meu divertimento, eu estou começando a me cansar de você.
O coração de Sirius doeu ao ver Bellatrix agindo dessa forma. A ameaça de um término pairava no ar, cortante como uma lâmina afiada. Sirius tentou manter a compostura, mas a dor e a incerteza se refletiam em seus olhos. Ele tinha dado tudo de si, além dos seus limites, para conquistar o amor dela. Mas tudo o que recebia em troca era desprezo e reprovação por conta de alguém que o tratava como um mero objeto descartável. Sentia-se como se fosse um nada aos olhos de Bellatrix.
- Agora você se cala?! Não era o macho alfa que estava cagando regras aqui? Seus amigos oportunistas fugiram assim que tiveram a chance e o abandonaram aqui. Parabéns! - ironizou, soltando um pequeno bufar de riso pelo nariz, enquanto seus olhos faiscavam de desdém.
Enquanto a discussão fervia, Regulus e Severus se mantiveram à parte, trocando olhares de solidariedade e compreensão. Eles sabiam que não adiantaria tentar intervir naquela briga acalorada, pois apenas aumentaria a tensão. No entanto, o vínculo entre eles era claro, uma cumplicidade não revelada aos olhos dos demais.
Bellatrix, preocupada com a condição de Severus, aproximou-se para examinar seus ferimentos. Seu cenho franzido mostrava seu desconforto diante da violência que presenciara. Ela analisou os machucados com cuidado, verificando se havia alguma lesão grave. Seu coração oscilava entre a raiva pela situação e a preocupação genuína por aquele a quem considerava um amigo.
- Estou bem e vou sobreviver, Gamma Orionis... ninguém ocupará o meu posto de honra, nem mesmo você, que é uma verdadeira dúctil - comentou Severus, com um sorriso sarcástico nos lábios.
Seus olhos brilhavam com uma mistura intrigante de dor e desafio, provocando Bellatrix a contradizê-lo. Sabia o quanto ela detestava quando alguém brincava com qualquer traço sentimental ou empático que apresentasse em seu rosto, especialmente quando essa pessoa era ele. Enquanto Bellatrix bufava em resposta, Severus não pôde deixar de rir, mesmo sentindo pontadas dolorosas percorrendo todo o seu corpo. Era evidente que ele não conseguia mais esconder o que realmente sentia, mas também ficava claro que jamais deixaria de rir das fraquezas dela ou implicar com os menores detalhes que percebesse em seus gestos.
- Ora seu imbecil, você deveria aprender a ser mais grato com a sua única salvadora! Confesse que me ama e que eu sou a melhor pessoa que você conhece, cunhadinho – respondeu afrontosa, com um ar arrogante e divertido.
- Melhor pessoa... sei – ironizou ele, crispando os lábios para sufocar um gemido baixo de dor.
- Veja só, você acabou de admitir que é o meu cunhadinho querido! Então, deixe de ser birrento e encrenqueiro - provocou Bellatrix, semicerrando os olhos e cruzando os braços junto ao peito, mostrando a língua como se desafiasse Severus a continuar com a discussão. Porém, havia uma chama de admiração oculta em seu olhar, revelando que, apesar de tudo, ela o considerava alguém especial.
- Bella, eu já falei para o Severus que todos serão avisados do que aconteceu aqui... o ataque que ele sofreu não ficará assim - comentou Regulus, ajudando Severus a dar alguns passos, enquanto seus olhos se encontravam com os de Bellatrix, transmitindo significados e cumplicidade que não podiam ser expressos em palavras.
- Bella? – chamou Sirius, estendendo a mão em direção a ela, esperando uma reconciliação que parecia cada vez mais distante. No entanto, em resposta, recebeu um empurrão do irmão, que o afastou bruscamente, deixando claro que qualquer tentativa de aproximação seria infrutífera.
- Você ainda está aqui? Sirius, você não tem um pingo de amor-próprio ou vergonha na cara? – disse, voltando-se de costas e seguindo adiante.
