Após alguns minutos de rápida conversa, Andromeda, Severus e Narcissa saíram imediatamente em direção à Black Manor, preocupados com o que poderia acontecer com Bellatrix. A ansiedade que os assolava fazia com que ignorassem o raiar do dia que começava a iluminar a madrugada. O tempo era curto, e a urgência crescia a cada segundo. Isso era evidente na expressão tensa com que Andromeda caminhava, acelerando os passos para encontrar um local mais reservado onde pudessem desaparatar o quanto antes.

Caminhando por alguns minutos, dobrando esquinas pintadas pela paleta de sombras e receios sorrateiramente, os três seguiram em direção ao córrego poluído. Ali, uma raposa esquelética procurava por alimento em meio à miséria, o local perfeito para o que pretendiam. Não haveria testemunhas nem rastros que denunciassem suas presenças. Nem mesmo o pequeno rato, que Narcissa acabara de jogar ao animal faminto e agradecido, permaneceria como lembrança segundos após girarem no tempo-espaço.

O coração de Severus batia forte, ansioso por colocar um fim naquele pesadelo ocultado por anos sob o manto de uma falsa hora tão esperada. Quem o conhecia verdadeiramente sabia o que aquilo lhe gerou de sofrimentos e transtornos. Se ponderasse profundamente, devido àquela ilusão terrível, esteve prestes a perder o amor de Narcissa e a se afundar em um oceano profundo de solidão e desespero.

Não apenas por ela, mas também pelas inúmeras mentiras que foi obrigado a contar, pelas dúvidas intermináveis e pelo medo de se entregar ao amor, afastando-se de tudo o que fazia seu coração arder, desejando transformar-se em alguém diferente do que fora. Enfrentando as sombras misteriosas que tentavam impedi-lo de avançar e vencer a última batalha contra todo aquele horror, Severus se agarrava com todas as forças ao sentimento que o impulsionava a seguir em frente e não desistir.

Só mais um passo, e aquele tambor que o fazia lembrar que estava vivo e merecia ser grandioso voltaria a bater com toda a violência e entusiasmo merecido. Exatamente porque não poderia mais existir se resumindo a uma metade. Ele merecia e deveria ser completo. Sem exageros. Sem explosões. Apenas assim receberia o que era seu por direito e por honra.

Com a rápida aparatação, eles chegaram à mansão, sendo recepcionados pelos gritos desesperados de dor emitidos por Bellatrix no andar superior. Na escada e nas paredes, rastros de sangue e líquido amniótico se espalhavam, mostrando o trajeto feito e como ela fora carregada para o quarto. Um cenário caótico que lembrava mais algum tipo de chacina do que um nascimento.

O ar pesava, o clima era sufocante e opressor, como se algum novo segredo estivesse prestes a ser revelado, trazendo consigo os ecos da tragédia que atingiria quem se encontrasse naquele lugar maldito. Ou talvez a tensão iminente fosse apenas a presença do Lorde das Trevas, que parecia contaminar o ambiente ao andar de um lado para o outro, silenciosamente, meditando sobre algum tema importante. Nagini o acompanhava de perto, rastejando com a mesma lentidão, como se estivesse seguindo seus pensamentos mais profundos e compartilhasse das mesmas considerações.

Mais ao fundo da sala, sentado em um canto com a cabeça baixa, Cygnus, de vez em quando, erguia os olhos em direção às crescentes súplicas. No fundo, o horror impresso em seu rosto mostrava o remorso que o consumia e o início de um processo de autopunição por ter lançado a família naquele abismo. Especialmente quando foi obrigado a se levantar subitamente com a chegada de Druella, que desceu as escadas correndo, exigindo a presença de um curandeiro e de uma medibruxa, transformando toda a situação em uma cena mais sombria do que imaginavam ao saírem do Spinner's End minutos antes.

- O que aconteceu aqui? – questionou Andromeda, franzindo o cenho com o ar de hesitação que ambos apresentaram, ao se negarem a comentar o que ocorrera ali desde que ela saíra da mansão.

- Pai? Mãe? Alguém pode me dizer alguma coisa?

- Nada com que você deva se preocupar – Druella respondeu secamente.

