A noite estelar, iluminada pelo luar, era fria e sinistra. Os nevoeiros brancos mergulhavam para dentro das florestas pinheirais. Os troncos, os galhos, as folhas verdes escuras e os arbustos eram acariciados pelos incompreensíveis sussurros dos ventos montanhescos. As matas cercavam uma estrada de asfalto. Esta tinha uma longa linha pintada na cor amarelo neon, que contrastava com os brilhos siderais. Havia apenas um carro na estrada. O motorista dirigia para uma região longe, desértica e montanhosa. O estado de tranquilidade estava inscrito nos olhares escuros e profundos do homem. Às vezes, essa calma aparentava indiferença.
A cada curva que o homem fazia, ele puxava para esquerda e para a direita o volante, rodando-o com extrema rudeza. As rodas do carro deslizavam no chão asfáltico, perigosamente. De repente, a estrada de asfalto desapareceu e o carro deparou-se com um maciço paredão rochoso. Então, ele foi em direção à floresta. Após descer uma ladeira leve, o carro entrou na mata. O carro percorreu por uma trilha reta e plana, em meio aos pinheiros altos e aos arbustos fartos. A lua, ocultada pelo aglomerado de folhagens, galhos e troncos, não era vista pelo motorista, pois a densa e impenetrável matagal, proíba o mundo exterior de expiar as profundezas florestais.
A estrada, quase que interminável, cessou: o carro deparou-se com enormes e extensos portões metálicos e muros de mármores. Estes estendiam-se para a esquerda e para a direita dos portões. Ele havia chegado no lugar a que almejava tanto. Um local tanto pensado por ele, durante os anos em que esteve fora, desaparecido. Desligando o carro, abriu a porta e saiu. O homem andou em direção aos portões fechados com cadeados, e os abriu com uma chave. Esta, pertencia-o. Na verdade, todas as terras, florestas, montanhas, riachos, vales e cavernas desta região, pertencem-o. Porém, ninguém lembrava que o dono, desaparecido por completo, estava vivo e que voltou.
Ele entrou da propriedade. E andou. Andou muito, mesmo. Andou por horas até chegar à casa. Ele pisoteava o gramado musgoso coberto por uma fina camada de geada. Apesar de o homem vestir um corta-vento preto, a ventania gélida batia nas costas e nuca dele, dando-o calafrios e tremedeiras. Mas, ele não se importava se contraísse uma pneumonia, pois continuava seu caminhar. Este, era lento, porém firme. Silencioso, mas decidido.
Ele avistou a casa solitária situada no meio do campo plano e extenso, cercada por arvoredos engruvinhados e matagais fechados. Ele andava entre os arbustos franzidos e desordenados, os pinheiros secos e grossos. O solo, musgoso e esverdeado, era escorregadio. A temperatura úmida gelava ainda mais o ambiente campestre, mofado e sufocante. As neblinas formavam uma espécie de envoltório fantasmagórico em torno da casa. A moradia era alta, grande, espaçosa e marmoreada. A tonalidade da casa, de um cinza pálido, realçava seu estado deplorável, negligenciada pelo dono por anos.
De repente, viu-se, em uma das várias janelas altas e quadrada, uma luz de vela acender. O homem ficou em estado de alerta. Era impossível ter alguém morando na casa, pois ele era o único que tinha acesso a estas terras. Ele era o dono da casa. Um moribundo, talvez, transpassou a propriedade? Quem mais seria? Quem é que estaria usando sua casa, sem ele saber? A raiva culminava dentro dele. Ele ficou indignado e raivoso. Para piorar a situação, viu um vulto em forma de uma silhueta por trás das cortinas alvas, rasgadas e empoeiradas. Não conseguia dizer se a sombra que enxergou era de uma criança, de animal ou de um adulto. Foi muito rápido e sútil.
Não pensou duas vezes. Ele andou, agora, com passos largos e impacientes, até a entrada da casa. Deu um belo de um pontapé brusco na porta, já corroído e gosmenta. O estardalhaço ecoou nos compartimentos da casa. Uma brisa gelada e seca invadiu as salas, esfriando tudo. A única luminosidade na casa, apagou-se. A escuridão reinou na velha casa. O homem, que estava na pequena sala de entrada, viu que nessa miúda sala apenas restaram os suportes cobreados para guarda-chuvas, um pequeno móvel para guardar bugigangas e um espelho dourado, que, agora, estava corrido, sujo e oxidado. O cheiro mofado e bolorento era horrível. A casa estava completamente inabitável.
Ele lançou seu olhar nas longas escadarias marmoreadas, as quais faziam fronteira com a pequena sala. A figura do homem, imóvel e tristonha, deixa o ambiente ainda mais lutuoso. Do nada, ele ouviu um som vindo dos fundos, perto da sala de estar e dos jardins. Foi-se ele, com bravura estoica, investigar e descobrir quem fazia esse barulho.