- Chega, seu idiota! Não quero falar com você. Desapareça da minha frente!
Em seu rosto, era possível ver a exaustão e a frustração diante dos gestos infantis de Sirius, que parecia não compreender a gravidade da situação. Ela não tinha tempo nem disposição para lidar com jogos emocionais naquele momento.
Aquela não era a hora nem o momento para procurar esclarecimentos ou buscar uma reconciliação. Bellatrix estava em um estado de fúria incontrolável, demonstrado pelo fato de ter ameaçado Lily de morte na frente de metade de Hogwarts, sem se importar com as possíveis consequências. Seu temperamento explosivo e a raiva que a consumia eram sinais claros de que qualquer tentativa de diálogo naquele momento seria inútil e até mesmo perigoso.
Com o conflito encerrado e os alunos dispersos, Slughorn e McGonagall acompanhavam os envolvidos em direção ao escritório de Dumbledore. Enquanto caminhavam pelos corredores, o diretor da Sonserina reclamava sobre a segurança dos seus alunos, que haviam sido alvo de dois ataques em curto intervalo de tempo. Evan mal havia saído da ala hospitalar, após uma longa internação para tratar dos ferimentos graves, e agora era Severus quem estava com costelas e um braço quebrado, necessitando de cuidados médicos mais uma vez. A impunidade reinante em Hogwarts tornava-se cada vez mais preocupante.
Porém, além das lesões físicas, o que mais preocupava Slughorn era o corte no supercílio esquerdo de Severus e a poça de sangue que se formara dentro de seu olho. Ele temia que o aluno tivesse sofrido algum tipo de dano grave na retina e pudesse perder a visão, o que seria devastador para alguém com um futuro tão promissor. Essa apreensão permanecia oculta, pois o professor não queria alarmar ainda mais o jovem, mas dentro de si, a possibilidade de uma carreira brilhante interrompida por um incidente como aquele era angustiante.
A repercussão do ocorrido ia além dos corredores da escola.
Os demais professores estavam agitados e revoltados diante da situação inadmissível e da complacência com as atitudes agressivas dos Marotos. O tema principal daquela reunião forçada era evidente. Na sala da direção, enquanto Dumbledore conduzia a discussão, Remus permanecia em silêncio, mantendo a cabeça baixa e absorvendo cada palavra. Ele refletia sobre sua própria omissão e como poderia ter evitado o desenrolar daquele episódio perturbador e violento. Não encontrava justificativas para o ataque, muito menos entendia os motivos que levaram Sirius a ficar tão enciumado. Ambos sabiam que traições e humilhações mútuas faziam parte de sua relação complexa e doentia, uma espécie de afrodisíaco que os envolvia reciprocamente. No entanto, havia algo mais por trás de tudo aquilo, uma intenção oculta que Remus sentia necessidade de desvendar. Contudo, ele mantinha-se em silêncio, preso em sua postura distraída e reclusa.
- Senhores, chegou o momento de vocês explicarem o que aconteceu hoje - disse o diretor, sua voz carregada de uma seriedade incomum ao exigir explicações de seus "meninos de ouro" que se envolviam em confusões recorrentes.
Diferentemente do que acontecera com Evan e os alunos da Corvinal, ele não poderia acobertar os Marotos dessa vez, alegando falta de provas. As testemunhas eram muitas e apagar suas memórias seria um desafio ainda maior. Essa dificuldade acrescentava complexidade à situação.
Internamente, Dumbledore preocupava-se com a possibilidade de um aluno sonserino enviar uma coruja aos pais, relatando tudo o que havia acontecido desde o início do ano. Caso isso chegasse ao conhecimento da alta cúpula do Ministério da Magia, seu cargo estaria em risco. O incidente havia ultrapassado todos os limites do que poderia ser considerado um mero desentendimento entre adolescentes descontrolados. Foi uma agressão moral, física e sexual, uma situação grave demais para ser escondida.