Andromeda se sentia a cada segundo mais aflita por conta de tudo o que observava ao seu redor, com atenção. Sobretudo, quando experimentava uma sensação incômoda e anormal a cercando, como se as paredes investigassem quais eram as suas intenções. Uma impressão que também era compartilhada por Severus, que percebia o estranho crescimento de uma sensação de impotência que lhe apertava o peito, fazendo com que segurasse firmemente a mão de Narcissa para mantê-la ao seu lado. Ambos temiam que algo mais grave pudesse acontecer nas próximas horas, porém não sabiam definir exatamente o quê.

- Bellatrix... a menina que ela está esperando decidiu nascer antes da hora esperada e se encontra na posição errada – Cygnus disse, quebrando o silêncio, olhando fixamente para o rosto da filha mais velha.

- E o Sirius já foi avisado?

- Andromeda, me responda o que essa... essa sujeitinha está fazendo na minha casa? Eu já não havia lhe dito que estava proibida a entrada dela aqui? Há algum fato que não foi explicado a você sobre o constrangimento que nos causa a presença dela? – Druella perguntou com arrogância, ignorando a questão que havia sido levantada.

- Respondendo à senhora, eu vim com o meu noivo ajudar a minha irmã... sei que onde as minhas irmãs estiverem, eu sempre serei bem-vinda, pois contrariando a sua postura, nenhuma delas me renega ou me trata como uma vagabunda – Narcissa falou indignada, com o rosto extremamente sério e sombrio, soltando a mão de Severus para que pudesse subir ao segundo piso.

- E se estiver incomodada, reclame ao Lorde das Trevas por ter solicitado a minha presença aqui, porque eu ainda sou uma Black e nunca deixarei de ser.

- Você está bem? – Severus perguntou, antes de deixá-la partir, para lhe passar segurança.

- Sim. Eu só não quero ficar no mesmo espaço que eles, amor – falou, com um tom mais tranquilo, dando um meio sorriso.

- Fique bem...

- Eu sei me cuidar.

- Eu me responsabilizo pela Cissy, Severus. Não se preocupe tanto – comunicou Andromeda, segurando a irmã pelo pulso para que se retirassem logo.

- Repetindo a pergunta de Andromeda, os senhores lembraram de avisar ao Black sobre o nascimento da filha dele? – Severus questionou com a voz ríspida, sem qualquer paciência e com profundo nojo, enquanto voltava sua atenção novamente aos sogros.

- Não. Não somos obrigados a informar isso! – Druella deu de ombros, mal o olhando nos olhos.

- Realmente não são, ainda mais quando ele, se eu não estiver enganado, será quem mandará nessa família. Ele é o primogênito, não?

- Isso não vem ao caso...

- Imagino que a senhora Walburga pense o mesmo a respeito, não é, meu caro sogro?

- Eu não sou seu sogro, porque você não se casará com nenhuma das minhas filhas – Cygnus afirmou com asco, o afrontando, com um olhar que subiu dos pés a cabeça.

- Aquele irresponsável geraria mais transtornos do que soluções e acabaria brigando com a Bella novamente. Caso não esteja informado, Snape, eles romperam de uma forma nada amistosa.

- Compreendo a sua perspectiva. O Black ter finalmente cansado de brincar de cachorrinho de madame, de fato, o faz deixar de ser o pai dessa criança – Severus deu um sorriso irônico em direção a ele.

- Os senhores são pessoas formidáveis.

- Com certeza somos melhores do que você.

- Quanto a isso, senhor, eu não duvido. A prova é que eu sou o braço direito do Lorde das Trevas, enquanto o senhor está encolhido no canto, mais aterrorizado do que qualquer elfo doméstico que eu já conheci.

- Entendo que a reunião familiar esteja empolgante, meu caro Cygnus, mas preciso que o Severus me acompanhe até a biblioteca - Voldemort se pronunciou subitamente, saindo das suas análises, fazendo um gesto para que o seguisse.

- Estamos aqui cientes de que nascimentos de crianças sejam um assunto destinado às mulheres e àqueles que estudaram sobre isso, o que torna a nossa presença irrelevante.

- Claro, milorde – Cygnus sussurrou encarando os próprios pés.

- Por falar em homens que deveriam estar presentes ou não, onde está o pai da menina? Creio que o aviso do Severus quanto à presença dele tenha sido bem claro.

- Nós iremos avisá-lo, senhor.

- Assim espero.

- Milorde, no que eu posso servi-lo? – Severus perguntou, em meio a um gesto de reverência, refletindo o que poderia ser proposto pelo Lorde das Trevas para que exigisse a sua presença ao interromper a discussão.

- Eu reparei em você com a Narcissa e, por isso, gostaria que fosse sincero e me dissesse se ainda quer a menina como pagamento pelos seus serviços?

- Eu não a quero de presente, senhor.

- Você é capaz de compreender que o acordo que fizemos não pode ser rompido, em nenhuma hipótese, Severus.

- Claro.

- Ótimo! Porque o que me interessa, nesse momento, é o fato de que eu não quero perder a minha serva mais fiel ou vê-lo se rebelar. É sua obrigação, Severus, me tornar vitorioso nessa guerra – Voldemort revelou, por fim, massageando as têmporas com um aspecto impaciente e raivoso.

- Milorde, eu jamais descumpriria as minhas obrigações e os votos que realizamos. Minha única mudança foi sobre quem será a minha futura esposa – Severus explicou um pouco confuso com aquelas palavras que acabara de ouvir, mas não se deixou abater e fingiu que nada estava fora da normalidade.

- Eu vou preparar as poções que faltam, para que Bellatrix possa se restabelecer, o mais rápido possível. Se o senhor me permitir, eu vou me retirar rapidamente para pegar algumas que possuo em casa. Elas podem ir aliviando as dores que ela deve estar sentindo no momento.

- Vá então, Severus – ordenou, recebendo uma nova saudação, antes de o ver desaparecer diante de seus olhos.

Ainda com as ideias desordenadas e examinando todas as alternativas que tinha à disposição, Severus optou por se encaminhar à B Elixires. Era a melhor atitude que poderia tomar naquele instante. Pegaria o máximo de poções possíveis e mandaria que Remus fosse imediatamente avisar Sirius sobre a chegada de Hermione. Por mais que o odiasse, reconhecia que era seu direito estar presente no nascimento da sua primogênita.

Com esses pensamentos, foi rapidamente reunindo um número maior do que o necessário de frascos, colocando-os em duas pequenas caixas sob a bancada. Não demoraria muito ali. Sabia que Remus devia estar acordando, ou talvez já estivesse acordado, se preparando para comer algo antes de iniciar mais um dia de trabalho.

- Lupin?! – gritou para que o outro, onde quer que estivesse, o ouvisse.

- Um minuto, Snape, já estou indo – a voz ecoou do andar inferior junto aos passos subindo os degraus da escada.

- O que você estava fazendo no porão?

- Acabei dormindo lá enquanto arrumava o estoque. Mas e você, como está?

- Melhor.

- Isso é bom, a Narcissa estava bastante preocupada com você.

- Você deve ir avisar ao Black que a filha dele está prestes a nascer.

- Já?

- Sim, Lupin, já! A criança não ficará esperando a sua boa vontade para nascer ou não.

- Certo...

- E você tem horário, Lupin não deve entrar madrugada adentro arrumando os estoques.

- Está preocupado comigo, Snape?

- Não, eu só respeito o horário de trabalho dos outros, e o fato de morar aqui não te coloca em regime de trabalho escravo.

- Eu sei disso, só fiz para passar o tempo, já que perdi o sono.

- Pois não faça mais, e eu direi à Narcissa que você deve ganhar pelas horas extras que fez.

- Cara, não precisa...

- Isso não está aberto à discussão, Lupin.

- Ok, você venceu – disse, erguendo as mãos para o alto em rendição.

- Vou sair para avisar o Sirius.

Observando Lupin sair pela porta da frente apressado para desaparatar na calçada, Severus trancou a porta e recolheu as caixas sobre a bancada antes de entrar na lareira. Optou pelo Pó de Flu, pois seria mais prático do que tentar desaparatar com tantos frascos distribuídos à sua volta. Em segundos, atravessou lareiras de salas e quartos, com vultos de cenas matinais passando rapidamente por seus olhos, até chegar à mansão e executar o que tinha em mente com a rapidez que a situação exigia.

Desconsiderando a presença de alguns Comensais da Morte na sala, que recebiam ordens sobre uma missão na fronteira da França, Severus subiu as escadas com pressa, atravessando o corredor o mais rápido possível. Segurando a respiração, ansioso e com o coração palpitando freneticamente pelo medo de falhar, ao entrar no quarto, deparou-se com Bellatrix berrando e se contorcendo de dor.