Dumbledore respirou fundo, ponderando todos os cenários e justificativas, buscando argumentos que apoiassem a ideia de que aquilo fora apenas mais um deslize, uma quebra de regras passível de ser corrigida com uma detenção de uma ou duas semanas. No entanto, ele sabia que essa explicação não seria aceita facilmente por todos os presentes. A tensão no ar era palpável, o destino dos envolvidos estava em jogo, e o diretor precisava encontrar uma solução que atendesse às demandas da justiça e garantisse a sensação de segurança, mesmo que, por vezes, fosse apenas uma ilusão passageira para os alunos da escola.
Em meio à confusão, os ânimos exaltados dificultavam a compreensão do que de fato ocorrera naquela conturbada situação. James, com sua voz impetuosa e gestos enérgicos, defendia veementemente sua inocência, erguendo o punho cerrado no ar enquanto batia no peito com uma mistura de raiva e desespero. Seu olhar se alternava entre Dumbledore e os demais presentes, tentando encontrar sinais de apoio em seus rostos.
- Eu juro, professor, que não tive nada a ver com isso! Alguém está tentando nos difamar, nos destruir! - exclamou ele, olhando fixamente para o diretor em busca de compreensão e apoio.
- Fomos atacados, professor! Não sabemos por quem, nem o porquê, mas sentimos o perigo se aproximando. Alguém quer nos arruinar, nos derrubar! Precisamos de sua proteção, de sua ajuda!
Os olhos de Sirius estavam vermelhos e úmidos, as lágrimas ameaçando cair a qualquer momento, enquanto ele tentava explicar entre soluços entrecortados. Com a voz embargada e entrecortada pela angústia, seus olhos buscavam desesperadamente por algum sinal de compaixão e entendimento por parte daqueles que estavam a sua volta. Ele queria que suas palavras fossem acreditadas, que sua versão dos fatos fosse aceita como a verdade incontestável.
Enquanto isso, Peter mantinha uma expressão preocupada e apontava nervosamente para os alunos da Sonserina, tentando transferir a culpa para eles. Seus olhos se desviavam dos olhares acusadores dos outros presentes, e ele evitava olhar diretamente nos olhos de Dumbledore, talvez temendo que sua tentativa de colocar a culpa em outros fosse facilmente percebida.
- Talvez algum daqueles canalhas da Sonserina esteja tramando algo contra nós, professor. Eles sempre nutriram inveja de nossa popularidade. Certamente, foram eles os responsáveis por essa armadilha! – sua voz soava trêmula, baixa, acompanhada por um olhar inquieto que circulava por todos os cantos, como se temesse a qualquer momento ser desmascarado.
Em meio à gritaria, Dumbledore, com sua serenidade habitual, esforçava-se para manter a calma enquanto massageava as têmporas, sentindo a pressão do momento. Sua postura, imponente e firme, permanecia intacta em meio ao caos reinante.
- Peço que todos se acalmem. Professor Slughorn, o mais sensato agora é ouvirmos a versão dos fatos que deve ser apresentada pelo senhor Snape - afirmou ele com autoridade, caminhando com passos firmes e seu olhar perspicaz percorrendo cada um dos envolvidos, atento às expressões e sutilezas de linguagem corporal que poderiam revelar a verdade oculta.
Com passos lentos e sentindo as dores agudas provenientes de suas costelas quebradas, Severus acompanhou o professor Slughorn em direção ao escritório de Dumbledore. Bellatrix, seguindo-os de perto, não perdia a oportunidade de discursar sobre a situação, alimentando sua revolta e buscando justiça diante dos abusos que considerava intoleráveis em Hogwarts. Seu discurso inflamado ecoava pelos corredores, prolongando-se por cerca de 40 minutos, enquanto os três adentravam o escritório.
Ao entrarem, depararam-se com os quatro Marotos sentados, ainda ostentando expressões de contrariedade em seus rostos. Era visível que haviam sido repreendidos, embora fosse duvidoso que tal punição fosse suficiente para colocar um fim em seu comportamento problemático.