- Beba isso.

Severus passou os frascos, obrigando-a a tomar uma série de poções para Fortalecimento dos Músculos, Reposição de Sangue, Reconstrução dos Ossos, Restituição de Tecidos e, por último, a Poção da Paz.

- O gosto dessa bosta é horrível! – Bellatrix reclamou, quase cuspindo todo o líquido, enquanto suas irmãs limpavam o suor do rosto.

- Ora, francamente, você já enfrentou coisas muito piores para estar resmungando feito uma velha.

- Vai à merda, Snape.

- Você primeiro, mal-agradecida!

Revoltado, saiu, dando as costas e ignorando a quantidade de sangue que cobria os lençóis. No fundo, sua vontade era dar uns tapas para que ela parasse de berrar e se lamentar tanto. Sabia que o melhor era retornar ao andar inferior para se inteirar dos novos planos do Lorde das Trevas. Não deixaria qualquer detalhe passar despercebido, especialmente quando isso poderia colocar a vida das pessoas que estimava em risco.

- Andromeda... Andie, ajude a tirar logo essa criança de dentro de mim! Eu não aguento mais – Bellatrix gritava, agarrando-a pelo braço com força para demonstrar o quanto estava sofrendo.

- Eu tenho certeza de que vou morrer!

- Bella, pelo amor de Merlin e por todos os deuses, sossegue! – Andromeda a repreendeu, puxando o braço com certa brutalidade para se desvencilhar.

- Se você não parar quieta, eles não terão como desvirar o bebê e aí sim, vocês duas vão acabar morrendo. Deixe de ser escandalosa e pare de agir como uma vadia louca!

- Só a Cissy me ama! – declarou, mostrando um beicinho magoado, tentando amolecer o coração da irmã em busca de apoio.

- Você só é uma pessoa sem coração. Uma cadela que me detesta e não quer me ajudar.

- Todos nós aqui estamos realizando alguma tarefa, Bellatrix. Cabe a você executar a sua parte com perfeição e ninguém está te pedindo muito, só que fique um pouco parada. Eu tenho certeza de que não é difícil – Andromeda falou automaticamente, se sentindo um pouco tonta por conta do alvoroço e por estar com os pensamentos longe, voltados às preocupações que tinha naquele momento.

- A Andie tem razão, Bella. Falta tão pouco para que a Hermione fique na posição certa – comentou com uma falsa tranquilidade na voz.

- Por favor, colabore.

Passando a mão na testa, após um esforço considerável, Narcissa colaborou com a medibruxa para realizar a manobra necessária. Exausta, saiu do quarto e se sentou ao lado de Andromeda no corredor, fechando os olhos em busca de um silêncio impossível e inalcançável.

- Estranho, Cissy...

- O quê?

- Eu sinto uma energia nova vibrando.

- Deve ser a pequena que já está nascendo.

- Não, não é. A da Hermione eu já conheço há meses. Essa é realmente nova, Cissy.

- Bom, estamos apenas nós duas aqui...

- Deve ser apenas o cansaço me fazendo imaginar coisas.

- É possível, sim.

- Você sabe o que eu terei que fazer. Quando chegar a hora, nada pode dar errado, Cissy – Andromeda mencionou, com a cabeça encostada na parede, olhando para o teto sem piscar.

- Ela não vai sofrer, não é? – Narcissa questionou, preocupada, encarando a mais velha.

- Não, eu não sou nenhum monstro para machucar um bebê! Especialmente, quando essa criança é a minha sobrinha – esclareceu, soltando a respiração baixa, a encarando atentamente.

Apoiando uma das mãos no chão para se levantar rapidamente, Andromeda decidiu descer as escadas e encontrar Severus, que havia desaparecido. Era fundamental que se concentrassem em cada passo e nos detalhes do que teriam que fazer.

As atenções de todos se voltaram para o choro alto que ecoava no quarto.

O tempo parou.

Os quadros correram para observar.

Hermione era uma menininha adorável, gordinha e bonita, exibindo um pequeno tufo de cabelos castanho escuro, iguais aos de Sirius, e um par de olhos que não negava uma gota do sangue dos Black correndo em suas pequenas veias. Sendo limpa pelos elfos assistentes da medibruxa, era examinada atentamente pelo curandeiro para atestar a inexistência de qualquer problema de saúde ou físico. Isso era particularmente crucial, considerando todos os riscos existentes no final da gravidez e a necessidade de que a pequena fosse retirada a ferros para evitar mais sofrimento.

- Sua filha está muito bem, senhorita Black. O único problema que constatei foi que ela teve o ombro deslocado, porém, já o coloquei no lugar, e ela só terá que ficar com o bracinho imobilizado por um mês, no máximo - garantiu, entregando Hermione nos braços de Bellatrix, que a encarava séria e pensativa.

- Os senhores me garantem que ela não ficará com nenhuma sequela?

- Com certeza - afirmou a medibruxa.

- O que o meu colega disse é verdade; no máximo, em um mês, ela estará em perfeitas condições.

- Sei.

- Senhorita Black, foi um parto muito difícil, e vocês já estavam entrando em sofrimento. Fizemos o possível para causar o menor dano possível.

- Se os senhores me garantem, por mim, está tudo bem. Só peço que expliquem isso ao pai dela, porque ele certamente irá me responsabilizar como a única culpada.

- Certamente - o curandeiro respondeu antes de sair do quarto, buscando pelos corredores da mansão para encontrar Sirius.

Sem esboçar mais qualquer reação ou comentário, Bellatrix encarava a filha, refletindo sobre os dias difíceis que a fizeram amargar mais do que as várias sessões de Cruciatus pelas quais passara. Foram momentos desafiadores, em que a quantidade de chutes furiosos e o intenso debater quase a levaram à loucura.

Definitivamente, Hermione nascera com um temperamento igual ou pior ao dela e de Sirius, algo que a deixava feliz. Seria a sua pequena estrela anã, que no futuro se transformaria em uma supernova, iluminando a vida de todos ao seu redor. Nada faria Bellatrix mudar de ideia com relação a essa possibilidade. Passando a mão no rosto de Hermione, acalmando-a aos poucos para que parasse de chorar, Bellatrix respirou fundo, enquanto acariciava o rostinho dela, perdendo-se nos próprios pensamentos enquanto fitava a parede por alguns segundos.

- Mesmo tendo certeza de que será uma peste, eu gostei muito de você, monstrinha - sussurrou no ouvido da pequena com um fio de voz para não a incomodar.

- Você é a cara do seu pai.

Assim, aproveitava para ignorar os familiares que passavam a se aglomerar à sua volta, ponderando sobre o interesse do Lorde das Trevas naquela criança. Sem saber ao certo o que decidir, visto que a sua missão fora cumprida, apenas refletia que não permitiria que lhe fizesse mal. A verdade é que a protegeria ao seu modo, da mesma forma que fazia diariamente com Delphini.

Abandonando aquelas conjecturas profundas e intensas, Bellatrix começou a prestar mais atenção nas manifestações de felicidade e nos rostos alegres daqueles que a cercavam, nutrindo uma leve esperança de que o veria ali. Será que ele seria capaz de desdenhar daquele momento, depois de tantas juras de amor? Foram segundos de incerteza e desconfiança até que o viu parado junto à porta, segurando sua outra filha no colo.

- Delphi e eu podemos conhecer esse embrulhinho rosa ou é exclusivo para um público mais seleto? – Sirius a questionou, aproximando-se lentamente da cama, sem soltar em nenhum momento a menina abraçada no seu pescoço.

- Creio que sim, querido – falou, dando de ombros, segurando o sorriso, ao se ajeitar para mostrar Hermione aos dois.

- Espero que essas abelhas lhe deem mais espaço.

- Deve ser porque você nasceu com a maldição da abelha, Bella.

- Não sou somente eu quem a carrego, Sirius. Nós dois carregamos.

Fingindo não ter escutado essa parte e dando um beijo no rosto de Delphini, Sirius a segurava com cuidado para que ela pudesse se inclinar para frente e olhar melhor para Hermione. Ela, com os olhinhos fechados e as mãozinhas espalmadas, tentava sugar o peito de Bellatrix, que soltava um suspiro pesado enquanto tentava ajudá-la a se alimentar.