- Senhor Snape, fico feliz que já esteja recuperado do pequeno acidente no pátio da escola. Obviamente, foi uma brincadeira malsucedida por parte dos seus colegas e... creio que o melhor para todos é esquecer esses desentendimentos irrelevantes que vêm ocorrendo aqui - disse Dumbledore, dirigindo-se a Severus com um olhar compassivo e gentil, numa tentativa de apaziguar a situação e convencê-lo a não levar o caso adiante, caso os aurores fossem envolvidos. Suas palavras carregavam consigo a intenção de varrer os desentendimentos para debaixo do tapete, em nome da suposta harmonia e paz em Hogwarts.
Severus encarou o diretor, seu olho ainda marcado pela sombra do sangue acumulado, segurando com firmeza o ódio profundo que sentia ao se ver desamparado e vulnerável. Aquela situação revoltante e desrespeitosa o forçava a ponderar cada palavra que iria proferir, ciente de que estava jogando um jogo perigoso diante de Dumbledore, um mestre manipulador que procurava qualquer brecha para acusá-lo como o único responsável por aquele tumulto.
- Deixe-me entender, professor... Após ser humilhado e espancado, devo simplesmente ignorar todo o sofrimento que vivenciei em nome do suposto bem desses indivíduos perturbados? É isso mesmo, senhor? - questionou, cauteloso em suas perguntas, buscando equilibrar a raiva e o ressentimento contidos em seu peito.
Cada frase que proferia era meticulosamente calculada, visando conquistar a empatia dos demais professores que acompanhavam o desenrolar da cena e, ao mesmo tempo, evitar que suas palavras fossem usadas contra ele. Era uma dança arriscada, onde a menor imprecisão poderia levar a consequências desastrosas. Severus percebia nos olhos azuis do diretor uma busca implacável por qualquer indício que pudesse corroborar sua teoria de que ele era o principal instigador e culpado daquela briga.
Bellatrix, sempre pronta para defender a causa de Severus, não se conteve e entrou na discussão, apontando o dedo acusadoramente.
- Francamente... Como o senhor ousa dizer que ele deve simplesmente esquecer tudo o que passou? Esses imbecis quase o mataram! - exclamou ela, sua voz ecoando no escritório, carregada de fúria.
- Senhorita Black, creio que o seu comportamento está sendo insuficiente e está quebrando muitas regras irrevogáveis de Hogwarts - repreendeu Dumbledore, mantendo sua postura firme e autoritária.
Contudo, Bellatrix não se deu por vencida, sua devoção à justiça e seu desprezo por abusos e injustiças superavam qualquer ambição ou cinismo. Aquela situação ultrajante e humilhante a revoltava e ofendia profundamente, e ela não mediria esforços para lutar contra tais atrocidades.
- Senhorita, por que criar ou levantar questões tão problemáticas desnecessariamente? - retrucou o diretor, com sua voz serena e um olhar penetrante em Bellatrix.
Ela fitou-o com intensidade, seus olhos faiscando de indignação. Cada palavra do diretor parecia uma afronta à sua convicção de que a razão deveria prevalecer. Mas não se intimidou, mantendo-se firme em sua posição.
- Imagine seu tio tendo que vir aqui para resolver uma bobagem feita por seu primo. Essa não é a forma adequada de lidarmos com as divergências em Hogwarts.
O diretor da escola estava consciente de que a situação era delicada. Evitar que Orion ou Walburga se envolvessem era essencial, especialmente depois dos comentários abomináveis feitos por Bellatrix e sua promessa de que aquilo não seria esquecido. A possibilidade de mais membros da família serem notificados sobre os eventos recentes era preocupante.
- Meu tio deveria ter metido a mão na cara dele quando se prestou a fazer todo aquele escândalo na frente de casa - ela disse com fervor, deixando escapar um resquício de raiva por Sirius e suas atitudes, aproximando-se do grupo com uma expressão convicta.