- Veja, Delphi, agora você é a irmã mais velha e acabou de ganhar uma amiga. Você gostou da Mione, princesa.

- Sim, papai.

- Ela ainda é bem pequenininha, então, vai demorar um pouco para que possa começar a brincar com você. Mas, saiba que ela já te ama muito.

- Depois nós podemos conversar, Sirius? – Bellatrix perguntou, semicerrando os olhos, como se buscasse alguma resposta oculta nos gestos dele.

- Pode ser – disse resumidamente, começando a se afastar.

- Eu vou deixar que você descanse.

- Tudo bem...

Bellatrix ficou observando Sirius se distanciar, aos poucos, sem desviar o olhar. Havia muito ainda a ser dito. Coisas que simples palavras não poderiam expressar e que, no entanto, sempre estiveram pairando entre os dois, sem que pudessem perceber.

- Tchau, mamãe – Delphini se debateu um pouco, acenando, com um sorriso no rosto ao atravessar a porta para seguir ao outro quarto.

- Tchau, docinho.

Ainda com os olhos fixos para acompanhar a saída dos dois, Bellatrix sentia que a sua paciência estava se esgotando. Conseguindo, finalmente, acertar o modo de amamentar Hermione, ela encarava a todos com um olhar contrariado e cansado. Em particular, não aguentava mais escutar os sermões iniciados por sua mãe e sua tia, quanto à irresponsabilidade de ter outra criança fora do casamento. Ambas enfatizavam, sem dó e nem piedade, quanto à indecência do ato, sobretudo Druella, que aproveitava para alfinetar Narcissa sob a alegação de que esta renunciara a um ótimo casamento para sustentar um vagabundo. Ao mesmo tempo, Cygnus e Orion se mantinham no mais absoluto silêncio, apenas concordando com o que era exposto.

- Que maldito inferno sangrento! Por que todos vocês não calam a boca e somem daqui? – falou rispidamente, com tanta raiva que acabou assustando a pequena, que se pôs a chorar com os gritos que ouvira.

- Agora você também se volta contra mim, monstrinha? Por que não fica quieta, pequena traidora?

- Você deveria começar a ter um pouco mais de delicadeza para lidar com ela! Hermione é uma bonequinha adorável – Narcissa afirmou, retirando a sobrinha dos braços da irmã, tranquilizando-a e secando as lágrimas que caíam, manchando o pequeno rosto.

- Bella desconhece a palavra cuidado e, principalmente, o que significa delicadeza, Cissy – censurou Andromeda, fazendo com que a outra encarasse as duas ofensivamente.

- Vocês não passam de duas cretinas! – bufou, cruzando os braços junto ao peito, mostrando a língua para elas.

- Ah, cala a boca, idiota! – Andromeda sussurrou, pegando Hermione dos braços de Narcissa, para sair do quarto.

- É agora.

- Você vai sequestrar a minha filha recém-nascida, querida Andie? – Bellatrix perguntou, esticando-se na cama para olhar para onde ela iria com a menina.

- Vou, Bella. Inclusive, já preparei as malas para sair do país imediatamente, porque eu sabia que ela iria nascer hoje.

- Boa viagem às duas, então.

- Obrigada.

- Volte quando o pequeno centauro enfurecido estiver com 20 anos, assim você me poupará trabalho, Andromeda – disse, espreguiçando-se despreocupadamente, fechando os olhos em um gesto de menosprezo aos demais.

Andando pelos corredores calmamente, para não assustar a pequena tão aconchegada em seus braços, Andromeda saiu à procura de Severus. Olhando para todos os cantos atentamente, notava que o ambiente estava momentaneamente livre do acesso aos Comensais da Morte, entretanto, continuava se mostrando um local extremamente hostil para crianças e, o pior, com a presença de Sirius por lá, a possibilidade de estourar uma briga a qualquer instante era imensa.

Investigando todos os pontos e os cantos, Andromeda percebeu ruídos provenientes da biblioteca, assegurando-se de que era lá onde Severus e Voldemort mantinham uma discussão séria sobre algum assunto crucial. Escondendo-se para evitar ser vista, aguardou ansiosamente até que o Lorde das Trevas se retirasse, momento em que ela poderia finalmente entrar, zelando para que Hermione não acordasse em seus braços. Era importante mantê-la segura e tranquila.

Aproveitando o momento em que Voldemort deixou o local, Andromeda estava pronta para colocar em prática o plano conjunto com Severus. Sem dar espaço para qualquer imprevisto, o encarava com gravidade e um pouco de ansiedade, enquanto ele olhava para a menininha adormecida, com um dos bracinhos esticado para cima.

- Preparado ou precisa de mais algum tempo?

- Sim, você sabe que eu estou pronto.

- Eu posso vê-la?

- Claro, ela terá de ficar no seu colo para que isso funcione.

- Só me dê um segundo para que eu dobre a manga da camisa até o cotovelo. Não quero que a suje.

- Converse um pouco com a Hermione. É importante que isso aconteça.

- Há alguma possibilidade de o Sirius aparecer aqui e eu ter de azará-lo? – Severus questionou abrindo um sorriso sádico que iluminou todo o rosto.

- Não, para a sua infelicidade e minha tranquilidade, não há. Ele está no quarto, brincando de bonecas com a Delphi, como um bom pai deve fazer – Andromeda expôs impaciente, retirando a adaga escondida na manga do vestido, apontando em direção a ele.

- Isso também é ótimo, porque não terá como se deparar com aquele porco e fazer algum tipo de besteira. Vamos começar?

- Claro.

- A palavra é sua, Severus Snape.

- Pequena rainha de Shakespeare. O que eu e a sua tia faremos é para o seu bem. Eu desejo há muito tempo que você seja livre e muito feliz...

As palavras fluíam assim como o sangue florescia do corte que ia aos poucos sendo aberto pela adaga. Quente, escorrendo pelo braço através do pequeno corte, era uma prova de que tudo aquilo era real. Toda aquela história se encerrava.

- Eu esperei muito tempo para te conhecer e, hoje, eu posso afirmar com toda a certeza o quanto eu desejo que você um dia encontre alguém que a adore tanto quanto eu amo a sua tia Narcissa. Se quiser, Hermione, eu serei seu amigo e sempre vou te proteger de todo o mal – seus olhos se fixaram na mão de Andromeda, que passava a ponta da adaga na mãozinha de Hermione, a fazendo chorar.

- Você é minha responsabilidade, e farei o possível para mantê-la afastada de certos tipos interesseiros que andam por aí.

- Repita comigo, Severus. Só assim essa maldição será encerrada – afirmou, colocando a pequena mão sobre o corte para que os sangues se misturassem, com uma expressão sombria que obscurecia o seu rosto.

- "Eu me vejo falando e recordando menos das coisas que me guiaram quando criança. No momento em que vi a verdade e deixei que o meu coração me guiasse, eu nasci e me dispus a aceitar a posição de meu único e verdadeiro mestre. Cheguei ao lugar em que posso expressar aos outros o que é certo e o que me convém, o que me prende e o que me torna soberano" – Severus mordeu o próprio lábio, contemplando o brilho dos fios que o cercavam se desfazendo aos poucos, sentindo uma dor terrível lhe atravessar o corpo.

- "A minha alma e a sua pertencem somente a nós mesmos. Desunindo o que antes era um e transmutando o que era escuridão em um poder de paciência, de caráter, de cura e, acima de tudo, em um exercício do nosso livre arbítrio. Você é independente, Hermione. Você é única. Assim como, agora, eu também sou dono da minha própria vida e da minha própria alma".

Percebendo a presença de Narcissa encostada em uma das estantes, viu romper o último filete que ainda restava do Elo. Seus olhos semicerraram ao ter a certeza de que o feitiço estava finalizado e, acima de tudo, ao testemunhar Andromeda se afastar com os ombros caídos pela exaustão, sem lançar um olhar para trás.

- E agora, Severus? – Narcissa perguntou, passando a varinha na mão de Hermione e no braço dele para fechar os cortes ainda abertos.

- Acredito que devemos nos casar com a máxima urgência, naquela igreja em que o coitado morreu, em Roma. O que acha?

- Você ainda não esqueceu da história de São Pedro?

- Não. Eu deveria?

- Só você mesmo, Sevie.

- Eu pergunto novamente. Agora, tendo essa pequena insuportável como testemunha, para que você não possa fugir. Minha linda e única flor de Narciso, aceita ser minha esposa?

- Eu adoraria! – sorriu, beijando-o.