O olhar de Severus, assim como o dos demais presentes, se alternava entre Bellatrix e Dumbledore, percebendo as nuances do embate que se desenvolvia entre eles. Ele compreendia a dor e o ódio que emanavam por parte dela, mas sabia que não podia permitir que a situação se tornasse ainda mais complicada. Era uma dança delicada entre as paixões e o pragmatismo, e se sentia no meio de um furacão, tentando equilibrar suas próprias emoções enquanto observava a interação dos demais e pensava no que fazer.
- Senhor Snape... infelizmente, tenho que lhe recordar o quanto ofendeu a senhorita Evans gratuitamente e ela não está aqui o acusando de nada. Então, não darei continuidade a esse tema tão pequeno. Os rapazes já concordaram em lhe pagar pelo uniforme rasgado e o cumprimento de uma semana de detenção, o que faz com que isso esteja resolvido. Agora, podem ir – concluiu.
O diretor considerava que aquilo seria o suficiente para resolver o problema, apesar de notar o olhar desgostoso de três diretores das casas em sua direção. Ele se recusava a prejudicar seus protegidos. Se necessário, apagaria as memórias de Severus e tudo seria esquecido.
Para Dumbledore, ele não passava de uma peça em seu jogo, alguém que poderia ser descartado quando necessário. No entanto, essa atitude contraditória causava uma incerteza desconfortável em seu íntimo. Os Marotos, por outro lado, eram peças valiosas que precisava manter por perto. Seus talentos e habilidades seriam essenciais para seus futuros planos, mas isso também despertava nele o temor de que a situação pudesse escapar de seu controle.
Horas passaram e no raiar do dia seguinte, os portões de Hogwarts se abriram com um rangido soturno, anunciando a chegada iminente do Conselho Diretivo liderado por Abraxas Malfoy. Seu olhar irrompeu de cólera contida, como uma tempestade prestes a desabar, tornando seus olhos cinzentos sombrios e impenetráveis. Ao seu lado, Eileen tentava desesperadamente manter uma expressão de calma, mas o leve tremor em suas mãos e os olhos inquietos denunciavam a imensa onda de preocupação que a dominava. A angústia de não saber como Severus estaria agravava sua própria ansiedade.
Rosier segurava firmemente a sua mão, buscando transmitir confiança e tranquilidade, mas sua mente estava inquieta, repleta de dúvidas sobre o que esperar daquela reunião e das consequências que poderiam se desdobrar. Ele observava atentamente os primos Black, Orion e Cygnus, apresentando expressões tranquilas, e se perguntava o que estariam verdadeiramente pensando por trás das máscaras de altivez.
As preocupações dos demais membros do Conselho eram ainda maiores, impulsionadas pela ordem direta de Voldemort para tomar medidas drásticas imediatamente. O ataque ao braço direito do Lorde das Trevas e seu promissor general havia ferido profundamente o orgulho e a confiança do senhor das sombras. Proteger Severus Snape agora era uma questão de estratégia e lealdade para alguns, mas para outros, era também uma oportunidade de angariar favor e status.
O objetivo do Conselho ao ir até a escola era claro: exigir que Dumbledore prestasse esclarecimentos sobre as sérias acusações contra sua administração. As graves denúncias que chegaram ao Ministério da Magia abalaram a confiança que até então haviam depositado nele para a posição de diretor. A situação ia além de meros descaso e negligência, envolvendo a mais profunda conivência com atos criminosos e uma tentativa de homicídio, questões que não poderiam ser ignoradas ou abafadas. A atmosfera era tensa, carregada de indignação e revolta, e a incerteza pairava no ar, pois sabiam que qualquer decisão tomada ali poderia abalar as estruturas da renomada escola de bruxaria.
Fora dos portões de Hogwarts, alguns pequenos grupos de Comensais da Morte já comentavam sobre Sirius Black, reconhecendo que ele havia deixado de ser apenas um rosto bonito e se tornara um alvo em potencial. Para o Lorde das Trevas, assassiná-lo pessoalmente se tornara parte de seus planos futuros e pessoais, transformando-o em uma peça crucial nessa perigosa partida.
